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Lagarto, 17-10-2017

Jogando conversa fora

Euler Ferreira, 12 de agosto de 2008

Exatos 28 anos de televisão me tornaram uma pessoa muita conhecida em todo o Estado. Nos anos 90, fui convidado para me filiar a determinado partido com o objetivo de me tornar candidato a deputado. Com o convite veio a promessa de suporte financeiro para bancar a campanha. Eu entraria com minha cara de utilidade pública e, claro, esse meu jeito de ser: bem criado, educado, ético. Nome leve, com penetração em todos os municípios por conta do ‘Euler Ferreira para o Jornal das Sete’, como muitos me chamavam. Referência à maneira como eu, em determinada época, encerrava minhas matérias para o Jornal das 7, da TV Sergipe.

Agradeci o convite. O fato de ter me destacado na TV não alterava o sonho de continuar sendo apenas um jornalista.

Meses depois, a 15 dias das eleições, ao sair do prédio da Assembléia Legislativa percebi vindo da Praça Fausto Cardoso, em minha direção, uma figura gasturenta que se dizia presidente de uma dessas suspeitíssimas associações de moradores. A menos de três metros, abriu os braços no melhor estilo Cristo Redentor, ao tempo que foi despachando:

– Cadê você, doutor?
– Olhe, em sua consideração ainda não fechei com ninguém, vou esperar até segunda-feira. Se até lá o amigo não decidir, aí eu vou ser obrigado a conversar com uns vinte candidatos que não saem do meu pé.
– Mas, eu… – tentei, em vão, falar.
– Doutor, veja bem: meus votos são de lei, são 500 fechados. Lá na minha comunidade sou rei, é cancela fechada, ninguém me contraria.
– Mas, acontece que…
– Sei que o doutor está com o bolso forrado, dinheiro aí não é problema.
– Basta! – desabafei, aborrecido.
– Primeiro, você não tem 500 votos coisa nenhuma!
– Segundo, não estou com o bolso forrado do jeito que o senhor imagina.
– Terceiro, não tenho partido nem sou candidato.
– E por último, pare de me chamar de doutor!

E ele:

– Mas, doutor… – novamente o safado abriu os braços ao estilo Cristo Redentor.

Antes de o mequetrefe desmontar a coreografia eu já ia longe.
Tinha perdido o dia.

Por azar, minhas desventuras políticas por conta de uma candidatura que nunca foi desejada, não foram sepultadas ali na calçada da Assembléia Legislativa.

Dois anos após o infausto diálogo com o dito malfadado líder comunitário, lá estava eu cumprindo o ritual de todo o santo dia. Almoçava no Banco do Brasil – na General Valadão – em seguida, percorria o calçadão da João Pessoa com destino à Fausto Cardoso e, uma vez lá, entrava no Palácio Olímpio Campos só parando no setor de imprensa, onde me instalava num velho sofá: nele, tirava minha sesta de trinta minutos. Dormia feito criança, sem pecados e sem defeitos.

Minutos após, o bancário acordava jornalista, pronto para entrar em ação, cumprir a pauta política. Câmara de Vereadores, Assembléia Legislativa e Palácio do Governo, não exatamente nessa ordem. Sexta-feira preguiçosa, sem nenhum vereador na Câmara ou deputado na Assembléia, eu e equipe aguardávamos por matéria salvadora. Após consultar alguns assessores do governador, tomei a péssima decisão de aguardar por novidades, instalado feito um poste na porta de acesso ao Palácio onde um amigo soldado da briosa polícia militar segurava uma metralhadora pouco confiável, em uso desde o governo de Arnaldo Rollemberg Garcez, em 1951. Era com ela que o zeloso policial guarnecia a sede do Governo do Estado.

– E se na hora ‘H’ ela falhar? – perguntei em tom de brincadeira.
– Eu papoco ela na cara do safado e saio correndo.

Rimos os dois.

Enquanto isso, no passar de cá pra lá e de lá pra cá pela calçada do palácio, de repente me surge uma dessas figuras ‘que não restam a menor dúvida’.

Um metro e meio de altura, bigode aparado na vertical, caneta Bic no bolso da camisa, calça jeans com direito a chaveiro do Vasco da Gama, na boca um cigarro passeando ao lado de um palito que devia estar ali desde o café da manhã. Sobrava, no preclaro indivíduo, que depois fiquei sabendo chamar-se Adaljamir, um ‘Q’ de antipatia digna do horário eleitoral.

Parou ali mesmo à minha frente. Coçou o queixo, cuspiu de lado, pôs a mão no bolso e arqueou a perna direita, feito cavalo em posição de repouso.

– Tudo bem, deputado?
– Está falando comigo?- na hora revi o pesadelo do passado, lá na Assembléia.
– Com quem mais, deputado? Não vai dizer que não está me reconhecendo?
– O que o senhor deseja?
– Bem, o doutor sabe…
– Não me chame de doutor, moço!
– Não carece se irritar. O negócio é o seguinte: já fui umas dez vezes a seu gabinete na Assembléia e a conversinha é sempre a mesma: está em plenário!… reunião na presidência!… saiu!… não chegou ainda! Hoje, a sua secretária me disse que o senhor estava numa tal sala de comissão. Lá, com ar de deboche, a moça da limpeza garantiu que comissão só na segunda. No retorno ao gabinete, a secretária lembrou-se de uma audiência com o governador. Se ela mentiu, acertou. Finalmente lhe encontro aqui no Palácio.

E eu ali, sem acreditar, ouvindo tudo aquilo.

– Moço, finalmente, o que o senhor deseja de mim? – entrava em operação o último estágio de minha paciência.

– Interessante, o doutor ainda fica irritado! O que eu desejo? Na hora que foi me pedir voto acompanhado daquela moça com jeito de ser sua rapariga, o deputado aí era só sorriso. Tá pensando que me esqueço? Entrou na minha casa de pobre, botou até meu menino nos braços, mexeu nas minhas panelas!

Adaljamir era o centro das atenções. Não parava de me pressionar.

– Prometeu tijolo e cimento para a reforma do meu patrimônio, e colchão novo pra meu aconchego com a patroa!

Respirou fundo, passou a mão na boca e foi para o desfecho.

– Pois é, investiu até nas minhas intimidades. Ora, doutor, pelo menos se dê ao respeito!

Nessa hora, justo naquele momento, eu explodi.

– O senhor agora vai me ouvir. Nunca fui candidato a “p…” nenhuma. Se não fui, também não sou deputado “p…” nenhuma. E tem mais, não sou dou-tor! Sou jornalista, cidadão! Jornalista, entendeu?

Adaljamir desapareceu para sempre. A meu lado, o guarda do palácio ria como criança, segurando a metralhadora imprestável com as duas mãos.

– Eu quase papoco a minha lourdinha na cara dele.

A hilária observação me devolveu o bom humor. Acabei achando tudo muito engraçado.

Três anos se passaram. Depois de algum tempo ausente, retorno a Lagarto. Mês de março de um ano eleitoral, manhã de sábado, bar do gancho, porta de entrada do bairro Cidade Nova. O cheiro do fumo em rolo vinha de algum armazém próximo. Cem metros adiante, uma jaqueira – com seus galhos frondosos e enormes frutos – enfeitava um cenário bem lagartense. A paisagem com sua vegetação imprimia em minha alma um gostar que deixava em festa meu coração, revelando emoções que tangiam a visão do meu olhar para mais distante do que era possível ver. Nada, não. Era assim a cada retorno. A lágrima furtiva que pesou em meus olhos dizia que tudo estava na santa ordem. Que meu amor pela terra berço continuava inatingível.

E lá estava eu com amigos. Uns dez. Cerveja, tira-gosto, muita conversa sendo jogada fora. Depois de saber quem casou e descasou, com destaque para os desvalidos que sobraram no leito nupcial por ocupação imprópria de corpos estranhos nem sempre identificados, quis saber do quebrantado futebol da terrinha. Nesse particular, a conversa foi rápida porque a turma estava mesmo era a fim de trocar idéias com o jornalista político, embora eu preferisse falar de coisas mais amenas. Em velório, casamento ou batizado, sempre era interrogado sobre política.

Tinha gente que excedia, como naquela manhã.

– E aí, Euler, tive pensando. Por que você não lança sua candidatura a deputado?
– Não brinca. Desse tipo de conversa eu ando ressabiado.
– O que acha pessoal?

Foi unânime. Movidos pela amizade, os surrealistas ‘cabos eleitorais’ apontaram na hora duas justificativas que – no entender deles – me favoreciam: o conceito altíssimo de meus pais em Lagarto e a visibilidade do meu nome em todos os demais municípios por causa das minhas aparições diárias na televisão.

Tinha sentido. Pais queridos. Eu, conhecido em todo o estado. Um nome que poderia ter boa aceitação.

Os amigos estavam prontos para o desafio.
– E aí? Topa?

Pelo visto eu era o único que raciocinava.

– Sim, claro que topo. Todos vocês votam em mim?
– Claaaaro! Tá duvidando da gente?
– Nãããooo! – disfarcei o sorriso.

Realmente, eu era o único que raciocinava ali, por isso resolvi trazê-los ao mundo dos insensatos que conseguem resistir aos devaneios da prosa que se agarra aos versos do poeta, para flutuar docemente no imaginário de uma velha canção, cuja letra promete lealdade ao amigo até o disparo do primeiro tiro de uma guerra com data marcada para muitas batalhas.

Aí, velho companheiro me perdoe
que vou à luta,
minha promessa foi fruto solidário
que sucumbiu ante o sopro do vento
que fez tremular a velha bandeira
anunciando o embate
contra meus inimigos paroquiais.

Bem antes da conversa ficar mais animada do que estava, vesti toga de juiz para anunciar a sentença.

– Tudo bem. Agradeço a gentileza da lembrança, mas raciocinem comigo: vocês me apoiando ganho personalidade de candidato. Não é verdade?
– É. – eles ainda divagavam no reino encantado da mariola.
– Hum, tudo bem. Mas, e amanhã, quando os dois grupos que vocês sempre estiveram umbilicalmente e apaixonadamente ligados desde o ventre de suas mães, anunciarem seus candidatos?

De repente, a conversa tomou outro rumo. O mais entusiasmado com a idéia de minha candidatura encontrou uma saída estrategicamente de emergência. Olhou para o relógio, deu um tapa no próprio rosto como se tivesse se lembrado de algo e soltou:

– Epa! Vou ter que sair agora para pagar uns trabalhadores que devem estar me esperando há muito tempo.

Um outro ‘correligionário’, simulacro de cabo eleitoral, também demonstrou que estava perdendo a hora.

– Ih, acertei com Jadiel para fazer o balanceamento dos pneus da camionete. A loja fecha ao meio-dia. Dá licença, mas preciso ir.

O grupo dos dez se desfez em trinta segundos. Pagamos a conta com a promessa de uma nova rodada de conversa quando da minha próxima visita a Lagarto, coisa de dois meses.

Lembranças à família, beijos nas crianças.
Tchau!

Entrei no carro. Retornei ao sítio do meu sogro, respirando o ar de minha cidade.
Em trânsito com a natureza do meu lugar, comecei a admirar o verde das serras ao longe em perfeita união com o azul do céu daquela manhã de poucas nuvens que eu tinha pedido ao Criador. Estava feliz da vida. Mais um pouco, teria saído do bar do gancho com o mandato de deputado. Comecei a sorrir das tolices que nos enlevam de um jeito doce, sem fazer mal a ninguém.

Nada como retornar a Lagarto, tomar uma cerveja gelada, comer um torresminho e jogar conversa fora!

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