Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 29-04-2017

Maninho de Zilá

Euler Ferreira, 6 de abril de 2013

Chamava-se José Antônio da Costa, figura excepcional por tudo que representou no dia a dia de sua cidade natal, embora nem sempre a gente percebesse que ele, com suas manifestações de cidadão correto e apegado como poucos às raízes da terra berço, injetava em cada um de nós aquele sentimento de amor sem limites por nosso lugar de nome estranho. Sem dúvida, Lagarto até hoje sente saudades de Maninho de Zilá, filho de Deus bom de se conviver, uma dessas pessoas formidáveis que ficam para sempre guardadas no íntimo de nossas lembranças mais queridas, que o diga dona Isaura, parceira inseparável do maior retratista que já tivemos. Pena que tenha nos deixado tão cedo.

Católico fervoroso, durante décadas esteve na linha de frente de toda a movimentação que culminava com a festa da Padroeira: todos os anos, no dia 8 de setembro, dedicado a Nossa Senhora da Piedade, ele acordava cedo para participar da alvorada festiva às 5 horas da manhã. Só parava depois que a multidão começava a se recolher para suas casas lá por volta das 8 da noite, após a procissão pelas ruas e avenidas da cidade e o encerramento da solenidade na Praça da Matriz.

Maninho era homem de muitas facetas e atitudes altruístas por conta de um coração bondoso, jovial e alegre.

Conheci Maninho de Zilá no limiar de minha adolescência, quando ele era requisitado exaustivamente para registrar com a sua Rolleflex todos os grandes momentos festivos vividos pelos moradores de Lagarto: casamentos, batizados, primeira comunhão, bailes juninos e de carnaval, enfim, as fotografias em preto e branco tiradas por Maninho continuam vivas, são um capítulo à parte na recente história do município. Muitos rolos de filmes foram utilizados para que fosse possível ilustrar fartamente alguns dos mais importantes momentos históricos do Lagarto que ele tanto amava. Nas décadas de sessenta e setenta, Maninho de Zilá era uma espécie de retratista oficial da cidade. Durante muitos anos, quando se pensava em ‘tirar retrato’ pensava-se nele, não havia uma segunda alternativa, um plano b ou algo parecido.

Um retratista de mão cheia que se dava ao luxo de demorar de cinco a seis meses para revelar as fotografias. Era comum a turma de amigos se reunir para ver no período junino as fotos tiradas no carnaval passado. Ninguém se chateava. Afinal, se não existisse Maninho com a sua Rolleflex nossos momentos jamais seriam imortalizados, ademais, tínhamos paciência e todo o tempo do mundo. Para a minha geração de adolescentes, tempo e dinheiro não importavam, não representavam muito.

Por ser influente e prestativo, Maninho foi por muitos anos um dedicado diretor da Associação Atlética de Lagarto, local onde os jovens de tradicionais famílias se encontravam por ocasião dos bailes. Na época, festa na AAL era algo imperdível porque reunia no mesmo espaço moças e rapazes que em muitos casos quase não se encontravam lá fora, por obra e graça do rigor de alguns pais. Mas, uma vez dentro do clube, aí meu nego, a situação ganhava contornos que nos favoreciam. Ali, a molecada sabia que dia de baile significava um daqueles momentos aguardados com ansiedade, quando nós outros e as divinas dos nossos sonhos mais profanos se encontravam para uma possível paquera enquanto os corpos bailavam transformando cada segundo na doce eternidade lembrada pelos poetas, dando vazão aos apelos da natureza libidinosa.

“… ali, onde o pião rodava sem sair do lugar, bem no meio do salão, ali mesmo, morava o perigo”, disse-me certo dia o querido Maninho de Zilá. Na verdade, ele nunca gostou de ver a luz do salão de festas apagada quando a orquestra iniciava o baile. Se dependesse dele, justo naquele momento a pequena pista do clube deveria estar toda iluminada, clara como dia de sol o tempo todo. Voto vencido, só lhe restava aplicar a chamada marcação cerrada, sem trégua, uma prática que acabava dando certo porque a rapaziada respeitava Maninho sem dar um pio.

Lembro-me de um dia cruel: baile na AAL abrilhantado pela orquestra mexicana Marimba Alma Latina, aplaudida internacionalmente. Festa cara, todas as mesas vendidas, moças e rapazes com suas melhores roupas e intenções! Quem tinha namorada, estava feliz da vida. Quem não tinha, precisava se esforçar o máximo para conseguir fazer bonito ao ser aceito para dançar com uma das mais belas garotas da festa. Na verdade, a moçada sabia que aquele era um dos momentos sonhados por todos.

Baile iniciado, a rapaziada ficou na expectativa aguardando a orquestra entrar com os acordes da sessão bolero – do fenomenal Bievenido Granja. Não foi preciso esperar muito. Quando começou o momento do ‘dois pra lá e dois pra cá’, aumentou o número de casais jovens na pista, principalmente no meio do salão, por ser espaço mais estratégico para certas intimidades impróprias aos olhares dos pais das meninas, que ficavam nas mesas tomando uísque Drurys, falando alto e conversando besteira. Pois bem: uma vez lá no epicentro do rala e rola, a coisa fluiu naturalmente. Corpos grudados, beijos nervosos e rápidos entre juras de amor ensaiadas previamente, uma quentura incrível nas chamadas partes baixas tornavam o bailar mais sensual, o suficiente para despertar comentários maldosos de três solteironas horrorosas – sempre elas – que não desgrudavam os olhos dos movimentos promovidos pelas cinturas do casal dançante. As pestes, certamente sufocadas de desejo, entre o abanar de seus leques e gestos nervosos de quem procura alguém, conseguiram despertar a atenção de Maninho de Zilá.

Justo no momento em que as duas saíram para futricar no banheiro, entrou em ação a múltipla figura do temido diretor do clube: mãos para trás, óculos na ponta do nariz, deslizando pausadamente com o corpo curvado para a frente, meio bailando, indefectível olhar investigativo, ele circundou a pista pelas laterais, atento ao rala e rola. Quando desconfiou que estava em andamento um possível início de esfrega excessivo, agiu prontamente sem desprezar seu bolero solo; serpenteou entre os casais dançantes até ficar a um metro do primeiro alvo suspeito. Deu uma olhada tipo ‘respeito é bom e eu gosto’ ao tempo que pediu com as mãos que os corpos se afastassem um pouco.

Atendido, retornou às laterais da forma como tinha saído, bailando sozinho ao som do bolero. Minutos depois, ele sentiu no ar algo mais do que o cheiro de ‘Toque de Amor’, perfume chique da época. Subiu no palco para mapear a área suspeita. Baixou um pouco os óculos em busca de visão mais precisa dos casais que ocupavam o salão escuro, farejou, desceu ao nível dos dançantes, serpenteou novamente procurando um outro ângulo mais consistente, até não ter nenhuma dúvida. Quando concluiu que as partes íntimas de determinado casal estavam subjugadas pelo desejo, uma acariciando a outra, deixando configurada a prática lasciva sem a mínima chance de reversão dada à circunstância do prazer estampado no rosto de um e de outro, Maninho agiu prontamente para evitar uma desgraça, que poderia chegar a galope caso o pai da garota visse o que estava em andamento. Sem pestanejar, caminhou rápido em direção à secretaria do clube, onde estavam os interruptores de energia. Como eram muitos, utilizou as duas mãos acendendo de uma só vez todas as lâmpadas… Práááá. Fez-se a luz!

No salão, nem todos entenderam o porquê de tanta claridade na sessão bolero. Quem entendeu sabia que tinha pinto duro em excesso. As tais coroas fofoqueiras, num êxtase sem limites, começaram feito loucas a apontar de forma desordenada em várias direções, despertando a curiosidade de todos. Olhares atentos e desconfiados perceberam que uns dez casais desistiram de dançar. Assustados ante o infortúnio do elemento surpresa utilizado por Maninho, vários rapazes saíram desajeitados do foco central da festa, um atropelando outro em fuga desesperada e constrangedora a caminho do banheiro. Todos eles, mortos de vergonha, com a mão no bolso segurando o destemido pingolim que insistia bravamente em permanecer de pé.

Situação normalizada, o ambiente voltou às escuras.

Satisfeito, com aquele ar de missão cumprida, Maninho de Zilá retornou a bailar sozinho, só que em direção à sua mesa de pista. Lá, sentadinha, estava a sua amada companheira Isaura. Dançaram até as quatro da madrugada, felizes e alegres como sempre.

Comentários:

3 respostas para “Euler Ferreira”

  1. Paulo Ferreira do Nascimento disse:

    Límpida e resplandescente, como o mais puro dos diamantes, a crônica “O cochilo do Mons. Jason” evoca miríades contemplativas dos tempos de ouro da vida lagartense, narrada de forma simples, aconchegante e sobretudo exata, de um Ferreira nato. Voei nas asas do relato e vivenciei por instantes, os bons momentos de férias e lazer que sempre passei na terra que um dia me viu reencarnar.

  2. Rivaldo Fonseca disse:

    Coisas que nem o tempo apaga. Ao ler a sua crônica, Euler, lembrei-me muito da minha diretora no Sílvio Romero. Afinal, não se pode esquecer a famosa D. Elisia.

  3. Paulo Ferreira disse:

    Lagarto tinha tudo isso e muito mais: as saudosas retretas nas noites frias da Praça da Piedade; o sabor unico da maniçobas e o cheirinho gostososo dos rolos de fumo na praça da feira… coisas que nem o tempo apagará.

Deixe uma resposta