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Lagarto, 17-10-2017

A cafeteira do bar de Seu Jaconias

Euler Ferreira, 4 de maio de 2009

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De repente, o toque do telefone me desconcentra:

-Alô, é o Euler?

-Sim, é ele.

-Euler Ferreira?

-Sim.

-Mas, você está com a voz tão diferente…

-Pode ser, mas sou eu mesmo.

-Euler do senhor Nelson e da dona Araci?

-Sim, o próprio.

Sem saber de quem partia a curiosidade, perguntei:

-Quem está falando?

-Eraldo.

-Eraldo de Jaconias e da dona Erundina?

-Sim, ele mesmo.

Acabaram-se as dúvidas. Depois de vinte segundos, eu e o Eraldo chegamos a conclusão de que éramos nós mesmos. Ele, em São Paulo. Eu, em Aracaju. Ambos nascidos em Lagarto, amigos de infância, primeiro contato depois de 25 anos sem um alô sequer.

De minha turma, ele foi o segundo a entrar de corpo e alma no Banco do Brasil. Enquanto eu fui para São José do Egito, alto sertão do Pajeú, em Pernambuco, ele tomou rumo de São Paulo, de onde estava ligando. Era bem o seu estilo: simpático, sorridente, de bem com a vida.

Olhando para trás, comecei a viajar no tempo, expondo os bons momentos de criança no Lagarto.

Adolescentes, morávamos na mesma rua, a velha, estreita e curta Coronel Souza Freire. O pai dele, Seu Jaconias, era dono de um bar no outro lado da rua – pelos fundos da residência da família, a Laudelino Freire, local frequentado na época pelos mais categorizados jogadores de sinuca da cidade. Lembro-me de Gracito, taco curto, jogo tático defensivo odiado pelos adversários. Do velho estrategista guardo na memória uma passagem interessante, dessas que cabeça de menino não consegue esquecer, talvez pelo inusitado.

Logo na entrada do bar existia uma cafeteira de fabricação italiana, encorpada e imponente que mantinha o café no ponto para ser servido. Certa feita, depois de assoar de forma barulhenta e demorada, repetidas vezes, o nariz num lenço marrom, Gracito, jeitosamente, evitou que o cat…, bem, a substância viscosa expelida pelas narinas escorresse do pequeno pedaço de tecido, sujando seus dedos a caminho do chão.

Depois de controlado o destino da excreção, cuidadosamente ele dobrou a peça e no melhor estilo ‘seguro morreu de velho’, passou o lenço várias vezes em posição vertical – de cima pra baixo, de baixo pra cima – no aquecido metal espelhado da cafeteira instalada à beira do balcão de entrada do bar. Um minuto depois, consciente de que o velho lenço estava novamente seco e (pelo visto) pronto para um próximo e inevitável embate provocado pelo organismo, ele o colocou cuidadosamente de volta ao bolso traseiro da calça de linho, após uma última e corretiva passagem pelas narinas talvez ainda umedecidas. Ritual finalizado, e elegantemente esfregando as mãos com indisfarçável ar de missão cumprida, o velho Gracito sem perder a pose retornou à arena onde se concentravam os jogadores de sinuca.

Naquele instante um outro freguês contumaz chegou ao bar. Após pedir uma média com leite, ele começou a passar na chapa inoxidável da cafeteira – recém-usada por Gracito – a parte externa do pão jacó comprado na bodega de Seu Sérgio, logo ali na esquina, bem em frente à loja da dona Sinhazinha. Elegante, guiado por mão bem intencionada, o manjar pousava em cima… decolava em baixo, foi assim repetidas vezes, pousava em cima…decolava em baixo, como se fosse um hipotético aviãozinho de brinquedo. Uma maravilha! Eu só olhando, seguindo com os olhos e a cabeça as manobras do cidadão. Quando o pão ficou quentinho – deu para sentir o cheiro e ver a manteiga derretida manchando o metal espelhado e limpo graças ao lenço que por ali transitou minutos antes. Manjar no ponto, o freguês deu aquela primeira dentada inconfundível sequenciada por um gole de imenso prazer do café com leite. A crocante iguaria provocava um ruído seco entre seus dentes. E tome mais café e mais dentadas. Terminada a refeição, bateu três vezes na protuberante barriga. Arrotou, pagou a despesa, acendeu um Astória, pôs um palito no canto da boca e sumiu no mundo.

Naquela noite eu dispensei o pão que meu pai tinha comprado na padaria.

Comentários:

2 respostas para “A cafeteira do bar de Seu Jaconias”

  1. Eraldo disse:

    Oi amigão, lembro-me muito bem do Gracito com seus tic tacs. Essa do lenço é sensacional. Aqui em casa, tenho um forninho elétrico só pra pão (risos).

    Abração e fica com Deus,

    Eraldo

  2. Almiro Soares Cruz disse:

    Oi, Euler! Alem do uso da cafeteira, havia outro detalhe com o velho Gracito. Ele só entrava no bar pela porta que tinha o batente baixo. Mundo de Mário, muito malandro, ficava encostado na porta, já premeditado, impedindo a entrada. E ele não dizia nada, só entrava quando Mundo de Mário saía. A gente nunca soube se era superstição ou porque ele evitava fazer esforços.

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