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Lagarto, 29-04-2017

Os sócios

Joaquim Prata, 29 de novembro de 2011

Para a empreitada se tornaram sócios. Se de um lado prevalecia a experiência, do outro a astúcia nas manicacas da Roleta. Somadas tais qualidades, uniram-se: Seu Menino da pipoca e Zé de Abílio.

Era natal, a banca de jogo tinha apenas uma roleta. Em vez de números, distintivos dos clubes de futebol: Flamengo, Vasco, Fluminense e daí por diante. Nas prateleiras, as prendas não passavam de latas de goiabada, de sardinha e minguadas carteiras de cigarro. Só para lembrar, cigarros sem filtro, já que tal requinte ainda não tinha chegado ao Lagarto. A banca de seu Menino ou de Zé de Abílio – aí fica a livre escolha – estava postada ao lado dos cavalinhos de Presídio, vizinho a barraca de João da Roda cuja especialidade era o pio agitado numa cumbuca de couro. A guisa de esclarecimento, João da Roda era investigador de polícia e, nas horas vagas, fazia suas incursões pelo mundo da contravenção.

O Natal esquentava na Praça Filomeno Hora. O clima de festa animava os bazares e as barracas de doces de Beata, Nininha e Maria de Teté. A ocasião por ser de fraternidade, não reclamava discriminação, por isso se misturavam negros, brancos, pobres, ricos, udenistas e pessedistas. Todos poderiam sugar, num grosso canudo, a gasosa de Tonho de Mirena ou degustar os amendoins com açúcar embalados em barquinhos multicoloridos. Logo ali, no palanque, a banda “Lira Popular” executava velhas valsas de Zequinha de Abreu. Sob a batuta de Chico de Zé Lourenço, tocava até a meia noite.

Os sócios não paravam. Um artifício foi criado para que a banca ganhasse três vezes mais do que o freguês. No vai-e-vem, bateu a fome. Seu Menino se comprometeu em ir primeiro. O jantar era ali mesmo na barraca de Ficiana fateira. Seu Menino, antes de sair, passou o rabicho do olho pela gaveta, ela estava cheia.

Saciado, voltou rápido à barraca. Ao abrir a gaveta, constatou que ela estava vazia, ali sobreviviam apenas algumas moedas e uma cédula de dois cruzeiros. O espanto deixou seu Menino empalidecido e os lábios trêmulos:

– Zé, cadê o dinheiro?

– Sumiu Seu Menino, chegou um homem do chapéu grande e quebrou a banca. Levou tudo!

– Por que não deu os brindes?

– Seu Menino, o homem só quis dinheiro.

Acabrunhou-se o velho sócio. Tomou o comando da banca. Sem ânimo, avaliou o prejuízo. Logo velhos fregueses foram chegando: Nêgo Uruba, Burrego, João Goela e o guarda Favorita, este último fardado e trazendo sobre os ombros um infindável número de divisas, deferência do prefeito sob a condição de não lhe aumentar os vencimentos. Sem muito tardar, a banca voltou a se fartar de dinheiro.

Conforme o combinado, Zé de Abílio logo saiu para o café, atravessou a praça e sumiu na porta da frente do casarão de Rubém. Mal sorveu o arroz com galinha, com o pé na frente e outro atrás, voltou à banca. Correu os olhos pela gaveta e no misto de agonia e desespero, falou:

– Seu Menino, pelo amor de Deus, cadê o dinheiro?

– Abílio, meu fio, uma desgraça! O homem do chapéu grande voltou, papou o dinheiro e levou as prendas.

O Natal ia minguando, apenas restavam alguns bêbados nas bodegas do Beco do Urubu e os sons dos boleros vindos dos puteiros do Feixe-de-Mola.

Sem dinheiro, sem prendas, a empresa faliu. Dissolveu-se a sociedade. Seu Menino, sem remorso, tomou o rumo de casa, lembrou-se da velha máxima: “Para o sabido, sabido e meio”.

No Natal seguinte, seu Menino tornou a vender suas incomparáveis pipocas e os deliciosos tabletes de doce de leite em caroço.

Zé de Abílio voltou ao seu bar, na rua D. Pedro II onde se lia na fachada “Bar Flamengo”. Ao fundo ouvia-se o ruído da velha roleta.

Comentários:

5 respostas para “Os sócios”

  1. Patricia Dantas disse:

    Senhor, meus cumprimentos, e desde já a minha admiração pelo seu trabalho. O seu estilo nos envolve de forma singular, a poesia dos acontecimentos, a originalidade e, principalmente, a fidelidade com as coisas do Lagarto. Parabéns! Quero um livro.

  2. Marco Polo do Nascimento disse:

    Caro Dr. Joaquim,

    adorei ler a crônica. Apesar de não ser lagartense, eu estava lá, na época, pois cheguei a Lagarto no ano de 1966. Lembro-me muito bem, pois também adorava jogar roleta e, como sempre, perder.

    Abraços do amigo,
    Marco Polo

  3. José Augusto Viana disse:

    Vaubério tem toda razão. Joaquim está fazendo com que nós, que vivemos aqueles tempos, fiquemos vasculhando nossa memória, buscando pessoas e situações que preencheram e alegraram nossa infância. E é maravilhoso relembrar os bons tempos! Devemos isso a Joaquim, sem dúvida. Obrigado!

  4. Vauberio Oliveira Cezar disse:

    Joaquim, achei sensacional o relato sobre o nosso personagem real, Seu Menino da Pipoca. Você, com sua imensa inteligência, soube retratar com maestria, um dos lados hilários e verdadeiros da nossa história. Parabéns, Joaquim! Continue contando fatos reais desse tipo.

  5. Oswald Abreu disse:

    Meu caro Joaquim,
    Parabenizo-o pela história contada. Que coincidência! Uma história semelhante fora contada em Simão Dias, povoado Feirinha da Rola. A cidade dos capa-bodes tem pelo colega Defensor Público apreço e estima, afinal, Vossa Excelência fora um dia Defensor Público em Simão Dias.
    Sou um dos acessantes.

    Saudações cordiais,
    Oswald Abreu
    http://www.capa-bode.blogspot.com
    http://www.papa-jaca.blogspot.com

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