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Lagarto, 29-04-2017

Quincas Borba – A “coisificação” do homem

Rusel Barroso, 4 de abril de 2010

Este filme, que mostra a transformação do homem em objeto do homem e que provoca expectativa e reflexão, de cenas de arte dramática interpretadas por atores experientes, porém de tímida expressão, a exemplo de Hélber Rangel, Fúlvio Stefanini, Brigitte Broder e Paulo Vilaça, revela a ironia à sociedade mostrando que as forças do inconsciente movem os interesses financeiros. O longa-metragem apresenta um mundo em que o pobre, o louco e os diferentes são sempre expulsos ou abandonados, e é exatamente o que acontece na realidade, fora das telas e das páginas literárias, sendo que todas as significações das obras e dos filmes estão na mente de cada leitor ou expectador.

Quincas Borba cria uma filosofia sobre as relações humanas: o Humanitismo, teoria que não consegue transmitir ao seu discípulo. Esta filosofia acompanha Rubião durante toda a sua aventura sem que ele perceba que está atuando como vítima – o pressuposto básico dessa teoria, e que, justamente, o leva à loucura.

Pedro Rubião de Alvarenga, ex-professor primário, torna-se em Barbacena, enfermeiro e discípulo do filósofo Quincas Borba, que ao falecer o transforma em herdeiro universal, sob a condição de cuidar do seu cachorro, também chamado Quincas Borba. Rubião parte para o Rio de Janeiro, e na viagem conhece o capitalista Cristiano Palha e sua esposa Sofia. Ingênuo, Rubião deixa se guiar pelo casal. Instala-se numa mansão, e passa a freqüentar a residência dos Palhas. Apaixona-se por Sofia e, depois de muitos favores prestados ao casal, Rubião resolve declarar seu amor por ela, que apesar de ter provocado a declaração, recusa e conta ao marido. Cristiano não rompe as relações com Rubião, pois pretende dilapidar a fortuna do tolo milionário. O amor não correspondido por Sofia, desperta-lhe, aos poucos, a loucura, razão pela qual perde o dinheiro herdado. Abandonado por todos que se aproveitaram dele, Rubião retorna para Barbacena, onde ao passar fome e frio, enlouquece completamente coroando-se de Napoleão e pronunciando a frase do filósofo Quincas Borba, que só agora consegue entender: “Ao vencedor, as batatas”.

Trata-se de um filme, que apesar de dramático, põe à tona o seu lado filosófico através do Humanitismo, onde não há morte, há encontro de duas expansões ou de duas formas. O exemplo mais vivo está na expressão “Ao vencedor as batatas”, que marca o enfoque principal do enredo, onde se supõe um campo com duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas se as duas dividirem as batatas em paz, não chegarão a nutrir-se suficientemente e morrerão de inanição. A paz, neste caso, é a destruição; a guerra, é a esperança. Uma das tribos destrói a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, as aclamações. Se a guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a acontecer. Ao vencido, o ódio ou a compaixão, “ao vencedor, as batatas”.

A história é portadora de outras riquezas, a exemplo dos nomes das personagens, cuja carga dos seus atos está, de algum modo, inserida nos mesmos: Palha nos lembra algo que se queima e que se destrói facilmente; Rubião nos dá a idéia de grandeza em sua terminação; Sofia nos remete à idéia de sabedoria, amizade, esperteza…

Outro ponto que chama a atenção no filme é o funcionamento da engrenagem social da época. A disputa entre as pessoas (caso do advogado Carlos e dos jornalistas), as lutas pelo poder político e pela ascensão econômica.

O encarte que acompanha a embalagem, traz uma redação clara e objetiva quando se refere à sinopse e ao elenco, contudo, deixa de mencionar a codificação de áudio da trilha sonora, ponto muito importante para os amantes da audiofilia.

Adaptado do romance de Machado de Assis para a década de 80, esta película demonstra que o cinema brasileiro ainda tem muito que amadurecer, apesar de louvável a iniciativa e o trabalho do diretor Roberto Santos, que de alguma forma nos transporta à literatura machadiana.

Merece destaque entre as produções nacionais e a atenção dos amantes do cinema.

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