Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 13-12-2017

A morte da rede

Antonio Rocha, 7 de julho de 2009

A sua vocação era a pecuária leiteira. Por isso, nada adiantou a insistência dos pais para que estudasse. Ainda adolescente, trocou a vida colegial, em Salvador, pelo trabalho na fazenda, em Lagarto. A honestidade, lealdade e solidariedade faziam dele uma figura estimada na região, não obstante o temperamento explosivo, que podia causar má impressão a quem não o conhecesse. Estando contrariado, o seu modo de falar e de agir se transformava, sugerindo o desabamento de uma tempestade que nunca viria, e sim alguma coisa engraçada capaz de fazer qualquer um se dobrar de rir. Oliveira não guardava bom conceito dos políticos. Quase nenhum inspirava sua confiança e, por isso mesmo, não era de se envolver na seara eleitoral, a não ser no pleito em que saiu em auxílio do seu amigo Antonio Carlos.

Ele creditava todas as mazelas da sociedade somente aos políticos e não se dava conta de que nenhum cargo representativo era assumido por imposição, porém, pelo voto. Desse modo, sua cobrança de lisura no exercício do mandato não era levada a sério, pois, no conceito vigente, a eleição se tratava apenas de um mero negócio. Parte do eleitorado também gostava dessa simbiose. “Até agora não votarei em ninguém porque ninguém me deu nada” era, e ainda é, a frase corriqueiramente pronunciada durante o período eleitoral e que ilustrava bem o vício do eleitor, sugerindo uma vantagem pessoal em troca do voto, deixando de lado o interesse coletivo e a consciência política.

Se toda essa excrescência ainda acontece em pleno século XXI, dá para imaginar o que não ocorria naquele pleito em que dois conterrâneos se dispuseram a participar. Sem dinheiro e nem quem os financiassem, confiados apenas em fazer uma campanha amparada apenas nas idéias, no apoio dos amigos e numa boa estratégia publicitária, enfrentariam a corrompida cultura eleitoral, candidatando-se a vereador (de longe, o cargo de disputa mais acirrada e difícil).

Antonio Carlos era comerciário de uma estatal do ramo de produtos agrícolas, portanto, muito conhecido do eleitorado rural. A princípio, largou na frente. Tudo levava a crer que seria eleito, porém, com o passar do tempo, o seu favoritismo entrou em declínio pelo fato dos seus eleitores não “resistirem” ao oferecimento das benesses: cestas básicas de alimentos, sabonetes, canecos, cigarros e outras quinquilharias, não dispensando a oportunidade de vender o voto. A estratégia escolhida para nortear a campanha começava a se mostrar deficiente.

Lisboa era estudante e radialista. Dotado de inteligência privilegiada, soube explorar, com maestria, os defeitos da administração municipal, encontrando eco na parcela do eleitorado mais politizado, independente e insatisfeito. Apesar de não ter largado bem, aos poucos sua popularidade ganhou ascensão e nada foi capaz de impedir que galgasse êxito na empreitada.

Antonio Carlos, pressentindo a derrota, apelou para os préstimos do fazendeiro. Este não se furtou em socorrer o amigo e decidiu levá-lo pessoalmente à sua região, percorrendo casa por casa à caça dos votos. A nova estratégia também não mostrou a eficácia esperada, pois boa parte daquele eleitorado estava igualmente interessada nos velhos vícios. Oliveira não desistiu e continuou a peregrinação. Nem uma forte gripe, que lhe deixava com febre e dor de cabeça, fora capaz de deter a obstinação de ver o amigo eleito vereador. Porém, nesse dia, uma inesperada reprimenda recebida propiciou a alteração do seu humor.

Oliveira não quis almoçar na casa de um sitiante de família numerosa. A gripe tinha-lhe tirado todo o apetite e ele só pensava em voltar e descansar na rede amarela armada na varanda de sua casa. Antonio Carlos (que comera bastante) não entendeu assim e criticava a atitude do companheiro alegando que a recusa se dera por desconsideração e que por isso perderia todos aqueles votos.

No carro, de volta a Lagarto, Antonio Carlos subia o tom da reclamação, aumentando ainda mais a irritação do fazendeiro. Lisboa, que os acompanhava, argumentava a favor de Oliveira, porém, não conseguiu demover o colega daquela equivocada idéia e, nem mesmo, fazê-lo mudar de assunto. Finalmente, ao chegar em casa, já com a cabeça fervendo (pela dor e pelas críticas do seu “afilhado”), sem prestar a devida atenção, entrou intempestivamente pela varanda e esbarrou na vistosa rede amarela e acabou levando um tremendo tombo. Tomando aquilo como uma afronta, foi à cozinha e apoderou-se de uma faca peixeira; em seguida, ralhando no mais perfeito linguajar lagartense, desferiu vários golpes na rede:

– Fia do cabrunco! Você quer me desmoralizar? Vou lhe ensinar a respeitar um homem!

Foi o remédio que faltava para Antonio Carlos se esquecer da iminente derrota. Às gargalhadas, os dois tentaram conter a explosão de Oliveira e, em vão, salvar a rede. Este, após um demorado e relaxante banho quente e medicado com o infalível chá de limão com mel, já com o juízo recuperado, foi repousar na cama.

Lisboa foi eleito. Antonio Carlos não teve a mesma sorte. Oliveira nunca mais quis saber de pedir votos. Desde então, sua dedicação permanece centrada no trabalho, na família e no merecido descanso da rede (mesmo não sendo a rede amarela). Aprendeu que “cada povo tem o representante que merece”.

Comentários:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *