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Lagarto, 17-10-2017

Cabaré de Rosa

Euler Ferreira, 20 de outubro de 2008

Estimulado por hormônios efervescentes, um conhecido, de boa prosa a perder de vista, até hoje conserva uma rara verve hilária, dessas que se revelam no imediatismo da conversa que vai fluindo na medida em que o contador de história resolve deslanchar suas aventuras. Anda e vira, a natureza nos coloca diante de personagens que demonstram estar de bem com vida, com a graça e o sorriso que realçam aqueles ditos momentos que se tornam inesquecíveis.

Bancário, na década de 70 morei em Propriá, após penosa passagem por São José do Egito, no alto sertão do Pajeú, em Pernambuco, onde existe a melhor safra de poetas populares do Brasil. Encravada às margens do rio São Francisco, Propriá é a terra dos meus ancestrais pelo lado materno, a família Tavares de tradicional presença na história do município ribeirinho.

Pois bem, foi lá em Propriá que conheci Juraci, colega dado a muitas conversas tiradas de suas experiências vividas nas noites propriaenses, desde a região do Cavaleiros da Noite – um dos três clubes sociais da cidade, os outros dois eram a AABB e o 12 Tênis Clube – até a Rua da Linha, onde se enfileiravam alguns cabarés sempre movimentados e nada atraentes. Quase todos reuniam mulheres em decadência física, cheirando a perfume barato e a nicotina. Ao som de músicas de Nelson Gonçalves e Valdick Soriano, elas fumavam um cigarro após o outro enquanto aguardavam os habituais clientes que, uma vez no estabelecimento, acabavam indo para um dos quartos da casa, após rápida negociação do preço do serviço que seria prestado.

Aquele era o ambiente que enchia de alegria o coração de Juraci. Míope, com mais de oito graus na armação pesada, ele não se cansava de exaltar que em Propriá lugar bom mesmo era o restaurante Mangaba – o mais tradicional da cidade – e o cabaré de Rosa. “Não nego, gosto de uma brahminha e de uma fornicação. Tenho até pijama e escova de dentes no cabaré de Rosa” – disse-me certa feita com uma ponta de orgulho.

– E não é que ela me trata como se eu fosse um anjo? Me põe no colo, me faz cafuné e ainda jura que eu sou o único que ela beija na boca! É um ái, ái, aí e um ui, ui, ui que me cativam, seu moço! É bom demais ter uma rapariga!

Isso mesmo, era raparigueiro assumidíssimo: “ninguém pode dizer que não sou um sujeito comedido. Homem do lar, da igreja e da raparigagem, porque além de tudo sou trabalhador, mereço compensações”.

Casado, pai de três filhos, ele entendia que compensava seus desatinos sexuais freqüentando aos domingos a missa das 10 da manhã, ao lado da patroa e das crianças. Todo de branco, ar compenetrado de chefe de família zeloso, era generoso na hora de contribuir com o dízimo, enquadrando um ar de santidade quando se dirigia para a comunhão, gesto que cumpria todo santo domingo. Cursilhista, acostumado a carregar o andor na procissão do Bom Jesus, no ciclo festivo de janeiro, ele era capaz de qualquer sacrifício em nome da igreja, porque entendia que dessa forma estaria acima de qualquer suspeita caso alguém comentasse que ele era membro honorário da Rua da Linha.

Dona Estela, mulher de Juraci, o tinha em boa conta. Às amigas ela dizia que o marido era um homem de conduta irretocável, que vivia do trabalho para casa, de casa para o trabalho.

– Coitado, às vezes chega em casa de madrugada. Quando não está fazendo hora-extra no banco, está reunido com os maçons, ou jogando dominó lá na AABB – desabafava contrariada.

Sentia por ele atender às convocações do banco, em horário de descanso, e dos amigos que gostavam de sua companhia para um papo sadio ou um joguinho inocente. Só ela não sabia que as tais convocações, o papo sadio e o joguinho inocente rolavam solto no cabaré de Rosa.

– O pobre vive morto de cansaço. Às vezes na cama eu procuro ele, mas o quê? O coitadinho já não tem força nem disposição para mais nada. É isso mesmo, sofro, mas sofro feliz porque Juraci é um homem fiel e temente a Deus. Não é igual a uns tantos que andam por aí raparigando.

Uma bela noite, Juraci saiu de casa dizendo que talvez fosse a Cedro de São João, vizinho a Propriá, participar de um jogo de futebol de salão. Zelosa, a mulher ainda tentou demove-lo da idéia; “Meu filho, vá não, você anda tão fraquinho, de repente pode ter um troço e eu não vou me perdoar porque deixei você ir”. Com ar sacerdotal, ele deu um beijo na testa da mulher, justificou-se dizendo que era um jogo beneficente, não havia como recuar, pois o propósito era o melhor possível: “a idéia é arrecadar fundos para uma criancinha ser operada em São Paulo”.

– Então, vai com Deus, meu filho! Mas, por favor, não dê tudo de si, guarde um pouquinho pra mim!

Na verdade, Juraci saiu de casa em direção a Rua da Linha. Tinha convidado três amigos para a festinha de aniversário de Rosa, que aguardava a turma com sua equipe de choque: Creuza Tampão, Maria Vagão e Nicinha Sem Limite. Na parede da pequena sala, o quadro de São Expedito envolto em fitinhas coloridas, ao lado da foto envelhecida de um político da região. Na mesa, um bolo de ovos, duas garrafas de Ron Montilla e outras de Coca-Cola. Depois do rápido ‘parabéns para você’, a orgia correu solta estimulada pela voz de Odair José:

Olha, da primeira vez que eu estive aqui
foi pra me distrair
eu vim em busca de amor
………………………………

Eu vou tirar você desse lugar
eu vou levar você pra ficar comigo
e não me interessa o que os outros vão pensar

A única luz no ambiente foi apagada com um sopro. Em pouco tempo as garrafas de montilla foram esvaziadas. Com esforço, todos os sete se abrigaram no pequeno quarto de Rosa. A alcova abrigava cama de casal, guarda-roupa, ventilador, bacia e, na parede, um monte de fotos de artistas da época.

As três e meia da manhã, depois de tomarem um banho frio para tirar a inhaca do corpo, os três amigos saíram abraçados. Escorados um no outro, fizeram o caminho de volta para casa, cantando felizes da vida:

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você para ficar comigo
E não me interessa o que os outros vão pensar

Camisa de mangas compridas, abotoada até o colarinho – para dar impressão de austeridade – guarda-chuva pendurado no braço, coisa que ele não dispensava por nada nesse mundo, Juraci abandonou o grupo logo ao sentir que se aproximava de casa. Para ele, ali era território santo. Compenetrado, igual a sacristão aos pés do altar, ele abriu a porta de casa já com a certeza de que a patroa ainda estava acordada. Claro, não estranhou porque era comum ela ficar de vigília rezando o terço, pedindo a Deus que o marido retornasse da lide ou da inocente diversão com outros colegas de boa índole como ele. Ao entrar no quarto, Juraci percebeu o quanto dona Estela era dadivosa:

– Jogou direitinho, meu amor?
– Joguei.
– Se machucou?
– Não, nem um pouquinho.
– Fez um golzinho pra mim?
– Não, minha amada. Teve uma hora que passei pelo goleiro, chutei, mas a bola bateu na trave.

Enquanto dialogava com a mulher, Juraci foi tirando a roupa. Primeiro a camisa, depois a calça. Foi aí que dona Estela sentiu que tinha algo errado: a cueca samba canção que ele usava, além de não ser a mesma que ele tinha saído de casa, não era indumentária para quem tinha 1,60 de altura. Grande demais, colorida demais, cobria os joelhos do simulacro de atleta que estava ali, ridículo à sua frente, alisando a barriga oval. Desconfiada e com os olhos marejados de lágrimas, antevendo alguma safadeza de tão puro consorte, ela partiu para o ataque:

– Juraci, pode me explicar de onde o senhor me tirou esse cuecão?

Ao tempo que olhava para a cueca, ciente que só poderia ter saído do corpo de Acelino, negão com seus 1,85 de altura, ele rebateu balançando a cabeça com aquele ar desolado, o melhor que o safado achou para o momento tão cruel:

– Veja como são as coisas, meu amor. Não saio mais para jogar em lugar que não tenha um vestiário decente para a gente se trocar. Depois do jogo, todo o mundo com pressa em meio a falta de energia, cada um se vestiu como pode, e veja, veja só que ridículo. Eu, tampinha, vestido nessa coisa aqui. Não é engraçado?

Os dois riram a valer. Deitada na cama, dona Estela, depois de pedir perdão a Deus por ter duvidado do marido, virou para o lado na tentativa de dormir o pouco tempo que restava para amanhecer, não sem antes de viajar a bordo da imaginação, vendo o marido fazendo um gol para depois lhe dedicar, ali na cama onde desfrutaria dos descaramentos que ele gostava de fazer só com ela.

Santo homem bom, esse meu Juraci!

Comentários:

Uma resposta para “Cabaré de Rosa”

  1. Maria José disse:

    Hoje, durante um ataque de saudosismo, comecei a buscar coisas da minha infância, dentre essas coisas está o Cabaré de Rosa, de Domício e outros. E aí o google me salvou, encontrei seu blog.
    No início da minha adolescência (só hoje é que sei o que é) escrevia as cartas da maioria das mulheres que lá moravam e em troca ganhava pequenos presentes. Conhecia suas histórias, a maioria muito triste, de muita pobreza.

    Era feliz e sabia que era.

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