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Lagarto, 20-08-2017

Os religiosos

Antonio Rocha, 21 de dezembro de 2010

Eles moravam em Aracaju, no mesmo bairro. Embora se conhecessem, não eram amigos. Diferiam quanto ao temperamento: um era bastante recatado e cumpridor retilíneo das obrigações dominicais católicas, fruto do rigor da educação que recebera em casa. Dócil, nem parecia descender dos Monteiro e da família de Otoniel Vieira, conhecidos pela natureza explosiva; o outro era bem extrovertido. Fora professor de química e matemática do tradicional Atheneu Sergipense. Na Faculdade de química industrial da UFS, era conhecido pelo apelido Kid Cegaço, devido ao uso de óculos de lentes grossas, tipo fundo de garrafa. Boêmio inveterado, era frequentador do Cacique Chá, da Yara, da Cascatinha, do bar do Pinto e do Esgotinho, das boates familiares e de outras da pesada, como a Manon Dancing, Bambu, Ciganinha e Fazendinha, entre outras.

Vieram trabalhar em Lagarto no mesmo ano. O recatado, por ter sido aprovado em concurso público e chamado para trabalhar na agência local da Caixa Econômica Federal. O extrovertido, por ter sido convocado pelo secretário da educação e cultura do Estado de Sergipe, para assumir a regional de ensino, sediada na cidade. Ambos se hospedaram no velho Hotel Vitória, quando se tornaram amigos de fato.

Lagarto, à época, era uma cidade pacata. Quase não oferecia diversão. As opções de lazer ficavam por conta do Cine Glória, dos jogos de futebol no estádio Paulo Barreto, dos encontros na churrascaria do Pedro e na casa de amigos para ouvir música, jogar cartas e conversa fora.

Monteiro não estranhou a vida calma da cidade. Estava de acordo com o padrão da que levava em Aracaju. Para ele, tudo era normal. Antonio, no entanto, sentiu bastante. Devido à natureza da função que exercia, tinha consciência que não ficava bem cair na tentação. Portanto, por força das circunstâncias, mudara o estilo de vida.  Agora era o “Professor Antonio”, querido, admirado e respeitado por todos.

A convivência entre ambos, que a princípio se resumia aos dias passados em Lagarto, aos poucos foi se estendendo até aos finais de semana de Aracaju. Monteiro, rapidamente sucumbiu à tentação de acompanhar Antonio nas noitadas. Tal qual formiga, que quando quer se perder cria asas, encantado com o espírito libertino do amigo, achou que era chegada a hora de navegar por mares desconhecidos, caindo na esbórnia. Contudo, tomava todos os cuidados para nada chegar ao conhecimento do pai, por quem guardava muito mais respeito do que temor.

De tanto curtir sucessivamente as delícias da luxúria, era de se esperar que um dia fosse traído pelo descuido. O vacilo não demorou muito a chegar. Numa noitada, seduzido pelos encantos de uma morena da Fazendinha, perdeu a hora. Acordou quase às sete da manhã do domingo. Aturdido, arrancou da mesa o parceiro, que curtia alegremente mais uma rodada de cerveja, e de imediato trilhou o caminho de casa. Ao se aproximar, ainda um tanto longe, vislumbrou a silueta inconfundível do pai, na porta. “Meu pai!  O que é que eu faço?”, bradou desesperado. “Calma, deixe que eu resolvo. Vou dizer que estávamos na missa. Fique na sua!”, tranquilizou Antonio.

Monteiro, pálido e trêmulo, desceu do carro. Antonio, com calma estudada, dirigiu-se ao patriarca argumentando que haviam ido à Igreja bem cedinho, em jejum, pois queriam receber a comunhão; que o padre se estendera demais na homilia, com um sermão tão comovente, condenando o pecado da luxúria, que ninguém percebeu o tempo passar. Adiantou que somente se deu conta porque Monteiro tinha sentido um princípio de vertigem, talvez pela falta da alimentação matinal.

A lábia foi providencial. O velho não só acreditou como ficou comovido com o espírito religioso de ambos, e não questionou mais nada. Ao contrário, mostrou-se solícito ao insistir que o professor acompanhasse o seu filho no desjejum.

Apesar de a lábia ter dado certo, o susto passado deixou sequelas. Por algum tempo, ainda continuaram saindo juntos, porém de forma mais comedida. Nada de fazendinhas, ciganinhas e outros lugares afins. Monteiro aprendera a resistir às tentações da vida profana e às investidas do professor.

A parceria, no entanto, só viria a acabar quando Antonio foi chamado a trabalhar em São Paulo. Monteiro casou e voltou à sua vida recatada. O professor, posteriormente, transferiu-se para o Rio Grande do Norte, através da Petrobrás, onde se tornou um respeitado cidadão potiguar.

Comentários:

Uma resposta para “Os religiosos”

  1. Sonia Pedrosa disse:

    Maravilhoso, Toinho! Belo texto! Ótima história!

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