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Lagarto, 17-10-2017

A festa de formatura

Antonio Rocha, 22 de setembro de 2010

A turma de medicina não acreditava que a proposta de formatura unificada, programada para a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Federal de Sergipe, prosperasse. Em verdade, torcia para que não fosse aprovada, pois não queria companhia. Era um direito. No entanto, era dever explicitar tal posição, sem condicionar aos colegas do outro curso a possibilidade de estender a unificação às demais solenidades – inclusive, ao baile de formatura -, à oficialização da reitoria. Fazê-lo depois do anúncio foi uma atitude mesquinha.

Ficou patente, portanto, que a amizade gerada pelo contato diário nos corredores do Hospital de Cirurgia, nas aulas de Medicina Legal (ministradas pelo cirurgião-dentista e médico José Hamilton Maciel, pela psiquiatra Ilma Fontes e pelo advogado e cirurgião-dentista Luis Rego) e nos serviços dentários prestados pelos formandos de odontologia era aparente, senão demasiadamente frágil para suportar a força do preconceito.

A aquela altura, quase na metade do ano, a reviravolta acabou “premiando” os concludentes do curso de odontologia com uma dificuldade a mais. Ter que arcar sozinhos com a responsabilidade de arrecadar os fundos necessários para custear as festividades não seria fácil. Os quatorze alunos, os seus pais e os homenageados já haviam contribuído com o que podiam. Além dessa, havia outras pela frente: a dureza das disciplinas da grade curricular do último semestre e o não reconhecimento do curso por parte do Ministério da Educação e Cultura, cujo processo se arrastava na burocracia governamental há anos.

O Paraninfo da turma, Prof. Carlos José Magalhães de Melo; o Patrono, Prof. Edildécio Andrade Vieira; e o professor João Andrade Garcez, sensibilizados com a causa, e no afã de encontrar uma solução conciliadora que amenizasse o clima de animosidade, convenceram seus alunos a tentar um último entendimento junto ao Paraninfo da turma de medicina, já que a oficialização da cerimônia unificada era um fato consumado.

A empreitada, no entanto, não prosperou. O Paraninfo da turma de medicina foi intransigente. Irônico, insistia na tese da suposta superioridade dos médicos sobre os dentistas. Ademais, duvidava da irrevogabilidade da decisão da reitoria, bravateando a abertura de um precedente que possibilitaria uma cerimônia única para os seus apadrinhados.

As provocações proferidas na fracassada reunião serviram para mobilizar os formandos de odontologia, que combinaram duas frentes de luta: a primeira, para tentar resolver o impasse do reconhecimento do curso, calcada em acatar a sugestão do pai do colega Hélio, Coronel Hermeto Feitosa – avalizada posteriormente pela direção da Faculdade -, que consistia em procurar o auxílio de Dom Luciano José Cabral Duarte, Arcebispo Metropolitano de Aracaju e membro do Conselho Federal de Educação; a segunda, na instituição de um livro de ouro destinado a arrecadar parte dos fundos que precisavam.

Dom Luciano se comprometeu a ajudar, porém foi taxativo em não interferir no mérito do processo. Somente pediria agilidade ao relator. A ansiedade pelo reconhecimento e a dúvida que persistia quanto à celeridade solicitada, suscitou uma estratégia adicional: o revezamento dos alunos, em comissões especiais, para recepcionar o Arcebispo no aeroporto a cada vez que voltasse de Brasília –onde participava das reuniões do mencionado Conselho– e conduzi-lo até a sede da Cúria Metropolitana, com o propósito implícito de manter acesa a lembrança do pleito. Deu certo, pois o curso foi reconhecido oficialmente meses depois.

O livro de ouro foi um sucesso. Os dentistas visitados (indignados com a discriminação) não regateavam os valores pedidos para assiná-lo. O montante arrecadado somado aos rendimentos da barraca de produtos típicos (armada durante o Festival de Artes de São Cristóvão) alcançou os valores estimados para custear as despesas, permitindo que fossem contratados o salão de recepção e o Buffet do Hotel Palace; a orquestra R Som 7, de Lagarto; a impressão dos convites; a placa comemorativa, na Fundição Holanda e os demais serviços pertinentes à organização da missa e do cerimonial.

As comemorações começaram com um mês de antecedência. Houve festas nas casas de Edith e de Iucema, na Faculdade e na Sociedade Odontológica de Sergipe. Antonia Wiltshire ofereceu um almoço na “Adega do Antônio”. Magalhães promoveu um “rabeio” no Restaurante João do Alho. As celebrações foram tantas que quase o saudoso Mario Carvalho não agüenta de tanta emoção, precisando ser hospitalizado.

Enquanto a turma de odontologia festejava, a de medicina amargava a notícia que negava a abertura do precedente. Em vez de uma cerimônia particular, os professores Luís Bispo e Aloísio Andrade mandaram um ultimato: quem não quisesse colar grau na solenidade unificada, que o fizesse na secretaria da Faculdade, num dia de expediente normal.

As festividades foram iniciadas com o discurso do Patrono, por ocasião do descerramento da placa comemorativa fixada nas dependências da Faculdade, a cargo do Paraninfo e de Dom Luciano, que, em seguida, rezou a missa solene no pátio do Hospital de Cirurgia. Ao final, a banda de música do Corpo de Bombeiros, a pedido do Dr. João Garcez, homenageou os presentes.

No segundo dia, no auditório do colégio Atheneu Sergipense, houve a solenidade de colação de grau, acontecendo uma inesperada surpresa: a presença de parte dos estudantes de medicina, que, de última hora, deixaram o capricho de lado e resolveram participar da cerimônia unificada, à revelia do sarcástico Paraninfo. Vale frisar que não houve o temido clima de animosidade e tudo transcorreu num clima de civilidade. Os formandos de odontologia foram magnânimos ao demonstrar que não cultivavam preconceitos nem ressentimentos.

No terceiro dia da programação, foi a vez do ponto mais alto das comemorações: o polêmico e aguardado baile, que começou pontualmente às vinte e três horas, terminando às cinco horas da manhã do dia seguinte.

Encerradas as comemorações, restou a consciência de que o êxito das festividades da turma de odontologia de mil novecentos e setenta e cinco, em parte, deveria ser creditado ao pessoal de medicina, afinal, o sentimento de preconceito fora determinante para o sucesso alcançado. Há males que vêm para o bem.

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