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Lagarto, 23-06-2017

A casca de banana

Antonio Rocha, 17 de fevereiro de 2011

Ao amigo Vaubério Cézar, o mais assíduo leitor das minhas estórias, e ao Prof. Rusel Barroso, a quem sempre apelo para as correções ortográficas e gramaticais.

Tudo começou quando o colega Gustavo leu a carta remetida por Hélio Barreto, propondo uma espécie de intercâmbio turístico entre os alunos do quarto ano ginasial do Laudelino Freire e os congêneres do Murilo Braga, de Itabaiana. A ideia consistia, inicialmente, numa viagem à cidade serrana, onde os alunos de Lagarto seriam recepcionados. No final de semana seguinte, a vez dos estudantes itabaianenses serem recebidos pelos lagartenses. Colocada em votação, a sugestão do congraçamento foi aprovada por aclamação.

Àquela época, a economia do município de Lagarto, como a da maior parte dos municípios nordestinos, dependia basicamente de atividades do setor primário e oferecia poucas alternativas de renda.  Eram tempos difíceis e nem todos tinham o privilégio da minoria que ganhava dinheiro com a pecuária, com a exportação de fumo ou com o comércio da cidade.  Portanto, o custeio das despesas da viagem e da organização da festa de recepção na Associação Atlética de Lagarto não poderia ser viabilizado somente com recursos dos pais dos alunos, cuja maioria tirava o sustento das suas famílias no árduo trabalho da lavoura e de pequenos negócios nas feiras livres.

O problema da hospedagem havia sido resolvido através de uma maneira bem criativa e de custo zero: cada estudante do Laudelino ficaria alojado na casa de um aluno do Murilo Braga, assumindo o compromisso de retribuir a hospitalidade quando da estada do colega em Lagarto. A única dificuldade a persistir, portanto, era a de arrumar o restante dos recursos para complementar as demais despesas. Daí a necessidade de se organizar uma comissão especial, encabeçada pelos alunos mais extrovertidos, que ficaria encarregada de levar uma carta solicitando ajuda à comunidade.

A empreitada deu certo. Com os recursos assegurados, a excursão a Itabaiana e a recepção patrocinada em Lagarto foram realizadas com êxito. Poder-se-ia dizer que tudo havia corrido às mil maravilhas, se não fosse o transtorno causado por um pequeno lapso ortográfico contido na carta, fruto de desatenção e da displicência do redator, que acabou pagando um pesado tributo por ter se esquecido de submetê-la à correção.

O professor de português, conhecedor ímpar da gramática e da ortografia, não se cansava de alertar os estudantes sobre as armadilhas que a língua pátria guardava, conclamando-os para a importância do aprendizado. Perfeccionista ao extremo, repreendia com rigor o menor erro que detectasse, segundo ele, para que nunca mais fosse repetido. Portanto, de antemão, estava claro que ao se deparar com a missiva e ler a palavra comissão escrita com “ç”, reagiria energicamente.

Não deu outra. No dia seguinte, disfarçando o desapontamento, começou a aula com um habilidoso discurso, elogiando a iniciativa dos alunos pela intenção de promover o importante intercâmbio, a disposição para enfrentar a adversidade financeira e também desejando sucesso ao objetivo pretendido. Após o auspicioso preâmbulo, passou a tecer os mais rasgados elogios ao estilo e ao meticuloso cuidado com que a carta havia sido escrita.  Concluindo a prodigiosa oração, percebendo que todos estavam extasiados, perguntou o nome do responsável pela redação, a fim de parabenizá-lo. “Fui eu, professor!”, respondeu Gilson, com o semblante estampado de felicidade. Sem saber, inebriado pela salva de elogios, havia pisado na escorregadia “casca de banana” que, sutilmente, fora colocada no seu caminho.

A reprimenda foi impiedosa, de uma natureza jamais vista no Ginásio, que nem mesmo poderia ser igualada àquela que recebi quando errei a solução de um problema algébrico diante do quadro negro, e bem conhecida dos estudantes. O vexame, que já era grande, tornou-se bem maior por causa da zombaria dos colegas, que se desdobraram em sonoras gargalhadas.

No entanto, fiel à tradição dos bons estudantes do Laudelino, Gilson não desanimou. De forma altiva, assumiu o erro e brindou os colegas com um exemplo de superação a ser seguido: tal qual a ave fênix, que na mitologia ressurgiu das cinzas, tomou o revés como o vetor para se transformar num dos mais aplicados alunos de português.

Comentários:

2 respostas para “A casca de banana”

  1. Vauberio Oliveira Cézar disse:

    Dr. Antonio, as suas crônicas e relatos são realmente uma maravilha para quem aprecia uma boa leitura. São narrados fatos verdadeiros e hilariantes que não me canso de lê-los. Parabéns e continue nos deliciando com essas ótimas estórias.

  2. Rusel Barroso disse:

    Meu caro amigo, têm sido prazerosas as leituras de suas crônicas, sobretudo pelas reflexões que nos proporcionam. A sua dedicatória é deveras generosa, pois, na verdade, temos juntos partilhado esse olhar sobre os textos. Os colegas que conosco dividem o espaço ‘colunistas’, também sentem-se honrados com sua companhia e suas contribuições.

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