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Lagarto, 23-06-2017

A transfusão

Antonio Rocha, 30 de dezembro de 2008

Foi durante um tratamento dentário, que o conheci pessoalmente. Na primeira consulta, mal havia se sentado, quando o telefone tocou. Da sua clínica vinha uma chamada urgente. Desenvolto, falando em voz alta, atendeu a ligação:

– O homem chegou? Ótimo! Há alguém com ele? Adultos, crianças? Para os adultos, ofereçam um suquinho de maracujá e para as crianças, umas balinhas, pirulitos ou qualquer outra coisa que as agradem. Trate-os com cortesia.

Terminada a conversa, esfregando as mãos de contentamento e sorrindo cinicamente, justificou: “É o prefeito de… Vem se submeter a uma cirurgia em minha clínica. Já mandei o pessoal de lá ajeitar o homem. Vou interná-lo, deixá-lo de molho por umas duas semanas e, após esse período de preparação, operá-lo. Quero a conta bem gorda, afinal, quem vai pagar é a Prefeitura”.

Antes, através de rumores procedentes do sertão da Bahia, ouvira falar dele. Davam conta de um cirurgião habilidoso, que por lá fazia “misérias” com o bisturi. Porém, o cartão de apresentação que me exibira não era para deixar dúvida, e, além de estar à altura do caráter do portador, dava pista do nível do seu profissionalismo. Não era preciso ser bom entendedor para perceber que os termos “ajeitar” e “de molho” significavam enganar o doente. Bem mais que uma péssima impressão, tive a certeza de se tratar de um embusteiro, talhado para ludibriar os incautos.

No entanto, sem conhecê-lo a fundo, muitos se deixaram enganar pela aparência. As “misérias” praticadas na Bahia (termo escolhido – aliás, muito bem escolhido – para qualificar a grandeza do seu trabalho) repercutiram positivamente junto à direção da casa de saúde local, que, contrariando a opinião do corpo médico, o contratou para prestação de serviços.

No início, tal decisão aparentava ser correta e o médico era bastante elogiado: “O cara trabalha bem; foi a solução ideal para a saúde pública de Lagarto; faz não sei quantas cirurgias por dia; opera com anestesia e até sem ela; dizem também que opera recebendo espírito”. Escudado em tamanho prestígio, tornou-se destaque no mundo político e social da cidade.

Tirando proveito do bom conceito profissional, alçou um vôo mais alto. Em pouco tempo, montou uma clínica particular (garbosamente batizada com seu nome) destinada a suprir a demanda da cidade e das regiões adjacentes, em alternativa ao hospital. Para divulgá-la, tornou-se o principal anunciante das transmissões esportivas da emissora de rádio de Lagarto.

O repentino sucesso, aos poucos, foi dando lugar à realidade. Não passou muito tempo e as “misérias” começaram a se transformar em queixas. Pacientes descontentes e desconfiados de um engodo teciam críticas aos resultados dos tratamentos. Relatos de terapias “heterodoxas” surgiam em quantidade cada vez maior. Dentre esses relatos, um reportava que numa noite, durante uma cirurgia, uma paciente apresentara grave hemorragia. Madrugada adentro, após infrutíferas tentativas de conter o sangramento e na iminência de um desfecho fatal, uma transfusão sanguínea se fez necessária. Como não havia banco de sangue na cidade, não pensou duas vezes. Valeu-se do auxílio de um fiel enfermeiro e transformou o assustado vigia da clínica em doador compulsório. Numa maca, no centro cirúrgico, coletou o sangue do coitado e, de imediato, executou o procedimento. Na pressa, a classificação e as demais análises sanguíneas necessárias foram dispensadas. A paciente, milagrosamente, sobreviveu.

No dia seguinte, o vigia, temendo virar “banco de sangue”, demitiu-se.

Notícias de outros casos se somaram aos já conhecidos tornando a situação insustentável. O prestígio do esculápio, celeremente, desabou. Revoltados, muitos exigiam sua saída do hospital. Os elogios de antes deram lugar a insultos. Temendo pelo pior e alegando incompetência, a direção do hospital o demitiu. Como “a mão que afaga é a mesma que apedreja”, caiu em desgraça no mundo social e político da cidade.

A clínica, obviamente, não teve melhor sorte. Desprezada pelos pacientes e em completo descrédito acabou fechada. Assim, restou a alternativa de transferi-la para o sertão baiano, de onde, as notícias da excelência dos seus serviços nunca mais chegaram aqui. Imagino que, por lá, as misérias também foram descobertas. Como era de se esperar, a verdade veio à tona e o bom senso prevaleceu.

“Pode-se enganar um povo por algum tempo, porém, não por todo tempo”.

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