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Lagarto, 29-04-2017

O Passo de Estefânia vai além dos seus limites

Rusel Barroso, 9 de abril de 2010

Extraído do Jornal SergipeHoje – Ecos & Letras – Cultura

 

As obras de Núbia Marques resistem ao tempo

A exemplo de outros imortais, Núbia Marques permanece viva na memória dos leitores, estudiosos e admiradores.

Anos depois da viagem de Núbia (26/08/99), a poesia dos seus textos continua a ganhar espaço e a surpreender a todos que têm o privilégio de conhecê-la.

 

O PASSO DE ESTEFÂNIA VAI ALÉM DOS SEUS LIMITES

 

Por Rusel Barroso*

A escritora Núbia Marques sempre foi independente, moderna e desafiadora. Poeta e romancista, Núbia foi a primeira mulher a fazer parte da Academia Sergipana de Letras. Hoje permanece entre os grandes destaques da nossa literatura, o que demonstra a atuação da mulher brasileira no campo das letras. Feminista, Núbia Marques empresta toda rebeldia a suas obras. Sua vida se preenche de realidade, conferindo ao seu trabalho a magnitude de sua experiência de vida. A autora faz da pena uma arma contra a sociedade hipócrita, injusta e voraz que degenera o homem. Ela lança, em seus escritos, um apelo extasiado ao leitor pela sua conversão social, isto é, sua humanização.

Em sua obra O Passo de Estefânia, lançada pela primeira vez em 1980 pela Editora Achiamé, a escritora denuncia as atrocidades veladas de profissionais médicos, burocratas e políticos, e as injustiças do período histórico vivido por ela mesma desde a implantação do golpe militar em 1964. Neste romance, narrado em primeira pessoa, a personagem Estefânia se desnuda de toda lástima hipócrita, e revela, em sua profissão como assistente social, a verdadeira face da pobreza existente no Brasil, expondo toda a alienação e o sofrimento por que passa o povo sergipano mais pobre e, por extensão, a desafortunada população brasileira.

A linguagem empregada no livro se aproxima do coloquial sem perder a clareza e a habilidade de narrativa, características pertinentes ao trabalho da escritora. O seu estilo de descrever situações a partir de flashes cinematográficos, servindo-se de poucos adjetivos (que alvitram o machadiano**), determina a impressão visual que a autora usa como parâmetro, o que fortalece a sua habilidade de intercalar as falas das personagens e prende a atenção do leitor, que se habitua ao seu estilo fascinante. Núbia envolve o ledor em seu estilo pragmático e singular de escrever.

[…]. Um cheiro ativo de mangue, lama podre infecta a atmosfera. Um magote de meninos se espalha em todas as direções do alagado. Buracos, barrancos, lama putrefata, um ar pesado de moscas sobrevoando como pestilentos aviões silenciosos e pertinentes. Crianças imundas, seminuas ou nuas, magras, tristes, brincam com brinquedos de latas de sardinhas, pedras, cavalos de pau, se misturam com moscas e detritos. Algazarra insuportável preenche todo o ambiente dos alagados. (p. 57)

Neste excerto, nota-se claramente o uso de adjetivos marcantes para descrever o local, aliás, trata-se de uma das poucas oportunidades de descrição literalmente adjetivada por parte de Marques (1984) que, geralmente, apresenta uma narrativa figurativa e repleta de sensações obtidas do local visualizado, conforme se vê no início do capítulo IV:

O azul é insubmisso. Não falo de azul-céu, mas das janelas que ladeiam este corredor por onde tenho que transitar, vendo pontilhadas aqui e ali as paredes. Atenta ao menor barulho. Resvalando no espaço opressor dos corredores longos, grades aracnídeas enchem meus olhos que não querem pousar nos limites dos passos repletos, de botas pisando fortes num solo movediço que tritura meu corpo com tremores. (p.29)

A personagem Estefânia sente-se presa a cordas indesatáveis que a impedem de sanar a chaga da negligência, do oportunismo e do desrespeito ao ser humano. Ela é levada presa por se desvencilhar de todas as amarras construídas por um sistema burocrático indecente e tentar atender, de maneira leal, às causas que ela julgava certas. Unir-se ao grupo de manifestantes contra a desapropriação de uma invasão foi talvez a sua grande ousadia, mas para ela não se tratava de um deslize, e sim de uma convicção de dar ajuda àquele povo que se encaminhava à sua sala. Os pedidos de seus “clientes” ressoavam no seu pensamento: “D. Estefânia, me ajude.”, “D. Estefânia, dê um jeito.” Ela estava desiludida, dilacerada, seu corpo foi violentado, sua dignidade posta na sarjeta. Vemos que, através de sua personagem, a autora demonstra o machismo por parte dos policiais, que desconsideram a dignidade feminina – o machismo que ela própria sofreu. A personagem é insultada por nomes que a desqualificam como mulher e como ser humano.

Em O Passo de Estefânia, Núbia Marques chega ao ápice nos últimos capítulos do livro, quando dialoga com o leitor e o leva à reflexão. Ela nos instiga a deixarmos de ser passivos à situação de desigualdade de nosso país, a nunca nos rendermos aos nossos algozes, e, acima de tudo, a termos nossas próprias convicções e objetivos.

[…]. Cheguem, venham me ver. Todos. Não estou implorando, estou dizendo. Vejam meu corpo, meu rosto, sou um amontoado de células caídas num rumo qualquer. Pensei que se poderia fazer alguma coisa pelos sub-homens. Vamos, covardes, venham acabar de me espedaçar. Venham, rasguem meu ventre para que jamais eu tenha filhos para dar a este mundo de horror. Vamos, venham, covardes, amputem meus seios para eles nunca se aleitarem para nutrir crianças desta vida. Vamos, covardes, amputem minhas mãos para que nunca mais escreva uma só palavra de amor ou de ódio. Deixem intacta minha consciência, minha verdade. Deixem meu olho quadrilátero forjado pelas lentes de contacto da cor da manhã, brilhando para devassar a treva que nos engole. (p. 95)

Apesar de viver num período de opressão política, a personagem não se rende e enfrenta o mundo. Por mais humilhados que sejamos, as nossas convicções ideológicas jamais poderão ser violadas ou alteradas se não o quisermos. Nem a morte será capaz de calar os nossos pensamentos, que continuarão ecoando na mente daqueles com quem tivemos contato e em quem plantamos nossa semente. O romance O Passo de Estefânia não é nada mais que isso, uma semente de revolução de uma autora sergipana que nos comove, amotina e instiga a uma nova maneira de enxergar o mundo.

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* Professor universitário, escritor e pesquisador, membro da Associação Sergipana de Imprensa

**Refere-se ao escritor Machado de Assis (1839-1908), romancista, contista, dramaturgo e poeta que alcançou o ponto mais alto e equilibrado da prosa realista brasileira.

Comentários:

Uma resposta para “O Passo de Estefânia vai além dos seus limites”

  1. Gerdiel disse:

    Não se esqueça da Professora Carmelita Pinto Fontes.

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