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Lagarto, 13-12-2017

Os otários

Antonio Rocha, 6 de outubro de 2009

O sujeito era a cara do presidente de Honduras, Manuel Zelaya – aquele que quis dar um golpe em seu país e saiu golpeado. Nunca vi alguém se parecer tanto com outro. A semelhança era tão grande, que não se resumia somente ao aspecto físico, mas também ao uso do chapelão branco. A aparência piorava muito mais, quando, ao falar ou sorrir, saltava aos olhos a visão de dois caninos cobertos por coroas estampadas a ouro. Completando o quadro de absoluto mau gosto, estava a berrante camisa estampada, vestida semi-abotoada e que deixava à mostra uma grossa corrente (igualmente dourada), no mais fino estilo bicheiro carioca. Era o corretor da companhia de seguros sociais MFM – Montepio da Família Militar.

Encontrava-se em Lagarto com a missão de credenciar profissionais da área de saúde, para prestar serviços aos associados e beneficiários do MFM (Montepio da Família Militar) – instituição de previdência privada – que, à época, se apresentava como alternativa à entidade oficial, o Instituto Nacional de Previdência Social – INPS. Conheci-o no consultório do Dr. Rubens, seu conterrâneo.

Apesar da aparência sinistra, o tipo surpreendia. Era bem falante e persuasivo. Naquela manhã, mostrara firmeza ao expor os planos de serviços de sua empresa. Habilmente, buscava a nossa adesão, com propostas fundamentadas, principalmente, na atraente oferta de pagamento pelos serviços odontológicos a serem prestados.

Se existe verdade quando se diz que esmola grande o cego desconfia, também não se pode negar que peixe não morre pela boca. Portanto, a perspectiva de ganhar um bom dinheiro foi a isca que nos deixou tentados a aceitar a oferta. Malgrado a ilusão do bom faturamento, a contra partida exigida para o credenciamento (pagamento à vista de um sinal equivalente a um salário mínimo) acabou por acender a desconfiança de um iminente golpe. Tornava-se imprescindível, então, a apresentação de uma prova que assegurasse idoneidade.

O nome da Dra. Ailza Alcântara (cirurgiã-dentista da vizinha cidade de Simão Dias) foi apresentado como referência. Era a pessoa que dispunha de cátedra para testemunhar favoravelmente à lisura da empreitada. Há meses, celebrara o mesmo contrato, estando satisfeita com o trabalho dispensado; inclusive, nos quesitos que se relacionavam a faturamento e pontualidade de pagamento. Bastaria um simples telefonema e qualquer dúvida desapareceria.

Tudo parecia se encaminhar bem até surgir o inesperado: as sucessivas falhas na conexão telefônica interurbana, que impediram a confirmação das tais informações. Sem garantia, desistimos do negócio. O corretor, aparentando tristeza, murmurou: “é uma pena não termos fechado o contrato. O nosso presidente, General Muricy, teria enorme satisfação em tê-los em nossa instituição, inclusive, na festa de confraternização do MFM, em Gravatá. Todo ano, ele promove uma badalada feijoada em sua fazenda, como forma de agradecer aos associados, bem como celebrar o êxito do Montepio”.

A simples menção ao nome do militar fez o Dr. Rubens se animar. A euforia o contagiou ainda mais, quando foi exibido um impresso com a composição da cúpula do MFM, onde o nome do referido constava de forma destacada: “conheço o General Muricy. Sei que é um homem sério, afinal, foi meu colega no Colégio Marista. Se é ele quem dirige o MFM, não faz sentido alimentarmos nenhuma desconfiança; o instituto é sério”, afirmou. Confiando na seriedade do fato novo, abaixei a guarda. Fechamos o contrato.

Terminados os procedimentos de praxe, acompanhamos o corretor até o seu carro. Na saída, acenando, ele exclamou: “a gente se encontra na fazenda do General Muricy, para a comemoração. Eu mando avisar a data!”. Não sei como explicar, mas, nesse momento, tive a certeza que acabávamos de cair num embuste. Se ele tivesse se despedido falando numa língua estrangeira, penso que a tradução perfeita do que queria expressar, seria: “adeus, otários! Comprem uma cadeira confortável para esperar sentados pela feijoada!”.

A confirmação do engodo veio na noite do mesmo dia, em Simão Dias. Dra. Ailza não havia firmado nenhum convênio, muito menos com o MFM. Acabrunhados, tomados por grande decepção, ainda encontramos forças para fingir que não havíamos sido enganados. Não ficava bem passarmos por “bobocas”. Parecendo que havíamos combinados, exclamamos uníssonos: “Ainda bem que não caímos nessa”.

Meses depois foi a vez de aparecer outro corretor, que se dizia representante do Mongeral, trazendo proposta idêntica à do pernambucano. Desta vez, ressabiados e devidamente imunizados contra esse tipo de golpe, peremptoriamente, recusamos a oferta. Aliás, estávamos tão decididos que nem permitimos sua entrada nos nossos consultórios. Aprendemos a lição. Errar uma vez é humano; permanecer errando é burrice.

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