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Lagarto, 23-06-2017

Velhos natais de Lagarto e suas marcas

24 de dezembro de 2016

Natal em Lagarto

Os tempos mudam; as pessoas também. A língua, os costumes, tudo evolui naturalmente. Os filhos crescem e se tornam donos de si mesmos. Pensam que sabem tudo, mas aos poucos descobrem que têm muito a aprender. Os conselhos dos pais e ensinamentos parecem obsoletos, até que assumem essa mesma posição. Nesse momento, aqueles que no início de suas vidas eram seus heróis e lhe serviam de porto seguro, quando a adolescência pôs no canto, voltam a ser o ponto de referência. Mas será que os pais, depois de certa idade, servem apenas para ajudá-los a cuidar dos filhos? Recordo-me de um vídeo, em que um senhor, já de idade avançada, sentado no banco da praça enquanto seu filho adulto lia um jornal, perguntou-lhe repetidas vezes: “Filho, o que é aquilo?” E ele respondeu: “Um pássaro”. Pouco tempo depois, o filho, bem ao lado do pai, mas completamente ausente por conta da “importante” leitura, mais uma vez é questionado: “Meu filho, como é o nome daquilo?” E ele, agora bravo, responde: “Já lhe disse que é um pássaro! Vê se presta atenção!” E o pai, com os olhos tomados de lágrimas, serenamente lhe diz: “Só estava tentando fazê-lo lembrar de quando ainda criança, nós dois, sentados nesse mesmo banco, fui interrogado por mais de dez vezes: “Pai, o que é aquilo?” E eu, contemplando aquela vozinha, não me cansava de responder: “Um pássaro, meu filho. Pás-sa-ro”.

Eis o grande e verdadeiro mestre – o tempo, capaz de responder a tudo, dar lições, um santo remédio para a alma. Mas fica a saudade de uma época que não volta mais, um tempo de sonhos e fantasias, que somente a infância é capaz de nos proporcionar.

Tomado por essa breve história, gostaria de levá-lo a uma viagem pelo Natal de Lagarto, marcado pela inocência e beleza dos devaneios, que, lamentavelmente, deixaram de existir na mente das crianças. E aí me lembro de Lobato ao dizer: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar”.

Quem não se lembra do belo Papai Noel da Casa Oriente, de “Seu Nouzinho”, que um mês antes do Natal já passeava pelas ruas da cidade jogando brinquedos para instigar a imaginação das crianças? Como esquecer o Papai Noel do Magazin Foto, do irreverente “Maninho de Zilá” com seu microfone em punho e voz tão particular? Ambos foram chamados no tempo, eterno e inadiável, mas deixaram uma história de exemplos no trabalho e nas paixões por sua terra. Como apagar o velho Natal da Praça Filomeno Hora, em que as famílias circulavam em seus modelitos e sapatos de verniz? Os maravilhosos parques de diversão que desembarcavam em Lagarto e tomavam a Praça Sebastião Garcez? Os brinquedos mais simples do velho “Zé Padeiro” e o Parque de “Seu Presídio”? As bancas de jogos inocentes, a exemplo das velhas pescarias e do tiro ao alvo? Os tradicionais barcos de corda, que formavam calos nas mãos, mas que não venciam o prazer dos que tinham menos dinheiro para as corridas nos brinquedos de luxo? Alguns, ainda eram movidos à mão, como os velhos carrosséis, as xícaras rolantes e os tradicionais cavalinhos. O trem fantasma, já eletrônico, era o delírio dos meninos para mostrarem sua coragem ao atravessar a estação mal assombrada. Os pais, até mesmo os menos endinheirados, reservavam algum tempo para passar no banco e trocar cédulas velhas por novas para presentear os filhos na véspera do Natal, ainda que fossem apenas poucos cruzeiros em notas trocadas. Os valores pouco importavam, pois os pais acabavam pagando as contas e os filhos guardavam aquele dinheirinho, cheirando a tinta, que acabavam gastando até o Carnaval. Os doces natalinos eram fantásticos. Amendoins de verdade, castanhas deliciosas. A artificialidade ainda não invadira a mente das pessoas e os supermercados. O velho peru, que, na maioria das vezes, não passava do frango tradicional, era o prato predileto para as comemorações que reuniam famílias. As praças e jardins eram contaminados pela alegria das retretas embaladas pela Filarmônica Lira Popular de Lagarto, por vezes regida pelas batutas dos saudosos mestres Bedoia e Temístocles Carvalho, sem nos esquecermos de tantos outros músicos extraordinários que por ela passaram. Na abertura do primeiro Natal de Lagarto, tendo o Pe. Raimundo Diniz à frente da Paróquia Nossa Senhora da Piedade, fizemos uma viagem emocionante quando ouvimos, no interior da igreja, um coral infanto-juvenil formado por meninos e meninas de bairros longínquos, entoarem clássicos de Natal para pessoas de todas as idades, oportunizando outras crianças e a elas mesmas de conhecerem as velhas canções natalinas, tão encantadoras como o próprio coral. Eram os esforços dos dirigentes das escolas que se somavam à Secretaria de Educação e à sociedade para trazerem à baila o encantamento dos velhos natais. Para quem vivenciou o Natal de outras épocas, foi, sem dúvida, um momento mágico de culminância da abertura do Natal, que emocionou muita gente. Uma marca que ficou gravada na mente de dezenas de crianças, de inúmeras famílias, que guardarão para sempre aquele momento.

Em 2016, o que almejamos é um Natal maravilhoso, repleto de paz, saúde e prosperidade, sobretudo com a união das famílias e dos povos do mundo inteiro. E que o ano de 2017 venha cheio de bênçãos e sabedoria, a fim de melhorar o processo de humanização das pessoas, especialmente na construção de um futuro mais promissor para o nosso planeta.

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Rusel Barroso – professor universitário, escritor e pesquisador, vice-reitor do Centro Universitário UniAGES, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, fundador da Academia Lagartense de Letras, membro do MAC da Academia Sergipana de Letras e da Associação Sergipana de Imprensa.

 

Comentários:

2 respostas para “Velhos natais de Lagarto e suas marcas”

  1. Domingos Pascoal disse:

    Prezado amigo Prof. Rusel

    Gosto de textos bem escritos e, quando eles transmitem mensagens que encantam e emocionam, melhor ainda. Parabéns!

  2. Euler Ferreira disse:

    Belo comentário, lembranças que nos levam a uma viagem emocionante.

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