Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 19-11-2017

Coletânea de hits reacende debate sobre distância entre MPB e povão

7 de dezembro de 2014

RIO — Membro-fundador do Clube da Esquina, Ronaldo Bastos tem parcerias com Tom Jobim e Edu Lobo e assina clássicos como “Cais” e “Fé cega, faca amolada” (ambas com Milton Nascimento) e “Naquela estação” (com João Donato e Caetano Veloso). Seria esse o início mais provável de um verbete sobre o artista numa enciclopédia da MPB. Mas a descrição deixaria de cobrir uma parte fundamental de sua obra — os hits dos anos 1980 como “Um certo alguém” (com Lulu Santos), “Chuva de prata” (com Ed Wilson), “Todo azul do mar” (com Flávio Venturini) e “Sorte” (com Celso Fonseca), um repertório popularíssimo gravado por nomes que vão de Gal, Caetano e Bethânia até os cantores de perfil mais perto do povão, como Joanna, Bebeto e José Augusto. Sucessos agora reunidos na coletânea “Alta costura — O prêt-à-porter pop romântico de Ronaldo Bastos” (Dubas), que, mais que reunir música de alta rotação nas rádios, lança uma provocação. A piscadela está presente no título — que dá uma valoração artística e exclusiva a um tipo de música geralmente visto como algo feito em larga escala para gostos menos exigentes — e escancarada em trecho do texto da contracapa, que se refere à época na qual “a MPB não tinha medo de ser pop”, no sentido de tocar as multidões.

— Esse disco fala não só do meu repertório, mas de um repertório de uma época em que os artistas da MPB faziam música para tocar no rádio — resume Bastos. — Hoje tem até uma turma moderna que se aproxima daquele tipo de canção, mas de uma forma fria, sem cortar os pulsos, sem se sujar na sarjeta. Nós achávamos esse lugar entre a sarjeta e o grand monde. Vínhamos de toda aquela MPB dos anos 1960 e 1970, e de repente a indústria cultural chega forte no mercado da música. Você, como compositor, faz o quê? Eu segui fazendo canções nesse novo lugar. Até porque nasci ouvindo música popular, não Stravinsky.

“RONALDO BREGA”

A equação entre a sarjeta e o grand monde, que o compositor nota na relação entre a MPB tradicional e a música de rádio, dava a essas canções uma qualidade raramente encontrada hoje nos hits. É o que defende o produtor Leonel Pereda, que assina a compilação — uma coletânea que há anos circulava em CDs informais gravados para amigos, com o apelido de “Ronaldo brega”:

— Atualmente, tenho a impressão de que há um certo esforço em quem faz MPB, o que antes parecia mais natural e próximo das pessoas — acredita Pereda. — É como uma amiga me disse certa vez: o problema no Brasil é que todo mundo quer ser o Villa-Lobos.

Bastos sintetiza:

— Essa MPB dos 1980 era divertida. Hoje ficou chata.

Se essa tese de Villa-Lobos fosse aplicável nos anos 1980, o mundo poderia ter perdido, por exemplo, um Guilherme Arantes. Ou seja, um hitmaker com harmonias e melodias tão diretas quanto sofisticadas. O próprio, aliás, enxerga essa diferença entre os sucessos das rádios de então e os de hoje:

— Nos países onde as classes médias são determinantes, a qualidade ainda existe: Adele, Coldplay, Bruno Mars, Lorde… O problema da qualidade é muito específico do Brasil: sem classe média não tem bossa nova, não tem rock, não tem pop, não tem samba-canção — afirma Arantes, que aponta uma solução. — Bastará o país alcançar a verdadeira inclusão social: educação e cultura.

Um dos autores de maior sucesso no Brasil hoje, Victor Chaves (Victor & Leo) engrossa o coro:

— As ferramentas de base, como boa grade escolar e incentivo cultural, vêm piorando a cada tempo. A leitura vem se tornando escassa, e o ato de ler é a base das boas canções, que poderiam dizer muito com pouco — diz o sertanejo.

Produtor musical do programa “Globo de Ouro — Palco Viva”, que põe lado a lado hits dos 1980 e de hoje, Berna Ceppas não liga o enfraquecimento da classe média à distância entre a “MPB de sangue azul”, como brinca, e o rádio (“A mesma classe média que fez a bossa nova pouco depois fez o golpe militar, não vejo por aí”). Ele defende que o que mudou não foi a disposição do compositor (“O princípio dele é ser ouvido”), e sim a forma mesmo de se consumir música:

— Antes, no rádio, você ouvia David Bowie e em seguida Originais do Samba. A partir dos anos 1980, as FMs adotam o padrão norte-americano de segmentação. Antigamente, a única rádio segmentada era a clássica, o cenário era mais plural. Depois veio a segmentação da internet, isso se aprofundou.

E há o movimento natural. Ceppas vê hoje, por um lado, o prosseguimento de um certo jeito de se fazer um sucesso romântico no molde dos anos 1980 e, por outro, algo como uma canção de amor do Los Hermanos, que foge a esse padrão (“Essa coisa de um minuto para chegar ao refrão, umas regras que não fazem sentido, porque fazem parecer fácil compor um sucesso, o que não é”). E cita o estouro dos Tribalistas como uma possibilidade de a MPB encontrar o rádio como nos anos 1980.

Paulo Sérgio Valle — compositor que como Bastos assina clássicos da MPB e hits românticos e do pagode — chama a atenção para a forma como vê a criação.

— Nunca vi diferença entre compor músicas da chamada MPB e as mais populares. Para mim, “Preciso aprender a ser só (com Marcos Valle), “Evidências” (com José Augusto), “Se eu não te amasse tanto assim” (com Herbert Vianna) e “Essa tal liberdade (com Chico Roque) têm o mesmo valor.

Cantoras como Simone, Marisa Monte e Adriana Calcanhotto caminham nas duas frequências — uma trilha na qual Jorge Vercillo também se reconhece. Ele vê uma resistência das rádios hoje ao tipo de música que faz:

— Sou um artista de MPB contemporânea, que traz alguns elementos de romantismo, sim, assim como Chico Buarque e Vinicius de Moraes, mas me vejo muito mais como um transgressor do que um romântico — define-se. — Nos anos 1980, estouradas em rádios populares e jovens, tínhamos músicas com a riqueza melódica e poética de “Palco”, “Lilás”, “Você é linda” e “Luísa”. Tive a sorte de ter várias músicas mais densas, como “Fênix” e “Face de Narciso”, tocando em rádios populares fora do meu segmento adulto, devido a minisséries e novelas. Mas uma rádio adulta, que se propõe a tocar MPB, não quis tocar “Há de ser”, minha com participação de Milton Nascimento, indicada ao Grammy Latino de Melhor Canção de MPB, justamente por acharem que a música era… “MPB demais”.

Da geração de Bastos e Valle, Fagner também conseguiu unir o respeito-MPB e o sucesso popular ao longo de sua carreira. Para ele, a equação do sucesso é mais simples do que pode parecer:

— O Brasil é um pais romântico. Só se chega à consagração aqui pelo romantismo. A moda passa rápido. O discurso passa, porque muda com as gerações — defende ele, que compara a situação atual com a do início de sua carreira. — As rádios estão loteadas, segmentadas, seus programadores hoje dão as cartas como não davam naquele momento. Mas o gosto popular se mantém vivo no que se ouve de madrugada no interior do Brasil. Ali está o que o povo quer, quando não é o programador que manda, mas o ouvinte.

Pesquisador musical e professor da PUC- Rio, Miguel Jost traça um panorama histórico que, alheio à questão da qualidade, busca dar conta do cenário específico dos anos 1980 — impossível de ser reproduzido hoje. Na época, descreve, a MPB ainda trazia o “protagonismo conquistado nas décadas anteriores”, fruto de uma equação que colocava lado a lado “um período de profundas transformações na estética da nossa música com um avanço acelerado de toda indústria da comunicação e do disco no Brasil”.

— Essa conjunção fez com que a MPB tivesse esse papel preponderante nas rádios e na televisão daquele tempo — aponta o pesquisador. — A partir dos anos 1990, o quadro muda radicalmente. A indústria do entretenimento passa a oferecer uma gama muito maior de produtos, e os processos de globalização e de abertura econômica estabelecem um novo parâmetro para importação de música pelas nossas gravadoras. Ao mesmo tempo, surgem estilos musicais que atendem melhor ao desejo de um público que se segmentou e tem novas demandas. Dentro de um quadro que se transformou tanto, me parece um pouco determinista, e até mesmo descuidado, apontar o compositor do que chamamos atualmente de MPB como um criador que não se interessa no sucesso radiofônico e de massa.

O olhar das novas gerações sobre a década de Guilherme Arantes, José Augusto e Prêntice (artista de hit único, “Não diga nada”, que está na coletânea “Alta costura”) se mostra na obra de artistas como Silva, Jeneci, Kassin e Mahmundi — nome artístico da cantora e compositora Marcela Vale, que reduz a questão à sua base:

— As pessoas não teriam medo de ser pop como antigamente se fizessem canções fortes. É por isso que amo os anos 1980. As pessoas faziam seus hits, embalavam romances e lotavam as pistas porque o sentido maior era a canção. A sigla MPB traz sempre esse peso, como se ela não pudesse ser popular. Música popular é aquela que bate no teu ouvido e no teu coração mesmo que você não queira. Ela é composta pra você levar na vida.

Fonte: O Globo (por Leonardo Lichote)

Comentários:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *