Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 23-06-2017

O conserto do relógio

Antonio Rocha, 4 de janeiro de 2010

Não há quem tenha vivido a infância e a adolescência nos anos 60 e 70, em Lagarto, que não se lembre da figura de seu Ascendino, o jardineiro da Praça da Piedade. Extremamente dedicado e zeloso, dispensava um grande amor àquele logradouro, considerando-o o seu próprio lar. Dentre suas muitas qualidades, se destacava a maneira de cativar a simpatia da comunidade e o jeito alegre de conviver com a meninada. Seu Ascendino, além de servidor público municipal, também colaborava nas mais diversificadas tarefas junto à Paróquia Nossa Senhora da Senhora da Piedade, mais de perto da Igreja Matriz.

A Praça da Piedade, já naquele tempo, era o reduto mais importante e bonito da cidade. Por isso, também era o ponto preferido de reunião da garotada, principalmente no período de férias de fim de ano, época propícia para muitas traquinagens. O velho jardineiro até que gostava do alvoroço e se sentia feliz em participar ativamente das brincadeiras. Solícito, nunca se furtava a ensinar um pouco do seu ofício a quem tivesse curiosidade de aprender. Foi com ele que muitos aprenderam a tocar o sino e puderam conhecer o sistema de funcionamento do relógio da Matriz.

Embora houvesse harmonia no relacionamento, uma ou outra travessura mais atrevida (apesar das repreensões) era encarada com naturalidade e raramente ultrapassava os limites impostos pela cartilha da boa educação. A autoridade do jardineiro nunca era arranhada. Porém, a natureza aventureira da adolescência, capaz de coisas inimagináveis e que, em hipótese nenhuma deve ser subestimada, há tempos vinha sendo paulatinamente negligenciada. Seu Ascendino, por excesso de confiança ou, talvez, de boa-fé, não atinava para o comprimento das rédeas que, àquela altura, se encontrava demasiadamente longo, tornando-se insuficiente para impedir que algo mais exagerado viesse a acontecer.

Certa vez, a engrenagem das cordas, que punham em funcionamento o relógio, emperrou. A pane foi tão grande que parecia não ter jeito, nem mesmo com a experiência e a boa vontade do abnegado servidor. Foi preciso, assim, a contratação de um profissional especializado. Trouxeram a Lagarto, então, um técnico que atendia pelo nome de José Geraldo.

Esse cidadão, de aparente temperamento extrovertido, apesar do diminuto tempo de estada na cidade, conquistou rapidamente a simpatia dos munícipes. O entrosamento se tornou tão grande, que logo no domingo já se encontrava participando do concurso de calouros do Cine Glória, sendo anunciado por Irecê, goleiro do time do Lagarto e dublê de apresentador, como um fortíssimo candidato. Ao final, fazendo jus aos elogios recebidos, arrebataria o primeiro lugar.

No dia marcado para o conserto, José Geraldo deixou transparecer a face escondida do egoísmo: exigiu subir sozinho à torre onde se situava o relógio, pois não queria ninguém aprendendo com os seus conhecimentos. Sob os olhares dos curiosos postados na praça, deu início ao trabalho. O local onde estava era pequeno e estreito, ficando o antigo sino português nas proximidades da sua cabeça. Tudo corria bem e indicava um desfecho rápido para o serviço. De repente, ouviu-se o badalar do sino que, ao ser tocado de forma desordenada e com vigor nunca visto antes, ecoava a sua conhecida sonoridade (de beleza e potência incomparavelmente superiores ao atual) até rincões distantes da cidade.

Percebendo que o infeliz estava em apuros e buscando dar um basta à tamanha estupidez, seu Ascendino subiu à torre. José Geraldo desceu amparado, completamente atordoado. Tremia como se estivesse sido acometido da febre palustre. Sem rumo, chegando à calçada da casa do sírio Salomão, foi “medicado” com um copo de água com açúcar (segundo a medicina caseira, um ótimo calmante). Posteriormente, ainda tonto, foi levado para a casa paroquial, onde ficou até se recuperar.

Enquanto isso, o vigário e alguns presentes buscavam, sem êxito, encontrar o responsável pelo mal feito, procurando-o pela porta de entrada da torre do relógio. O máximo que conseguiram foi detectar as pegadas deixadas na pintura das tribunas durante a fuga. Estas indicavam que havia pulado da tribuna da torre do lado esquerdo para a do centro, e dessa para a do lado direito, saindo pela porta de entrada da torre oposta, sem ser percebido.

Embora desconfiado de que o responsável pela terrível brincadeira houvesse sido alguém do seu convívio, seu Ascendino, como os demais, nunca conseguiram identificá-lo. Portanto, em termos de punição, nada pôde ser feito. O conserto do relógio só foi levado a termo no dia seguinte, com as portas de entrada das torres fechadas para impedir o acesso de estranhos. Terminado o reparo, José Geraldo foi embora e nunca mais voltou a Lagarto.

A proibição de subir às torres foi mantida, deixando a garotada entristecida, por não mais poder acompanhar seu Ascendino nas tarefas da Igreja. Os justos pagaram pelo pecador. Uma pena.

Nota:

Ao escrever sobre seu Ascendino, vêm à memória outras figuras de Lagarto, que no passado fizeram a alegria de muitas gerações, a exemplo de seu João do Ginásio, seu Menino da Pipoca, seu Salomão, entre outros. Com humildade, ajudaram a melhorar um pouco a nossa sociedade. Hoje, eles se encontram esquecidos, ao contrário de uns poucos, imerecidamente homenageados, que nada deixaram como exemplo de vida, a não ser o cultivo da ignorância, da futilidade e da hipocrisia.

Comentários:

2 respostas para “O conserto do relógio”

  1. Mara Jardim disse:

    Há crônicas deliciosas que nos transportam para o lugar citado, no convívio com as mesmas pessoas, vendo as mesmas coisas, enfim, “O conserto do relógio” é uma dessas histórias. Gostei.

  2. Vauberio Oliveira Cezar disse:

    Excelente o texto sobre o Sr. Ascendino. O Antonio traz com exímia sabedoria os fatos que realmente aconteceram na época. Ótimo, ótimo, ótimo.

Deixe uma resposta