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Lagarto, 17-10-2017

Para não ler ingenuamente uma Tragédia Grega

Rusel Barroso, 6 de abril de 2010

Extraído do Caderno UFS – Filosofia – Vol. VI – Fascículo 3 – Editora UFS – 2004

 

Para não ler ingenuamente uma Tragédia Grega apresenta um epítome de pontos extraordinários referentes à Filosofia, num demonstrativo de que, não obstante o avanço do tempo, a História mantém seus traços e influências sobre cada geração.

 

Para não ler ingenuamente uma Tragédia Grega

Rusel Marcos Barroso*

Ao primeiro contato com a obra, descobre-se que a autora é ímpar ao detectar os equívocos de conceituados filósofos e estudiosos que se omitiram à noção do contexto histórico da época em que as tragédias eram encenações e ideologias, as mais diversas possíveis, buscando embasar conceitos também muito diversos. Com esse tipo de perspectiva, surgiram muitas análises incoerentes das tragédias, em desrespeito ao contexto histórico-cultural da época e até aos princípios que norteavam o espetáculo.

O ponto magistral da análise é a diferenciação dos fundamentos do erro em relação aos da culpa. Nessa temática, residiu talvez um dos maiores enganos trazidos nas obras de muitos pensadores. Nunca, em hipótese alguma, pôde-se falar em culpa na tragédia, posto que esta reflete uma noção interiorizada, personalíssima e individual; enquanto o erro apresenta-se como algo geral, um ônus a ser distribuído pelos demais pares que formam aquela determinada sociedade. Como a noção histórica do período áureo das tragédias marcava uma sociedade cooperativa, no sentido literal da expressão, era mais do que lógico que o erro de um fosse expiado por todos, haja vista que, se bem analisado, nunca fora o erro de um, mas o de todos, mesmo quando cometido por um só indivíduo. Assim, a autora deixa transparente que jamais se deve falar em culpa de Édipo, por exemplo.

Algo que particularmente chama a atenção é a presença (ou não) de extremos conceituais na tragédia. Aparentemente, quando a autora afirma que “o herói pode adentrar aquém do animal e além dos homens”, entende-se que a temática trágica apresenta fundamento maniqueísta. Todavia, em uma personagem mais cuidadosa, observa-se que não existe no texto trágico puramente o maniqueísmo, já que não se abordam somente o eqüidistante dos extremos e sim as situações que fazem parte da vivência da época, mas que não, necessariamente, eram “antônimas” totais.

Na obra, outro conceito que não faz parte da essência da lição trágica é o do animus de se cometer o erro. Não se avalia a premeditação no articular da situação provocada. A análise do dolo, da intenção e de sua relação com um fato considerável é tema relativamente moderno, e esse tipo de problemática não paira na visão da tragédia grega. Por conseguinte, é preciso compreender-se que os comentadores que citam a questão do dolo trágico em suas obras o fazem com a devida vênia, sem base coerente, tentando viabilizar um conceito não evidenciado à época.

Assim, por mais diferentes que sejam os ângulos a que fora submetida a tragédia, ao longo dos tempos, a autora menciona que, apesar de zona cinzenta, existe algo de concreto, de impermeável no universo trágico. Certos conceitos são pacíficos e foram mantidos coesos com o passar das épocas. Desse modo, vê-se que não é sobre essa área límpida que devem pousar os novos estudos, trabalhos e teses sobre o elemento trágico, e sim sobre o que ele possui de intrincado e apenas aparentemente incompreensível.

Em As Bacantes, no que se refere à dicotomia Apolo-Dionísio, a autora parece reforçar a idéia de que a tragédia não é eminentemente maniqueísta. Afirma que Apolo e Dionísio não são totalmente diferentes, possuem semelhanças. Ora, na temática do maniqueísmo isso não é possível, pois o bem é o bem e o mal é o mal, irremediavelmente.

Um dos aspectos fundamentais de As Bacantes é o requinte textual utilizado por Eurípedes, que passa então a fazer inversões relevantes no conteúdo trágico. Com uma narrativa em certos pontos atípica, levanta novos valores e brinca com outros já estabelecidos. Ao enfraquecer o herói Penteu, conclui que: “Nem todos os homens nomeados heróis, porque descendentes de família de heróis, são, por isso, heróis, como comumente se considerava na Grécia arcaica, amante de seu passado”.
Prende-nos a atenção uma análise acerca de algumas questões trazidas em Medéia, tais como: as noções de quebra de contrato, ética da reciprocidade e julgamento interior. Há, possivelmente, uma conexão destes conceitos com o atual enquadramento contextual da Ética.

Outra situação interessante é a discussão a respeito da discriminação entre os povos, quando se menciona a origem deste fenômeno, se legal ou natural (determinista). Nota-se que se pode vincular essa temática ao princípio da igualdade dos homens e suas implicações.

Tanto em As Bacantes quanto em Medéia, a autora, para alguns, demonstra uma postura cética em relação aos deuses, entretanto, este posicionamento não ocorre, pois se bem analisadas essas duas tragédias, entende-se que a solução para os problemas mundanos está na reverência ao sagrado através do equilíbrio e da parcimônia.

Conclui-se, portanto, que Para não ler ingenuamente uma Tragédia Grega é um trabalho cuidadoso e profícuo, uma semente de evolução de uma autora experiente que nos remete ao mundo do equilíbrio e nos instiga a uma nova maneira de enxergar a Filosofia.

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* Professor universitário, escritor e pesquisador, membro da Associação Sergipana de Imprensa

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