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Lagarto, 19-11-2017

É o exemplo que educa (Domingos Pascoal*)

30 de março de 2015

Seguia dirigindo por uma bela avenida da nossa capital, trânsito leve, dia bonito, nem muito quente e nem muito frio, todo mundo dirigindo tranquilo, sem estresse, sinal fecha. Todos param. Percebo que, à minha direita, uma pessoa, ocupante do banco traseiro de um veículo de luxo, abaixa um pouquinho o vidro fumê e joga, no leito da rua, um potinho vazio de iogurte.

Sinceramente, não sei como e nem por que, mas, de inopino, vi-me ligando o pisca alerta, abrindo (com os devidos cuidados) a porta do meu carro e apanhando aquele lixinho e colocando-o num saquinho plástico que, estrategicamente, conduzo exatamente pra isso: colocar lixo. Embora tenha olhado de soslaio, para os ocupantes do veículo de luxo e, talvez até por ter olhado com animus de desaprovação, não os conheci e, de fato, talvez não os conhecessem mesmo. Logo o sinal abriu e seguimos todos. Bem mais tarde o meu telefone tocou, atendi e a pessoa, do outro lado, uma moça, voz parecia conhecida e, ao meu alô foi logo dizendo:

– professor, eu nunca mais jogo lixo na rua. A lição foi muito forte, obrigada. Sabe quem está falando?

– Não, respondi.

– É a ex-sugismunda, que jogou o lixo na rua, obrigada. Eu lhe conheço, da faculdade tal… Despediu-se agradecendo e desligou.

– Fiquei encafifado, mas, muito feliz. Quem seria?

Embora tivesse o telefone gravado no meu celular, a duras penas resisti em retornar e perguntar. Estou pensando em ligar, qualquer hora. Contei este fato para demonstrar que a educação acontece muito mais pelo exemplo do que pela obrigação, muito mais pela observação do que pela imposição, muito mais pelo comprometimento do que pela imposição de uma lei. Creio estar mais do que claro que não se educa e nem se forma personalidades por imposição de DECRETO, emanados de ideias de salvadores da pátria. Não. O que de fato forma personalidades saudáveis são bons exemplos. Pena, que nem sempre estes bons exemplos existem e, os poucos que temos, são tão pouco validados que não há interesse para a sua divulgação, como, miseravelmente ocorre, com os exemplos ruins. Mas, como diz um autor argentino, não lembro o nome. “O bem é sempre a maioria, porém, é também, muito silencioso, já o mal, é a minoria, todavia, faz muito mais barulho”. Parece ser muito mais importante e produtivo para o povo – tão carecedor de referenciais – divulgar às escancaras, as mal educadas e desrespeitosas vaias à nossa Presidente, ou a truculência praticada pelos torcedores chilenos quando invadiram um estádio de futebol, do que, por exemplo, divulgar a grande lição que nos deixou os torcedores japoneses, vocês viram? Talvez não, foi tão pouco mostrado, né? Somente alguns se preocuparam em divulgar aquela lição de cidadania e educação. Quem não viu e, quiser ver, ainda encontra na internet, procurem. Mas, aconteceu o seguinte, depois do jogo: Japão e Costa do Marfim, os torcedores, (todos os torcedores e torcedoras japoneses) foram flagrados colhendo o lixo que por acaso tenha caído ao chão, colocando num saco próprio para depois deixar no local adequado, bem como com paninhos, limparam toda sujeira que, também por acaso tenham feito nas cadeiras. Amigos atentem para o fato de que eles perderam o jogo. Imaginem? Não sei da sua opinião, mas, na minha humilde maneira de ver, estamos perdendo uma boa oportunidade, pois exemplos como esses deveriam se transformar em matéria de fundo para um debate nacional envolvendo as mídias, as universidades, as academias, as escolas, as associações, o povo, enfim todos que estivessem interessados e, de fato, comprometidos com a formação e educação de nossa gente, dos cidadãos que seguirão conduzindo os destinos do nosso país. Não há como plantar laranja e esperar colher banana, pois laranjeira sempre dará laranja. Quem bem semeia sempre terá boa colheita. O contrário, também é verdadeiro não adianta plantar o mal e querer colher o bem. Reflitam sobre a diferença que seria se falássemos mais do bem do que do mal. Pensem no bem que isso poderia fazer! Mas, infelizmente, o foco parece ser outro. Que pena!

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*Texto extraído do Portal Infonet, escrito por Dr. Domingos Pascoal de Melo, membro da Academia Sergipana de Letras.

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