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Lagarto, 13-12-2017

A vingança

Antonio Rocha, 15 de maio de 2009

“A odontologia é uma profissão que exige daqueles que a ela dedicam os conhecimentos científicos de um médico, o senso estético de um artista e a paciência de um monge”. A frase do Papa Pio XII retrata com perfeição os requisitos mais importantes para exercê-la com equilíbrio e competência. Dentre as muitas especialidades da ciência odontológica, julgo ser a prótese dentária a que mais carece de tais predicados. Para ser um bom protesista, além dos conhecimentos inerentes à anatomia, patologia, fisiologia e do completo domínio das técnicas e dos materiais odontológicos empregados, é indispensável dispor de elevado grau de sensibilidade, suficiente para entender e melhorar a auto-estima do ser humano. Aliado a tudo isso, obviamente, é preciso ser sempre paciente tal e qual um monge budista.

Num passado não muito distante, lá pelos anos sessenta, residia em Aracaju um conceituado cirurgião-dentista. Cidadão de conduta ilibada, era estimado pela sociedade local não só pelas suas qualidades profissionais como também pelo seu espírito altruísta. Dotado de extrema sensibilidade, professava com devoção a fé cristã, nunca se furtando em socorrer quem o procurasse, independente de condição social e econômica; era um humanista. Meticuloso e equilibrado, raramente perdia a serenidade, a não ser quando se sentia ludibriado. Tinha como passatempos prediletos, além da música clássica e da boa leitura, o prazer de viajar pelo país. Nas férias que se aproximavam, estava decido a desfrutar das belezas da cidade do Rio de Janeiro.

Numa casa vizinha à sua moravam uma viúva (dona de uma respeitável pensão vitalícia) e a sua filha, com as quais mantinha um relacionamento cordato. Vaidosas, não nutriam apreço pelo trabalho, porém preocupadas mais em gastar além do que podiam, quase sempre em futilidades. Dissimuladas, eram hábeis na arte de transparecer a impressão de riqueza, escondendo uma realidade completamente distinta. Ninguém desconfiava que os bens herdados do falecido houvessem sido completamente dilapidados e que a situação das dívidas acumuladas chegara ao ponto de insolvência. Naquele ano decidiram mudar-se para o Rio de Janeiro, onde levariam uma vida nova e longe dos credores que já estavam a atormentá-las.

Certa vez, no consultório, recebeu a visita da viúva. Necessitando de novas próteses, ela o procurara amparada na experiência, perícia e na amizade fraternal construída durante o longo tempo de vizinhança. Buscava seus serviços odontológicos, a fim de solucionar o seu difícil caso, que só mesmo um profissional tão qualificado seria capaz de executar com a perfeição almejada. Sem demora, os exames preliminares necessários para levar o tratamento a termo foram empreendidos: anamnese, exames clínicos, tomadas radiográficas e moldagens para os modelos de estudo. Urgia executar o trabalho no menor espaço de tempo possível. Solícito, depositando confiança total na retidão da paciente, não fez nenhuma menção a honorários. Esta, entretanto, ardilosamente embasada numa versão melodramática e irreal das suas finanças, expôs ao seu modo a versão de “um momentâneo embaraço econômico”, tocando fundo a sensibilidade do amigo. Deu certo, pois conseguiu concretizar o intento de pagar pelos trabalhos sessenta dias após a entrega, sem despertar desconfiança de que viajaria bem antes do prazo, aplicando-lhe o calote.

O resultado do tratamento excedeu a expectativa. Além de recuperar a estética, a mulher rejuvenesceu uns dez anos. A sensibilidade, os conhecimentos científicos e a paciência se fizeram retratados na perfeição da obra. Tarefa cumprida, restava esperar pelo cumprimento do acordo. Entretanto, conforme premeditado, a viúva e sua filha sumiram da cidade sem deixar rastros. Nem mesmo a casa, nem os móveis, lhes pertenciam. Haviam sido vendidos. Os credores ficaram a ver navios. Restou a frustração dos prejuízos e o consolo como esquecimento.

Final de ano, férias no Rio de Janeiro, andando descontraído pelo Largo do Machado, eis que o dentista esbarra em uma senhora. Ao desculpar-se, reconhece a bela viúva. Surpresa com o inoportuno e inesperado encontro, ela reage desconcertada. Sorriso amarelo, balbucia:

– As dentaduras não ficaram boas; incomodam muito; muito, mesmo! Não tive tempo de voltar lá.

Aparentando serenidade e tomando o comentário como provocação, pergunta:

-Onde dói? Mostre-me!

Desta vez, sem a perspicácia habitual, a viúva comete o erro de abrir a boca em plena via publica, para um inusitado exame. Numa manobra de muita destreza, o dentista saca as próteses da infeliz e com os pés as quebra no chão. Completamente destituído da paciência de monge budista, tão importante no exercício da especialidade, dá o veredicto final:

– Agora elas não vão incomodar! Passe bem!

Atônita, a mulher não esboça nenhuma reação e se afasta rapidamente, amargando o vexame. O dentista, por sua vez, segue sua caminhada, saboreando a esdrúxula vingança.

Não houve boletim de ocorrência ou qualquer outra coisa semelhante. Talvez a velha amizade, inabalada, tenha contribuído para superar o inesperado entrevero. O certo é que, por Aracaju, nunca mais se houve notícias da viúva. No Rio de Janeiro, com certeza, ela deve ter encontrado outro dentista para recuperar o sorriso. Desta vez, quem sabe, um dotado dos atributos definidos pelo Papa Pio XII, em toda plenitude, inclusive na adversidade.

Comentários:

2 respostas para “A vingança”

  1. Deborah Faheyna disse:

    Amei, porque a paciência de um monge é para trabalhar na odontologia e não para ser enganado. Parabéns! Fiz, com certeza, uma ótima leitura.

  2. José Carlos Silva disse:

    Dr. Antônio, dos textos que tenho lido, não me lembro de outro que tenha gostado tanto. Que vingança perfeita! Continue a escrever. Suas histórias são sérias e, ao mesmo tempo, hilárias. Hoje moro em Fortaleza, mas sinto uma saudade imensa de Lagarto e dos amigos que aí deixei.

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