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Lagarto, 29-04-2017

Tiro pela culatra

Antonio Rocha, 23 de outubro de 2009

A importância do sobrenome, motivo de tanto orgulho, só existia no delírio do seu imaginário. Julgava-se pertencer a uma estirpe aristocrática, que lhe conferia autoridade para dispensar aos mais humildes o tratamento de desdém e ironia. Do mesmo modo, eram os arroubos para demonstrar a riqueza que não tinha, embora possuísse terras, gado e o dinheiro suficiente para comprar o que mais lhe dava prazer e inflava o ego: muitas amantes. Preconceituoso ao extremo, achava que o direito a ascensão social não podia ser facultado ao cidadão comum. Quem nascesse pobre deveria permanecer sempre pobre, como se fosse predestinado somente para servi-lo.

A “grandeza” de tantos predicados o levava a subestimar as limitações advindas do curso natural da vida, coisa que creditava apenas aos fracos. A realidade, no entanto, era completamente diferente. O peso da idade, que paulatinamente lhe subtraíra as forças e habilidade de correr nas vaquejadas, desta vez, de forma impiedosa, o castigava com o declínio da virilidade.

De fato, suas últimas noitadas amorosas não tinham sido nada boas; aliás, um completo desastre. Se não bastasse o dissabor de aturar os sucessivos reveses, que a essa altura já se transformara num trauma psicológico e lhe tirara do sério, se via obrigado a aguentar a gozação dos amigos, depois que a notícia da decadência viril se espalhara, em razão de uma das suas amantes quebrar o pacto de silêncio, selado em troca de um “cachê” dobrado.

A soberba e a vaidade ferida, não obstante o abatimento causado, se constituíram na arma para lutar pela recuperação do vigor perdido. Estava decidido a apelar para todos os meios possíveis, custasse o que custasse; até para um milagre. A determinação era tanta, que nem as experiências frustradas com as receitas populares (ovo de codorna, chá de catuaba, garrafadas, entre outras) fizeram-no desistir. A denodada perseverança, enfim, trouxe o resultado almejado, através dos poderes da milagrosa e eficiente pílula de cor azul, receitada por um médico da capital.

A felicidade alcançada pelo restabelecimento da virilidade, paradoxalmente, transformou-se em motivo de desapontamento para sua mulher. A coitada, que há anos sofria humilhações e encontrava-se condenada à condição de um mero objeto obsoleto do lar, recebera com júbilo a derrocada sexual do companheiro, na ilusão de merecer um pouco mais de atenção e respeito. Entretanto, o efêmero sentimento de satisfação e esperança deu lugar a mais uma frustração.

Lamentando-se com o vizinho, um conceituado bioquímico e velho confidente, tiveram juntos a brilhante idéia de alterar a composição do medicamento. Imaginavam fazer alguma coisa que transformasse o efeito do remédio e que marcasse o marido para sempre. A experiência profissional do amigo foi providencial. Usando um corante de confeiteiro, tingiu de azul algumas pílulas de um poderoso laxante (cujo formato modificara), deixando-as exatamente iguais às verdadeiras. Com paciência e esmero, acondicionou-as na embalagem original, concluindo a falsificação. Bastaria agora, à mulher, colocá-lo ao alcance da vítima.

A busca pela reabilitação perante a amante fofoqueira e, consequentemente, diante dos amigos, fê-lo tomar naquela noite, uma dose dupla da pílula azul. Tamanho exagero se justificava, pois não poderia e nem deveria falhar de novo. Cumprindo o combinado, os dois seguiram para uma chácara nos arredores da cidade. Em pleno enlace amoroso, quando tudo se conduzia maravilhosamente bem, o efeito do laxante apareceu. A diarréia e as cólicas foram tão fortes que, literalmente, o tiro saiu pela culatra. Assustado, percebeu que estava a protagonizar um novo vexame, que descambaria para um escândalo jamais imaginado.

Ao descobrir o que se passava e sentindo aquele líquido mal cheiroso escorrer pelo seu corpo, a mulher pulou da cama. Enrolada no lençol emporcalhado, saiu correndo ladeira abaixo, gritando por ajuda. O velho garanhão, igualmente sujo, foi encontrado desmaiado no banheiro. Socorrido e levado às pressas ao hospital, precisou ser internado por dois dias para tratamento da grave desidratação.

A notícia do infortúnio ecoou como a explosão de uma bomba, dando margem às mais variadas especulações: as beatas acusavam a chegada do fim dos tempos e como sendo um castigo mandado por Deus; os mais irônicos diziam ter sido efeito do gorduroso pirão de capão, exageradamente degustado pouco antes da noitada; o médico da capital dava conta de uma violenta reação de idiossincrasia; estudantes tripudiavam da tragédia compondo versos irreverentes. Por fim, restou aos comerciantes do ramo farmacêutico a lamentação pela vertiginosa queda de venda da pílula azul, com os consequentes prejuízos.

O efeito devastador do laxante também repercutiu entre os autores da falsificação, deixando-os parcialmente arrependidos. Não esperavam ferir o coitado, tão profundamente. Como meio de contemporizar o mal feito, prestaram-lhe irrestrita solidariedade. Entretanto, não se esqueceram de combinar votos de sigilo sobre o que haviam praticado.

Consciente de que a importância do sobrenome, a decantada riqueza e o imponente ar de superioridade tornaram-se estéreis para reverter o quadro adverso, o garanhão capitulou. Não havia mais meios de resistir a tanta “desmoralização”. Acabrunhado, rendeu-se à realidade da vida e tomou uma radical decisão: vendeu os bens e mudou-se para bem longe, de onde nunca mais mandou notícia.

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