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Lagarto, 16-11-2018

Delírio papa-jaca

Claudefranklin Monteiro, 4 de abril de 2011

Fim de tarde e os pardais inundam os céus de minha terra, numa revoada de cantos que anunciam a Ave-Maria. Mariana, minha identidade logo se reveste de saudades e sonhos. Vejo meninos e meninas, velhos e moças se misturando à pipoca, à fofoca e à política: no mesmo espaço da reza, convive a maldição da disputa e do poder.

Eu ali, sozinho, acompanhado por meu passado, vejo procissões e cordões de foliões, ouço vozes de fantasmas retalhando a pedra, erguendo palcos de infinitos mortais. Do palanque à antiga Camararia, vejo Daltro cumprimentar os presentes e São Benedito ser saudado por reis e rainhas.

O céu escuro é cortado pelo barulho da matraca e as almas do purgatório vão seguindo o canto de Lourdes, Dionísia e Leléu. A missa, a quermesse e a festa convidam todos para saudar Sílvio Romero, com um livro debaixo do braço e uma idéia na mão. O velho Salomão tecendo rendas, Dona Sidônia lambendo os dedos e Assuero, ainda menino, tropeçando nos versos, aos berros, gritando: “maldita Geni”!

A noite segue risonha com os homens cantando no fogo e as mulheres, rezadeiras e benzedeiras, com véu na cabeça e terço na mão acalentando as vítimas das moléstias que Nossa Senhora da Piedade curou.

Mas, na madrugada, não há tristeza e nem morte, um brinde à sorte, pois lá vem Dr. João. O trio elétrico abre a cantoria e a cidade toda no chão vem beijar sua mão: salve o rei da folia, salve o homem do andor. Veja quem vem lá de momo: é Tonho de Sinhô! E assim a alegria, numa embriaguês de boêmia, vem cantar os poetas, os bêbados e os doidos. Assis, com caneco na mão, e Pau com Formiga, pendurado no alto da Matriz, são os anfitriões da melodia: “quem quiser vê o bonito, saia fora e venha vê, venha vê o parafuso a torcer e a distorcer”!

Correm as horas em demasia e lá pelos lados da Praça, os bailes, as retretas, as serestas, as atrações e as setentrações nas ruínas da A.A.L. Everton Dantas vestido de pavão, Maninho de Zilá e Isaura fazendo as honras da casa desfilavam no salão. Cláudio Monteiro, com braço em riste, de guarda-pó bradava: minha Mangueira querida! Logo se viu um alvoroço, eram rapazes ainda moços, fazendo os presentes zoar sob o comando de Bosco.

Ao raiar das primeiras horas do outro dia, garis catando história e o cego Freitinhas cantarolando memórias; Emerson Carvalho escrevendo para um jornal, Adalberto Fonseca costurando uma bandeira e Dona Maria Teles rezando de joelhos. Padre Mário apressado para a missa, Paulo Prata atrasado para o trabalho e Rusel Barroso falando inglês com a língua de Camões, punham de novo em correria aquela cidade, quem diria.

Corre gente, desce ladeira, corre logo que tem feira, tem rosário e tem novena, tem forró e micareta, tem vaquejada e madeireta. Êta, êta! Tanja o boi, corra o arado, minha terra tem reisado. Zé Augusto contando um milhão, os Reis e os Ribeiros na eleição, Rinaldo Prata com uma câmera na mão e Abelardo Romero dando lição. E quem quiser que conte outra, pois essa é de meu torrão: não vendo e nem dou não.

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