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Lagarto, 17-10-2017

Entrevistando a Santa

Euler Ferreira, 6 de março de 2010

No segundo semestre de 1999, às vésperas de dezembro e manhã de uma sexta-feira ensolarada, meu editor do Bom Dia Sergipe – na TV Sergipe – me avisa pouco antes do programa começar que entre os três entrevistados no estúdio um deles seria a Coordenadora Nacional da Pastoral da Criança. Não perguntei o nome dela, nem precisava. Minutos depois, já no transcorrer do programa e durante o curto espaço do intervalo comercial, após concluir a segunda entrevista, vejo sentar a meu lado uma senhora de olhar tranqüilo e sorriso sereno e bonito. Ao cumprimentá-la, percebi nunca ter prestado atenção em algo que, para mim, se revelava justo naquele momento e de forma nítida. Cá com meus botões pensei ‘Meu Deus!’… e falei:

A senhora se parece muito com o Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns – disse um tanto cauteloso.

É meu irmão. – foi a resposta dela, ilustrada por um segundo sorriso. Enrubesci por achar imperdoável minha desinformação.

Pois bem. Dez anos e alguns meses depois, com a morte daquela senhora de sorriso bonito no dia 12 de janeiro deste ano durante o terremoto que devastou o Haiti, surgiram os primeiros comentários de que setores da igreja católica brasileira cogitam dar início ao processo de canonização da Coordenadora da Pastoral. Prelados brasileiros evitam falar no assunto – mesmo porque é preciso o mínimo de cinco anos para abertura de um processo de canonização – mas é visível que dirigentes da CNBB consideram que uma possível candidatura será muito bem vista, mesmo porque Zilda Arns se enquadra no perfil de uma santa moderna.

Não entendo de santo, muito menos das variantes protocolares que são cumpridas por décadas ou séculos até que algum pretendente seja designado santo da igreja católica. È provável que em vida Zilda Arns não chegou a imaginar que certo dia um bispo, designado pela igreja, sairia por aí investigando sua vida e seus escritos em busca de evidências de virtude heróica, conforme recomendação do Vaticano.

E mais: que numa segunda etapa, teólogos e os cardeais da Congregação pela Causa dos Santos também cumpririam a missão de avaliar a vida dela, candidata a santa.

E de etapa a etapa, atendida à risca a burocracia complicadíssima da igreja para assuntos de tal monta e uma vez aprovado o relatório apresentado à Sua Santidade, ele, o Papa proclamaria Zilda Arns candidata venerável, ou seja, pessoa com modelo perfeito de virtudes católicas.

Reconhecidas tais qualidades, a etapa seguinte para a santidade é a beatificação. Aí, os valores de Zilda Arns, agora com a sua morte, vão precisar superar aqueles tidos poderes que estão além da imaginação de milhões de pessoas porque vai ser necessário provar que a candidata é responsável por um milagre póstumo.

Mas, não é só.

Para que ela, candidata, seja considerada santa, um segundo milagre póstumo deve ser aprovado. Se o segundo acontecer e se o processo passar da imaginação para o fato concreto, Hilda Arns será canonizada. Afinal, o milagre é o selo da aprovação divina sobre a santidade da pessoa investigada.

Uma glória para Forquilhinha em Santa Catarina, terra natal de Hilda Arns.

Na esteira da canonização aqui no Brasil quem está próxima da santidade é a Irmã Dulce. Atribui-se a ela um milagre ocorrido no interior de Sergipe. A igreja não confirma só que existem os tais farejadores da notícia que vislumbram a verdade até no silencio sepulcral imposto pela igreja. É o caso de uma colega jornalista que trabalha comigo na comunicação do Tribunal de Justiça, em Aracaju: seu faro investigativo a levou a Nossa Senhora das Dores. Lá, pelos idos de 1986, uma mulher desenganada por médicos durante trabalho de parto, com o sofrimento de hemorragias e com a seqüência de três cirurgias no espaço de 18 horas, teria conseguindo sobreviver graças às orações para Irmã Dulce.

Que venham, então, as divinas santas.

No dia que eu souber que temos uma Santa Hilda Arns, vou me sentir, vejamos… todo prosa. É, é isso! Ora, bolas, serei talvez o único conterrâneo de Silvio Romero que teve a doce missão de entrevistar uma santa em vida. É, vai ser meio caminho andado para enumerar alguns dos milhares de pecados que pensam sobre meus frágeis ombros. Identificados aqueles que mais doem em minha consciência – e quantos doem, meu Pai! – pego meu rosário e saio em busca do perdão.

Quem sabe se ela, a Santa Hilda, não vai advogar em meu favor junto a Deus?

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