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Lagarto, 19-11-2017

Prof. João Costa: um formador de gerações

Rusel Barroso, 30 de janeiro de 2011

Do lado do Tejo, de Camões a Pessoa, o caminho é português; para além do Tejo, de Vieira a Guimarães, há a América e aqueles que mimam a sua língua com alento poético. O professor João Costa é um desses exemplos que se manterá vivo em nossa história. Teatrólogo, pesquisador, exímio mestre e infatigável cultor da Língua Portuguesa, de cujo nome não é fácil falar, contribuiu, ao longo dos anos, para a formação de gerações.

Muitos profissionais simplesmente passam; outros, da estirpe de João Costa, deveras iluminados, acompanham-nos no pensamento, com lições de vida que certos bens não podem pagar. Estes nos deixam um cabedal tão precioso e nos cativam de tal maneira, que os manter em nossa memória é um leniente que palavras são incapazes de traduzir.

Participar de suas aulas, na Universidade Federal de Sergipe, era muito mais que uma viagem através de histórias surpreendentes, a ilustrar com clareza, dinamismo e criatividade os aspectos inesgotáveis da língua, um verdadeiro mergulho no âmago do nosso vernáculo com uma velocidade e sutileza semelhantes ao voo de uma abelha voraz. O que era ensinado, a cada aula, enriquecia-nos muito além da vida profissional. Sua capacidade de guardar informações, com tamanha naturalidade, provocava invídia, até mesmo, a alguns estudiosos.

Sobremodo organizado no exercício da profissão, vale lembrar que João Costa, um dos mais envolventes mestres da FAFI, abria seu peito à paixão dos estudantes. Com fala bem posta, articulada e clara, estimulava os alunos com aulas de sutilezas filológicas e de completo domínio dos segredos da língua portuguesa. Sua excelência intelectual, não raro, colava-se a seu jeito impulsivo e exigente, numa franqueza que lhe rendeu desencantos, mas, sobretudo, admirações.

Como o tempo passa depressa e não se importa com os benefícios ou danos que possa causar! Seria tão bom se pudéssemos voltar no tempo para começar tudo outra vez. Que pena não haver mais essa possibilidade! Conforta-nos, apenas, a certeza de que guardaremos a sua fala em nosso pensamento, tal qual ele mesmo, certa vez descrevera aquela casa da Avenida Angélica, de Maria José Dupré. Enfim, todas as vezes que sentirmos o aroma de erva-doce ou que observarmos o abacateiro que já não carrega mais, seremos transportados àquela casa, que, em sua fala, nos conduzia ao seu tempo de menino numa pequena cidade das Alagoas.

Morre João Costa, janeiro de 2011, mas ficam conosco as suas marcas nas ideias, nos exemplos, nas contribuições que se multiplicarão para a posteridade. E, como exemplo de vida, guardaremos a frase: “Procurem ser cuidadosos com a fala, pois agora fazem parte da elite cultural. Lembrem-se de que ela é a arte de fazer amigos ou inimigos, portanto, sejam cautelosos ao utilizá-la”, de sua autoria.

O registro que faz Aurélio Buarque de Holanda em seu Dicionário da Língua Portuguesa, diz que SAUDADE é “lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; pesar pela ausência de alguém que nos é querido, nostalgia”.

Uma grande parte das composições poéticas e musicais brasileiras se serve da saudade como motivo de suas criações. A saudade está nos provérbios como ensinamentos de vida; é a companheira dos que não têm companhia.

Li, certa vez, que à proporção que avançamos em anos, a experiência, mestra da vida, nos desafia aliada às decepções que nos esperam. O que era encanto e poesia aos olhos infantis, agora se transforma em monotonia, e as saudades, estranhas e místicas, rondam noite e dia. Saudade de uma época pueril, de nossos entes passados, dos sonhos primaveris, das poéticas e formosas visões que nos povoam a mente imatura, uma doce sensação de paz que nos toma.

A saudade não é apenas o recordar, mas o ir através do tempo e do espaço, o reviver instantes felizes que não voltam mais.

No mundo da educação, a saudade pairou no ar, já que não mais pôde ser difundida, mas ficam na lembrança a voz, os caderninhos, os gestos, as palavras, os sorrisos e os momentos guardados por tanta gente que teve o privilégio de receber seus ensinamentos – tesouros que nos ajudarão a preencher essa grande lacuna que o mestre e amigo João Costa nos deixa – um blackout que nos silencia, pois fica apenas a sensação de sua voz guardada no cerne das recordações.

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Rusel Barroso é escritor e pesquisador lagartense, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e da Associação Sergipana de Imprensa, integrante do Comitê Gestor e do Conselho de Ética da Faculdade AGES.

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Comentários:

4 respostas para “Prof. João Costa: um formador de gerações”

  1. Iara Silva de Carvalho disse:

    Sei que onde ele estiver, estará recebendo essa homenagem. Parabéns para quem escreveu. João Costa era isso tudo e muito mais. Foi bom ter sido aluna dele. Deus o abençoe em sua nova morada. Saudades, Iara Carvalho

  2. Caio Dias disse:

    Por mais que se fale de João Costa, é muito pouco, mas não contive a emoção em perceber, nas entrelinhas, que ainda existem amigos que se admiram. Uma pena que o velho professor não teve o prazer da leitura de um texto tão bonito e verdadeiro.

  3. Maria Cristina disse:

    Também tive a honra de ser aluna do querido professor João Costa. O ano era 1983, o colégio… Unificado, teceiro ano do ensino médio, preparação para o vestibular… que saudade! As aulas eram tão dinâmicas que ninguém percebia o tempo passar… uma delícia aprender português com ele. Agora, nossa classe ficou mais pobre! Até um dia, caro mestre!

  4. Gerdiel disse:

    Fui aluno do Prof. João Costa, na década de oitenta, na UFS.
    Como você afirmou nas suas declarações, as aulas do referido professor são inesquecíveis.

    “Para ser um bom professor de português é necessário ter conhecimento de, pelo menos, duas outras línguas […]”. Essa foi umas das muitas lições que aprendi com o memorável professor João Costa.

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