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Lagarto, 17-10-2017

Brincadeiras de um menino lagartense: Passeio à Beira do Rio Jacaré e à Serra da Miaba

Paulo Fontes, 2 de setembro de 2012

Dentre muitas estórias sobre as brincadeiras de um menino lagartense no século passado, uma não poderia ficar de fora, pois tratar-se do PASSEIO A BEIRA DO RIO JACARÉ, particularmente na Fazenda Mussurepe de propriedade do Seu Irineu, como também na “Serra da Miaba”, locais de grata lembrança da Infância de grande parte da geração de lagartenses que viveu na segunda metade daquele século.

Geralmente, esses passeios eram organizados a partir das principais Escolas do Lagarto da época que eram: O Grupo Escolar “Sylvio Romero”, Ginásio “Laudelino Freire” e Colégio “Nossa Senhora da Piedade”, através de algumas professoras e/ou professores, como forma de premiar os seus alunos ao final de cada ano letivo, proporcionando aos mesmos, um dia de lazer à beira de um rio, quase sempre no Rio Jacaré ou Serra da Miaba por ser o mais próximo, no verão lagartense, mais ou menos em torno do mês dezembro.

Como a distância entre a sede do município de Lagarto e o Rio Jacaré ou a Serra da Miaba não era pequena, mais ou menos quinze quilômetros, os professores acompanhavam os meninos e meninas e assim todos iam ao passeio de caminhão fretado previamente, chamado de “pau-de-arara”, e a viagem teria que começar bem cedinho para dar tempo de aproveitar todas as brincadeiras, desde o jogo de bola até o banho no rio ou no caso da “Serra da Miaba”, banho numa piscina rústica localizada ao pé da serra e que alimentada por água muito frita que descia do alto e era canalizada para dentro da piscina.

A expectativa era muito grande e naturalmente, todos ficavam ansiosos nos dias que antecediam o passeio e mais ainda na véspera, consequentemente naquele dia, iam dormir bem cedo para não perderem a hora da viagem.

No dia do passeio, todos naturalmente acordavam bem cedo e cada um, com a sua sacola já preparada na véspera, a qual continha no máximo uma toalha e um calção de banho, que para os meninos naqueles tempos era usado como cueca mesmo. Além é claro de uma bola de futebol para que a possuísse e quisesse levá-la.

Além desses utensílios de vestuários, cada menino teria de levar, é claro um lanche constituído de um ou dois bolachões fofo ou de canela e alguma fruta, que podia ser banana ou mesmo uma jaca mole pequena, que naturalmente todos os colegas de passeio apreciavam, como também, alguma coisa de preparo rápido para o almoço.

Pela manhã, todos se encaminhavam para o local combinado, geralmente em frente à Escola, onde meninada subia na Carroceria do caminhão e a professora na “Boleia” e antes de iniciar a viagem, todos nós rezávamos com ela uma “Ave Maria” e um “Pai Nosso”, e logo após a oração começava a viagem rumo à Fazenda Mussurepe que era o ponto de referência do Rio Jacaré e quando o destino fosse a Serra da Miaba, o ponto de referência seria a Fazenda Queimadas do Seu Maroto às margens do Rio Várzea Barris bem ao pé da serra.

Para chegarmos à Serra da Miaba, tínhamos que atravessar o Rio Várzea Barris caminhando com água na cintura mesmo no verão e quando ao pé da serra chegávamos o passeio não se resumia ao banho na piscina, pois alguns meninos mais corajosos adentravam na mata fechada, buscando explorar as cavernas e precipícios lá existentes e que para esses era uma grande aventura.

Já para se chegar à beira do Rio Jacaré, em alguns passeios, o ponto de referência, apesar da distância em torno de quatrocentos metros, era uma pracinha em frente à igrejinha do povoado Santo Antônio, onde existia na época uma grande árvore, onde todos nos colocávamos as nossas sacolas e onde seria o nosso ponto de encontro, quando retornássemos do banho no rio. E também era nesse local, ao lado da árvore, onde podíamos jogar bola.  Enquanto que em outros passeios ao Rio Jacaré, ficávamos perto da sede da fazenda supracitada que fica próxima à beira do rio e embaixo de alguma árvore.

Em geral quando da chegada ao destino do passeio, a maioria dos meninos corria para a beira do rio ou da piscina para tomar banho, e sempre havia naturalmente às advertências por parte da professora, relativas aos cuidados sobre não mergulhar em águas profundas, particularmente aos que não sabiam nadar. E para aqueles que não sabiam nadar, eram orientados a ficarem no raso entre as pedras, nas pequenas correntezas do Rio Jacaré, brincando de fazer represa acumulando pequenas pedras contra a correnteza.  E assim ficávamos toda manhã toda tomando banho ou jogando bola. Sendo que os meninos jogavam futebol e as meninas “O queimado”.

E quando chegava a hora do almoço, era um capítulo à parte, pois era de uma simplicidade tão grande e fácil de preparar, já que não passava de uma farofa com carne ou frango assado ou mesmo dois pães Jacó médio (que naquela época era chamado pão d’água) e uma Latinha de Sardinha ou uma lata de Kitute de Boi Wilson que juntamente com os pães e um refrigerante quente que era fabricado no Lagarto (a gasosa), comporiam a principal refeição.

Após o almoço, em torno de duas horas da tarde, alguns tiravam um cochilo em alguma sombra, enquanto que outros e outras, ainda encontravam energia para tomar mais banho ou mesmo participar nos jogos de bola ou outra brincadeira qualquer, enquanto outros participantes do passeio, já bastante cansados, ficavam repousando e esperando o horário do retorno para a cidade.

No retorno para a cidade, já à tardinha, no mesmo caminhão que os haviam trazido, os meninos e meninas sentados em cima da carroceria do mesmo, apesar de bastante cansados, voltavam cantando, assim:

Quebra quebra Guabiraba…
Quero ver quebrar…
Quebra lá…
Que eu quebro cá…
Quero ver quebrar.

E durante esse trajeto em cima do caminhão, todos cantavam esses versos e sempre havia alguém que fazia alguma brincadeira, improvisando outros versos, maliciosos, que rimassem de forma a envolver especificamente, um menino ou menina ali sentada no “pau-de-arara”, dessa forma, por exemplo:

A colega Mariazinha…

Quero ver quebrar.

Lá meio do espaço…

Quero ver quebrar

Do corpinho bem feitinho…

Quero ver quebrar

Tava de beijo e abraço…

Quero ver quebrar

Com o seu colega Toninho…

Quero ver quebrar.

E sempre depois dessa brincadeira em verso, a turma toda voltava a cantar o refrão “quebra quebra guabiraba”,  sempre intercalado com um verso ou outro que mexia com quase todos os colegas do passeio, até o final da viagem de retorno.  Era uma festa só!

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