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Lagarto, 13-12-2017

A armadilha

Antonio Rocha, 29 de novembro de 2011

Os que mais discordavam da qualidade da limpeza da igreja eram os mesmos que sorrateiramente se encarregavam de sujá-la. A crítica levada a termo não procedia e era apenas o prolongamento de um expediente urdido para apimentar a brincadeira de mau gosto usada para infernizar a paciência do pobre sacristão, responsável pela higiene do templo e tido como doido e temperamental. Por mais que este se esmerasse nas suas tarefas, uma bolinha de papel aqui, um saquinho plástico jogado acolá ou outra sujeira qualquer tão logo aparecia estivesse a faxina concluída dando a falsa impressão de negligência, ou mesmo ineficiência. As reações destemperadas do infeliz perante as cobranças de zelo no trato do sagrado ambiente provocavam o deleite de muitos, principalmente dos sabotadores, reforçando a desconfiança dos mais sensatos de se tratar de um boicote ou qualquer coisa parecida. Porém, tal suspeita carecia uma prova cabal que pusesse fim ao transtorno.

Os católicos mais influentes da até que entendiam o desespero e se apiedavam do coitado. Porém, em vez de ajudá-lo, pressionavam para que ele encontrasse um meio de identificar os responsáveis e solucionar pacificamente a situação. Indiretamente, deixavam o abacaxi nas mãos do desafortunado, numa empreitada que extrapolava a capacidade do seu intelecto. Tudo isso só fazia aumentar sua angústia e apreensão.

O vigário, por outro lado, além de cobrar empenho no mesmo sentido, colocava mais um fardo nas costas do sacristão: insistia para que durante as celebrações religiosas a cadeira do confessionário não fosse usada por estranhos, já que os seus apelos proferidos durante as celebrações religiosas não vinham sendo atendidos. O fato de ver aquela cadeira ocupada por outros, não se sabe por que, era algo que o incomodava.

Com tantas incumbências a lhe atarantar, ele radicalizou de vez. Estava decidido a acabar com toda aquela perturbação. Na sua imaginação, uma boa lição aos indevidos usuários da cadeira do confessionário seria o primeiro passo. Para tanto, pediu permissão ao padre para levar a termo um plano, que consistia em colocar uma bacia de água fria no assento da cadeira. Assim, o primeiro desavisado que se sentasse teria uma boa surpresa. O vigário não levou a proposta a sério e julgou se tratar de mais uma maluquice. Contudo, não esboçou nenhum argumento em contrário, transparecendo a falsa impressão de concordância.

Logo cedo, bem antes dos fiéis chegarem para a missa matinal do domingo, ele aprontou a armadilha. Aos poucos, como de costume, a igreja ficou repleta. Entretanto, contrariando a expectativa, ninguém se sentou na cadeira. Encerrada a celebração, frustrado pelo insucesso do seu propósito, o sacristão apressou-se em sair para apanhar os costumeiros restos de papel jogados no recinto, esquecendo-se de desarmar a arapuca. Enquanto isso, o padre se dirigia ao confessionário para atender os fiéis que comungariam na missa das dez horas. Ao sentar-se na cadeira foi surpreendido pela água fria da bacia. Além do susto pelo banho inesperado, teve que suportar as risadas incontroladas dos que aguardavam pela confissão. O vigário, desconcertado e com a roupa molhada, suspendeu o ofício e foi se enxugar na casa paroquial.

A repercussão do acontecido despertou na comunidade católica o desejo de dar um basta em tudo que de errado que vinha acontecendo. O acidente com a bacia de água fria foi a gota d’água que catalisou a decisão de acabar com aquela brincadeira, custasse o que custasse. Os sabotadores, pressentindo que haviam passado da conta e que fatalmente seriam descobertos, puseram um ponto final na brincadeira.

O sacristão, perdoado pelo padre, teve de volta a tranqüilidade para trabalhar. Indiretamente, a armadilha surtiu efeito. A ordem e o respeito foram restabelecidos.

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