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Lagarto, 23-06-2017

A fala que acalanta

Rusel Barroso, 28 de agosto de 2010

Extraído do Jornal SergipeHoje – Ecos & Letras – Cultura – Pág. 7 – 16 a 23 de setembro de 2001

 

A exemplo de Graciliano Ramos, um dos maiores escritores da literatura nacional, Socorro Rocha brota para os leitores com uma grafia envolvente e bem particular.

A escritora Socorro Rocha usa a palavra como estímulo à vida. Ela desvenda os segredos íntimos do coração e conhece, como poucos, o sentido de sua poesia. Sabe que o poeta escreve porque tem que dar consolo e esperança aos corações angustiados; escreve porque precisa denunciar aquilo que as gargantas de muitos não ousam dizer; escreve pelo fato de se sentir bem e poder retribuir esta felicidade, de sentir a dor e poder dividí-la, somente. O livro O gosto da fala confidente já nos deixa claro, em seu título, seus objetivos – o prazer pelas letras e o conseqüente relaxamento d’alma.

A poeta escreve de maneira despretensiosa e simples. Suas poesias são curtas e diretas, contudo com uma profundidade que invade os sentimentos de quem as lê. Seus temas principais são relativos à própria arte de escrever e aos conflitos humanos mais comuns. Sua poesia transcende as reticências nela empregadas e nos leva a refletir a vida e suas amarguras. O texto da escritora é despreocupado com a rima, mas sem perder a beleza do ritmo. Tal presença é suave por todas as laudas desta obra acalentadora. A melodia quebra o tédio de quem faz a leitura e instiga a virar a próxima página.

Destacam-se muitos poemas, aos quais são indispensáveis comentários. Um belo exemplo pode ser visto no texto “Da janela da torre, os sinos desafinam!”, que se vale do comportamento das pessoas no período natalino ao alertar para as atitudes fúteis e os sentimentos hipócritas em uma data que representaria o despertar dos sentimentos mais nobres no seio humano. Ainda sobre o tema social, Socorro Rocha disserta sobre a fome e a desigualdade, ao comentar a respeito do alimento mais básico de todos em “Sobre o pão”.

Utilizando o recurso metalingüístico, a poeta fala sobre o seu próprio labor, ao discorrer sobre a dor de quem escreve e a maneira que o poeta tem para escondê-la e transformá-la em beleza. Fala sobre o poeta oculto que brada o que os outros não têm coragem de sussurrar. Tudo expresso, principalmente, nas poesias “Verbos devorados” e “A sorte da letra”.

Ao ler atentamente a obra, aprecia-se a fascinação da escritora pelo nosso satélite natural. Rocha descreve o astro dos apaixonados que brilha em favor dos parvos. As poesias “Luamente” e “Em favor dos tolos” ressaltam que o homem, assim como a lua, reflete o brilho e a luz.

A propósito, brilho e luz nos lembram a mais bela das poesias religiosas “Maria de Deus, roga por nós!”, que trata da esperança e da fé do nosso povo ao acreditar na misericórdia do Criador.

Para mostrar o ecletismo na inspiração de seus temas, a poeta escreve sobre o envelhecer, sobre a fugacidade da vida e desenlace do espírito. A poesia “No tempo da alma” se inicia de maneira belíssima com um verso de Guimarães Rosa: “As pessoas não morrem, ficam encantadas…”.

O projeto gráfico da capa é primoroso e, inconscientemente, nos transporta à serenidade de um ambiente, onde os sentimentos daqueles que nos cercam dão asas à imaginação.

A conclusão a que chegamos é de que a poeta Socorro Rocha é uma lápide firme da poesia nacional, que encanta com a sua arte de escrever em versos. O gosto da fala confidente vem firmar o amadurecimento da escritora que, ao publicar este seu quarto livro, nos mostra um pouco de sua personalidade doce e marcante.

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