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Lagarto, 23-06-2017

O retorno

Joaquim Prata, 8 de junho de 2013

Era certo que Apolônio Cerqueira não queria terminar os seus dias de vida batendo sola na tenda de Lili. O desejo de um lugar maior tirava-lhe o sono. Imaginava-se no Rio de Janeiro, desfrutando das suas belezas, ganhando dinheiro.  O Lagarto era miúdo, sem graça, irritava-lhe o desalinho das ruas, o alto e baixo das calçadas, o capim da Praça da Piedade, enfeitada somente pelas cabras de seu Libo, curador de doença do mundo, enfim, um médico formado pela faculdade da vida.

A letargia da cidade só era quebrada pelas novenas da padroeira, ou no rebuliço das segundas feiras. Cerqueira olhava os parentes com desdém, achava-os sem sonhos e sem esperança.

O dia da partida chegou. Cerqueira, entre choro e abraços, tomou o rumo do Rio de Janeiro.  No agito das ondas, o Ita singrou pelo Atlântico até atracar numa clara manhã de domingo.

A primeira parte do seu sonho estava realizada. O deslumbramento da cidade grande invadiu sua alma, ali viveria até a morte, arranjaria um bom emprego, pois, aprendera alguma coisa na escola de Joaquim Machado.

Os anos foram passando. O sofrimento do estômago vazio, dos quartos de pensão, da pneumonia quase transformada em tuberculose, aos poucos, foram dando lugar ao emprego de guarda-livros, cuja profissão exerceu definitivamente, não mais no Rio, porém na cidade de Petrópolis. A honradez e a competência fê-lo amealhar um bom cabedal, por conta disso adquiriu um belo carro: um Buick 1939. A partir da aquisição do carro, bateu-lhe a saudade do Lagarto, do cheiro de fumo das malhadas do Santo Antônio. Lembrou-se do bar de seu Pequeno, do armazém de Porfírio Martins, da tenda de João de Amélia, do reisado de Júlia de Memela e seu galante Bertinho Prata a recitar este verso:

              “EU SOU UM POBRE SAPO

              QUE PASSO A VIDA INTEIRA

              DEBAIXO DE UMA PEDRA

              NO RIO AQUI NA BEIRA.”

Dos olhos de Apolônio verteram lágrimas, não sabia explicar a estranha saudade. A cada dia assuntava um pedaço de Lagarto. Vinha-lhe com força a figura de Frei Eliseu pregando suas Santas Missões. Nestas ocasiões, a igreja era iluminada a carbureto que, por seu cheiro forte, fazia arder as narinas dos fieis, porém dava a luz que todos precisavam.

Cerqueira pretendia se mostrar uma pessoa próspera que havia enriquecido. No ofício de guarda-livros, sentia-se orgulhoso quando cortejado pelos bajuladores, principalmente os da família. Oportunistas que sonhavam em tirar um naco do seu dinheiro, sempre alegando dificuldades na vida.

Era uma tarde de quarta feira de junho quando resolveu partir para o Lagarto. Desta vez, não enfrentando o balanço das ondas que, é bom lembrar, quase o matou de tanto vomitar. Pensou, dizia aos conhecidos: chegar ao Rio sem os bofes.

Foram oito dias pelas estradas de Minas e da Bahia. O solavanco da estrada arrebentou-lhe as cadeiras, mas, mesmo assim, a saudade o incentivou a voltar. Não veio só. Para acompanhá-lo, um motorista profissional, escolhido de tantos da Praça de Petrópolis. Moço bem falante, sotaque do Sul que, por força do ofício, veio parar nesses ermos.

Atravessou a Bahia, entrou no Sergipe, achou-se em casa.  Logo estaria no Lagarto. Iria de imediato, até a igreja e diante de Nossa Senhora da Piedade, agradeceria pela viagem.

Chovia naquele mês de junho, o inverno era rigoroso. Já no Papagaio, o Buick atolou, reclamando a ajuda dos vaqueiros que desciam do Piauí. Desatolado, o carro tomou o rumo do Lagarto.  No Sobrado, surgiu o inusitado: no meio da estrada lamacenta, imponente e majestoso, estava o pé de tamarindo derramando sua galhada verdejante. Sustentado pelo tronco imenso, não permitia dez homens abraçá-lo.

O carro deslizou no selão avermelhado, o hábil motorista não pode contê-lo, somente o tronco da árvore o conseguiu.  Cerqueira foi arremessado até o painel, enquanto o sangue vertia da sua testa. O motorista petropolitano, com o choque, perdeu a dentadura, que se projetou na lama da estrada. O Buick perdeu a frente. Apolônio pensou como consertá-lo, mas no Lagarto não tinha como. Nem João Ford seria capaz.

Num ímpeto de raiva e arrependimento, Cerqueira segurando um lenço branco, que aos poucos era tingido pelo sangue, sentenciou: “MEU DEUS! QUE DIABO EU VIM FAZER NESTE FIM DE MUNDO? NUMA TERRA QUE NASCE GENTE CHAMADA DE DADÁ, DEDÉ, DIDI, DODÓ e DUDU, SÓ PODE DAR AZAR E PREJUÍZO”. Deram-lhe um banco para sentar, enquanto o motorista chafurdava na lama à caça da dentadura.

Dias depois, chegava o telegrama a Petrópolis:

“FIZEMOS EXCELENTE VIAGEM PT O BUICK SE ENCONTRA EM ARACAJU PARA MANUTENÇÃO PT AVISE A DONA GERTRUDES QUE SILVEIRA ESTA ADORANDO VG INCLUSIVE ATÉ ENCOMENDOU UMA NOVA DENTADURA COM UM DENTE DE OURO PT ABRAÇOS VG SEU QUERIDO APOLÔNIO PT”

Comentários:

Uma resposta para “O retorno”

  1. José Raimundo Barbosa de Souza disse:

    Queria parabenizar a você, PRIMO, que foi meu professor de história lá nos idos de 1973, pelo belo e eloquente relato de um personagem que abrilhanta e engrandece a história dessa apaixonante cidade de Lagarto. Moro no Maranhão e Pará, e como referiu-se Jorge Amado em seu romance Casa Grande e Senzala ao citar o sergipano como o judeu brasileiro, mesmo em outras plagas nunca se esquece de suas origens, e também me orgulho de fazer parte da historia dessa cidade.

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