Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 23-06-2017

In vino veritas

Antonio Rocha, 2 de maio de 2011

Passei a conhecê-lo por ocasião de um Congresso de Odontologia realizado na sua cidade natal, uma bela capital nordestina, em cujo evento exercia a coordenação da apresentação das mesas clínicas. Era um sujeito de temperamento cordato, perspicaz e inteligente.  Pertencia ao gênero daquelas pessoas que conseguem angariar simpatia sem dificuldade. Laborava há algum tempo na cidade, desfrutando de merecido conceito não apenas pela competência com que exercia a profissão na sua clínica particular e no serviço público, mas também pelo trabalho voluntário em comunidades de bairros periféricos à frente de uma entidade filantrópica local.

Vivíamos os primórdios dos anos oitenta, época em que a abertura política despertava no Brasil o clamor pelas eleições diretas e o consequente fim do regime autoritário. Entusiasta das mudanças, mostrava-se afinado com a proposta de substituição do modelo econômico vigente por outro que fosse mais humano, direcionado à construção de uma sociedade igualitária e fraterna, acabando com a exploração da classe dominante, mormente as multinacionais, “responsáveis pelas mazelas que grassavam no país”. Confiante nessa linha ideológica, resolvera disputar, no pleito que se avizinhava, uma vaga na câmara municipal pelo principal partido de oposição, consciente de que a conquista democrática de um cargo eletivo seria um instrumento importante para ajudar a difundir o pensamento que acreditava ser essencial para a almejada política transformadora.

Durante o período do congresso, estivemos juntos não só durante a programação científica como também nos momentos de lazer, desfrutando das atrações turísticas da bela capital. Naturalmente, afora os temas relacionados à odontologia, a situação política do momento permeou nossas conversas. A sinceridade com que defendia os seus pontos de vista foi suficiente para me deixar sugestionado e também a alguns outros colegas, a ponto de aceitarmos o convite para participar de uma reunião política numa noite em que um líder comunitário local o apresentaria oficialmente como candidato perante os seus liderados. Foi então que pude atestar mais um dos seus atributos: o poder envolvente da oratória, cuja capacidade de convencimento deixou os ouvintes extasiados.

Após o inflamado discurso, naquele momento, fiquei convencido de que uma nova liderança naquela cidade havia surgido, e que, fatalmente, teria um futuro promissor. No entanto, terminada a reunião, um cochicho entre ele e o líder local me deixou intrigado. O modo esquisito de conversar e a troca de sorrisos marotos deixavam no ar a suspeita de que algo não muito decente poderia estar sendo articulado. Do pouco que ouvi, pude perceber que tratavam de um acerto feito com um proprietário de restaurante, cujos serviços seriam contratados para o fornecimento de um almoço aos votantes no dia da eleição (prática por demais comum na região nordestina àquela época).

Encerradas as atividades científicas, convidei-o para passar a tarde à beira da piscina do hotel onde me encontrava hospedado. Queria retribuir a hospitalidade dispensada. Após alguns drinques, o tema eleição voltou à baila e com ele a revelação do que fora tratado no tal cochicho. Provavelmente, o efeito do álcool fê-lo sentir-se mais descontraído para abrir o jogo sobre a estratégia nada ideológica planejada para o dia da eleição. Seria a forma de neutralizar uma eventual defecção de eleitores daquele bairro, por demais viciados em receber dinheiro para mudar o voto, justificou.

O plano elaborado consistia em duas etapas: a primeira, fictícia, estava amparada na suposta contratação de um restaurante para servir um almoço reforçado no dia da eleição mediante a apresentação de uma senha, que seria distribuída a cada eleitor pela manhã, após a votação; a segunda, verdadeira, consistia em pagar ao presumido prestador do serviço para que ele fechasse o restaurante e sumisse da cidade. Em suma, não haveria almoço nenhum. Calculadamente, quando os infelizes se dessem conta do engodo, a desculpa bem articulada disfarçando indignação e prometendo uma solução judicial seria acionada.

Nesse nosso último encontro, a conversa sobre eleição ficou restrita somente à tal estratégia. Nada sobre ideologia ou a qualquer outro tema fora abordado. A suspeita de que a decantada concepção filosófica e a política transformadora não passava de sofisma, pairava no ar. A iminência de que o efeito do “vinho” trouxera a verdade à tona estava quase que configurada. Porém, em que pese todos os indícios, preferi continuar a acreditar na nobreza dos propósitos ideológicos. A empreitada, embora deplorável, talvez fosse somente para neutralizar o poder econômico dos coronéis, afinal, naquela terra havia de tudo em se tratando de eleições, menos lisura. Os fins, portanto, poderiam justificar os meios. O que valeria mesmo seria a correta atuação parlamentar.

Terminada a eleição a chapa oposicionista elegeu a maioria dos vereadores, entre eles o idealista. A mesma sorte não teve o candidato a prefeito, que foi derrotado pelo postulante situacionista. Entretanto, apesar da vitória não ter sido completa, a sonhada oportunidade de estar numa importante trincheira para empreender a desejada luta pelas prometidas mudanças, finalmente estava ao seu alcance.

Porém, tudo não passou de um engodo. A matéria estampada numa revista de circulação nacional não deixava dúvida: para garantir a presidência da mesa diretora legislativa, o primeiro compromisso legislativo do colega foi aliar-se a alguns edis da situação, levando consigo a maior parte da bancada oposicionista, mediante um conchavo que garantiu aos demais pares um carro oficial (com as despesas de manutenção pagas pelo erário, inclusive o motorista), o aumento da verba de representação, o número de assessores, o aumento da remuneração e muitas outras benesses. Também não demorou muito tempo filiado ao partido pelo qual foi eleito. Alegando desconforto, perseguição ideológica e a necessidade de estar mais perto do executivo no sentido de conseguir obras que beneficiassem os “mais carentes”, mudou-se para o partido situacionista.

Tardiamente, o convencimento que tivera sobre o surgimento do novo líder desmoronou.  A partir de então, passei a acreditar cegamente na máxima dos romanos: in vino veritas*.

 

*Expressão latina que significa “no vinho (está) a verdade”, dita por Plínio, filósofo e naturalista romano, embora alguns atribuam a autoria ao poeta grego Alceu. Sem entrar no mérito de paternidade da expressão, os antigos romanos queriam dizer que a embriaguez soltava a língua e fazia a verdade vir à tona.

Comentários:

Deixe uma resposta