A fatídica história de um lagartense
Rusel Barroso, 16 de abril de 2012
PHILOMENO (DE VASCONCELLOS) HORA – advogado, casado com Anna Dantas de Magalhães Hora, pai de Filomeno Vasconcelos Hora Filho e de Lauro Dantas Hora, os quais, a exemplo de seu pai, também conquistaram posições destacadas (o primeiro, renomado cirurgião dentista; o outro, médico conceituado e, mais tarde, patrono da Academia Sergipana de Medicina), torna-se Juiz de Direito, mas sua brilhante carreira é interrompida quando é assassinado em 8 de janeiro de 1902, no logradouro que, atualmente, leva o seu nome: Praça Dr. Filomeno Hora, localizado na cidade de Lagarto (SE).
Assinala esse período uma transição política, em que deixa o Paço Municipal o intendente Sebastião Garcez e ocupa o seu lugar Felino Fontes, marcado por esse lastimável episódio: o assassinato de tão insigne lagartense, ao que se sabe, por conta de animosidades políticas da época. Essa história, passada por diferentes gerações, aqui transformamos em conto.
FILOMENO HORA: a fatídica história de um lagartense
Rusel Barroso*
No exercício da magistratura, profissão que escolhera muito condignamente, Dr. Filomeno Hora era um exemplo. Cidadão de uma conduta extremamente ilibada, tributava profundo afeto à esposa e aos filhos, além da atenção que proporcionava às pessoas, o que fizera dele uma das autoridades mais respeitadas do seu tempo na região.
Não obstante seu temperamento pacato, o juiz de Direito não imaginava o que o destino lhe reservava naquela ensolarada manhã de segunda-feira, 8 de dezembro de 1902, aparentemente, apenas mais um dia agitado em que as ruas do Lagarto eram tomadas de gente que vinha para a feira livre da Praça dos Barracões.
No referido local, feirantes e populares se aglomeravam para os bate-papos e negócios de rotina, quando dois indivíduos, outrora trabalhadores de Doutor Felino Fontes, surgiram para mudar aquele cenário, já que um deles, portador de uma faca, trazia consigo a inquietude de quem desejava por em desordem aquele ambiente de encontro entre amigos. Os soldados que estavam em serviço naquele local, trataram de desarmá-lo, mas como houve resistência, resolveram, após regressarem ao quartel, convocar o furriel Adolfo Monteiro – sob cujas ordens se encontravam –, em sua residência. Adolfo, não atendendo aos apelos de sua genitora, encaminha-se à praça.
Contam que, naquela manhã, o furriel achava-se adoentado e, à paisana. Os rumores da agitação do logradouro, logo tomaram conta da cidade, chegando ao conhecimento do Juiz de Direito e demais autoridades. Doutor Filomeno Hora, cônscio de seu dever e do seu posto, coloca seu chapéu, toma o paletó de nobre linhagem e dirige-se à feira.
Adolfo, ao se aproximar dos barracões para desarmar os arruaceiros, foi surpreendido pelo Juiz, que se fizera acompanhar do Promotor Público Hipólito Emílio dos Santos e do Juiz Municipal Dr. Alcides de Aquino Braga. Doutor Filomeno, enfrentando os soldados, censura seus procedimentos, chamando-os à ordem, o que suscitou a que o furriel Monteiro apontasse a carabina para o Promotor que conseguiu desviá-la, ao mesmo tempo em que gritou o magistrado: “Abaixe essa arma, Adolpho! O senhor quer tirar a vida do Promotor?”. Adolfo retrucou: “Se não tiro a dele, tiro a sua!”.
É sabido que o Dr. Filomeno Hora abriu o paletó e posicionou-se em frente à carabina, desafiando-o: “Se você pensa que é mais autoridade do que eu, atire!”, momento em que a arma dispara, ouve-se um estampido e o Juiz cai inconsciente.
Adolfo, aparentemente ferido, desaparece no meio da multidão, que logo se dispersa. Os soldados, em número de cinco, voltam ao quartel, desertando em seguida.
Naquele instante, Lagarto se transforma e uma comoção toma conta da cidade. A notícia da morte de Dr. Filomeno Hora corre aos quatro ventos e logo todo o Estado toma conhecimento. O soldado Adolfo, há pouco tempo promovido a fourrier (patente similar a que hoje denominamos de cabo), havia se evadido do local, mas a ordem de busca e prisão fora imediatamente dada pelo comando de polícia do Estado, representado por um Doutor Chefe de Polícia, acompanhado de um oficial do Corpo Policial, a fim de manter a ordem e não deixar impune o fato delituoso.
Na manhã do dia 9, Adolfo é brutalmente executado no povoado Santo Antônio, com projéteis de arma de fogo e de instrumentos cortantes e perfurantes, como se num ajuste de contas para aplacar a dor da família Hora e da sociedade lagartense, que acabavam de perder um dos seus representantes mais nobres e que deixara como legado o exemplo de seriedade e honradez no cumprimento do dever de sua profissão.
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P.S.: Colaboraram para construção deste conto, com valiosas informações, os conterrâneos José Vieira Prata (auditor de tributos), Joaquim Prata Sousa (defensor público), Antônio José Monteiro Rocha (cirurgião-dentista), Maria da Piedade Hora (professora) e Valdier Oliveira Cezar (bancário).
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