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Lagarto, 17-10-2017

A minha rua

Euler Ferreira, 25 de agosto de 2008

Para muita gente, o melhor dos tempos é o tempo que passou, deixando nos becos da saudade muitos relatos perdidos na imaginação, até o dia em que enxertos do cotidiano de uma vida resolvem liberar informações, passagens rápidas de uma época, palavras que ganham força no desenrolar da história que se conta.

Comigo, o melhor da história surge quando resolvo pensar nos tempos de criança, embora não despreze a felicidade de minha adolescência. Quando menino, meu território era a Rua Coronel Souza Freire, antiga Visconde. Nasci na casa de número 29, vizinha a Wellington Menezes, o Leléu, meu primeiro amigo, menino bem educado, viçoso, sempre apegado à mãe, dona Dalva, senhora muito católica que cuidou com zelo a criação do filho, que tempos depois passaria a cantar nas missas da igreja matriz, graças à voz de barítono.

Interessante é que não guardo recordação de tê-lo ouvido cantar em nosso tempo de criança. Recordo, sim, de sua paixão pela música de Emilinha Borba (morta em 1995, aos 82 anos). Ele acompanhava a trajetória artística de sua amada através da Revista do Rádio, sucesso editorial da época ao lado da revista O Cruzeiro. Até 1995, Emilinha era a personalidade brasileira que mais tinha sido capa de revistas (350 vezes). Chegou a ser convidada para participar de filmes em Hollywood pelo diretor de Cidadão Kane, Orson Welles, que teria se apaixonado por ela. Pois bem: Leléu amava Emilinha e odiava Marlene (nascida em 1924). A rivalidade entre as duas virou lenda. Marlene foi a primeira brasileira a apresentar-se no Teatro Olympia, em Paris (1959), a convite da cantora francesa Edith Piaf. Por causa do amigo, cresceu em mim uma súbita simpatia por aquela moça de rosto bonito, sempre sorridente. Na época da pré-televisão, com a ajuda do meu pai, tive acesso ao canto da Emilinha, graças ao rádio instalado na sala de jantar de nossa casa. Ela era a principal atração dos programas de Cesar de Alencar e Paulo Gracindo, na velha PRH8-Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. Quem sabe, talvez a Rainha do Rádio tenha nutrido no bom Leléu o gosto pelo canto.

Cantando para Deus, ele criava um clima de emoção em muitos casamentos celebrados na igreja matriz.

A Coronel Souza Freire sempre foi uma rua curta e estreita, no centro da cidade, entre a Laudelino Freire (ex-Glória) e Acrísio Garcez (ex-rua da Vila). Nasce no largo da praça da Piedade, acabando pouco mais de 130 metros depois na praça Sílvio Romero. Quando criança, com dois saltos eu já estava na calçada do outro lado da rua. Em dias tranqüilos, de pouco movimento, era possível ouvir confidências de pessoas que moravam não só ao lado de minha casa, mas, também, as que habitavam as casas que ficavam em frente à nossa. Como ‘do outro lado’ era um ali do nada, mesmo que a gente não quisesse, acabava ouvindo os trelelês, arrancarrabos e desentendimentos outros, vindos até de um pouco mais distante.

Nossos vizinhos, à direita, eram pessoas integrantes da família Fraga e Monteiro – Antonio Fraga Fontes, casado com dona Inês Monteiro; ele foi dono de uma concessionária da Aero-Willys, em Lagarto, mudando-se depois para São Paulo onde iniciou carreira artística com o nome de Tony Rodrigues, tocando harpa paraguaia por influência do seu mestre e amigo Luis Bordon; ela era sobrinha de José Monteiro, líder político que residia na vistosa casa de azulejos portugueses na praça da Piedade, hoje sede paroquial da igreja católica. À esquerda, moravam os pais do ex-prefeito Artur Reis: seu Zeca do Gavião e dona Mariana, além da filha Nina, grande amiga de minha irmã Elma. Na seqüência, ainda à esquerda, a casa do meu avô paterno, habitada por minhas tias Nenê, Saudalina – já falecidas – e Carmelita, hoje com 94 anos. Católicas fervorosas, Irmãs de Maria, nunca casaram. Todo o santo dia assistiam missa e rezavam o terço às 6 horas da tarde. Do outro lado da rua, esquina com a travessa Canafístula, morava dona Lindor. Perdão, ainda mora, hoje com mais de 90 anos, com disposição para os 100. Em seguida, a residência de Pedro Devoto. Ah, Pedro Devoto, era uma figura! Uma figura um tanto esquisita, é bem verdade. Vivia só. A casa, pequena e estreita, era cheia de santos e oratórios. O acervo mostrava dezenas deles. Vestido de preto, cabelos abrilhantinados e um dente de ouro na boca, ele tinha a mania de sair pelos povoados rezando missa, mesmo sem ter autoridade para tanto. Mas rezava assim mesmo, até o dia em que o padre José de Castro, da paróquia de Nossa Senhora da Piedade, resolveu dar um basta nas sandices ecumênicas do colecionador de santos. A partir de então, revoltado, passava o dia enclausurado, conversando com seus companheiros canonizados. A porta da casa, quase sempre fechada pela metade – já que era dividida ao meio na horizontal – permitia que a molecada azucrinasse a vida do cismado vizinho.

– “Pedrôôô, tem missa hoje?!”

A resposta vinha rápida, dita com raiva e em tom de deboche, com o veneno na dose certa:

– “Filho de rapariga, vai perguntar a sua mãe, pois não é ela que anda com o padre?

Irritado, Pedro Devoto aproveitava para ofender, também, aquele que cassou sua indevida carreira presbiteral.

Menino de 8, 9 anos, eu não entendia algumas coisas que a molecada mais crescida dizia a respeito da solteirice dele. Quando provocado nesse particular, Pedro Devoto se descontrolava. Segurando uma frigideira com brasas retiradas do fogão a lenha, gritando feito um louco, ele se pendurava na metade da porta, enquanto seus olhos procuravam os desafetos que já iam longe porque de tolos eles não tinham nada.

– Miseráveis, bastam-me os meus santos!

Em seguida, retornava para o meio da casa, onde de costume passava ferro na roupa. Geralmente, enquanto fazia os deveres domésticos Pedro conversava com seus santos sobre o que os moleques diziam dele. Sussurrava até ficar enjoado. Ao final, repetia uma frase que o acompanhava em suas desilusões.

– Jesus me livre!

Sempre que isso acontecia, Pedro Devoto sentia vontade de cantar velhas canções de Orlando Silva que falavam de amores frustrados. Olhando-se no espelho, passava um lenço no rosto suado, respirava fundo e deixava fluir seu canto, que entrava nas casas vizinhas carregado de imensa tristeza.

Risque
Meu nome do seu caderno
Pois não suporto o inferno
Do nosso amor fracassado

Deixe
Que eu siga novos caminhos
Em busca de outros carinhos
Matemos nosso passado

………………………………..

Com infecção do apêndice, Pedro Devoto morreu ainda moço.

Poucos se lembram dele, a não ser seus vizinhos, os únicos que na intimidade de suas casas tiveram o privilégio de assisti-lo em diálogo profundo com os santos mais poderosos da igreja. Milagre? Não. Coisas da minha rua.

Comentários:

Uma resposta para “A minha rua”

  1. O comentário de Luiz Marcel, publicado no Visgo de Jaca, despertou a minha curiosidade para ler o artigo do Euler Ferreira. E que delícia saber essas histórias de Lagarto através das ruas e de seus personagens-habitantes desse tempo/espaço de outrora. Bom existir pessoas dispostas a registrar/publicar essas memórias, através de artigos, blogs etc. Vivi minha infância e pré adolescência na Zona Rural, então é muito bom poder conhecer a história de Lagarto através do olhar perspicaz de seus habitantes mais ilustres.

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