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Lagarto, 19-11-2017

Cuscuz com bife

Euler Ferreira, 20 de agosto de 2017

Durante os meus estudos em Lagarto, o Ginásio Laudelino Freire era a referência no ensino da cidade, pela qualificação de seus professores. Bem administrado, em períodos diferentes, por José Raimundo Lima Araújo e Dr. João Almeida Rocha, homem de grande caráter que chegou a ser eleito prefeito do município, o Laudelino sempre teve tradição histórica. A maioria dos professores vinha do Banco do Brasil, alguns deles oriundos de São Paulo, outros da própria cidade, como Valdiêr Cezar (Francês e Português, salvo engano), Rinaldo Santos (Matemática), Luis Araújo Santos (Inglês). Todos muito bons.

Para mim, o Laudelino era um território livre não apenas para o estudo, mas também para a descontração por conta do relacionamento com alunos que vinham de todos os cantos do município, além do reencontro diário com os amigos mais achegados. Todos eles estudavam lá. Eraldo de Jaconias, Emanuel de Zé Francisco, Joaquim de João de Amélia, Toinho de Nozinho, Arquibaldo de Zé Marcelino e Valbério de Tonho de Alexandre, entre tantos outros, sempre levando a tiracolo a chancela familiar, o nome do pai, do patriarca que nos dava régua e compasso. Seguindo esse conceito, humildemente eu era Euler de Nelson do Correio, com o devido agradecimento a Deus pela enorme generosidade.

No ginásio, de maioria feminina, a gente estudava e paquerava. Desnecessário dizer que aos 16 anos a libido despontava mais do que por instinto, com aquela ousadia arrasadora do ‘pernas, para que te quero’. Os namoricos surgiam naturalmente, afinal éramos todos jovens e saudáveis. Aqui e ali, alguns afagos tímidos e beijos roubados durante os horários vagos, atrás da sala isolada onde funcionava a secretaria, espaço tranqüilo, sempre à sombra. Ademais, a bem da verdade e libido à parte, se naquela época tudo era mais romântico no desenrolar do namoro, em contrapartida a gente não levava vida fácil no tocante ao desejado relacionamento mais íntimo com as garotas, considerando que virgindade nas meninas era coisa muitíssimo séria, deveria ser preservada até o dia do casamento. O atrevido que se aventurasse por campos nunca antes percorridos e consumasse com sucesso a empreitada libidinosa – ah, não tinha jeito – acabava casando sem dó nem piedade, por força do destino atropelado e da honra deflagrada que a família da garota exigia reparo de pronto, de imediato, ao pé do altar e do Juiz de Paz, mesmo que o dito cujo responsável pelo ato fosse um desses sujeitos ‘sem eira nem beira’. Ademais, para o pai da garota desonrada, diante da calamidade instalada na família, com o agravante que se tornara pública e notória (às vezes com íntimos detalhes correndo na boca do povo), miséria pouca era bobagem. A honra precisava ser reparada. A quem promoveu a desonra, uma sina e duas saídas:

– Melhor ele casado do que capado e jogado na beira da estrada lambuzado de mel de fumo, amarrado feito porco de feira – sentenciou certa feita um desses sensatos pais, em conversa meio tensa com a mãe de um conhecido meu, rapaz de poucas posses e muito ímpeto.

No geral, a minha geração era meio ‘sem eira nem beira’, mas demonstrava disposição incomum para os sonhados embates sexuais.

Sujeitos como eu – se tivessem um mínimo de juízo – deveriam segurar o pinto pelo rabo e mantê-lo satisfeito da forma menos perigosa possível, de preferência em vôo solo na intimidade do próprio lar, ou arriscando-se num dos cabarés mal freqüentados.

Mas, o quê? Cabaré? Não tínhamos estômago para tanto.

Aos 17 anos, após o devido consentimento protocolar do bispo de Estância e carões públicos do Monsenhor Jason Barbosa Coelho, fui inapelável e corretivamente conduzido ao rol dos homens sérios. Imagine, eu, 17 anos – doidinho para namorar todas as meninas da cidade – de repente, casado por ter passado a noite com a namorada em uma casa da rua Libério Monteiro, após fuga nervosa a bordo de possante Rural Willys conduzida por Josefren Nascimento, e a confiável proteção de Othoniel Fraga, o Tié. O casamento aconteceu na residência de Porfirinho, o Porfírio Martins de Menezes Filho, na Avenida Kennedy, por decisão do Monsenhor Jason. Ele entendia que se a cerimônia fosse na igreja, meus amigos iriam fazer muito barulho. “Ademais, a casa de Deus não é lugar para anarquistas”, disse-me olho no olho, devidamente paramentado e com o indicador na ponta do meu nariz. “Está entendendo meu jovem?” – esbravejou, ainda com o dedo no meu nariz e a aba do chapéu redondo arranhando minha testa.

Eu era um anarquista e não sabia.

Quando o monsenhor acabou de fazer o corretivo, surgiu de repente uma figura que eu não conhecia. Era o Padre Mário Rino Sivieri, filho pródigo de Castelmassa, recém-chegado da Itália, falando o português com forte sotaque.

– Quem casa qui?
– É esse aí – disse alguém naquele tom de entrega total, apontando o nariz e o queixo em minha direção.
– Miserável, não tem vergonha? Quanti anni hai? – emendou o Padre, em italiano.
– Não entendo – respondi com ar de condenado rumo ao cadafalso.
– Quantos anni tu tens? – corrigiu falando pausado.
– 17 – eu mal sussurrava.
– Diciassette?
– Não, dezessete.
– Dá no mesmo. Cáspita! Na certa, ainda molha o colchão.

Riram de mim. Um monte de miseráveis rindo escancaradamente.

Que vergonha! Naquele momento, uma mão salvadora no meu ombro me deu o conforto que precisava. Era meu pai. Ele sabia que eu estava em maus lençóis.

Em meio ao devaneio de minhas aflições, alguém veio me dizer que o monsenhor estava me chamando a um dos quartos da casa para a inevitável confissão. Não contava com tal possibilidade. Quase que surto. Sem ter feito a primeira comunhão ou estudado o catecismo nas tardes de domingo na igreja do Rosário, eu não me achava credenciado à confissão.

– Mas eu nunca me confessei, monsenhor!

Sentado à beira de uma cama, fez-se de desentendido, considerando de pouca valia a minha questão de ordem.

Quando ele mandou que eu ajoelhasse, aí, meu nego, eu sabia que tinha que rezar.

– Mas, eu também não sei rezar, monsenhor!

Com os olhos miúdos, semicerrados, ele olhou para mim como se não acreditasse no que ouvia, ao tempo que buscava com a mão direita um crucifixo enorme, de metal, que pendia colado a batina negra que ia até o chão. Diante da circunstância, negociamos.

– Nem o Salve Rainha?
– Nem.
– E o Pai Nosso?
– Esse, acho que dá.
– Tentemos, então – o monsenhor sussurrava impaciente.
– Se eu errar posso recomeçar?
– Pode.
– Então, tentemos.

“Pai nosso que estais no céu…” – e ele lá olhando para mim com aqueles olhinhos de cochilo roubado, o tempo todo balançando a cabeça, contrariado, segurando o terço com as duas mãos, enquanto seus lábios me passavam a nítida impressão de que orava por ele e pelo pecador ajoelhado à sua frente.

Muitos dos amigos acreditavam que minha primeira vez tinha acontecido na noite anterior ao casamento, ali na irresponsabilidade dos meus 17 anos. Engano. A estréia aconteceu na inocência dos meus 13, após assistir no Cine Glória ao filme A Dama Oculta, suspense do diretor Alfred Hitchcock.

Na época, eu ainda não tinha despertado para o sexo. Os prazeres eram outros. Um deles, colecionar gibis – revistas de quadrinhos – de Roy Rogers, Tom Mix, Cavaleiro Negro, Hopalong Cassidy e Zorro. Vivia na minha santa inocência sem saber que uma certa dama oculta estava prestes a mudar o curso de uma vida que seguia naquele mais ou menos, sem malícia, paixão ou saudade, porque nada me faltava ou me atormentava.

Até que, na noite de uma certa quinta-feira, após a sessão do cinema no Glória, eu cheguei em casa por volta das 10 horas. O silêncio na rua só era quebrado por latidos de cachorros que vinham de longe. Ao entrar, percebi que todos já haviam se recolhido a seus quartos. No primeiro, meu pai, como sempre, tinha deixado o rádio ligado sobre o criado mudo. Ficava sintonizado bem baixinho na Globo, do Rio. Ele gostava de ficar ouvindo Izaac Zaltman, com Rio Bossa Noite, seguido do Seu Redator Chefe – à meia-noite, noticiário que marcou época. O rádio ligado a madrugada inteira. O meu quarto era o terceiro. Para surpresa, percebi que na cama patente faltavam travesseiro e lençol. Sem problema. Eu sabia que minha mãe guardava tudo num velho guarda-roupa no quarto ao lado do meu, o último, onde eventualmente dormia a empregada, garota com seus 18 anos, minhonzinha, bonita, corpo bem feito, olhar malicioso, um pitelzinho.

Com receio de assustá-la, fui cuidadoso ao empurrar a porta do quarto, o suficiente para que a pálida luz do corredor iluminasse o ambiente. Ao me ver entrando, ela levantou-se e silenciosa caminhou a meu encontro trazendo um sorriso meigo. Pensei que viria me dar uma mão, ajudar a encontrar o que eu precisava. Tolo. Eu devia perceber que, com aquele andar de felina e olhar de bichana manhosa a cata de dengo, a empregada nossa de cada dia tinha intenções que a minha cabecinha de criança estava prestes a descobrir. Ao ficar frente a frente comigo, deixou cair a camisola de algodão, desnudando-se por inteiro. De repente senti um cheiro de alfazema. Fiquei sem ação. Ao me recompor do choque, percebi o quanto era bela. Gentil, pôs uma mão no meu ombro, com a outra fechou a porta. Fez-me sentar na cama, tirou meus sapatos, meias, toda a roupa. Refém da situação, eu tremia. Sabia que alguma coisa inteiramente nova para mim estava para acontecer. Ao deitar-se, levando-me a fazer o mesmo, ela passou a mão direita com os dedos abertos sobre os meus cabelos, repetiu o gesto outras vezes. Foi algo indescritivelmente gostoso. Meu corpo respondeu bem às carícias e ao calor do corpo daquela que estava prestes a ser a minha primeira mulher, a minha primeira vez.

Na manhã seguinte, entrei na sala para o café da manhã vendo e ouvindo pássaros formando coros enquanto dançavam à minha volta. Eu estava enfeitiçado de felicidade, minha inocência era coisa do passado.

Ao perceber a entrada triunfal do caçula da casa, a dama oculta veio da cozinha com um copo de vitamina de banana com Nescau.

– Tome todinha, quero você bem fortezinho!

Enrubesci.

Meu irmão mais velho foi o único a perceber.

À noite, quando saí para andar pela coronel Souza Freire, as empregadinhas da vizinhança já sabiam da novidade.

– É verdade que você está comendo ‘Cuscuz com Bife’!

Morri de vergonha.

Cuscuz com Bife. Assim era conhecida entre suas colegas. Lá em casa, simplesmente Maria.

Para mim passou a ser Maria dos Prazeres.

Com ela eu fiz a minha primeira saliência.

Depois dela perdi o interesse por gibis.

Meus heróis já não eram os mesmos.

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