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Lagarto, 23-10-2014

Os calouros

Antonio Rocha, 7 de setembro de 2014

Personalidade discreta e o comportamento arredio não foram empecilhos para inibir a proeza, que surpreendeu aos presentes à competição de calouros do Cine Glória, especialmente seus colegas do Ginásio Laudelino Freire. A conquista do primeiro lugar fizera justiça à impecável interpretação dada ao sucesso da época — do cantor Reginaldo Rossi–, “O sombra”. Até então todos reconheciam entre as suas qualidades e méritos, a aplicação nos estudos, o elástico goleiro do time de futebol do Grêmio Cultural (segundo alguns, notável apreciador de frangos), o bom caráter e a obstinação em alcançar o que se propunha fazer. Porém, os dotes artísticos de Paulo Sérgio eram desconhecidos e não passavam no imaginário de ninguém.

De forma frustrada, dois anos antes, outro colega participara de uma competição semelhante. Apesar de possuir boa voz, conhecimento musical, inegável talento artístico e ser de temperamento extrovertido, Franklin Reis tropeçara no nervosismo, culminando numa apresentação pífia, que lhe valeu uma prematura desclassificação. Também reconhecido como aluno estudioso, inteligente e fluente em inglês, era vaidoso e metido a conquistador. Mesmo tendo boa índole, às vezes, pecava pela falta de humildade e não fazia cerimônia para exibir o seu lado mordaz, para ridicularizar a quem lhe parecesse rival, angariando assim, certa antipatia.

O sucesso fulminante de Paulo Sérgio (notadamente entre as meninas) foi decisivo para encorajar Franklin a uma nova tentativa. Confiante em superar o insucesso do passado, inscreveu-se para o concurso de calouros do domingo seguinte. Para a disputa, coincidentemente, escolheu a mesma música que consagrara Paulo Sérgio. Confiante em repetir o êxito do colega, enquanto exortava os demais a comparecer ao Cine Pérola, antecipadamente, trombeteava vitória. Soberbo, provocava os céticos: “Os outros que se cuidem porque o primeiro lugar é meu. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. A expectativa de vencer virou confiança e a confiança deu lugar à certeza de que o Laudelino teria outro campeão.

Como era de se esperar, no domingo o Cine Pérola ficou lotado. Todos queriam vê-lo cantar e ganhar. Entretanto, sem que ninguém desconfiasse, aqueles que o antipatizavam haviam tramado vaiá-lo durante a sua apresentação. Em minoria, porém organizados, sentaram-se em pontos estratégicos, aguardando o momento de desfechar o traiçoeiro golpe.

Ao chegar o decisivo momento, Euler Ferreira, o apresentador, visivelmente emocionado e torcendo muito, anunciou:

- Agora, o momento mais esperado desta manhã. Tenho a alegria de anunciar o meu amigo e favorito do programa, Franklin Reis! Ele vai concorrer cantando o sucesso, O sombra! Música, maestro!

Pálido, suando muito e indisfarçavelmente nervoso, o anunciado subiu ao palco. Para decepção da maioria e alegria dos poucos, Franklin desafinou feio. A orquestra entrou num tom e ele noutro. Desclassificado, saiu rapidamente (o raio caíra outra vez no mesmo lugar). Não houve tempo para vaias e nem mesmo para aplausos.

No dia seguinte, o Laudelino estava entristecido. Os amigos, solidários, evitavam o assunto. Os algozes, entretanto, não desperdiçaram a oportunidade para tripudiar do infortunado. Franklin, porém, fiel ao seu estilo, não perdeu a altivez e reagiu com peculiar superioridade: “Fiz o que tive vontade de fazer. Foi uma boa diversão. Não sou como vocês que têm vontade, mas não coragem”.

As duas tentativas malogradas fizeram Franklin desistir de ser cantor. Após a conclusão do curso ginasial, mudou-se com sua família para Salvador. Diplomado na Universidade Federal da Bahia, hoje é o Dr. José Franklin Fontes Reis, um dos mais notáveis peritos criminais da capital baiana.

Paulo Sérgio Oliveira Nunes, por algum tempo, ainda continuou cantando, porém, trocou pela medicina a promissora carreira artística. Foi prefeito da cidade baiana de Jaguaquara, onde realizou uma excelente administração, marcada pela probidade e zelo ao erário. Hoje reside e trabalha em Aracaju.

Dr. João Almeida Rocha: resumo biográfico

Antonio Rocha, 4 de abril de 2014

Dr. João Rocha

Nasceu em 09/10/1920, em Lagarto – Sergipe, quarto dos cinco filhos de Antonio Pinheiro da Rocha e Rosina Fontes de Almeida. Iniciou seus estudos em Lagarto, prosseguindo-os em Aracaju, no Ginásio Tobias Barreto (atual Colégio Tobias Barreto), onde concluiu o curso ginasial. Em Salvador, fez o primeiro ano complementar de medicina no velho Colégio Central da Bahia (antigo Ginásio da Bahia), concluindo-o nos dois anos seguintes na então Capital Federal, Rio de Janeiro (Instituto Juruena). Por concurso vestibular ingressou na Faculdade Nacional de Odontologia da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), graduando-se cirurgião-dentista no ano de 1945. De volta a Lagarto, trabalhou como dentista, em consultório particular, até 1972. Contraiu matrimônio com D. Waldomira Monteiro de Carvalho Rocha em 1949, de cujo casamento teve oito filhos.  Exerceu o cargo de vereador por duas legislaturas (entre 1947 e 1954) e de prefeito municipal entre 1973 e 1977. Foi oficial do registro civil do Cartório do 3.º Ofício entre 1955 e 1990. Foi também pecuarista e agricultor entre os anos de 1963 e 1998. Católico fervoroso, foi Presidente da Maternidade Zacarias Júnior e diretor da Associação de Caridade N. Sra. da Conceição. Benemérito da Pia União dos Pobres de Santo Antônio, dividiu com o ilustre lagartense Antônio Martins de Menezes, a aquisição do terreno onde se situa o prédio do Asilo de Santo Antônio, cuja construção deveu-se ao espírito meritório e cristão de D. Maria José Hora. Diretor do tradicional Ginásio Laudelino Freire (posteriormente Colégio), de 1966 a 1968 e de 1970 a 1972, sendo responsável pela implantação do primeiro curso de Contabilidade do município.

Filho de família humilde, desde cedo vislumbrou na educação o meio de ascensão social, política e econômica. Por isso, pautou a sua vida de político e de cidadão na valorização do saber, razão pela qual, também, nunca mediu esforços na luta de propiciar aos seus munícipes, principalmente àqueles que não dispunham de recursos econômicos, a oportunidade de estudar aqui em Lagarto. Quando prefeito, não mediu esforços para conseguir junto ao Governo Federal os recursos necessários para a implantação do Colégio Abelardo Romero, conhecido como Colégio Polivalente, onde hoje funcionam, provisoriamente, os cursos superiores do futuro Campus da Saúde da Universidade Federal de Sergipe, e do Módulo Esportivo, atualmente sede do Tiro de Guerra. Trouxe para Lagarto em convênio com a Universidade Federal de Sergipe, o primeiro curso superior de curta duração (Letras). Empreendeu a construção e reforma de diversas escolas da então precária rede municipal. Paralelamente, foi o pioneiro no transporte público escolar no município, facilitando o acesso dos residentes na zona rural aos princípios básicos de instrução nas escolas das sedes dos povoados e da cidade. Como cidadão, colaborou na construção do prédio do Colégio Laudelino Freire ao disponibilizar para a CNEC um sítio particular, fruto de herança, cujo dinheiro arrecadado com a negociação foi preponderante para a construção do prédio onde se situa o referido. Foi professor de Matemática, Ciências e Inglês no Ginásio Laudelino Freire. Modestamente, colaborou com a construção de muitas igrejas em diversos povoados do município de Lagarto. Em 1998, desligou-se completamente das suas atividades, recolhendo-se inteiramente para a família. Hoje, aos 91 anos, com a saúde debilitada, nos lampejos de lucidez tem a felicidade de receber o reconhecimento por parte de muitos dos seus conterrâneos, amigos e admiradores.

Lagarto, 9 de outubro de 2011.

 

Nota e agradecimento

Este breve resumo biográfico do Dr. João Almeida Rocha foi escrito para ser lido na cerimônia de outorga da Comenda Sílvio Romero, concedida pelo Poder Público Municipal no ano de 2011. Portanto, dois anos antes do seu falecimento, na manhã do dia sete de junho de 2013, no Hospital São Lucas, Aracaju-Sergipe.

A família agradece todas as manifestações de solidariedade e apreço por parte dos lagartenses, especialmente dos que fazem a Secretaria de Educação do município de Lagarto, particularmente, na pessoa da professora Maria do Carmo Oliveira da Fonseca; dos ex-alunos, através de Enoque Araújo da Paixão; dos professores e ex-professores do município, especialmente a Aloísio Conceição; dos historiadores, no nome de Claudefranklin Monteiro. De igual modo, à Prefeitura Municipal de Lagarto, do prefeito ao mais humilde servidor; aos que fazem a Casa de Oração D. Maria Teles; aos membros da Academia Lagartense de Letras, que recentemente escolheram o nome de João Almeida Rocha para uma das cadeiras daquele Sodalício, em nome do seu presidente, Paulo Andrade Prata, e dos amigos da família, Rusel Barroso e Joaquim Prata.

Uma questão de honra

Antonio Rocha, 25 de abril de 2013

Seu Silveira tinha o pavio curto. Era do tipo que por qualquer bobagem mudava de humor e explodia com facilidade. Bastava ser contrariado ou sentir sua autoridade contestada. Não era pobre nem tampouco rico. Possuía bens, conquistados mediante trabalho árduo, tanto na propriedade situada nos arredores da cidade quanto no comércio de carne no mercado municipal de Lagarto. Era casado com D. Santinha, devotada dona de casa, cuja preocupação maior era cuidar dos filhos e do marido.

Viviam em uma época em que, praticamente, não havia energia elétrica.  A conservação dos alimentos, especialmente os de origem animal, se dava através de métodos artesanais, como a salga e a subsequente desidratação da carne pela exposição ao sol ou ao calor das estufas dos fogões a lenha, quando não o prolongado cozimento junto com a gordura de toucinho nas panelas de barro nos preparo do lombo e da tradicional carne frita, ou através das linguiças caseiras, que eram curtidas ao sol, penduradas nos varais. A atividade econômica mais importante era a agricultura, pois Lagarto já possuía uma boa divisão fundiária, derivada da visão social do Mons. Daltro. Grande parte dos alimentos, consumidos pelo povo, provinha da roça, a exemplo do feijão; do café, que era torrado em casa; do milho, que processado em ralos de latão, dava o cuscuz –iguaria consumida diariamente no café da manhã e no jantar, servido com leite, ovos, manteiga e requeijão; da tradicional farinha, que era extraída da mandioca através de métodos rudimentares e armazenada em sacas ou baús junto a um pãozinho de Santo Antônio — segundo a crença assegurava a fartura. Também se cultivavam o aipim, a batata doce e a abóbora, bem como as folhas verdes e as poucas verduras. As frutas dependiam, exclusivamente, da sazonalidade. Peixes, uma raridade, só os de água doce, como a traíra, o jundiá e o caborje. Compravam-se poucos produtos. Basicamente o arroz, o açúcar, a carne verde, o jabá, o bacalhau, os pães e os bolachões, além dos parcos produtos de higiene pessoal.  Eram tempos de muita pobreza, que talvez expliquem os hábitos simples das famílias e a consequente preocupação em conter desperdícios.

Certa vez, seu Silveira acordou desejoso de comer galinha ensopada no almoço. Naquele tempo, somente as famílias mais abastadas podiam se dar ao luxo de comer tal iguaria, mesmo assim só aos domingos ou em ocasiões especiais. D. Santinha, sempre zelosa, não gostava de desperdício; para ela, um pecado a ser punido pela Divina Providência. Até que tentou demover o marido da ideia, argumentando que podia muito bem reaproveitar as sobras do dia anterior. Mas não houve jeito. O homem continuou irredutível. Queria comer a galinha.

Apesar de nunca ter contestado as ordens do marido, nesse dia ela abriu um precedente: preparou uma fritada com os restos de uma panelada de carne frita. Embora consciente de que poderia desagradá-lo, nutria a esperança de contornar rapidamente a questão. Afinal, não tinha feito nada de desabonador. Inocentemente, nem de longe imaginava o transtorno que viria.

Chegando para o almoço, seu Silveira entrou apressadamente em casa. Dirigiu-se à bacia d’água que ficava no canto da sala pensado só na comida. No entanto, mal pode lavar as mãos e o rosto. Passando o rabo do olho pela mesa, percebeu somente a bandeja com a fritada, a farinha, o feijão e o arroz cozidos. “Cadê a galinha ensopada?”, berrou desconfiado. Quase teve um infarto ao saber que não comeria o prato desejado. Atordoado com a notícia, nem atentou para as explicações. Levou a desobediência da esposa como uma humilhação, uma afronta digna dos frouxos dominados pelas mulheres; um caso tão grave, que exigia reparação imediata da honra.

Pulando como um cavalo louco, espumando mais do que um cachorro azedo, puxou a fritada da mesa, levando-a até o chiqueiro, cuja porteira abriu com um violento pontapé, estremecendo toda a estrutura de madeira. Em seguida atirou-a aos porcos.  O abalo foi tamanho, que alguns marimbondos que estavam acomodados numa casa no alto do telhado se assanharam e um deles pregou-lhe uma ferroada na orelha. O homem, que em estado sereno já tinha a pele avermelhada, com a mistura do calor do sol de verão, da raiva pela contrariedade e da pregada do marimbondo de fogo, transformou-se numa espécie de tição ambulante.

 Prosseguindo o roteiro de insanidade, apanhou uma espingarda no quarto dos fundos e se dirigiu ao galinheiro, onde disparou nas aves todos os cartuchos que tinha. Foi uma cena de terror. As penas se espalharam para todos os lados, as aves assustadas, corriam, voavam, cacarejavam, enfim, faziam o possível para escapar do cerco. Ao final da empreitada, várias galinhas acabaram mortas.

De volta a casa, como castigo, mandou que D. Santinha preparasse imediatamente todas as galinhas abatidas. Acuada, desta feita, a mulher obedeceu. Sozinha, resignou-se a enfrentar a dura e demorada tarefa imposta.

 Seu Silveira, no entanto, não demonstrava ter mais pressa em comer. No íntimo, já estava um pouco satisfeito com a vingança. Nem mesmo se preocupava em terminar o trabalho pendente na roça. Sentado à mesa, enquanto a mulher cozinhava, passava na orelha um unguento caseiro feito com ervas e sebo de carneiro capado derretido, muito recomendado para tratar contusões e picadas de insetos.

Com quase três horas de atraso o almoço ficou pronto. A panelada de galinha, apesar dos percalços do dia, fora preparada no capricho, bem ao gosto do “refinado” glutão. Orgulhoso do que tinha feito, seu Silveira desferiu o golpe final, sacramentando o castigo: obrigou a mulher a sentar-se à mesa para comerem juntos. Essa inusitada “gentileza” deixava clara a autoridade de quem efetivamente mandava na casa. D. Santinha, humilhada, comeu sem vontade. Seu Silveira, com ar de superioridade, comeu até se empanturrar. Das galinhas, só sobraram os ossos. A honra e a autoridade foram restauradas.

O burro e o zurro

Antonio Rocha, 14 de março de 2012

Não existe ser humano perfeito. Nada mais natural. Todos nós temos defeitos e virtudes. No entanto, não é por acaso que pensadores e filósofos chamam de sábios os que são conscientes desses defeitos, e que se esforçam para superá-los. Mas o que dizer daqueles que tão somente enxergam em si virtudes? Dos que se amparam na artificialidade para suprir as qualidades que lhes faltam? Dos que gostam de aparecer a qualquer custo? Dos que não enxergam o quanto se expõem ao ridículo e dos que se deixam seduzir por futilidades? É muito difícil explicar. Não é tarefa fácil entender a complexidade da natureza humana.

 Assim, era o veterano aluno da disciplina de Lógica. Adorava aparecer. Julgava-se o senhor da razão, acima do bem e do mal. Não que fosse demérito gostar de andar sempre bem vestido, de usar sapatos impecavelmente brilhantes, de empastar os cabelos com Wellaform ou chamar a atenção pelo uso exagerado do perfume Lancaster. O que causava asco era a sua empáfia, a maneira de tratar os colegas, o hábito de olhar e falar com as pessoas medindo-as de cima para baixo e, principalmente, a mania de se achar superior a tudo e a todos.

Quem o conhecia desde o tempo dos colégios Jackson de Figueiredo e Tobias Barreto não estranhava tal comportamento. Seu caráter sempre fora assim: bajulador, alcaguete e subserviente, notadamente perante aos que julgava importantes. Para levar vantagem não tinha o menor pudor. Era capaz de tudo. Diziam até que para entrar na universidade dera uma carpideira, chorando copiosamente aos pés do Reitor, conseguindo dessa maneira suplantar o revés sofrido no vestibular. Tamanho pedantismo só podia ser mesmo um escudo para esconder suas limitações.

Na faculdade, a mania de sapiência aumentou. Porém, diferentemente da vida colegial, lá, boçalidade e bajulação não foram suficientes para levá-lo ao êxito. Foi preciso muito mais. Bastou uma só disciplina exigir um pouco mais de raciocínio para fazê-lo amargar três reprovações consecutivas. Assimilar os conhecimentos de Lógica se mostrou bem mais difícil do que decorar frases em inglês, francês e latim, ou mesmo cortejar os abastados da cidade no programa dominical que apresentava todos os sábados numa emissora de rádio.

Por isso, a necessidade de aprovação em Lógica se transformou num incômodo tabu, difícil de ser quebrado. Se submeter-se a uma quarta tentativa numa mesma matéria já era ruim, quanto mais, por azar, encontrar matrícula disponível somente na turma reservada ao mais exigente dos professores. Era o prenúncio de que viria pela frente uma parada prá lá de indigesta. Não foi surpresa, portanto, que o desempenho estudantil continuasse no mesmo diapasão de mediocridade, com a consequente probabilidade de mais uma reprovação.

Para evitar a iminente derrocada, na última prova ele teria que obter uma nota excepcional, mas seria preciso que acontecesse um milagre. No afã de consegui-lo, apelou para o método que já havia dado certo antes e que julgava ser infalível: a bajulação. Para tanto, no sábado anterior à prova final, reservou todo o horário do programa de rádio para um convidado muito especial: o professor. A entrevista levada ao ar foi eivada de melosos elogios à eminente figura do mestre.

 A confiança no sucesso da estratégia era tanta que antecipadamente dava a aprovação como fato consumado. Nem mesmo a probabilidade de reprovação e de ser ridicularizado foram suficientes para conter esnobismo perante os colegas.  No entanto, não houve surpresa. O professor não sucumbiu à encenação e o castigo veio na figura de uma nota pífia. Ao receber a notícia, a impostura desabou.  “E a entrevista, professor? Não valeu nada? O senhor deve explicações! A mim e aos meus ouvintes!”, gritou exasperado. “A entrevista foi uma coisa; a prova, outra”, rebateu o mestre. A sinceridade da resposta o deixou mais furioso ainda. Atordoado, deu uma rabanada e retirou-se da sala.

Tempos depois, a duras penas, concluiu o curso. O revés e a vergonha sofridos, no entanto, não serviram de lição. Nunca superou a mania de superioridade. Continuou sendo o presunçoso de sempre.

“O burro se encanta com o zurro” (provérbio armênio).

A armadilha

Antonio Rocha, 29 de novembro de 2011

Os que mais discordavam da qualidade da limpeza da igreja eram os mesmos que sorrateiramente se encarregavam de sujá-la. A crítica levada a termo não procedia e era apenas o prolongamento de um expediente urdido para apimentar a brincadeira de mau gosto usada para infernizar a paciência do pobre sacristão, responsável pela higiene do templo e tido como doido e temperamental. Por mais que este se esmerasse nas suas tarefas, uma bolinha de papel aqui, um saquinho plástico jogado acolá ou outra sujeira qualquer tão logo aparecia estivesse a faxina concluída dando a falsa impressão de negligência, ou mesmo ineficiência. As reações destemperadas do infeliz perante as cobranças de zelo no trato do sagrado ambiente provocavam o deleite de muitos, principalmente dos sabotadores, reforçando a desconfiança dos mais sensatos de se tratar de um boicote ou qualquer coisa parecida. Porém, tal suspeita carecia uma prova cabal que pusesse fim ao transtorno.

Os católicos mais influentes da até que entendiam o desespero e se apiedavam do coitado. Porém, em vez de ajudá-lo, pressionavam para que ele encontrasse um meio de identificar os responsáveis e solucionar pacificamente a situação. Indiretamente, deixavam o abacaxi nas mãos do desafortunado, numa empreitada que extrapolava a capacidade do seu intelecto. Tudo isso só fazia aumentar sua angústia e apreensão.

O vigário, por outro lado, além de cobrar empenho no mesmo sentido, colocava mais um fardo nas costas do sacristão: insistia para que durante as celebrações religiosas a cadeira do confessionário não fosse usada por estranhos, já que os seus apelos proferidos durante as celebrações religiosas não vinham sendo atendidos. O fato de ver aquela cadeira ocupada por outros, não se sabe por que, era algo que o incomodava.

Com tantas incumbências a lhe atarantar, ele radicalizou de vez. Estava decidido a acabar com toda aquela perturbação. Na sua imaginação, uma boa lição aos indevidos usuários da cadeira do confessionário seria o primeiro passo. Para tanto, pediu permissão ao padre para levar a termo um plano, que consistia em colocar uma bacia de água fria no assento da cadeira. Assim, o primeiro desavisado que se sentasse teria uma boa surpresa. O vigário não levou a proposta a sério e julgou se tratar de mais uma maluquice. Contudo, não esboçou nenhum argumento em contrário, transparecendo a falsa impressão de concordância.

Logo cedo, bem antes dos fiéis chegarem para a missa matinal do domingo, ele aprontou a armadilha. Aos poucos, como de costume, a igreja ficou repleta. Entretanto, contrariando a expectativa, ninguém se sentou na cadeira. Encerrada a celebração, frustrado pelo insucesso do seu propósito, o sacristão apressou-se em sair para apanhar os costumeiros restos de papel jogados no recinto, esquecendo-se de desarmar a arapuca. Enquanto isso, o padre se dirigia ao confessionário para atender os fiéis que comungariam na missa das dez horas. Ao sentar-se na cadeira foi surpreendido pela água fria da bacia. Além do susto pelo banho inesperado, teve que suportar as risadas incontroladas dos que aguardavam pela confissão. O vigário, desconcertado e com a roupa molhada, suspendeu o ofício e foi se enxugar na casa paroquial.

A repercussão do acontecido despertou na comunidade católica o desejo de dar um basta em tudo que de errado que vinha acontecendo. O acidente com a bacia de água fria foi a gota d’água que catalisou a decisão de acabar com aquela brincadeira, custasse o que custasse. Os sabotadores, pressentindo que haviam passado da conta e que fatalmente seriam descobertos, puseram um ponto final na brincadeira.

O sacristão, perdoado pelo padre, teve de volta a tranqüilidade para trabalhar. Indiretamente, a armadilha surtiu efeito. A ordem e o respeito foram restabelecidos.

Turistas em apuros

Antonio Rocha, 15 de setembro de 2011

O prognóstico para o pleito que se aproximava era sombrio. Ninguém acreditava na possibilidade de vitória sobre as forças da situação. Porém, a necessidade de lançar uma chapa de oposição para concorrer ao cargo majoritário municipal – e que ao menos tivesse uma participação honrosa – manteria viva a chama da liderança política de Dionísio Machado. Por isso, não houve nenhuma objeção à única condição imposta por Dr. João para aceitar a penosa missão confiada pelo velho caudilho: a prerrogativa de indicar o seu candidato a vice-prefeito. Contrariando a cúpula do partido, o escolhido foi Eliseu Martins, um comerciante bem sucedido, muito estimado no município, de temperamento extrovertido e desprovido de vaidade. O seu jeito cordato no trato com as pessoas, acrescido a uma espécie rara e emblemática de carisma, explicavam a expressiva votação obtida no pleito anterior, fazendo-o o vereador mais sufragado.

Ao contrário de hoje, àquela época as pessoas valiam mais pelo que eram do que pelo que possuíam. Não se falava em milhões, bilhões ou qualquer coisa semelhante. Os gastos de uma campanha política se resumiam ao custeio da publicidade, dos comícios e coisas afins. Não havia a profissionalização dos famigerados “cabos eleitorais”, o acintoso alarde de compra de votos e nem mesmo o vulgarizado festival de pesquisas eleitorais. A seriedade e o espírito público prevaleciam. Por isso, a chapa formada ganhou credibilidade e começou sua caminhada numa espiral ascendente mantida até a esmagadora vitória.

O embate eleitoral, entretanto, teve um trajeto duro e desgastante, deixando os contendores extenuados e necessitados de um merecido repouso. A idéia de viajar, tão logo se encerrou a apuração dos votos, apresentou-se como uma fórmula perfeita para juntar diversão, descanso e comemoração, sendo prontamente aceita por ambos. A rota turística escolhida levava em conta lugares do sertão nordestino (onde Eliseu mantinha contatos através do comércio de fumo), passando pela cidade de Valença, no estado do Piauí, que nessa ocasião vivia um clima tenso em razão de um bárbaro crime político.

Hospedados em Valença, enquanto Dr. João descansava, Eliseu resolveu dar um giro pela cidade a bordo do vistoso opala verde, de óculos escuros, chapéu, portando o inconfundível cachimbo e ao som das canções de Waldick Soriano, alheio aos maldosos e funestos rumores que ganhavam corpo em meio aos transeuntes: “o homem contratado para vingar a vítima chegara”. O périplo, no entanto, acabou sem nenhum percalço.

No final da tarde, o ambiente sereno e feliz da pensão foi quebrado com a chegada do delegado, disposto a investigar a veracidade dos tais rumores. Cumprindo os deveres de cidadãos, ambos se identificaram e não fizeram nenhuma objeção às revistas do veículo e dos aposentos. Nada sendo constatado e nem encontrado, tudo levava a crer que o mal entendido estava desfeito. Surpreendentemente, tomado por um acesso de fúria e espumando como um cão raivoso, o policial deu voz de prisão ao assustado Eliseu. Imune aos argumentos apresentados em contraposição àquela arbitrariedade, o sujeito, cada vez mais impertinente, cheio de trejeitos, completamente descabelado e soltando uivos histéricos, insistia em levá-lo até a delegacia. Antevendo um desfecho humilhante e injusto, a dona da pensão, indignada, porém segura de si, interveio de forma decisiva em favor do seu velho amigo e pôs as coisas nos seus devidos lugares. Proferindo uma merecida reprimenda transformou o valente policial num dócil cordeirinho. Este, devidamente enquadrado e percebendo a chegada do prefeito, transferiu a sua ira em direção à multidão postada à frente da pensão, dispersando-a.

No dia seguinte, como forma de reparar o lamentável incidente e desfazer a má impressão causada, o prefeito ofereceu um almoço aos ilustres visitantes. A paz foi definitivamente selada. No entanto, a razão da repentina metamorfose do delegado jamais foi conhecida. Desconfia-se que não foi somente pela reprimenda. Deve ter sido, também, por algo muito mais forte.

Buraco de tatu

Antonio Rocha, 7 de julho de 2011

Só pode ser maldade ou gozação atribuir a um banho completo de imersão em óleo de rícino, por ocasião do nascimento, a capacidade que algumas pessoas têm em emanar antipatia. Tal justificativa não tem nenhum fundamento científico e não passa de mero folclore. Deve ser coisa inerente à própria natureza. Do mesmo modo que nascem pessoas de temperamento pernóstico, outras vêm ao mundo ungidas pela aura da simpatia. Se assim não fosse, o personagem deste texto não seria tão querido, embora carregasse uma dose pesada de pedantismo, um perfil bravateiro e um tempero extra de incorreção nos negócios.

O fato descrito neste texto começa numa época em que o Estado de Sergipe era aclamado como o reino do indubrasil e quando os melhores exemplares desses animais procediam da nossa Lagarto, cuja raça, de prestígio nacional, acabou enriquecendo muitos dos nossos pecuaristas. O dinheiro farto fazia com que o desfile dos “Galaxies”, o consumo do uísque White Horse, as reluzentes festas nas fazendas e as demais luxúrias peculiares aos novos ricos parecessem banais. O personagem central foi um desses fazendeiros bafejados pela sorte de pertencer à saga desse seleto grupo de criadores.

O súbito enriquecimento fez-lhe florescer duas manias, até então desconhecidas: a primeira, de exibir os seus dotes de conquistador inveterado, que não lhe permitia resistir à tentação de um rabo de saia (em que pese morrer de medo da mulher); a segunda, de cantarolar uma velha cantiga de Luiz Gonzaga, “Buraco de tatu”, como modo de exibir felicidade quando ganhava muito dinheiro nos negócios. A estrofe que mais gostava, dizia assim:

“Não bote a mão no buraco de tatu,
Que é muito perigoso, e é preciso ter cuidado
Lá dentro pode haver uma cascavel, ou surucucu
Esperando de bote armado…”

Diz o ditado que o uso do cachimbo sempre deixa a boca torta. Como na nossa terrinha o seu lado mulherengo nunca lhe trouxera embaraços, a crença no poder do dinheiro credenciou-o a aventuras mais ousadas. Pondo o orgulho acima da razão, decidiu enveredar por uma seara até então desconhecida, levando para fora do seu terreiro, em Vitória, no Espírito Santo, o seu espírito de conquistador irresistível. O alvo escolhido para a sua investida amorosa foi a mais bela mulher presente à exposição agropecuária daquela cidade, mais precisamente, a amante de um pecuarista local que, por coincidência, expunha animais em baias vizinhas às dele.

A beleza da moça o descontrolou de tal maneira, que o assédio se deu abertamente, sem o mínimo de cerimônia e sem os mais singulares princípios de discrição. Nem ao menos, tivera a preocupação de se inteirar do ciúme doentio que o sujeito nutria pela companheira, comparado apenas à natureza violenta do seu temperamento. O coronel Manoel Messias, de Frei Paulo, homem sensato e cauteloso, conhecedor da fama do capixaba (acostumado a andanças nas rodas da pistolagem das Alagoas e da Serra Negra, na Bahia), teve uma espécie de premonição, antevendo a enrascada em que o amigo estava prestes a se meter. Em vão, tentou dissuadi-lo a estancar a empreitada. A obsessão era tanta que ele só tinha os olhos voltados para a beleza da mulher. Queria-a de qualquer jeito, custasse o que custasse. Determinado a levar adiante o seu intento, desdenhou do alerta recebido.

Os rumores sobre o escandaloso assédio se fizeram ouvir pelo parque. A mulher, discreta, até que tentou esquivar-se, resistindo à investida. Entretanto, como o homem não desistia, perdeu a paciência e cientificou seu companheiro do que se passava. Atingido em sua honra e eivado de ódio mortal, este decidiu se vingar. Para isso, entabulou um diabólico plano, que consistia em assassinar o rival, no recinto onde se realizava a exposição. Queria que a lição de respeito, destinada a lavar a honra ultrajada, fosse presenciada por todos. O último dia do evento foi marcado para a execução da macabra sentença.

A notícia da trama, no entanto, vazou antes desta ser consumada, no dia do encerramento. Os sergipanos entraram em pânico e trataram de avisar ao amigo, que, alheio a tudo o que se passava, andava tranquilamente pelas dependências do parque. Ao tomar conhecimento do que lhe aguardava, se deu conta do tamanho do buraco de tatu em que metera a mão. Teve a certeza, então, de que nele não havia somente uma cascavel ou uma surucucu, mas um serpentário completo. Desesperado, refugiou-se no alojamento destinado aos motoristas encarregados de transportar o gado, enquanto aguardava que seus amigos encontrassem uma solução que lhe permitisse escapar com vida.

Mais uma vez, a experiência do coronel Manoel Messias se fez valer. A idéia de fazê-lo sair disfarçado de mulher foi exposta, sendo acatada pelos demais como a única solução viável. Sem ter alternativa, ele concordou. Coube a uma simpática cabeleireira a tarefa de preparar o disfarce, colocando-lhe uma peruca loira, um vestido bem rodado, sapatos de saltos altos e uma caprichada maquiagem. O trabalho ficou tão perfeito que o deixou tão “bonita” quanto à mulher cobiçada, embora tenha custado o valor de um belo exemplar de indubrasil, negociado dias antes.

Abraçado ao motorista e simulando um “affair” de muita paixão, ele deixou o parque num caminhão, sem despertar a atenção dos pistoleiros. Pela estrada, tomou o rumo da cidade de Itamaraju, no sul da Bahia, lugar programado pelos amigos para encontrá-lo, bem longe do perigo de Vitória.

A operação salvamento, casualmente, foi registrada pelas lentes de um fotógrafo que cobria o evento, cuja ”histórica” foto serviu de ilustração para uma extensa reportagem publicada na primeira página do principal jornal do Espírito Santo.

De volta a Lagarto, sem demonstrar nenhum constrangimento, comportou-se indiferente aos rumores acerca do vexame passado, mantendo a rotina dos negócios, gabolices e demais fanfarronices, sem perder a costumeira simpatia. No entanto, como que traumatizado, aboliu do seu repertório a cantiga de Luiz Gonzaga. A mania de conquistador, embora tenha sido preservada, ficou restrita ao seu terreiro.

O milagre da jaca

Antonio Rocha, 27 de junho de 2011

Foi no antigo Instituto de Biologia da UFS que, numa referência à minha cidade natal, tive o privilégio de receber o apelido de “Lagarto”.  Nominalmente identificado na minha origem, tornei-me alvo das brincadeiras comuns aos “papa-jacas”: “o povo de Lagarto escorrega na jaca e cai no fumo ou os meninos de Lagarto já nascem contraindo o indicador, prontos para tirar os bagos da jaca”. O fruto da terra era o preferido para as brincadeiras.

Gilberto Bezerra, o Ximena, estudante talentoso e destacado, boêmio nas horas de folga, amante da noite, apreciador da boa música e da cerveja, era contumaz em aprontar gozações com os colegas, e, como nenhum outro, sabia tirar partido de uma situação para exercitar o seu humor crítico.

Inteligente, culto, loquaz e de hábitos aristocráticos, com peculiar elegância, Gilvan Rocha lecionava fisiologia humana. Impressionava a todos a sua habilidade conquanto explicasse um assunto, simultaneamente, desenhava as partes do corpo correlatas. Era um artista nato. Não obstante todas as qualidades, contudo, quando lhe convinha, era implacavelmente irônico.

Numa aula, discorrendo sobre o funcionamento do sistema digestivo – a absorção e o metabolismo das gorduras, proteínas e carboidratos -, enveredou pela importância do equilíbrio dietético. Ilustrando as suas explicações, o mestre nos ofereceu uma tabela com a composição química e nutricional de alimentos, notadamente as frutas de clima tropical. Perspicaz, Ximena percebeu naquela tabela a oportunidade de me cutucar. Aparentando um ar solene, o interrompeu com uma pergunta maliciosa:

- Professor, qual a composição nutricional da jaca?

Gilvan respondeu com um “petardo” sob medida:

- Não tenho conhecimento se foi feita alguma análise da composição química da jaca. Aliás, pelo que sei, a jaca é uma fruta anti-social e muito indigesta, cujo consumo não combina com os padrões de civilidade. Talvez por isso não tenha sido analisada.

A risada foi geral. A fama de papa jaca do lagartense era conhecida. Entendendo ser uma provocação, prudentemente não me manifestei, evitando a armadilha. Reagi com naturalidade, embora considerasse a resposta preconceituosa.

Ignorando a etiqueta social e suas recomendações, há muito, o prezado colega se mostrava um apreciador inconteste da criticada fruta. Semanalmente, ia ao mercado central de Aracaju adquirir a iguaria (provavelmente, procedente de Lagarto), pois em casa sua presença era indispensável. Estava explicada a razão da sua curiosidade em conhecer o teor nutricional da fruta. Naquela aula, espertamente, omitira esse significante detalhe.

Anos mais tarde, discursando para uma plateia na sede do diretório do PMDB de Lagarto, já senador da república e candidato em campanha para o governo do Estado, Gilvan enaltecia as qualidades do nosso povo, da nossa terra e, surpreendentemente, até do sabor e valor nutritivo da jaca. Parecia que algo milagroso presente na fruta acabara de ser descoberto, especialmente, talvez, um poder milagroso para angariar votos. A convenção social que repudiava seu consumo, aparentemente, fazia parte de um passado, cuidadosamente esquecido.

Passada a eleição, como nenhum milagre aconteceu, o velho professor, provavelmente, reavaliou seus conceitos sobre convenções e etiquetas. Desta feita, quem sabe, para melhor.

In vino veritas

Antonio Rocha, 2 de maio de 2011

Passei a conhecê-lo por ocasião de um Congresso de Odontologia realizado na sua cidade natal, uma bela capital nordestina, em cujo evento exercia a coordenação da apresentação das mesas clínicas. Era um sujeito de temperamento cordato, perspicaz e inteligente.  Pertencia ao gênero daquelas pessoas que conseguem angariar simpatia sem dificuldade. Laborava há algum tempo na cidade, desfrutando de merecido conceito não apenas pela competência com que exercia a profissão na sua clínica particular e no serviço público, mas também pelo trabalho voluntário em comunidades de bairros periféricos à frente de uma entidade filantrópica local.

Vivíamos os primórdios dos anos oitenta, época em que a abertura política despertava no Brasil o clamor pelas eleições diretas e o consequente fim do regime autoritário. Entusiasta das mudanças, mostrava-se afinado com a proposta de substituição do modelo econômico vigente por outro que fosse mais humano, direcionado à construção de uma sociedade igualitária e fraterna, acabando com a exploração da classe dominante, mormente as multinacionais, “responsáveis pelas mazelas que grassavam no país”. Confiante nessa linha ideológica, resolvera disputar, no pleito que se avizinhava, uma vaga na câmara municipal pelo principal partido de oposição, consciente de que a conquista democrática de um cargo eletivo seria um instrumento importante para ajudar a difundir o pensamento que acreditava ser essencial para a almejada política transformadora.

Durante o período do congresso, estivemos juntos não só durante a programação científica como também nos momentos de lazer, desfrutando das atrações turísticas da bela capital. Naturalmente, afora os temas relacionados à odontologia, a situação política do momento permeou nossas conversas. A sinceridade com que defendia os seus pontos de vista foi suficiente para me deixar sugestionado e também a alguns outros colegas, a ponto de aceitarmos o convite para participar de uma reunião política numa noite em que um líder comunitário local o apresentaria oficialmente como candidato perante os seus liderados. Foi então que pude atestar mais um dos seus atributos: o poder envolvente da oratória, cuja capacidade de convencimento deixou os ouvintes extasiados.

Após o inflamado discurso, naquele momento, fiquei convencido de que uma nova liderança naquela cidade havia surgido, e que, fatalmente, teria um futuro promissor. No entanto, terminada a reunião, um cochicho entre ele e o líder local me deixou intrigado. O modo esquisito de conversar e a troca de sorrisos marotos deixavam no ar a suspeita de que algo não muito decente poderia estar sendo articulado. Do pouco que ouvi, pude perceber que tratavam de um acerto feito com um proprietário de restaurante, cujos serviços seriam contratados para o fornecimento de um almoço aos votantes no dia da eleição (prática por demais comum na região nordestina àquela época).

Encerradas as atividades científicas, convidei-o para passar a tarde à beira da piscina do hotel onde me encontrava hospedado. Queria retribuir a hospitalidade dispensada. Após alguns drinques, o tema eleição voltou à baila e com ele a revelação do que fora tratado no tal cochicho. Provavelmente, o efeito do álcool fê-lo sentir-se mais descontraído para abrir o jogo sobre a estratégia nada ideológica planejada para o dia da eleição. Seria a forma de neutralizar uma eventual defecção de eleitores daquele bairro, por demais viciados em receber dinheiro para mudar o voto, justificou.

O plano elaborado consistia em duas etapas: a primeira, fictícia, estava amparada na suposta contratação de um restaurante para servir um almoço reforçado no dia da eleição mediante a apresentação de uma senha, que seria distribuída a cada eleitor pela manhã, após a votação; a segunda, verdadeira, consistia em pagar ao presumido prestador do serviço para que ele fechasse o restaurante e sumisse da cidade. Em suma, não haveria almoço nenhum. Calculadamente, quando os infelizes se dessem conta do engodo, a desculpa bem articulada disfarçando indignação e prometendo uma solução judicial seria acionada.

Nesse nosso último encontro, a conversa sobre eleição ficou restrita somente à tal estratégia. Nada sobre ideologia ou a qualquer outro tema fora abordado. A suspeita de que a decantada concepção filosófica e a política transformadora não passava de sofisma, pairava no ar. A iminência de que o efeito do “vinho” trouxera a verdade à tona estava quase que configurada. Porém, em que pese todos os indícios, preferi continuar a acreditar na nobreza dos propósitos ideológicos. A empreitada, embora deplorável, talvez fosse somente para neutralizar o poder econômico dos coronéis, afinal, naquela terra havia de tudo em se tratando de eleições, menos lisura. Os fins, portanto, poderiam justificar os meios. O que valeria mesmo seria a correta atuação parlamentar.

Terminada a eleição a chapa oposicionista elegeu a maioria dos vereadores, entre eles o idealista. A mesma sorte não teve o candidato a prefeito, que foi derrotado pelo postulante situacionista. Entretanto, apesar da vitória não ter sido completa, a sonhada oportunidade de estar numa importante trincheira para empreender a desejada luta pelas prometidas mudanças, finalmente estava ao seu alcance.

Porém, tudo não passou de um engodo. A matéria estampada numa revista de circulação nacional não deixava dúvida: para garantir a presidência da mesa diretora legislativa, o primeiro compromisso legislativo do colega foi aliar-se a alguns edis da situação, levando consigo a maior parte da bancada oposicionista, mediante um conchavo que garantiu aos demais pares um carro oficial (com as despesas de manutenção pagas pelo erário, inclusive o motorista), o aumento da verba de representação, o número de assessores, o aumento da remuneração e muitas outras benesses. Também não demorou muito tempo filiado ao partido pelo qual foi eleito. Alegando desconforto, perseguição ideológica e a necessidade de estar mais perto do executivo no sentido de conseguir obras que beneficiassem os “mais carentes”, mudou-se para o partido situacionista.

Tardiamente, o convencimento que tivera sobre o surgimento do novo líder desmoronou.  A partir de então, passei a acreditar cegamente na máxima dos romanos: in vino veritas*.

 

*Expressão latina que significa “no vinho (está) a verdade”, dita por Plínio, filósofo e naturalista romano, embora alguns atribuam a autoria ao poeta grego Alceu. Sem entrar no mérito de paternidade da expressão, os antigos romanos queriam dizer que a embriaguez soltava a língua e fazia a verdade vir à tona.

A casca de banana

Antonio Rocha, 17 de fevereiro de 2011

Ao amigo Vaubério Cézar, o mais assíduo leitor das minhas estórias, e ao Prof. Rusel Barroso, a quem sempre apelo para as correções ortográficas e gramaticais.

Tudo começou quando o colega Gustavo leu a carta remetida por Hélio Barreto, propondo uma espécie de intercâmbio turístico entre os alunos do quarto ano ginasial do Laudelino Freire e os congêneres do Murilo Braga, de Itabaiana. A ideia consistia, inicialmente, numa viagem à cidade serrana, onde os alunos de Lagarto seriam recepcionados. No final de semana seguinte, a vez dos estudantes itabaianenses serem recebidos pelos lagartenses. Colocada em votação, a sugestão do congraçamento foi aprovada por aclamação.

Àquela época, a economia do município de Lagarto, como a da maior parte dos municípios nordestinos, dependia basicamente de atividades do setor primário e oferecia poucas alternativas de renda.  Eram tempos difíceis e nem todos tinham o privilégio da minoria que ganhava dinheiro com a pecuária, com a exportação de fumo ou com o comércio da cidade.  Portanto, o custeio das despesas da viagem e da organização da festa de recepção na Associação Atlética de Lagarto não poderia ser viabilizado somente com recursos dos pais dos alunos, cuja maioria tirava o sustento das suas famílias no árduo trabalho da lavoura e de pequenos negócios nas feiras livres.

O problema da hospedagem havia sido resolvido através de uma maneira bem criativa e de custo zero: cada estudante do Laudelino ficaria alojado na casa de um aluno do Murilo Braga, assumindo o compromisso de retribuir a hospitalidade quando da estada do colega em Lagarto. A única dificuldade a persistir, portanto, era a de arrumar o restante dos recursos para complementar as demais despesas. Daí a necessidade de se organizar uma comissão especial, encabeçada pelos alunos mais extrovertidos, que ficaria encarregada de levar uma carta solicitando ajuda à comunidade.

A empreitada deu certo. Com os recursos assegurados, a excursão a Itabaiana e a recepção patrocinada em Lagarto foram realizadas com êxito. Poder-se-ia dizer que tudo havia corrido às mil maravilhas, se não fosse o transtorno causado por um pequeno lapso ortográfico contido na carta, fruto de desatenção e da displicência do redator, que acabou pagando um pesado tributo por ter se esquecido de submetê-la à correção.

O professor de português, conhecedor ímpar da gramática e da ortografia, não se cansava de alertar os estudantes sobre as armadilhas que a língua pátria guardava, conclamando-os para a importância do aprendizado. Perfeccionista ao extremo, repreendia com rigor o menor erro que detectasse, segundo ele, para que nunca mais fosse repetido. Portanto, de antemão, estava claro que ao se deparar com a missiva e ler a palavra comissão escrita com “ç”, reagiria energicamente.

Não deu outra. No dia seguinte, disfarçando o desapontamento, começou a aula com um habilidoso discurso, elogiando a iniciativa dos alunos pela intenção de promover o importante intercâmbio, a disposição para enfrentar a adversidade financeira e também desejando sucesso ao objetivo pretendido. Após o auspicioso preâmbulo, passou a tecer os mais rasgados elogios ao estilo e ao meticuloso cuidado com que a carta havia sido escrita.  Concluindo a prodigiosa oração, percebendo que todos estavam extasiados, perguntou o nome do responsável pela redação, a fim de parabenizá-lo. “Fui eu, professor!”, respondeu Gilson, com o semblante estampado de felicidade. Sem saber, inebriado pela salva de elogios, havia pisado na escorregadia “casca de banana” que, sutilmente, fora colocada no seu caminho.

A reprimenda foi impiedosa, de uma natureza jamais vista no Ginásio, que nem mesmo poderia ser igualada àquela que recebi quando errei a solução de um problema algébrico diante do quadro negro, e bem conhecida dos estudantes. O vexame, que já era grande, tornou-se bem maior por causa da zombaria dos colegas, que se desdobraram em sonoras gargalhadas.

No entanto, fiel à tradição dos bons estudantes do Laudelino, Gilson não desanimou. De forma altiva, assumiu o erro e brindou os colegas com um exemplo de superação a ser seguido: tal qual a ave fênix, que na mitologia ressurgiu das cinzas, tomou o revés como o vetor para se transformar num dos mais aplicados alunos de português.

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