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Lagarto, 23-06-2017

O carnaval e a dentadura

Antonio Rocha, 2 de fevereiro de 2009

A festa mais aguardada pela turma era o carnaval de Lagarto, mais precisamente os bailes da velha Associação Atlética. Durante a temporada momesca, o ritual era quase o mesmo: pelo dia, fazíamos na fazenda o prévio aquecimento para o baile noturno ao som dos frevos pernambucanos, frevos eletrizados baianos, marchinhas e sambas. À tardinha, devidamente azeitados pela cachaça “primeiro pingo”, uísque, cuba libre e cerveja, rumávamos para a casa da Praça de Piedade, onde se davam os preparativos finais. Pouco antes do início da folia, todos se encontravam no salão de festa da Atlética à espera dos acordes iniciais da orquestra, prontos para a fuzarca, que só terminaria na madrugada do dia seguinte.

Se nas ruas, o talco, a farinha de trigo, tinta xadrez, alvejante azul fino e ovos serviam para embalar a diversão; no clube, só se permitia usar confetes, serpentinas, apitos e sprays de espuma, o que não impedia brincadeiras mais pesadas, como a de levar pimenta nos bolsos para atirá-las no salão e os exagerados banhos de cerveja no final da festa. Mas, de uma maneira geral, o clima de paz e alegria prevalecia.

Não há quem não se lembre dos fatos engraçados e interessantes que aconteciam no decorrer do carnaval, como o do enfermeiro fantasiado de índio, que não se furtou em deixar a festa para abrir as portas do Hospital N. S. da Conceição, a fim prestar socorro a um folião (ferido ao pisar numa garrafa quebrada); o do animado vigário que gostava de dançar (hipocritamente criticado), quase sempre o primeiro a chegar e o último a sair do clube; dos casais que aproveitavam o carnaval para fugir da marcação dos pais, aventura que, invariavelmente, tinha como epílogo o matrimônio; porém, o caso mais original, inusitado e de resultado mais desastroso foi o da dentadura.

Tudo começou um ano antes, quando, literalmente, levei um banho de óleo para cabelo, cujo cheiro – se é que se pode chamar aquilo de cheiro – me garantiu uma terrível enxaqueca nos dois últimos dias de folia. Esse óleo, casualmente encontrado pelo autor da “maldade”, estava esquecido há anos no sótão da antiga loja de D. Sinhazinha. Tal fato imbuiu-me do desejo de revidar, porém, aturdido e sem ter noção de como fazê-lo, contentei-me em esperar o carnaval do ano seguinte para perpetrar a minha vingança.

Quem trabalha com prótese dentária, principalmente prótese removível, quase sempre, guarda exemplares dessas peças para melhor orientar os pacientes. Foi na rotina do meu trabalho que surgiu a luminosa idéia de por uma dentadura no copo de bebida do meu “algoz” e assim devolver o revés sofrido. Confiante no êxito da empreitada, ansiosamente, esperei o carnaval chegar.

Nos três primeiros dias não consegui executar a tarefa. Temendo ver o meu plano frustrado e sentindo que o baile da terça-feira apresentava-se como a última chance, decidi levar adiante o meu intento de qualquer jeito; custasse o que custasse. Aproveitando um momento em que a minha “presa” conversava descontraidamente, de forma dissimulada, sentei-me na mesma mesa. No primeiro momento de distração dos presentes, atabalhoadamente, pus a dentadura no copo mais próximo, sem perceber que era o de outro.

Sem ter tempo para desfazer o equívoco, presenciei o coitado ser acometido de violenta crise de vômito ao beber e perceber aquela coisa estranha tocar os seus dentes.. Assustado e consciente de que deveria encontrar um meio para suavizar a situação, confessei o delito. Pedindo desculpas, argumentei que a dentadura nunca fora usada. Felizmente, aos poucos, ele se refez do mal-estar e não demorou a voltar ao calor da folia. Magnânimo, sem nenhum ressentimento, aceitou as minhas desculpas. Talvez, sem querer, tenha me dado uma boa lição de comportamento. Aprendi a ser mais tolerante.

O encerramento das atividades sociais e recreativas da Associação Atlética de Lagarto se deu alguns anos mais tarde, coincidindo com o fim da participação da turma no carnaval de Lagarto. Uma pena!

Comentários:

Uma resposta para “O carnaval e a dentadura”

  1. Uma pena mesmo, Dr. Antônio. Curti muitas festas na AAL com Los Guaranis e R som 7, principalmente nos famosos Bailes dos festejos de 7 de setembro. Lembro-me de que cada dia era uma roupa nova (quem era doido repetir uma roupa?) O cheiro de tecido novo “pistiava” o ambiente até provocar variados atchins. Quando passo pelo local, bate uma tristeza danada. É como se tivessem destruído um pedaço de minha história. Que pena! Vamos fazer um movimento para resgatar a AAL. Muita gente tem história ali.

    Abraços,
    Celia de Dozinho

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