Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 08-12-2019

O susto

Antonio Rocha, 19 de junho de 2019

Tudo aconteceu numa época em que a cidade gozava de relativa tranquilidade, lá pelos anos oitenta. Lagarto ainda guardava costumes provincianos, tempo em que ainda era possível as pessoas se reunirem nas portas das casas, andarem tranquilamente pelas ruas, e podiam desfrutar de uma melhor convivência social. Uma boa turma, à noite, se encontrava costumeiramente na Praça Filomeno Hora, nas proximidades de uma banca de revistas que ficava em frente à Drogaria Mendes. Jorge de Nozinho, Arquibaldo de Zé Marcelino, Pereira da Energipe, Mineirinho, Hercílio da Radiofon, Dicinho Fraga, Dr. Carlinhos, Elcinho, Durvalzinho, Paulinho de Arão, Décio da Sapataria, e muitos outros ficávamos por lá até às oito da noite, quando saíamos para estender o “expediente” na churrascaria do amigo Pedro, na estação rodoviária.

Foi nesse mesmo tempo que veio para o nosso convívio um próspero sitiante, que fixara residência na cidade, procedente de um povoado próximo a Lagarto. Hábil negociante, tivera rápida ascensão financeira e econômica cultivando e comercializando maracujá e laranja. Era um sujeito alto, um pouco magro, pele bem branca (beirando quase ao albinismo), e muito boa praça. Embora guardasse muitos dos costumes da nossa zona rural, adquirira um pouco da vaidade do lagartense urbano. Gostava de andar bem vestido, usar botas de cano curto, fumar o cigarro do tipo slim, da marca Minister, e até arriscava no seu vocabulário algumas citações poéticas. Sua característica mais marcante era o vasto bigode que cultivava, o que lhe valeu o apelido de Baratão, em alusão a aparência que tal detalhe lhe conferia quando comparado à “tesoura” de uma barata d’água. Era, também, um sujeito muito supersticioso. Tinha verdadeiro pavor de assombração. Qualquer conversa acerca das coisas sobrenaturais era o bastante para lhe tirar a animação.

Certa vez nosso amigo Baratão achou de arranjar uma “namorada”, cujo marido, de temperamento aparentemente calmo, negociava com gado de corte e couros por algumas cidades de Sergipe e Alagoas. Era um sujeito, portanto, de viajar muito, passando vários dias e até semanas fora de casa. Segundo as más línguas, a imagem de mansidão servia somente para disfarçar sua face verdadeira. Muitos falavam que teria esbarrado em Lagarto após ter fugido do sertão da Paraíba, onde cometera um crime passional depois que soube que a sua mulher tinha um caso extraconjugal.

Esse namoro, obviamente, escondido, a princípio permaneceu cercado de cuidados. Quase ninguém sabia, exceto pouquíssimos dos seus convivas. Entre os poucos que tinham conhecimento estava Beto, com quem ele confidenciava segredos. Em face disso, Baratão, valendo-se da amizade, passou a tomar emprestado a velha casa de um sítio situado no povoado Alto da Boa Vista, que este herdara do seu pai, Dr. Evandro, transformando-a no local predileto para os seus encontros. Assim, nos dias em que combinava se encontrar com a moça, previamente, quase sempre no começo da noite, apanhava discretamente as chaves da casa no balcão da farmácia.

A velha casa do sítio se situava numa área descampada, rodeada por árvores e arbustos. Ao lado, a uma distância de mais ou menos dez metros, ficava outra casa, de tamanho menor, habitada pelo caseiro Germano, que morava sozinho. Este, entre as outras tarefas inerentes ao sítio, sempre às seis da tarde, cumpria religiosamente a incumbência de acender a lâmpada do poste de madeira que ficava em frente à casa do patrão, dando um pouco de iluminação e vida ao lugar. A chegada ao sítio se fazia por uma estreita estrada vicinal, uma espécie de corredor cercado pelos lados, que se comunicava com a rodovia Lagarto/Simão Dias. Era, sem dúvida, um lugar escondido, bem propício para as noitadas amorosas.

O tal namoro, que começou como algo despretensioso, foi paulatinamente ganhando um grau maior de intensidade. Os cuidados com o sigilo, a princípio rigorosos, pareciam estar sendo relaxados, pois, de uma hora para outra, rumores maldosos sobre o comportamento da mulher começam a ganhar corpo pela cidade. A possibilidade de que tais ruídos chegassem ao conhecimento do marido, portanto, se tornava cada vez mais real.

Embora não se pudesse afirmar que o homem já soubesse do caso, a mudança repentina do seu comportamento trouxe ao nosso meio a impressão de que alguma coisa havia no ar, pois, repentinamente, o sujeito passou a encurtar o tempo das viagens, ficando mais tempo em Lagarto. Para completar, a aludida mansidão desapareceu, sendo substituída por uma espécie de desequilíbrio, que lhe tirava o mínimo de constrangimento em dar publicidade dos seus atributos de valentia por onde quer que andasse, recordando sempre contendas passadas, cujo desfecho invariavelmente acabava em violência.

Os arroubos relatados, que mais pareciam um recado indireto ao Baratão do que qualquer outra coisa, fez com que a luz vermelha do perigo se acendesse no nosso meio. A dúvida se o homem já sabia ou não persistia; mas não a certeza de que nunca saberia. Alguma coisa teria que ser feita para que uma iminente tragédia não se consumasse. Por questão de sensatez, era mister Baratão pôr fim ao romance urgentemente. Entretanto, nenhum argumento, nem mesmo nenhum conselho foram capazes de convencê-lo. Ele teimava em não querer enxergar uma coisa que estava mais do que na vista.

Apesar de preocupados com o pior, resolvemos não mais abordar o assunto. Afinal, Baratão era maior e sabia muito bem o que estava fazendo. Beto também concordava conosco. Porém, seu espírito de bom gozador falou mais alto. Sem que ninguém percebesse, imaginou consigo a ideia de dar um grande susto no Baratão, tirando partido do temor que ele guardava em relação às coisas mal-assombradas.

O plano traçado incluía a participação direta de Germano, que previamente instruído, ficaria de prontidão aguardando o momento oportuno para agir, tão logo recebesse o aviso. Seria preciso, também, a colaboração de outros amigos, mas esse seria um detalhe a ser resolvido posteriormente.

Na primeira segunda-feira do mês de junho, lá pelas sete da noite, Baratão apareceu para apanhar as chaves. Tão logo o homem saiu, Beto prontamente fechou a farmácia e incumbiu Jaime Taxista, que fazia ponto em frente, a entregar um bilhete a Germano. Era a senha avisando que a hora chegara. Em seguida entrou em casa e saiu com uns embrulhos na mão. Naquele momento, somente quatro da nossa turma haviam chegado à Praça para a costumeira “reunião”. Beto os convocou a entrarem no carro e rumarem para o sítio. Só então, nesse momento, ficaram sabendo do que se tratava. Pelo caminho receberam instruções sobre a empreitada, e como procedê-la. Ficaram, obviamente, sabendo do conteúdo dos embrulhos, que se tratava de caixas de morteiros de artifícios, comprados na loja de fogos de Agnaldo.

Chegando ao sítio, o carro foi escondido nos fundos da casa, de modo a não ser visto por quem chegasse pela frente. Germano, devidamente paramentado, foi instruído a ficar num dos quartos da casa, só saindo para agir quando Baratão abrisse a porta e entrasse na sala. Os demais se esconderiam entre os arbustos, preparados para soltar os morteiros assim que o caseiro começasse a urrar.

Após uma rápida combinação, sob a fina chuva que caía, entre um misto de ansiedade e paciência, tomaram posição e esperaram o homem chegar. Não demorou muito. Assim que chegou, estacionou o carro bem em frente da casa. Baratão desceu do carro e passou um breve tempo olhando ao redor, como que a inspecionar o ambiente. Sentindo-se seguro, foi até a porta, girou a chave na fechadura e entrou na casa. A mulher ainda estava esperando no carro. Assim que chegou à sala e acendeu a lâmpada, deparou-se com uma figura estranha vestida numa capa colonial e com um chapéu preto de abas longas cobrindo o rosto saindo do quarto. A “coisa” urrava como um lobisomem ferido, ao tempo em que, freneticamente, agitava um engaço de coco. O “bicho”, então, partiu para cima de Baratão, dando-lhe várias estocadas. Enquanto isso, do lado de fora, a turma que esperava escondida iniciou o foguetório, direcionando os morteiros para o telhado da casa. Baratão, completamente apavorado, nem deu meia volta; saiu da casa andando para trás. Quando alcançou o alpendre, o foguetório se encontrava no auge. Parecia um tiroteio; uma emboscada sobrenatural. Em meio ao barulho ensurdecedor – sabe-se lá como – entrou no carro, deu a partida e saiu em disparada ziguezagueando pelo cercado do corredor.

A empreitada, apesar do pouco tempo de planejamento, fora bem executada. Ainda no sítio, entre sonoras gargalhadas, os protagonistas se comprometeram a guardar sigilo total. O resultado, do mesmo modo, pareceu exitoso. O namoro, acabou. O susto, providencial, valeu a pena.

Os desafetos

Antonio Rocha, 15 de maio de 2019

Há muito tempo que os dois não se falavam. Quebraram o relacionamento quando ainda eram agricultores, antes de virem morar na cidade. Tornaram-se inimigos viscerais. Embora nunca tivessem trocado agressões físicas, um puxava o tapete do outro, e vice-versa. Vez ou outra dividiam provocações, quase sempre motivados por cunho político ou interesses, já que se agrupavam em partidos políticos opostos.

Um possuía o temperamento manso e sorrateiro. Inteligente, sabia como ninguém percorrer os atalhos para conquistar os seus objetivos. Não era do tipo de bater de frente, agindo mais escudado no manto obscuro da esperteza. No entanto, se preciso fosse, passaria por cima de quem estivesse à frete no seu caminho.

O outro fazia jus ao adjetivo com o qual muitos o apelidavam: bocão. Destrambelhado, para alcançar os seus interesses fazia uso da língua afiada. Dependendo da ocasião, tanto elogiava quanto difamava. Apesar de não possuir a sutiliza do outro, era muito mais esperto na arte de pressionar. Também não hesitava em agir nas sombras, “cortando” a cabeça até dos amigos, desde que percebesse ser essa a chance de lograr seu objetivo.

Naquela cidade – como ocorre quase em todas do interior – o poder era disputado de forma ferrenha, tendo à frente, invariavelmente, dois agrupamentos oligarcas se digladiando e, consequentemente, se alternando no comando político. Os chefes políticos, quando “de cima”, faziam as mais absurdas concessões, mesmo ao arrepio da lei, que existia quase como peça de decoração – câmara de vereadores, afinal, existia para aprovar o que fosse preciso. Daí a razão de logo no início da gestão que se findara, o rival do bocão ter conseguido junto ao então prefeito, a posse de um prédio situado na importante praça de eventos da cidade. Nesse local instalou um bar, que se tornou ponto preferido dos partidários do seu grupo.

O sucesso do rival no empreendimento despertou no bocão a inveja de também conquistar o mesmo privilégio. Durante o tempo em que estivera fora do poder alimentou obcecadamente esse sonho. Desejava-o não somente como meio de melhorar de vida, mas também como um feito complementar de vingança. Para ele a vitória nas urnas seria importante como fator político, mas havia algo pessoal a ser feito, que unisse o útil ao agradável, que lhe desse estabilidade financeira e, ao mesmo tempo, impusesse o ex-amigo à humilhação; mais precisamente, à falência.

Pouco antes do início da campanha eleitoral, esse assunto foi tratado pessoalmente junto ao seu chefe. Combinaram o negócio como se fosse uma espécie de compromisso “moral” a ser pago em troca “trabalho intenso” a ser desenvolvido. O negócio deveria ser prontamente quitado tão logo o prefeito eleito tomasse posse. Tratava-se da cessão de um velho galpão, pertencente ao poder público, que se encontrava ocioso, situado na mesma praça, no lado oposto ao estabelecimento do rival; lugar era o ideal para levar a termo o seu intento.

O resultado do pleito, que culminou com a vitória do agrupamento opositor, transcorrera de forma bastante acirrada, deixando sequelas e ressentimentos. O bocão, fiel ao seu perfil sorrateiro, não medira palavras nem atos para atacar os adversários, disparando agressões a torto e a direito, sem poupar nem mesmo os aliados, cobrando-os sempre por achar que não devotavam o devido empenho. Procurava, assim, mostrando “serviços”, chamar atenção do chefe para o denodo com que se entregara pela vitória. Dentre esses entreveros o mais agudo se deu com o locutor oficial do agrupamento, que quase os levou ao pugilato. Atacou também o falastrão professor Santana, tido como “ideólogo” do partido, acusando-o de gravar os próprios comícios para vender as fitas ao adversário. O clima de intrigas e agitação provocados pelo bocão não somente causou furor nas hostes adversárias, mas também na própria casa, cujos estragos foram contidos pela intervenção firme do chefe. As sequelas, como dito, viriam a aflorar mais tarde.

Vitorioso na política, acordo sacramentado e bar já instalado, o bocão partiu para a segunda fase do seu intento: “quebrar” o estabelecimento do rival, independentemente de ter conquistado momentâneo sucesso, principalmente para um negócio que mal começara. O instinto de maldade, acima de tudo, se mostrava mais forte. A vitória só seria completa se o concorrente fosse destruído.

No entanto, concorrer com o quem sabia negociar se mostrou ser muito mais difícil do que imaginara. O rival, que estava há bem mais tempo no ramo e muito mais experiente, praticamente não sofrera nenhum abalo. O bocão percebeu que o seu desafeto, sempre habilidoso no trato com os fregueses e bem cuidadoso com a qualidade e higiene dos produtos comercializados, dificilmente seria batido por meios leais. Haveria, portanto, de partir para outro, fosse lá qual fosse.

Como sempre acontece, a máxima de que quem agride esquece, mas que é agredido não, se fez valer. O locutor, embora quieto desde o sério entrevero da campanha, há tempos vinha maquinando uma maneira de se vingar. Bom observador, percebendo que os cuidados com que o desafeto do bocão mantinha com a higiene não eram os mesmos devotados pelo concorrente, aproveitou-se desse fato para engendrar uma trama diabólica, que se bem usada daria um belo golpe no seu algoz. Assim, como quem não desejasse nada, aproximou-se do rival, oferecendo préstimos publicitários.

A praça em que ambos estabelecimentos se situavam, como já dito, era um local frequentemente usado para realização dos mais variados eventos, em sua maioria de pequena expressão. Festejos de grande porte eram mais escassos e só aconteciam em datas especiais: Natal e Ano Novo, celebrações de cunho religioso, festejos juninos, etc. Seria preciso paciência para escolher o momento certo de pôr em prática o planejado.

A oportunidade, então, apareceu. No vindouro mês de junho, um grupo de sanfoneiros fora contratado por uma empresa local para uma apresentação na praça. O locutor, por coincidência, fora convidado para ser o cerimonialista oficial da festa, com carta branca até para contratar anunciantes. Com a “faca e o queijo” na mão, tratou logo de fechar acordo com o estabelecimento do outro, sem que o bocão de nada soubesse.

Embasado na tese de que para “confrontar um falastrão bastaria um falastrão e meio”, levou adiante seu bem urdido plano, cuja parte inicial consistia em espalhar na cidade um boato relativo à falta de higiene do bar do bocão. Para tanto se valeu da ingenuidade do professor Santana, usando-o como vetor de divulgação. Contou-lhe, sob “segredo” absoluto, um suposto fato, que dava conta de que um freguês fora surpreendido por um rato que caíra do teto diretamente no seu copo de cerveja, atestando a imundície que campeava no estabelecimento do bocão. Fingindo não acreditar no ocorrido, o locutor redobrou o pedido de segredo, embora, no fundo, tivesse a certeza de que Santana, afamado por ter a língua solta, faria o serviço de divulgação de maneira mais rápida do que fogo quando se alastra em pólvora.  Não deu outra. Em poucos dias o assunto tomou conta da cidade.

No dia do evento a praça recebeu uma plateia jamais vista. No grande palco, instalado nos fundos, os sanfoneiros se revezavam levando os expectadores ao delírio. Em ambos os bares a descontração rolava solta. Todos se divertiam tranquilamente, quando, de repente, entre uma e outra apresentação, o locutor entrou com uma publicidade perturbadora:

–CERVEJA GELADA E COM HIGIENE SÓ NO BAR DE “FULANO”. LÁ O FREGUÊS SEMPRE TEM A CERTEZA DE QUE NÃO CAIRÁ DO TETO NENHUM RATO NO COPO DE CERVEJA.

O anúncio caiu como uma bomba. O suposto acontecido, que já ganhara o caminho do esquecimento, voltou com tudo. O bocão, completamente atordoado, ficava cada vez mais exasperado à medida em que era questionado pelos clientes. Possesso, sem disfarçar o ódio que sentia, disparava ofensas ao locutor e ao concorrente afirmando que os mesmos estavam mancomunados para tirá-lo do ramo. Completamente desorientado, passou o tempo que restava para a festa acabar jurando vingança. Começaria pelo locutor, a quem faria engolir a calúnia. Depois seria a vez do rival, que não perderia nada por esperar. O professor Santana, impassível, mas dando gargalhadas por dentro, a tudo presenciava sentado na sua mesa, junto à calçada.

Ao final da festa, o “bocão” não perdeu tempo. Cerrou imediatamente as portas do bar e partiu para o palco em busca do seu algoz. Encontrou-o justamente quando este descia as escadas. Sem mais nem menos, partiu para o confronto físico. Ambos se engalfinharam em luta corporal, num verdadeiro show de catimbas e sarrafos. O locutor impôs ao oponente um exemplar revés. Somente foram contidos com a chegada da polícia. De pronto, os dois foram levados ao quartel, sendo o primeiro prontamente liberado pela força das testemunhas que o acompanharam. O outro ficou preso, em que pese todo o poder político. O seu chefe, saturado pelos sucessivos aborrecimentos, entendeu que seria importante lhe dar um merecido castigo, não interferindo na decisão do delegado, que achou por bem só liberá-lo na manhã seguinte.

Passado o entrevero, os ânimos serenaram. Nem o locutor e nem o bocão trocaram mais palavras. Entre os desafetos a atmosfera se tornou mais amena. Surpreendentemente não trocaram mais provocações. Pelo contrário, passaram até a se cumprimentar, embora não abdicassem da politicagem. O desejo de destruir o estabelecimento do outro pareceu ter ficado para trás, de maneira a se supor que o rescaldo do entrevero não foi de todo desastroso. Sobraram coisas boas.  Para o bocão, uma delas foi a imediata providência forrar o teto do seu bar.

Valeu a lição.

Os calouros

Antonio Rocha, 2 de abril de 2015

Personalidade discreta e o comportamento arredio não foram empecilhos para inibir a proeza, que surpreendeu aos presentes à competição de calouros do Cine Glória, especialmente seus colegas do Ginásio Laudelino Freire. A conquista do primeiro lugar fizera justiça à impecável interpretação dada ao sucesso da época — do cantor Reginaldo Rossi–, “O sombra”. Até então todos reconheciam entre as suas qualidades e méritos, a aplicação nos estudos, o elástico goleiro do time de futebol do Grêmio Cultural (segundo alguns, notável apreciador de frangos), o bom caráter e a obstinação em alcançar o que se propunha fazer. Porém, os dotes artísticos de Paulo Sérgio eram desconhecidos e não passavam no imaginário de ninguém.

De forma frustrada, dois anos antes, outro colega participara de uma competição semelhante. Apesar de possuir boa voz, conhecimento musical, inegável talento artístico e ser de temperamento extrovertido, Franklin Reis tropeçara no nervosismo, culminando numa apresentação pífia, que lhe valeu uma prematura desclassificação. Também reconhecido como aluno estudioso, inteligente e fluente em inglês, era vaidoso e metido a conquistador. Mesmo tendo boa índole, às vezes, pecava pela falta de humildade e não fazia cerimônia para exibir o seu lado mordaz, para ridicularizar a quem lhe parecesse rival, angariando assim, certa antipatia.

O sucesso fulminante de Paulo Sérgio (notadamente entre as meninas) foi decisivo para encorajar Franklin a uma nova tentativa. Confiante em superar o insucesso do passado, inscreveu-se para o concurso de calouros do domingo seguinte. Para a disputa, coincidentemente, escolheu a mesma música que consagrara Paulo Sérgio. Confiante em repetir o êxito do colega, enquanto exortava os demais a comparecer ao Cine Pérola, antecipadamente, trombeteava vitória. Soberbo, provocava os céticos: “Os outros que se cuidem porque o primeiro lugar é meu. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”. A expectativa de vencer virou confiança e a confiança deu lugar à certeza de que o Laudelino teria outro campeão.

Como era de se esperar, no domingo o Cine Pérola ficou lotado. Todos queriam vê-lo cantar e ganhar. Entretanto, sem que ninguém desconfiasse, aqueles que o antipatizavam haviam tramado vaiá-lo durante a sua apresentação. Em minoria, porém organizados, sentaram-se em pontos estratégicos, aguardando o momento de desfechar o traiçoeiro golpe.

Ao chegar o decisivo momento, Euler Ferreira, o apresentador, visivelmente emocionado e torcendo muito, anunciou:

– Agora, o momento mais esperado desta manhã. Tenho a alegria de anunciar o meu amigo e favorito do programa, Franklin Reis! Ele vai concorrer cantando o sucesso, O sombra! Música, maestro!

Pálido, suando muito e indisfarçavelmente nervoso, o anunciado subiu ao palco. Para decepção da maioria e alegria dos poucos, Franklin desafinou feio. A orquestra entrou num tom e ele noutro. Desclassificado, saiu rapidamente (o raio caíra outra vez no mesmo lugar). Não houve tempo para vaias e nem mesmo para aplausos.

No dia seguinte, o Laudelino estava entristecido. Os amigos, solidários, evitavam o assunto. Os algozes, entretanto, não desperdiçaram a oportunidade para tripudiar do infortunado. Franklin, porém, fiel ao seu estilo, não perdeu a altivez e reagiu com peculiar superioridade: “Fiz o que tive vontade de fazer. Foi uma boa diversão. Não sou como vocês que têm vontade, mas não coragem”.

As duas tentativas malogradas fizeram Franklin desistir de ser cantor. Após a conclusão do curso ginasial, mudou-se com sua família para Salvador. Diplomado na Universidade Federal da Bahia, hoje é o Dr. José Franklin Fontes Reis, um dos mais notáveis peritos criminais da capital baiana.

Paulo Sérgio Oliveira Nunes, por algum tempo, ainda continuou cantando, porém, trocou pela medicina a promissora carreira artística. Foi prefeito da cidade baiana de Jaguaquara, onde realizou uma excelente administração, marcada pela probidade e zelo ao erário. Hoje reside e trabalha em Aracaju.

Dr. João Almeida Rocha: resumo biográfico

Antonio Rocha, 4 de abril de 2014

Dr. João Rocha

Nasceu em 09/10/1920, em Lagarto – Sergipe, quarto dos cinco filhos de Antonio Pinheiro da Rocha e Rosina Fontes de Almeida. Iniciou seus estudos em Lagarto, prosseguindo-os em Aracaju, no Ginásio Tobias Barreto (atual Colégio Tobias Barreto), onde concluiu o curso ginasial. Em Salvador, fez o primeiro ano complementar de medicina no velho Colégio Central da Bahia (antigo Ginásio da Bahia), concluindo-o nos dois anos seguintes na então Capital Federal, Rio de Janeiro (Instituto Juruena). Por concurso vestibular ingressou na Faculdade Nacional de Odontologia da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), graduando-se cirurgião-dentista no ano de 1945. De volta a Lagarto, trabalhou como dentista, em consultório particular, até 1972. Contraiu matrimônio com D. Waldomira Monteiro de Carvalho Rocha em 1949, de cujo casamento teve oito filhos.  Exerceu o cargo de vereador por duas legislaturas (entre 1947 e 1954) e de prefeito municipal entre 1973 e 1977. Foi oficial do registro civil do Cartório do 3.º Ofício entre 1955 e 1990. Foi também pecuarista e agricultor entre os anos de 1963 e 1998. Católico fervoroso, foi Presidente da Maternidade Zacarias Júnior e diretor da Associação de Caridade N. Sra. da Conceição. Benemérito da Pia União dos Pobres de Santo Antônio, dividiu com o ilustre lagartense Antônio Martins de Menezes, a aquisição do terreno onde se situa o prédio do Asilo de Santo Antônio, cuja construção deveu-se ao espírito meritório e cristão de D. Maria José Hora. Diretor do tradicional Ginásio Laudelino Freire (posteriormente Colégio), de 1966 a 1968 e de 1970 a 1972, sendo responsável pela implantação do primeiro curso de Contabilidade do município.

Filho de família humilde, desde cedo vislumbrou na educação o meio de ascensão social, política e econômica. Por isso, pautou a sua vida de político e de cidadão na valorização do saber, razão pela qual, também, nunca mediu esforços na luta de propiciar aos seus munícipes, principalmente àqueles que não dispunham de recursos econômicos, a oportunidade de estudar aqui em Lagarto. Quando prefeito, não mediu esforços para conseguir junto ao Governo Federal os recursos necessários para a implantação do Colégio Abelardo Romero, conhecido como Colégio Polivalente, onde hoje funcionam, provisoriamente, os cursos superiores do futuro Campus da Saúde da Universidade Federal de Sergipe, e do Módulo Esportivo, atualmente sede do Tiro de Guerra. Trouxe para Lagarto em convênio com a Universidade Federal de Sergipe, o primeiro curso superior de curta duração (Letras). Empreendeu a construção e reforma de diversas escolas da então precária rede municipal. Paralelamente, foi o pioneiro no transporte público escolar no município, facilitando o acesso dos residentes na zona rural aos princípios básicos de instrução nas escolas das sedes dos povoados e da cidade. Como cidadão, colaborou na construção do prédio do Colégio Laudelino Freire ao disponibilizar para a CNEC um sítio particular, fruto de herança, cujo dinheiro arrecadado com a negociação foi preponderante para a construção do prédio onde se situa o referido. Foi professor de Matemática, Ciências e Inglês no Ginásio Laudelino Freire. Modestamente, colaborou com a construção de muitas igrejas em diversos povoados do município de Lagarto. Em 1998, desligou-se completamente das suas atividades, recolhendo-se inteiramente para a família. Hoje, aos 91 anos, com a saúde debilitada, nos lampejos de lucidez tem a felicidade de receber o reconhecimento por parte de muitos dos seus conterrâneos, amigos e admiradores.

Lagarto, 9 de outubro de 2011.

 

Nota e agradecimento

Este breve resumo biográfico do Dr. João Almeida Rocha foi escrito para ser lido na cerimônia de outorga da Comenda Sílvio Romero, concedida pelo Poder Público Municipal no ano de 2011. Portanto, dois anos antes do seu falecimento, na manhã do dia sete de junho de 2013, no Hospital São Lucas, Aracaju-Sergipe.

A família agradece todas as manifestações de solidariedade e apreço por parte dos lagartenses, especialmente dos que fazem a Secretaria de Educação do município de Lagarto, particularmente, na pessoa da professora Maria do Carmo Oliveira da Fonseca; dos ex-alunos, através de Enoque Araújo da Paixão; dos professores e ex-professores do município, especialmente a Aloísio Conceição; dos historiadores, no nome de Claudefranklin Monteiro. De igual modo, à Prefeitura Municipal de Lagarto, do prefeito ao mais humilde servidor; aos que fazem a Casa de Oração D. Maria Teles; aos membros da Academia Lagartense de Letras, que recentemente escolheram o nome de João Almeida Rocha para uma das cadeiras daquele Sodalício, em nome do seu presidente, Paulo Andrade Prata, e dos amigos da família, Rusel Barroso e Joaquim Prata.

Uma questão de honra

Antonio Rocha, 25 de abril de 2013

Seu Silveira tinha o pavio curto. Era do tipo que por qualquer bobagem mudava de humor e explodia com facilidade. Bastava ser contrariado ou sentir sua autoridade contestada. Não era pobre nem tampouco rico. Possuía bens, conquistados mediante trabalho árduo, tanto na propriedade situada nos arredores da cidade quanto no comércio de carne no mercado municipal de Lagarto. Era casado com D. Santinha, devotada dona de casa, cuja preocupação maior era cuidar dos filhos e do marido.

Viviam em uma época em que, praticamente, não havia energia elétrica.  A conservação dos alimentos, especialmente os de origem animal, se dava através de métodos artesanais, como a salga e a subsequente desidratação da carne pela exposição ao sol ou ao calor das estufas dos fogões a lenha, quando não o prolongado cozimento junto com a gordura de toucinho nas panelas de barro nos preparo do lombo e da tradicional carne frita, ou através das linguiças caseiras, que eram curtidas ao sol, penduradas nos varais. A atividade econômica mais importante era a agricultura, pois Lagarto já possuía uma boa divisão fundiária, derivada da visão social do Mons. Daltro. Grande parte dos alimentos, consumidos pelo povo, provinha da roça, a exemplo do feijão; do café, que era torrado em casa; do milho, que processado em ralos de latão, dava o cuscuz –iguaria consumida diariamente no café da manhã e no jantar, servido com leite, ovos, manteiga e requeijão; da tradicional farinha, que era extraída da mandioca através de métodos rudimentares e armazenada em sacas ou baús junto a um pãozinho de Santo Antônio — segundo a crença assegurava a fartura. Também se cultivavam o aipim, a batata doce e a abóbora, bem como as folhas verdes e as poucas verduras. As frutas dependiam, exclusivamente, da sazonalidade. Peixes, uma raridade, só os de água doce, como a traíra, o jundiá e o caborje. Compravam-se poucos produtos. Basicamente o arroz, o açúcar, a carne verde, o jabá, o bacalhau, os pães e os bolachões, além dos parcos produtos de higiene pessoal.  Eram tempos de muita pobreza, que talvez expliquem os hábitos simples das famílias e a consequente preocupação em conter desperdícios.

Certa vez, seu Silveira acordou desejoso de comer galinha ensopada no almoço. Naquele tempo, somente as famílias mais abastadas podiam se dar ao luxo de comer tal iguaria, mesmo assim só aos domingos ou em ocasiões especiais. D. Santinha, sempre zelosa, não gostava de desperdício; para ela, um pecado a ser punido pela Divina Providência. Até que tentou demover o marido da ideia, argumentando que podia muito bem reaproveitar as sobras do dia anterior. Mas não houve jeito. O homem continuou irredutível. Queria comer a galinha.

Apesar de nunca ter contestado as ordens do marido, nesse dia ela abriu um precedente: preparou uma fritada com os restos de uma panelada de carne frita. Embora consciente de que poderia desagradá-lo, nutria a esperança de contornar rapidamente a questão. Afinal, não tinha feito nada de desabonador. Inocentemente, nem de longe imaginava o transtorno que viria.

Chegando para o almoço, seu Silveira entrou apressadamente em casa. Dirigiu-se à bacia d’água que ficava no canto da sala pensado só na comida. No entanto, mal pode lavar as mãos e o rosto. Passando o rabo do olho pela mesa, percebeu somente a bandeja com a fritada, a farinha, o feijão e o arroz cozidos. “Cadê a galinha ensopada?”, berrou desconfiado. Quase teve um infarto ao saber que não comeria o prato desejado. Atordoado com a notícia, nem atentou para as explicações. Levou a desobediência da esposa como uma humilhação, uma afronta digna dos frouxos dominados pelas mulheres; um caso tão grave, que exigia reparação imediata da honra.

Pulando como um cavalo louco, espumando mais do que um cachorro azedo, puxou a fritada da mesa, levando-a até o chiqueiro, cuja porteira abriu com um violento pontapé, estremecendo toda a estrutura de madeira. Em seguida atirou-a aos porcos.  O abalo foi tamanho, que alguns marimbondos que estavam acomodados numa casa no alto do telhado se assanharam e um deles pregou-lhe uma ferroada na orelha. O homem, que em estado sereno já tinha a pele avermelhada, com a mistura do calor do sol de verão, da raiva pela contrariedade e da pregada do marimbondo de fogo, transformou-se numa espécie de tição ambulante.

 Prosseguindo o roteiro de insanidade, apanhou uma espingarda no quarto dos fundos e se dirigiu ao galinheiro, onde disparou nas aves todos os cartuchos que tinha. Foi uma cena de terror. As penas se espalharam para todos os lados, as aves assustadas, corriam, voavam, cacarejavam, enfim, faziam o possível para escapar do cerco. Ao final da empreitada, várias galinhas acabaram mortas.

De volta a casa, como castigo, mandou que D. Santinha preparasse imediatamente todas as galinhas abatidas. Acuada, desta feita, a mulher obedeceu. Sozinha, resignou-se a enfrentar a dura e demorada tarefa imposta.

 Seu Silveira, no entanto, não demonstrava ter mais pressa em comer. No íntimo, já estava um pouco satisfeito com a vingança. Nem mesmo se preocupava em terminar o trabalho pendente na roça. Sentado à mesa, enquanto a mulher cozinhava, passava na orelha um unguento caseiro feito com ervas e sebo de carneiro capado derretido, muito recomendado para tratar contusões e picadas de insetos.

Com quase três horas de atraso o almoço ficou pronto. A panelada de galinha, apesar dos percalços do dia, fora preparada no capricho, bem ao gosto do “refinado” glutão. Orgulhoso do que tinha feito, seu Silveira desferiu o golpe final, sacramentando o castigo: obrigou a mulher a sentar-se à mesa para comerem juntos. Essa inusitada “gentileza” deixava clara a autoridade de quem efetivamente mandava na casa. D. Santinha, humilhada, comeu sem vontade. Seu Silveira, com ar de superioridade, comeu até se empanturrar. Das galinhas, só sobraram os ossos. A honra e a autoridade foram restauradas.

O burro e o zurro

Antonio Rocha, 14 de março de 2012

Não existe ser humano perfeito. Nada mais natural. Todos nós temos defeitos e virtudes. No entanto, não é por acaso que pensadores e filósofos chamam de sábios os que são conscientes desses defeitos, e que se esforçam para superá-los. Mas o que dizer daqueles que tão somente enxergam em si virtudes? Dos que se amparam na artificialidade para suprir as qualidades que lhes faltam? Dos que gostam de aparecer a qualquer custo? Dos que não enxergam o quanto se expõem ao ridículo e dos que se deixam seduzir por futilidades? É muito difícil explicar. Não é tarefa fácil entender a complexidade da natureza humana.

 Assim, era o veterano aluno da disciplina de Lógica. Adorava aparecer. Julgava-se o senhor da razão, acima do bem e do mal. Não que fosse demérito gostar de andar sempre bem vestido, de usar sapatos impecavelmente brilhantes, de empastar os cabelos com Wellaform ou chamar a atenção pelo uso exagerado do perfume Lancaster. O que causava asco era a sua empáfia, a maneira de tratar os colegas, o hábito de olhar e falar com as pessoas medindo-as de cima para baixo e, principalmente, a mania de se achar superior a tudo e a todos.

Quem o conhecia desde o tempo dos colégios Jackson de Figueiredo e Tobias Barreto não estranhava tal comportamento. Seu caráter sempre fora assim: bajulador, alcaguete e subserviente, notadamente perante aos que julgava importantes. Para levar vantagem não tinha o menor pudor. Era capaz de tudo. Diziam até que para entrar na universidade dera uma carpideira, chorando copiosamente aos pés do Reitor, conseguindo dessa maneira suplantar o revés sofrido no vestibular. Tamanho pedantismo só podia ser mesmo um escudo para esconder suas limitações.

Na faculdade, a mania de sapiência aumentou. Porém, diferentemente da vida colegial, lá, boçalidade e bajulação não foram suficientes para levá-lo ao êxito. Foi preciso muito mais. Bastou uma só disciplina exigir um pouco mais de raciocínio para fazê-lo amargar três reprovações consecutivas. Assimilar os conhecimentos de Lógica se mostrou bem mais difícil do que decorar frases em inglês, francês e latim, ou mesmo cortejar os abastados da cidade no programa dominical que apresentava todos os sábados numa emissora de rádio.

Por isso, a necessidade de aprovação em Lógica se transformou num incômodo tabu, difícil de ser quebrado. Se submeter-se a uma quarta tentativa numa mesma matéria já era ruim, quanto mais, por azar, encontrar matrícula disponível somente na turma reservada ao mais exigente dos professores. Era o prenúncio de que viria pela frente uma parada prá lá de indigesta. Não foi surpresa, portanto, que o desempenho estudantil continuasse no mesmo diapasão de mediocridade, com a consequente probabilidade de mais uma reprovação.

Para evitar a iminente derrocada, na última prova ele teria que obter uma nota excepcional, mas seria preciso que acontecesse um milagre. No afã de consegui-lo, apelou para o método que já havia dado certo antes e que julgava ser infalível: a bajulação. Para tanto, no sábado anterior à prova final, reservou todo o horário do programa de rádio para um convidado muito especial: o professor. A entrevista levada ao ar foi eivada de melosos elogios à eminente figura do mestre.

 A confiança no sucesso da estratégia era tanta que antecipadamente dava a aprovação como fato consumado. Nem mesmo a probabilidade de reprovação e de ser ridicularizado foram suficientes para conter esnobismo perante os colegas.  No entanto, não houve surpresa. O professor não sucumbiu à encenação e o castigo veio na figura de uma nota pífia. Ao receber a notícia, a impostura desabou.  “E a entrevista, professor? Não valeu nada? O senhor deve explicações! A mim e aos meus ouvintes!”, gritou exasperado. “A entrevista foi uma coisa; a prova, outra”, rebateu o mestre. A sinceridade da resposta o deixou mais furioso ainda. Atordoado, deu uma rabanada e retirou-se da sala.

Tempos depois, a duras penas, concluiu o curso. O revés e a vergonha sofridos, no entanto, não serviram de lição. Nunca superou a mania de superioridade. Continuou sendo o presunçoso de sempre.

“O burro se encanta com o zurro” (provérbio armênio).

A armadilha

Antonio Rocha, 29 de novembro de 2011

Os que mais discordavam da qualidade da limpeza da igreja eram os mesmos que sorrateiramente se encarregavam de sujá-la. A crítica levada a termo não procedia e era apenas o prolongamento de um expediente urdido para apimentar a brincadeira de mau gosto usada para infernizar a paciência do pobre sacristão, responsável pela higiene do templo e tido como doido e temperamental. Por mais que este se esmerasse nas suas tarefas, uma bolinha de papel aqui, um saquinho plástico jogado acolá ou outra sujeira qualquer tão logo aparecia estivesse a faxina concluída dando a falsa impressão de negligência, ou mesmo ineficiência. As reações destemperadas do infeliz perante as cobranças de zelo no trato do sagrado ambiente provocavam o deleite de muitos, principalmente dos sabotadores, reforçando a desconfiança dos mais sensatos de se tratar de um boicote ou qualquer coisa parecida. Porém, tal suspeita carecia uma prova cabal que pusesse fim ao transtorno.

Os católicos mais influentes da até que entendiam o desespero e se apiedavam do coitado. Porém, em vez de ajudá-lo, pressionavam para que ele encontrasse um meio de identificar os responsáveis e solucionar pacificamente a situação. Indiretamente, deixavam o abacaxi nas mãos do desafortunado, numa empreitada que extrapolava a capacidade do seu intelecto. Tudo isso só fazia aumentar sua angústia e apreensão.

O vigário, por outro lado, além de cobrar empenho no mesmo sentido, colocava mais um fardo nas costas do sacristão: insistia para que durante as celebrações religiosas a cadeira do confessionário não fosse usada por estranhos, já que os seus apelos proferidos durante as celebrações religiosas não vinham sendo atendidos. O fato de ver aquela cadeira ocupada por outros, não se sabe por que, era algo que o incomodava.

Com tantas incumbências a lhe atarantar, ele radicalizou de vez. Estava decidido a acabar com toda aquela perturbação. Na sua imaginação, uma boa lição aos indevidos usuários da cadeira do confessionário seria o primeiro passo. Para tanto, pediu permissão ao padre para levar a termo um plano, que consistia em colocar uma bacia de água fria no assento da cadeira. Assim, o primeiro desavisado que se sentasse teria uma boa surpresa. O vigário não levou a proposta a sério e julgou se tratar de mais uma maluquice. Contudo, não esboçou nenhum argumento em contrário, transparecendo a falsa impressão de concordância.

Logo cedo, bem antes dos fiéis chegarem para a missa matinal do domingo, ele aprontou a armadilha. Aos poucos, como de costume, a igreja ficou repleta. Entretanto, contrariando a expectativa, ninguém se sentou na cadeira. Encerrada a celebração, frustrado pelo insucesso do seu propósito, o sacristão apressou-se em sair para apanhar os costumeiros restos de papel jogados no recinto, esquecendo-se de desarmar a arapuca. Enquanto isso, o padre se dirigia ao confessionário para atender os fiéis que comungariam na missa das dez horas. Ao sentar-se na cadeira foi surpreendido pela água fria da bacia. Além do susto pelo banho inesperado, teve que suportar as risadas incontroladas dos que aguardavam pela confissão. O vigário, desconcertado e com a roupa molhada, suspendeu o ofício e foi se enxugar na casa paroquial.

A repercussão do acontecido despertou na comunidade católica o desejo de dar um basta em tudo que de errado que vinha acontecendo. O acidente com a bacia de água fria foi a gota d’água que catalisou a decisão de acabar com aquela brincadeira, custasse o que custasse. Os sabotadores, pressentindo que haviam passado da conta e que fatalmente seriam descobertos, puseram um ponto final na brincadeira.

O sacristão, perdoado pelo padre, teve de volta a tranqüilidade para trabalhar. Indiretamente, a armadilha surtiu efeito. A ordem e o respeito foram restabelecidos.

Turistas em apuros

Antonio Rocha, 15 de setembro de 2011

O prognóstico para o pleito que se aproximava era sombrio. Ninguém acreditava na possibilidade de vitória sobre as forças da situação. Porém, a necessidade de lançar uma chapa de oposição para concorrer ao cargo majoritário municipal – e que ao menos tivesse uma participação honrosa – manteria viva a chama da liderança política de Dionísio Machado. Por isso, não houve nenhuma objeção à única condição imposta por Dr. João para aceitar a penosa missão confiada pelo velho caudilho: a prerrogativa de indicar o seu candidato a vice-prefeito. Contrariando a cúpula do partido, o escolhido foi Eliseu Martins, um comerciante bem sucedido, muito estimado no município, de temperamento extrovertido e desprovido de vaidade. O seu jeito cordato no trato com as pessoas, acrescido a uma espécie rara e emblemática de carisma, explicavam a expressiva votação obtida no pleito anterior, fazendo-o o vereador mais sufragado.

Ao contrário de hoje, àquela época as pessoas valiam mais pelo que eram do que pelo que possuíam. Não se falava em milhões, bilhões ou qualquer coisa semelhante. Os gastos de uma campanha política se resumiam ao custeio da publicidade, dos comícios e coisas afins. Não havia a profissionalização dos famigerados “cabos eleitorais”, o acintoso alarde de compra de votos e nem mesmo o vulgarizado festival de pesquisas eleitorais. A seriedade e o espírito público prevaleciam. Por isso, a chapa formada ganhou credibilidade e começou sua caminhada numa espiral ascendente mantida até a esmagadora vitória.

O embate eleitoral, entretanto, teve um trajeto duro e desgastante, deixando os contendores extenuados e necessitados de um merecido repouso. A idéia de viajar, tão logo se encerrou a apuração dos votos, apresentou-se como uma fórmula perfeita para juntar diversão, descanso e comemoração, sendo prontamente aceita por ambos. A rota turística escolhida levava em conta lugares do sertão nordestino (onde Eliseu mantinha contatos através do comércio de fumo), passando pela cidade de Valença, no estado do Piauí, que nessa ocasião vivia um clima tenso em razão de um bárbaro crime político.

Hospedados em Valença, enquanto Dr. João descansava, Eliseu resolveu dar um giro pela cidade a bordo do vistoso opala verde, de óculos escuros, chapéu, portando o inconfundível cachimbo e ao som das canções de Waldick Soriano, alheio aos maldosos e funestos rumores que ganhavam corpo em meio aos transeuntes: “o homem contratado para vingar a vítima chegara”. O périplo, no entanto, acabou sem nenhum percalço.

No final da tarde, o ambiente sereno e feliz da pensão foi quebrado com a chegada do delegado, disposto a investigar a veracidade dos tais rumores. Cumprindo os deveres de cidadãos, ambos se identificaram e não fizeram nenhuma objeção às revistas do veículo e dos aposentos. Nada sendo constatado e nem encontrado, tudo levava a crer que o mal entendido estava desfeito. Surpreendentemente, tomado por um acesso de fúria e espumando como um cão raivoso, o policial deu voz de prisão ao assustado Eliseu. Imune aos argumentos apresentados em contraposição àquela arbitrariedade, o sujeito, cada vez mais impertinente, cheio de trejeitos, completamente descabelado e soltando uivos histéricos, insistia em levá-lo até a delegacia. Antevendo um desfecho humilhante e injusto, a dona da pensão, indignada, porém segura de si, interveio de forma decisiva em favor do seu velho amigo e pôs as coisas nos seus devidos lugares. Proferindo uma merecida reprimenda transformou o valente policial num dócil cordeirinho. Este, devidamente enquadrado e percebendo a chegada do prefeito, transferiu a sua ira em direção à multidão postada à frente da pensão, dispersando-a.

No dia seguinte, como forma de reparar o lamentável incidente e desfazer a má impressão causada, o prefeito ofereceu um almoço aos ilustres visitantes. A paz foi definitivamente selada. No entanto, a razão da repentina metamorfose do delegado jamais foi conhecida. Desconfia-se que não foi somente pela reprimenda. Deve ter sido, também, por algo muito mais forte.

Buraco de tatu

Antonio Rocha, 7 de julho de 2011

Só pode ser maldade ou gozação atribuir a um banho completo de imersão em óleo de rícino, por ocasião do nascimento, a capacidade que algumas pessoas têm em emanar antipatia. Tal justificativa não tem nenhum fundamento científico e não passa de mero folclore. Deve ser coisa inerente à própria natureza. Do mesmo modo que nascem pessoas de temperamento pernóstico, outras vêm ao mundo ungidas pela aura da simpatia. Se assim não fosse, o personagem deste texto não seria tão querido, embora carregasse uma dose pesada de pedantismo, um perfil bravateiro e um tempero extra de incorreção nos negócios.

O fato descrito neste texto começa numa época em que o Estado de Sergipe era aclamado como o reino do indubrasil e quando os melhores exemplares desses animais procediam da nossa Lagarto, cuja raça, de prestígio nacional, acabou enriquecendo muitos dos nossos pecuaristas. O dinheiro farto fazia com que o desfile dos “Galaxies”, o consumo do uísque White Horse, as reluzentes festas nas fazendas e as demais luxúrias peculiares aos novos ricos parecessem banais. O personagem central foi um desses fazendeiros bafejados pela sorte de pertencer à saga desse seleto grupo de criadores.

O súbito enriquecimento fez-lhe florescer duas manias, até então desconhecidas: a primeira, de exibir os seus dotes de conquistador inveterado, que não lhe permitia resistir à tentação de um rabo de saia (em que pese morrer de medo da mulher); a segunda, de cantarolar uma velha cantiga de Luiz Gonzaga, “Buraco de tatu”, como modo de exibir felicidade quando ganhava muito dinheiro nos negócios. A estrofe que mais gostava, dizia assim:

“Não bote a mão no buraco de tatu,
Que é muito perigoso, e é preciso ter cuidado
Lá dentro pode haver uma cascavel, ou surucucu
Esperando de bote armado…”

Diz o ditado que o uso do cachimbo sempre deixa a boca torta. Como na nossa terrinha o seu lado mulherengo nunca lhe trouxera embaraços, a crença no poder do dinheiro credenciou-o a aventuras mais ousadas. Pondo o orgulho acima da razão, decidiu enveredar por uma seara até então desconhecida, levando para fora do seu terreiro, em Vitória, no Espírito Santo, o seu espírito de conquistador irresistível. O alvo escolhido para a sua investida amorosa foi a mais bela mulher presente à exposição agropecuária daquela cidade, mais precisamente, a amante de um pecuarista local que, por coincidência, expunha animais em baias vizinhas às dele.

A beleza da moça o descontrolou de tal maneira, que o assédio se deu abertamente, sem o mínimo de cerimônia e sem os mais singulares princípios de discrição. Nem ao menos, tivera a preocupação de se inteirar do ciúme doentio que o sujeito nutria pela companheira, comparado apenas à natureza violenta do seu temperamento. O coronel Manoel Messias, de Frei Paulo, homem sensato e cauteloso, conhecedor da fama do capixaba (acostumado a andanças nas rodas da pistolagem das Alagoas e da Serra Negra, na Bahia), teve uma espécie de premonição, antevendo a enrascada em que o amigo estava prestes a se meter. Em vão, tentou dissuadi-lo a estancar a empreitada. A obsessão era tanta que ele só tinha os olhos voltados para a beleza da mulher. Queria-a de qualquer jeito, custasse o que custasse. Determinado a levar adiante o seu intento, desdenhou do alerta recebido.

Os rumores sobre o escandaloso assédio se fizeram ouvir pelo parque. A mulher, discreta, até que tentou esquivar-se, resistindo à investida. Entretanto, como o homem não desistia, perdeu a paciência e cientificou seu companheiro do que se passava. Atingido em sua honra e eivado de ódio mortal, este decidiu se vingar. Para isso, entabulou um diabólico plano, que consistia em assassinar o rival, no recinto onde se realizava a exposição. Queria que a lição de respeito, destinada a lavar a honra ultrajada, fosse presenciada por todos. O último dia do evento foi marcado para a execução da macabra sentença.

A notícia da trama, no entanto, vazou antes desta ser consumada, no dia do encerramento. Os sergipanos entraram em pânico e trataram de avisar ao amigo, que, alheio a tudo o que se passava, andava tranquilamente pelas dependências do parque. Ao tomar conhecimento do que lhe aguardava, se deu conta do tamanho do buraco de tatu em que metera a mão. Teve a certeza, então, de que nele não havia somente uma cascavel ou uma surucucu, mas um serpentário completo. Desesperado, refugiou-se no alojamento destinado aos motoristas encarregados de transportar o gado, enquanto aguardava que seus amigos encontrassem uma solução que lhe permitisse escapar com vida.

Mais uma vez, a experiência do coronel Manoel Messias se fez valer. A idéia de fazê-lo sair disfarçado de mulher foi exposta, sendo acatada pelos demais como a única solução viável. Sem ter alternativa, ele concordou. Coube a uma simpática cabeleireira a tarefa de preparar o disfarce, colocando-lhe uma peruca loira, um vestido bem rodado, sapatos de saltos altos e uma caprichada maquiagem. O trabalho ficou tão perfeito que o deixou tão “bonita” quanto à mulher cobiçada, embora tenha custado o valor de um belo exemplar de indubrasil, negociado dias antes.

Abraçado ao motorista e simulando um “affair” de muita paixão, ele deixou o parque num caminhão, sem despertar a atenção dos pistoleiros. Pela estrada, tomou o rumo da cidade de Itamaraju, no sul da Bahia, lugar programado pelos amigos para encontrá-lo, bem longe do perigo de Vitória.

A operação salvamento, casualmente, foi registrada pelas lentes de um fotógrafo que cobria o evento, cuja ”histórica” foto serviu de ilustração para uma extensa reportagem publicada na primeira página do principal jornal do Espírito Santo.

De volta a Lagarto, sem demonstrar nenhum constrangimento, comportou-se indiferente aos rumores acerca do vexame passado, mantendo a rotina dos negócios, gabolices e demais fanfarronices, sem perder a costumeira simpatia. No entanto, como que traumatizado, aboliu do seu repertório a cantiga de Luiz Gonzaga. A mania de conquistador, embora tenha sido preservada, ficou restrita ao seu terreiro.

O milagre da jaca

Antonio Rocha, 27 de junho de 2011

Foi no antigo Instituto de Biologia da UFS que, numa referência à minha cidade natal, tive o privilégio de receber o apelido de “Lagarto”.  Nominalmente identificado na minha origem, tornei-me alvo das brincadeiras comuns aos “papa-jacas”: “o povo de Lagarto escorrega na jaca e cai no fumo ou os meninos de Lagarto já nascem contraindo o indicador, prontos para tirar os bagos da jaca”. O fruto da terra era o preferido para as brincadeiras.

Gilberto Bezerra, o Ximena, estudante talentoso e destacado, boêmio nas horas de folga, amante da noite, apreciador da boa música e da cerveja, era contumaz em aprontar gozações com os colegas, e, como nenhum outro, sabia tirar partido de uma situação para exercitar o seu humor crítico.

Inteligente, culto, loquaz e de hábitos aristocráticos, com peculiar elegância, Gilvan Rocha lecionava fisiologia humana. Impressionava a todos a sua habilidade conquanto explicasse um assunto, simultaneamente, desenhava as partes do corpo correlatas. Era um artista nato. Não obstante todas as qualidades, contudo, quando lhe convinha, era implacavelmente irônico.

Numa aula, discorrendo sobre o funcionamento do sistema digestivo – a absorção e o metabolismo das gorduras, proteínas e carboidratos -, enveredou pela importância do equilíbrio dietético. Ilustrando as suas explicações, o mestre nos ofereceu uma tabela com a composição química e nutricional de alimentos, notadamente as frutas de clima tropical. Perspicaz, Ximena percebeu naquela tabela a oportunidade de me cutucar. Aparentando um ar solene, o interrompeu com uma pergunta maliciosa:

– Professor, qual a composição nutricional da jaca?

Gilvan respondeu com um “petardo” sob medida:

– Não tenho conhecimento se foi feita alguma análise da composição química da jaca. Aliás, pelo que sei, a jaca é uma fruta anti-social e muito indigesta, cujo consumo não combina com os padrões de civilidade. Talvez por isso não tenha sido analisada.

A risada foi geral. A fama de papa jaca do lagartense era conhecida. Entendendo ser uma provocação, prudentemente não me manifestei, evitando a armadilha. Reagi com naturalidade, embora considerasse a resposta preconceituosa.

Ignorando a etiqueta social e suas recomendações, há muito, o prezado colega se mostrava um apreciador inconteste da criticada fruta. Semanalmente, ia ao mercado central de Aracaju adquirir a iguaria (provavelmente, procedente de Lagarto), pois em casa sua presença era indispensável. Estava explicada a razão da sua curiosidade em conhecer o teor nutricional da fruta. Naquela aula, espertamente, omitira esse significante detalhe.

Anos mais tarde, discursando para uma plateia na sede do diretório do PMDB de Lagarto, já senador da república e candidato em campanha para o governo do Estado, Gilvan enaltecia as qualidades do nosso povo, da nossa terra e, surpreendentemente, até do sabor e valor nutritivo da jaca. Parecia que algo milagroso presente na fruta acabara de ser descoberto, especialmente, talvez, um poder milagroso para angariar votos. A convenção social que repudiava seu consumo, aparentemente, fazia parte de um passado, cuidadosamente esquecido.

Passada a eleição, como nenhum milagre aconteceu, o velho professor, provavelmente, reavaliou seus conceitos sobre convenções e etiquetas. Desta feita, quem sabe, para melhor.

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