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Lagarto, 13-12-2017

The Jet Boys made in Lagarto

Euler Ferreira, 30 de setembro de 2011

(Dedicado à memória de Erval Moura e aos companheiros de jornadas Vaubério, Gaguinho, Osvaldo Bezerra, Cabeleira e Luciano)

Confesso que nasci com uma certa veia musical sem nunca ter construído uma lastro sequer em minha vida dedicada ao estudo e aprofundamento de minhas raízes, a partir do que, historicamente, fez o meu avô, João Ferreira do Espírito Santo, Mestre Ferreira, fundador da Banda de Música Lira Popular, o mesmo que musicou os versos de Etelvino Dantas, resultando no Hino da Padroeira do Lagarto.

Quando adolescente, queria ser baterista. Em certo momento, lá pelos dezesseis, dezessete anos de idade, surgiu um lapso instante em que eu pensei que podia ser um artista, fazer sucesso com as baquetas nas mãos. Até que tentei, resultando em dois momentos frustrantes e decisivos para o meu futuro…

Naquela época, dando asas aos meus sonhos, resolvi que com um pouco de sorte e determinada disciplina poderia ter acesso ao mundo das artes pela via da música. Apaixonado por Beatles, Renato e Seus Blue Caps, Roberto Carlos, Golden Boys e tantos outros, de repente, me vi segurando um bangô, fazendo percussão naquele estilo frenético e apaixonante que modelava em mim um pouco do baterista que eu gostaria de ser, à imagem de Milton Banana¹ ou do Gene Krupa².

Meus dedos magros e rápidos no bangô produziam um som gostoso, no ritmo desejado por Erval Moura. Líder do recém-formado Conjunto The Jet Boys ele reuniu um grupo de jovens com o propósito de atingir sucesso além fronteiras. Nas primeiras reuniões realizadas na sede da Lira Popular, situada na Rua Acrísio Garcez, ficou definido que o conjunto seria formado por Cabeleira (violão elétrico), Euler (bangô), além de Erval, Vaubério e Gaguinho (vocais).

Fechado o grupo, novas reuniões, agora para discutir qual deveria ser o traje a vestir os futuros ídolos da jovem guarda. Depois de muitas horas perdidas e de poucas e más ideias, foi aprovado por maioria de votos que a gente ficaria bem arranjado trajando calça preta, camisa branca de mangas compridas e uma – como dizer meu Deus? -, ridícula gravata borboleta também de cor preta, a-la-garçon de cabaré.

Erval achava que era roupa mais fácil de conseguir emprestada, e pronto, não mais se discutiu.

Vencidos os primeiros desafios da fase inicial de The Jet Boys, agora em ritmo de ensaio, eis que Erval Moura surge com uma ideia interessante: ‘Que tal a gente arranjar um cantor, alguém para se apresentar antes do nosso show?’ Sentindo que o clima lhe era favorável, ele seguiu adiante: “tenho até uma sugestão?” – e pôs na mesa:

– Bobby Morris! Não é um elegante nome artístico? – foi criado por mim, falou sem deixar dúvida que estava acertando na mosca.

– Mas, e quem é o tal? – Cabeleira, o experiente violonista, fez a pergunta em nome do grupo.

– Osvaldo Bezerra, respondeu Erval, antecipando-se às inevitáveis perguntas. Bobby Morris é Osvaldo Bezerra!

A aprovação foi imediata. Osvaldo prometia dar conta do recado. Era um cara elegante, de fino trato e sempre simpático. Por que não ele?

De repente, Vaubério lembrou que a família Bezerra era louca varrida por Vicente Celestino³, tanto que nos programas de calouros do Cine Glória, ele, Osvaldo, com voz de tenor só interpretava ‘O Ébrio’, canção de maior sucesso do cantor nada admirado pela turma da jovem guarda.

Na tentativa de dar um ponto final naquela etapa de pré-estreia do The Jet Boys, Erval prometeu que ia sugerir a Osvaldo que no papel de Bobby Morris interpretasse músicas de outros cantores como Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra e Osvaldo Fahel.

Dito, feito e aceito.

Em uma bela noite de primavera, estávamos na Praça da Matriz jogando conversa fora, sentados no banco com encosto à esquerda de quem chegava vindo da Souza Freire ou Lupicínio Barros. Como sempre, Erval era o último a se apresentar e sempre com novidades. Daquela vez, sua boca miúda sorria, tinha coisa boa no ar:

– Fechado o primeiro contrato, pessoal! Dia 8 de dezembro, vamos ser uma das atrações da Festa da Padroeira, em Itabaianinha.

Daquele momento em diante, só ensaios e muitas discussões na sede da Lira Popular. Nervosos, os meninos começaram a desafinar, principalmente quando cantavam o primeiro trecho da música Coruja, sucesso da dupla Deny e Dino.

Com pose de maestro e imaginária batuta na mão, Erval chamava a atenção para o ensaio:

– Atenção, atentos, no três: um… dois… três…

Coruja ah ah ah!

Justo no ah, ah, ah, o trio formado por Erval, Vaubério e Gaguinho desafinava feio. E quando eles erravam acabavam discutindo. Geralmente, a culpa pela falha vocal era atribuída a Gaguinho, por motivos óbvios. Pura injustiça. Mas, superado o trauma inicial, eles acabavam se acertando. Nova passagem pela música indicava que o grupo estava pronto para a estreia:

… dois… três… Coruja ah, ah, ah
o nome que eu dei àquele alguém
que passa e nem sequer olha ninguém
pensando em só dar ela no lugar, no lugar
coruja ah ah ah
(…)

Chegamos a Itabaianinha conduzidos pelo Jipe de Luciano de Mané Dentista. Em uma das esquinas da cidade uma tabuleta amarrada num poste anunciava o grande show da noite de domingo, logo após a procissão em homenagem à padroeira.

Lá estava escrito:

Direto de Recife
Exclusivos da gravadora Mocambo e TV Jornal do Comércio…
The Jet Boys e Bobby Morris
Às 8 horas da noite no cinema!

Duas fotos ilustravam a propaganda. Na primeira, em pé, fardados de garçom de cabaré, Vaubério, Erval e Cabeleira seguravam Gaguinho no colo. Eu, em pé, segurando o bangô. Na segunda foto, Bobby Morris fazia pose de cantor vestindo um velho e quadriculado paletó, que nas horas vagas poderia ser utilizado em improvisado jogo de damas. Um horror.

Esperto, Erval tinha vendido o show como se nós fôssemos de Recife. Fazer o quê! Os outros integrantes do grupo só tiveram conhecimento quando viram a tal tabuleta no poste.

Como seguro morreu de velho, tão logo chegamos ao hotel decidimos ficar trancados no quarto com receio de possíveis encontros com lagartenses. O que seria um desastre! Afinal, éramos de Recife…

Do quarto para o banho e o inevitável retorno, a gente se deslocou desconfiando da própria sombra. Na hora que a empregadinha gritou que o jantar estava servido, saímos todos juntos em fila indiana. Sentamos três de cada lado da mesa, sem direito a um dedo de prosa e, muito menos, a olhares furtivos para os demais hóspedes que também jantavam naquele momento.

De repente…

‘O que esses malandros de Lagarto estão fazendo aqui?’

Quando olhamos em direção da voz vimos caras conhecidas, conterrâneos da Banda de Música da nossa cidade.

Erval, como sempre, foi o primeiro a se manifestar, pediu que ‘pelo amor de Deus’ o pessoal não revelasse a nossa procedência. Sussurrando, ele explicou o drama aos músicos que ficaram solidários.

Por incrível que pareça, o show saiu perfeito. Bobby Morris agradou cantando músicas de Agnaldo Timóteo, e The Jet Boys não sentiu qualquer dificuldade na hora de interpretar Coruja.

Na verdade, o único senão foi provocado por mim.

Achei de sortear dois discos com o público. Duas perguntas bobas:

– Primeira: ‘depois dos Beatles, qual o conjunto mais famoso do mundo?’

– The Rollings Stones, respondeu uma bonita garota na primeira fila do cinema.

Muito bem, palmas!

Segunda: Quem canta ‘Coração de Papel?’

– Sérgio Reis. – respondeu outra garota, sentada ao lado da primeira.

Discos entregues, notei que um jovem, cabelos abrilhantinados e corrente dourada sobre a camisa cor de rosa tinha ficado meio irritado com o resultado do sorteio. Saiu do cinema com cara de poucos amigos. Ficamos sabendo que o motivo de sua irritação estava no parentesco das vencedoras. Eram primas, filha e sobrinha do dono do cinema. Pura coincidência, para azar nosso.

Após o show, o contratante fez questão de demonstrar hospitalidade a nós outros ‘pernambucanos’, a quem prometia visita em sua próxima viagem a Recife. No barzinho da moda próximo a Igreja Matriz, cerveja e quitutes nas mesas. Tudo por conta do simpático anfitrião. Ao nosso redor sobravam fãs eventuais. Ia tudo muito bem até que, de repente, vejo sentado ao meu lado o dito rapaz de cabelos abrilhantinados. Fumando um Continental sem filtro e filando a nossa cerveja, ele joga a fumaça no meu rosto e murmura entre dentes sem disfarçar aquele jeitinho cínico que não restava a menor dúvida:

– Pernambucanos, né?

– É.

– Do Recife, né?

– É.

– TV Jornal do Comércio, né?

– É.

– Exclusivos dos Discos Mocambo e com motorista japonês, né?

Àquela altura, desesperado e prevendo o pior, em vez de responder eu optei por perguntar com a voz já trêmula:

– Hômi, diga logo o que você quer e tamos conversados!

Saiu na hora:

– Quatro Brahmas em mesa separada, duas doses de Drurys copo longo e maço e meio de Hollywood.

(E eu, com meus botões: ‘fidumaégua barato, maço e meio de Hollywood… era só o que me faltava.’). Fechei negócio.

– Tamos conversados, então.

Assustado e ouvinte de cabo a rabo de todo o enredo do meu diálogo com o sujeitinho, o ‘motorista japonês’ Luciano de Mané Dentista ficou com os olhinhos mais miúdos do que de costume. Após sussurrar a conversa para os outros amigos ele se instalou no jipe – do outro lado da rua, porque tinha placa de Lagarto – temendo uma saída de emergência.

Suborno atendido e antes que o safado abrilhantinado ficasse bêbado e falasse que éramos um bando de papa jacas, pedimos licença ao contratante para uma passagem pelo hotel e rápida troca de roupas.

– A gente volta já.

Não voltamos. A tal troca de roupa só aconteceu três horas depois quando de madrugada chegamos em casa após dolorosa viagem por estrada não asfaltada, com buracos, muita poeira e tremendo desconforto no velho jipe de uma única poltrona pois o resto era aço puro apoiando aos trancos e barrancos quatro bundas cansadas. Nós do The Jet Boys, envelopados a-la-garçon de cabaré e Bobby Morris agasalhado naquele tabuleiro de damas que ele chamava de paletó.

O primeiro show teve tudo para ser o último. Não o foi porque desastre maior ainda estava por acontecer, só que em Pinhão.

Mas essa merece uma outra crônica.

¹Milton Banana (Rio de Janeiro, 23 de abril de 1935 — Rio de Janeiro, 22 de maio de 1999) foi um percussionista brasileiro, um dos principais bateristas da bossa nova.

²Gene Krupa (Chicago, Illinois, 15 de Janeiro de 1909 — Yonkers, Nova Iorque, 16 de Outubro de 1973) foi um influente baterista de jazz e compositor.

³Antônio Vicente Filipe Celestino (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1894 — São Paulo, 23 de agosto de 1968) foi um dos mais importantes cantores brasileiros.

Comentários:

7 respostas para “The Jet Boys made in Lagarto”

  1. Jose Dantas disse:

    Euler

    Gostei da crônica. Não sabia que um dia, o tal conjunto tivesse existido. Conheço os integrantes. Bem escrita, isso não é novidade.

    Dantas

  2. Rodrigo Bardo disse:

    Uau! Adorei, Euler! Obrigado por me contar essa história sensacional envolvendo meu tio Erval! Sei tão pouco sobre ele! Porque o destino quis, nasci alguns anos após ele ter falecido. Uma pena!

  3. Aline Menezes disse:

    Amei… essa de Luciano, motorista japonês, foi ótima. Parabéns, Euler, pela sua narrativa!

  4. Renildes Prata Martins disse:

    Euler, adorei! Ri bastante, principalmente por conhecer os integrantes de The Jet Boys made in Lagarto.
    Parabéns! tenho sempre lido suas crônicas, muito boas.

  5. Adorei, Vaubério, principalmente pelo chofer japonês.

  6. Eraldo Mota disse:

    Esse cara é sensacional. Parabéns! Vamos aguardar as próximas.
    Um abraço

  7. Vauberio Oliveira Cezar disse:

    Caro amigo Euler,
    você realmente tem uma super memória. O relato da nossa turnê em Itabaianinha foi verdadeiramente uma jóia lapidada por seu Q.I., de extrema competência. Obrigado, Euler, por relembrar os nossos bons tempos.

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