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Lagarto, 17-10-2017

Colheita tardia

Antonio Rocha, 3 de agosto de 2009

Os que têm sabedoria acreditam não ser por acaso tudo que ocorre em nossa vida, mas por merecimento. Por isso, em vez do embevecimento pelo êxtase de uma glória ou o desespero pela tristeza de uma adversidade, esses momentos deveriam servir de reflexão no sentido de buscarmos a razão do seu acontecimento, para alcançarmos, cada vez mais, uma maior evolução no nosso modo de viver. Em síntese, entendem que na vida só colhemos o que plantamos.

A influência exercida pela Igreja Católica marcou muitas gerações. Num passado não tão distante, a educação religiosa se fazia mais presente na sociedade, seja pelo ensino nas escolas ou nas cruzadas catequistas. Aos filhos das famílias influentes, religiosas e abnegadas da Igreja era concedida a primazia de integrar movimentos e congregações católicas. Os agraciados para ajudar o vigário nas missas e nos demais ofícios eram chamados de coroinhas.

O pároco daquela época era um homem culto e que gostava muito de viajar; vaidoso, exibia garbosamente um anel de ouro com uma enorme pedra preciosa incrustada, que teria recebido de presente do Papa num dos seus inúmeros périplos pela Europa. Embora fosse um pregador nato e conhecedor profundo do evangelho, era mais temido do que respeitado, tanto pelo seu forte temperamento como pela força da Instituição Igreja. Intolerante à crítica, reagia com arrogância quando se sentia confrontado, salvo na defesa dos seus interesses e no trato com as famílias mais abastadas.

O gordinho e o cantor eram coroinhas – assim os chamo para preservar as identidades e também pelo óbvio: um era gordo e o outro gostava de cantar. Durante a missa dominical da tarde, o cantor sentia os efeitos da difícil digestão da buchada com pirão de carneiro que comera no almoço. A “revolução” intestinal formava gases, que ao serem expelidos poluíam a atmosfera com um odor nauseabundo. O vigário e os demais coroinhas não conseguiam esconder o desconforto provocado pelas freqüentes ondas mal cheirosas, responsáveis por tirar-lhes toda a concentração, resultando num festival de erros na condução da Santa Missa. Bastante irritado e sem identificar o autor do infortúnio, o vigário olhava furioso para os seus pupilos. O cantor, sem ser percebido, malandramente, apontou para o gordinho, entregando-o. O padre, por trás do altar e sem ser visto, extravasando a sua ira, desferiu um potente “cascudo” de anel no infeliz. Para completar o desfecho, na saída, em direção à sacristia, aplicou um pontapé no suposto culpado repreendendo-o pelo contratempo causado.

Anos mais tarde, o cantor, prestando serviço militar, se viu envolto em um problema: fora convocado para ser sentinela na noite de São João, justamente quando pretendia dormir e recuperar o sono que perdera cantando nas duas noites anteriores. Recorreu a um amigo, dono de farmácia e também colega de Tiro-de-Guerra. Este, tão gozador quanto ele, socorreu o parceiro com uma dose dupla de um poderoso sonífero, garantindo-lhe que meia hora após ser ingerido o sono desapareceria.

Seguindo estritamente as orientações recebidas, o cantor engoliu o remédio e foi assumir o posto de vigilância do quartel. Não levou muito tempo para que caísse em sono profundo abraçado ao fuzil. Nem a chuva fina que caía nem o vento frio que soprava foram suficientes para despertá-lo. O amigo, que escondido tudo observava, não pestanejou: procurou o Sargento e levou-o até o desleixado sentinela. Ao se deparar com o dorminhoco, tão irritado quanto o padre, desferiu inúmeros golpes de cabo de vassoura até acordá-lo. Como castigo complementar determinou quatro dias de detenção.

Não há como afirmar que a reprimenda sofrida pelo cantor fora o merecido castigo pela sua conduta no caso do gordinho, mas se na vida a gente só colhe o que planta, do mesmo modo, não há motivo para não desconfiar da chegada do tempo da colheita, embora tardiamente. Quem faz aqui, paga aqui.

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