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Lagarto, 20-08-2017

Ressurreição e Morte

Joaquim Prata, 31 de dezembro de 2008

Chovia fino no Oiteiro. Naquela noite, Nani tossia até verter sangue pela boca. Uma lassidão tomou-lhe o corpo. Nani se prostrou inerte sobre o chão do alpendre, e sucumbiu. Vevé, única filha mulher, viu o corpo inerte da mãe, chamou os irmãos e desfaleceu. Socaram-lhe dois dentes de alho nas narinas, e ornaram suas orelhas com galhos de arruda. Tudo para despertá-la. Mundinho e Nicanor, inconformados, colocaram a mãe sobre uma esteira e, com um lençol de madrasto, cobriram seu corpo.

A notícia chegou até os parentes. A casa se encheu. Emetéria, afilhada da defunta, meteu-se na cozinha para as providências do café. No vão do corredor, uma candeia alumiava a varanda, cumprindo, pela falta, o ofício da vela. Naquela noite de inverno, ouvia-se apenas o estridular das cigarras e o silvar dos insetos. Vez por outra, o chirriar das corujas.

Uma densa neblina esfumaçava a noite e cobria o lanço de casas que descia pela encosta do serrote do Ingá até as beiradas do Jacaré. Vadinho, recolhido no oitão da casa, assuntava o destino da mãe, seu desejo de ser enterrada num caixão de madeira, forrado de pano verde, com franjas douradas, tal qual Bebeto fizera para o Coronel Antero das Cacimbas. Na varanda, Vevé, recomposta, recebeu um toco de vela e o acendeu ao lado da mãe. Num grito histérico, desmaiou novamente. Rosentina, amiga inseparável, dosou o rapé até despertá-la.

Ao redor do corpo, as beatas começaram a encomendação. Por fim, o terço. Netinho, filho de Nicanor, puxou a saia da mãe e afiançou que a avó mexia o braço. Tal inconveniência, custou-lhe um beliscão e uma determinação para que acompanhasse a reza. No quarto mistério do terço, o inusitado: Nani, abruptamente, se agachou na esteira, seus cabelos crespos estavam desalinhados, dois tufos de algodão saltaram-lhe do nariz. Aturdida, soltou um grito lúgubre que invadiu a madrugada úmida. Pânico, choro, pessoas caindo, outras de joelhos louvando a Deus. Sá Marita anunciava os fins dos tempos.

No furdunço, Eleutério e Messias Sanfoneiro, no descampado da Santa Maria, latanharam-se nos espinhos e nas pedras pontiagudas que emergiam do solo encharcado. Nani, ainda no torpor do corpo, resolveu correr. Imaginou algo grave. Na tentativa inútil de acompanhar as pessoas, notou que elas, ao vê-la, mais corriam e gritavam.

Vevé se prostrou. Um calafrio tomou seu corpo. Uma dor extrema trespassou seu peito. Suas mãos suaram, aos poucos, foram arroxeando. Vevé tombou sem vida no canto da varanda.

Quando o dia foi clareando, todos já estavam refeitos, somente Vevé jazia sobre a velha esteira. Os irmãos cobriram-na com o lençol de madrasto e acenderam um toco de vela.

Ao cair da tarde, Vevé foi sepultada num caixão de madeira forrado com pano verde e enfeitado de franjas douradas.

Comentários:

2 respostas para “Ressurreição e Morte”

  1. Joaquim,

    Texto muito rico. Adorei as onomatopeias (olhar de educadora). É impressionante como você consegue envolver seus leitores: senti cheiro de terra molhada, mato verde, vela queimando, até mesmo a frieza da neblina. Nota dez! Coitada de Vevé!
    Parabéns!

    Celia de Dozinho

  2. Iracema Costa Santos disse:

    Ah, Joaquim, como ri, descontroladamente. Que texto maravilhoso! Podia ser transformado em uma comédia, que lotaria qualquer teatro.

    Abraços

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