Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 26-09-2017

Cuscuz com bife

Euler Ferreira, 20 de agosto de 2017

Durante os meus estudos em Lagarto, o Ginásio Laudelino Freire era a referência no ensino da cidade, pela qualificação de seus professores. Bem administrado, em períodos diferentes, por José Raimundo Lima Araújo e Dr. João Almeida Rocha, homem de grande caráter que chegou a ser eleito prefeito do município, o Laudelino sempre teve tradição histórica. A maioria dos professores vinha do Banco do Brasil, alguns deles oriundos de São Paulo, outros da própria cidade, como Valdiêr Cezar (Francês e Português, salvo engano), Rinaldo Santos (Matemática), Luis Araújo Santos (Inglês). Todos muito bons.

Para mim, o Laudelino era um território livre não apenas para o estudo, mas também para a descontração por conta do relacionamento com alunos que vinham de todos os cantos do município, além do reencontro diário com os amigos mais achegados. Todos eles estudavam lá. Eraldo de Jaconias, Emanuel de Zé Francisco, Joaquim de João de Amélia, Toinho de Nozinho, Arquibaldo de Zé Marcelino e Valbério de Tonho de Alexandre, entre tantos outros, sempre levando a tiracolo a chancela familiar, o nome do pai, do patriarca que nos dava régua e compasso. Seguindo esse conceito, humildemente eu era Euler de Nelson do Correio, com o devido agradecimento a Deus pela enorme generosidade.

No ginásio, de maioria feminina, a gente estudava e paquerava. Desnecessário dizer que aos 16 anos a libido despontava mais do que por instinto, com aquela ousadia arrasadora do ‘pernas, para que te quero’. Os namoricos surgiam naturalmente, afinal éramos todos jovens e saudáveis. Aqui e ali, alguns afagos tímidos e beijos roubados durante os horários vagos, atrás da sala isolada onde funcionava a secretaria, espaço tranqüilo, sempre à sombra. Ademais, a bem da verdade e libido à parte, se naquela época tudo era mais romântico no desenrolar do namoro, em contrapartida a gente não levava vida fácil no tocante ao desejado relacionamento mais íntimo com as garotas, considerando que virgindade nas meninas era coisa muitíssimo séria, deveria ser preservada até o dia do casamento. O atrevido que se aventurasse por campos nunca antes percorridos e consumasse com sucesso a empreitada libidinosa – ah, não tinha jeito – acabava casando sem dó nem piedade, por força do destino atropelado e da honra deflagrada que a família da garota exigia reparo de pronto, de imediato, ao pé do altar e do Juiz de Paz, mesmo que o dito cujo responsável pelo ato fosse um desses sujeitos ‘sem eira nem beira’. Ademais, para o pai da garota desonrada, diante da calamidade instalada na família, com o agravante que se tornara pública e notória (às vezes com íntimos detalhes correndo na boca do povo), miséria pouca era bobagem. A honra precisava ser reparada. A quem promoveu a desonra, uma sina e duas saídas:

– Melhor ele casado do que capado e jogado na beira da estrada lambuzado de mel de fumo, amarrado feito porco de feira – sentenciou certa feita um desses sensatos pais, em conversa meio tensa com a mãe de um conhecido meu, rapaz de poucas posses e muito ímpeto.

No geral, a minha geração era meio ‘sem eira nem beira’, mas demonstrava disposição incomum para os sonhados embates sexuais.

Sujeitos como eu – se tivessem um mínimo de juízo – deveriam segurar o pinto pelo rabo e mantê-lo satisfeito da forma menos perigosa possível, de preferência em vôo solo na intimidade do próprio lar, ou arriscando-se num dos cabarés mal freqüentados.

Mas, o quê? Cabaré? Não tínhamos estômago para tanto.

Aos 17 anos, após o devido consentimento protocolar do bispo de Estância e carões públicos do Monsenhor Jason Barbosa Coelho, fui inapelável e corretivamente conduzido ao rol dos homens sérios. Imagine, eu, 17 anos – doidinho para namorar todas as meninas da cidade – de repente, casado por ter passado a noite com a namorada em uma casa da rua Libério Monteiro, após fuga nervosa a bordo de possante Rural Willys conduzida por Josefren Nascimento, e a confiável proteção de Othoniel Fraga, o Tié. O casamento aconteceu na residência de Porfirinho, o Porfírio Martins de Menezes Filho, na Avenida Kennedy, por decisão do Monsenhor Jason. Ele entendia que se a cerimônia fosse na igreja, meus amigos iriam fazer muito barulho. “Ademais, a casa de Deus não é lugar para anarquistas”, disse-me olho no olho, devidamente paramentado e com o indicador na ponta do meu nariz. “Está entendendo meu jovem?” – esbravejou, ainda com o dedo no meu nariz e a aba do chapéu redondo arranhando minha testa.

Eu era um anarquista e não sabia.

Quando o monsenhor acabou de fazer o corretivo, surgiu de repente uma figura que eu não conhecia. Era o Padre Mário Rino Sivieri, filho pródigo de Castelmassa, recém-chegado da Itália, falando o português com forte sotaque.

– Quem casa qui?
– É esse aí – disse alguém naquele tom de entrega total, apontando o nariz e o queixo em minha direção.
– Miserável, não tem vergonha? Quanti anni hai? – emendou o Padre, em italiano.
– Não entendo – respondi com ar de condenado rumo ao cadafalso.
– Quantos anni tu tens? – corrigiu falando pausado.
– 17 – eu mal sussurrava.
– Diciassette?
– Não, dezessete.
– Dá no mesmo. Cáspita! Na certa, ainda molha o colchão.

Riram de mim. Um monte de miseráveis rindo escancaradamente.

Que vergonha! Naquele momento, uma mão salvadora no meu ombro me deu o conforto que precisava. Era meu pai. Ele sabia que eu estava em maus lençóis.

Em meio ao devaneio de minhas aflições, alguém veio me dizer que o monsenhor estava me chamando a um dos quartos da casa para a inevitável confissão. Não contava com tal possibilidade. Quase que surto. Sem ter feito a primeira comunhão ou estudado o catecismo nas tardes de domingo na igreja do Rosário, eu não me achava credenciado à confissão.

– Mas eu nunca me confessei, monsenhor!

Sentado à beira de uma cama, fez-se de desentendido, considerando de pouca valia a minha questão de ordem.

Quando ele mandou que eu ajoelhasse, aí, meu nego, eu sabia que tinha que rezar.

– Mas, eu também não sei rezar, monsenhor!

Com os olhos miúdos, semicerrados, ele olhou para mim como se não acreditasse no que ouvia, ao tempo que buscava com a mão direita um crucifixo enorme, de metal, que pendia colado a batina negra que ia até o chão. Diante da circunstância, negociamos.

– Nem o Salve Rainha?
– Nem.
– E o Pai Nosso?
– Esse, acho que dá.
– Tentemos, então – o monsenhor sussurrava impaciente.
– Se eu errar posso recomeçar?
– Pode.
– Então, tentemos.

“Pai nosso que estais no céu…” – e ele lá olhando para mim com aqueles olhinhos de cochilo roubado, o tempo todo balançando a cabeça, contrariado, segurando o terço com as duas mãos, enquanto seus lábios me passavam a nítida impressão de que orava por ele e pelo pecador ajoelhado à sua frente.

Muitos dos amigos acreditavam que minha primeira vez tinha acontecido na noite anterior ao casamento, ali na irresponsabilidade dos meus 17 anos. Engano. A estréia aconteceu na inocência dos meus 13, após assistir no Cine Glória ao filme A Dama Oculta, suspense do diretor Alfred Hitchcock.

Na época, eu ainda não tinha despertado para o sexo. Os prazeres eram outros. Um deles, colecionar gibis – revistas de quadrinhos – de Roy Rogers, Tom Mix, Cavaleiro Negro, Hopalong Cassidy e Zorro. Vivia na minha santa inocência sem saber que uma certa dama oculta estava prestes a mudar o curso de uma vida que seguia naquele mais ou menos, sem malícia, paixão ou saudade, porque nada me faltava ou me atormentava.

Até que, na noite de uma certa quinta-feira, após a sessão do cinema no Glória, eu cheguei em casa por volta das 10 horas. O silêncio na rua só era quebrado por latidos de cachorros que vinham de longe. Ao entrar, percebi que todos já haviam se recolhido a seus quartos. No primeiro, meu pai, como sempre, tinha deixado o rádio ligado sobre o criado mudo. Ficava sintonizado bem baixinho na Globo, do Rio. Ele gostava de ficar ouvindo Izaac Zaltman, com Rio Bossa Noite, seguido do Seu Redator Chefe – à meia-noite, noticiário que marcou época. O rádio ligado a madrugada inteira. O meu quarto era o terceiro. Para surpresa, percebi que na cama patente faltavam travesseiro e lençol. Sem problema. Eu sabia que minha mãe guardava tudo num velho guarda-roupa no quarto ao lado do meu, o último, onde eventualmente dormia a empregada, garota com seus 18 anos, minhonzinha, bonita, corpo bem feito, olhar malicioso, um pitelzinho.

Com receio de assustá-la, fui cuidadoso ao empurrar a porta do quarto, o suficiente para que a pálida luz do corredor iluminasse o ambiente. Ao me ver entrando, ela levantou-se e silenciosa caminhou a meu encontro trazendo um sorriso meigo. Pensei que viria me dar uma mão, ajudar a encontrar o que eu precisava. Tolo. Eu devia perceber que, com aquele andar de felina e olhar de bichana manhosa a cata de dengo, a empregada nossa de cada dia tinha intenções que a minha cabecinha de criança estava prestes a descobrir. Ao ficar frente a frente comigo, deixou cair a camisola de algodão, desnudando-se por inteiro. De repente senti um cheiro de alfazema. Fiquei sem ação. Ao me recompor do choque, percebi o quanto era bela. Gentil, pôs uma mão no meu ombro, com a outra fechou a porta. Fez-me sentar na cama, tirou meus sapatos, meias, toda a roupa. Refém da situação, eu tremia. Sabia que alguma coisa inteiramente nova para mim estava para acontecer. Ao deitar-se, levando-me a fazer o mesmo, ela passou a mão direita com os dedos abertos sobre os meus cabelos, repetiu o gesto outras vezes. Foi algo indescritivelmente gostoso. Meu corpo respondeu bem às carícias e ao calor do corpo daquela que estava prestes a ser a minha primeira mulher, a minha primeira vez.

Na manhã seguinte, entrei na sala para o café da manhã vendo e ouvindo pássaros formando coros enquanto dançavam à minha volta. Eu estava enfeitiçado de felicidade, minha inocência era coisa do passado.

Ao perceber a entrada triunfal do caçula da casa, a dama oculta veio da cozinha com um copo de vitamina de banana com Nescau.

– Tome todinha, quero você bem fortezinho!

Enrubesci.

Meu irmão mais velho foi o único a perceber.

À noite, quando saí para andar pela coronel Souza Freire, as empregadinhas da vizinhança já sabiam da novidade.

– É verdade que você está comendo ‘Cuscuz com Bife’!

Morri de vergonha.

Cuscuz com Bife. Assim era conhecida entre suas colegas. Lá em casa, simplesmente Maria.

Para mim passou a ser Maria dos Prazeres.

Com ela eu fiz a minha primeira saliência.

Depois dela perdi o interesse por gibis.

Meus heróis já não eram os mesmos.

Maninho de Zilá

Euler Ferreira, 6 de abril de 2013

Chamava-se José Antônio da Costa, figura excepcional por tudo que representou no dia a dia de sua cidade natal, embora nem sempre a gente percebesse que ele, com suas manifestações de cidadão correto e apegado como poucos às raízes da terra berço, injetava em cada um de nós aquele sentimento de amor sem limites por nosso lugar de nome estranho. Sem dúvida, Lagarto até hoje sente saudades de Maninho de Zilá, filho de Deus bom de se conviver, uma dessas pessoas formidáveis que ficam para sempre guardadas no íntimo de nossas lembranças mais queridas, que o diga dona Isaura, parceira inseparável do maior retratista que já tivemos. Pena que tenha nos deixado tão cedo.

Católico fervoroso, durante décadas esteve na linha de frente de toda a movimentação que culminava com a festa da Padroeira: todos os anos, no dia 8 de setembro, dedicado a Nossa Senhora da Piedade, ele acordava cedo para participar da alvorada festiva às 5 horas da manhã. Só parava depois que a multidão começava a se recolher para suas casas lá por volta das 8 da noite, após a procissão pelas ruas e avenidas da cidade e o encerramento da solenidade na Praça da Matriz.

Maninho era homem de muitas facetas e atitudes altruístas por conta de um coração bondoso, jovial e alegre.

Conheci Maninho de Zilá no limiar de minha adolescência, quando ele era requisitado exaustivamente para registrar com a sua Rolleflex todos os grandes momentos festivos vividos pelos moradores de Lagarto: casamentos, batizados, primeira comunhão, bailes juninos e de carnaval, enfim, as fotografias em preto e branco tiradas por Maninho continuam vivas, são um capítulo à parte na recente história do município. Muitos rolos de filmes foram utilizados para que fosse possível ilustrar fartamente alguns dos mais importantes momentos históricos do Lagarto que ele tanto amava. Nas décadas de sessenta e setenta, Maninho de Zilá era uma espécie de retratista oficial da cidade. Durante muitos anos, quando se pensava em ‘tirar retrato’ pensava-se nele, não havia uma segunda alternativa, um plano b ou algo parecido.

Um retratista de mão cheia que se dava ao luxo de demorar de cinco a seis meses para revelar as fotografias. Era comum a turma de amigos se reunir para ver no período junino as fotos tiradas no carnaval passado. Ninguém se chateava. Afinal, se não existisse Maninho com a sua Rolleflex nossos momentos jamais seriam imortalizados, ademais, tínhamos paciência e todo o tempo do mundo. Para a minha geração de adolescentes, tempo e dinheiro não importavam, não representavam muito.

Por ser influente e prestativo, Maninho foi por muitos anos um dedicado diretor da Associação Atlética de Lagarto, local onde os jovens de tradicionais famílias se encontravam por ocasião dos bailes. Na época, festa na AAL era algo imperdível porque reunia no mesmo espaço moças e rapazes que em muitos casos quase não se encontravam lá fora, por obra e graça do rigor de alguns pais. Mas, uma vez dentro do clube, aí meu nego, a situação ganhava contornos que nos favoreciam. Ali, a molecada sabia que dia de baile significava um daqueles momentos aguardados com ansiedade, quando nós outros e as divinas dos nossos sonhos mais profanos se encontravam para uma possível paquera enquanto os corpos bailavam transformando cada segundo na doce eternidade lembrada pelos poetas, dando vazão aos apelos da natureza libidinosa.

“… ali, onde o pião rodava sem sair do lugar, bem no meio do salão, ali mesmo, morava o perigo”, disse-me certo dia o querido Maninho de Zilá. Na verdade, ele nunca gostou de ver a luz do salão de festas apagada quando a orquestra iniciava o baile. Se dependesse dele, justo naquele momento a pequena pista do clube deveria estar toda iluminada, clara como dia de sol o tempo todo. Voto vencido, só lhe restava aplicar a chamada marcação cerrada, sem trégua, uma prática que acabava dando certo porque a rapaziada respeitava Maninho sem dar um pio.

Lembro-me de um dia cruel: baile na AAL abrilhantado pela orquestra mexicana Marimba Alma Latina, aplaudida internacionalmente. Festa cara, todas as mesas vendidas, moças e rapazes com suas melhores roupas e intenções! Quem tinha namorada, estava feliz da vida. Quem não tinha, precisava se esforçar o máximo para conseguir fazer bonito ao ser aceito para dançar com uma das mais belas garotas da festa. Na verdade, a moçada sabia que aquele era um dos momentos sonhados por todos.

Baile iniciado, a rapaziada ficou na expectativa aguardando a orquestra entrar com os acordes da sessão bolero – do fenomenal Bievenido Granja. Não foi preciso esperar muito. Quando começou o momento do ‘dois pra lá e dois pra cá’, aumentou o número de casais jovens na pista, principalmente no meio do salão, por ser espaço mais estratégico para certas intimidades impróprias aos olhares dos pais das meninas, que ficavam nas mesas tomando uísque Drurys, falando alto e conversando besteira. Pois bem: uma vez lá no epicentro do rala e rola, a coisa fluiu naturalmente. Corpos grudados, beijos nervosos e rápidos entre juras de amor ensaiadas previamente, uma quentura incrível nas chamadas partes baixas tornavam o bailar mais sensual, o suficiente para despertar comentários maldosos de três solteironas horrorosas – sempre elas – que não desgrudavam os olhos dos movimentos promovidos pelas cinturas do casal dançante. As pestes, certamente sufocadas de desejo, entre o abanar de seus leques e gestos nervosos de quem procura alguém, conseguiram despertar a atenção de Maninho de Zilá.

Justo no momento em que as duas saíram para futricar no banheiro, entrou em ação a múltipla figura do temido diretor do clube: mãos para trás, óculos na ponta do nariz, deslizando pausadamente com o corpo curvado para a frente, meio bailando, indefectível olhar investigativo, ele circundou a pista pelas laterais, atento ao rala e rola. Quando desconfiou que estava em andamento um possível início de esfrega excessivo, agiu prontamente sem desprezar seu bolero solo; serpenteou entre os casais dançantes até ficar a um metro do primeiro alvo suspeito. Deu uma olhada tipo ‘respeito é bom e eu gosto’ ao tempo que pediu com as mãos que os corpos se afastassem um pouco.

Atendido, retornou às laterais da forma como tinha saído, bailando sozinho ao som do bolero. Minutos depois, ele sentiu no ar algo mais do que o cheiro de ‘Toque de Amor’, perfume chique da época. Subiu no palco para mapear a área suspeita. Baixou um pouco os óculos em busca de visão mais precisa dos casais que ocupavam o salão escuro, farejou, desceu ao nível dos dançantes, serpenteou novamente procurando um outro ângulo mais consistente, até não ter nenhuma dúvida. Quando concluiu que as partes íntimas de determinado casal estavam subjugadas pelo desejo, uma acariciando a outra, deixando configurada a prática lasciva sem a mínima chance de reversão dada à circunstância do prazer estampado no rosto de um e de outro, Maninho agiu prontamente para evitar uma desgraça, que poderia chegar a galope caso o pai da garota visse o que estava em andamento. Sem pestanejar, caminhou rápido em direção à secretaria do clube, onde estavam os interruptores de energia. Como eram muitos, utilizou as duas mãos acendendo de uma só vez todas as lâmpadas… Práááá. Fez-se a luz!

No salão, nem todos entenderam o porquê de tanta claridade na sessão bolero. Quem entendeu sabia que tinha pinto duro em excesso. As tais coroas fofoqueiras, num êxtase sem limites, começaram feito loucas a apontar de forma desordenada em várias direções, despertando a curiosidade de todos. Olhares atentos e desconfiados perceberam que uns dez casais desistiram de dançar. Assustados ante o infortúnio do elemento surpresa utilizado por Maninho, vários rapazes saíram desajeitados do foco central da festa, um atropelando outro em fuga desesperada e constrangedora a caminho do banheiro. Todos eles, mortos de vergonha, com a mão no bolso segurando o destemido pingolim que insistia bravamente em permanecer de pé.

Situação normalizada, o ambiente voltou às escuras.

Satisfeito, com aquele ar de missão cumprida, Maninho de Zilá retornou a bailar sozinho, só que em direção à sua mesa de pista. Lá, sentadinha, estava a sua amada companheira Isaura. Dançaram até as quatro da madrugada, felizes e alegres como sempre.

O cochilo do Monsenhor Jason

Euler Ferreira, 18 de março de 2012

Segunda-feira, calor insuportável no último mês do verão. O tempo estava nublado, com nuvens carregadas e escuras fazendo o meio da tarde parecer início de noite, impressão que só alimentava a vontade de largar tudo, tomar caminho de casa e me acomodar no meu canto. Sentado na primeira fila ao lado de uma das duas portas de acesso daquela que era a maior sala de aula do Ginásio Laudelino Freire, dava para perceber o céu carrancudo e as poucas janelas abertas do Colégio Sílvio Romero, que seguia paralelo bem ao lado, a nos oferecer um cenário sombrio e calado, sem ninguém transitando pelos corredores ou emitindo sinais de que havia vida lá fora. Desconfiado, levantei um pouco o rosto e tentei exalar um possível cheiro de fumaça de cigarro, vindo de um ponto qualquer, carregando sinais de insubordinação, quase sempre cometidos por alunos da quarta série, os mais experientes e exibidos do ginásio. Estranho. Ninguém falava, caminhava ou fumava. Pelo visto, quem resistia às possíveis consequências do tempo permanecia em sala de aula, sentado e obediente, assim como os alunos de terceira série, como eu.

À nossa frente, trajando batina preta que se estendia até os sapatos de verniz preto, crucifixo dourado que combinava com a bela corrente de ouro no pescoço, o Mons. Jason Barbosa Coelho estava sentado em sua mesa de professor sem demonstrar pressa em iniciar a aula. Olhos quase fechados nos dando a certeza de cochilo iminente, ele balbuciava palavras que não chegavam aos nossos ouvidos, os lábios faziam de conta que acompanhavam o ritmo de suas intenções para com Deus, mas não havia sincronia entre o imaginado e o dito. Mãos entrepostas e um pouco trêmulas sobre a barriga, ele rezava com o queixo quase ancorado no peito. Sobre a mesa um missal repousava ao lado da caderneta de chamada, onde eram registradas a frequência e, eventualmente, as notas de cada aluno. Quando o Monsenhor estava assim – entregue de corpo e alma às orações vespertinas – a classe toda entendia que o mais razoável era não tirá-lo daquela letargia meditativa porque era sabido que o velho pároco da Matriz de Nossa Senhora da Piedade não gostava de ser interrompido sob hipótese alguma, a não ser que todos os santos enumerados pelo Vaticano viessem em comitiva arriscar interrompê-lo com um terminativo ‘amém’. Quando contrariado, nosso professor de História Geral explodia sem dó nem piedade, não importando se estava na igreja ou em sala de aula. Então, melhor resguardar-se da ira do santo homem de Deus.

A perspectiva de trovoada com chicotadas de relâmpagos uniu a turma: todos os trinta alunos ficaram lado a lado, sentados e encolhidos, juntos para a hora do deus-nos-acuda! Diante dos olhares assustados, eu arrisquei me levantar e atravessar para o outro lado da sala, em direção a uma das quatro janelas ainda abertas, na tentativa de ver, num plano maior, o que estava por cair sobre as nossas cabeças. Ademais, eu precisava saber se, naquela altura, nós éramos as únicas almas vivas do ginásio. Nessa de saciar a curiosidade e afugentar os meus medos, eu caminhei furtivamente pé ante pé com um olho no padre e o outro na missa, passando como uma sombra em frente ao sonolento Monsenhor Jason.

Quando eu cheguei ao outro lado da sala e apoiei meu queixo na borda de uma das janelas com o olhar fixo no céu assustadoramente negro, tudo aconteceu a um só tempo, com diferença de fração de segundos: o barulho do sino tocado por ‘Seu João’blém- blém- blém… – anunciando precocemente o encerramento da aula – seguido de um relâmpago com clarão incrível abrindo o céu em dois, vindo a reboque o inevitável estrondo aterrorizante do trovão: ‘praquibuuuum!’. Tudo mais ou menos em sete segundos. No oitavo, o grito de Mons. Jason ordenando que os alunos continuassem em seus respectivos lugares.  Não sei ao certo o que o acordou: se o barulhento sino marcador do tempo ou o fortíssimo papoco vindo do céu. Atabalhoado, sem saber exatamente o que estava acontecendo, ele viu-se de pé segurando o belo crucifixo dourado de uso pessoal, como se quisesse proteger do apocalipse que estava às portas do Laudelino Freire. Apavorado, ao me ver atordoado esfregando os olhos e tentando encontrar o caminho de volta, ele se colocou diante de mim esbravejando como nunca.

– Que desgraça de barulho dos infernos foi esse e que matraquear dos diabos o senhor está provocando como se fosse dono do tempo e do destino?

– Mas, eu, Monsenhor!

– Comunista, subversivo!

Desesperado de raiva, e após balançar sucessivas vezes o dedo em direção ao meu rosto, repetindo que eu era comunista e subversivo, ele levantou um pouco a batina, deu meia volta e saiu apressadíssimo em direção à secretaria do ginásio.

Ao colocar os pés fora da sala de aula, uma nova sequência de relâmpagos e de trovões o fez recuar em busca de abrigo, entendendo de vez o que se passava.

Com os olhinhos miúdos agora arregalados, ele estava novamente frente a frente comigo.  

– Quer dizer que não foi você? – disse-me com o dedo apontado para o céu  

– Não, Monsenhor, não fui eu. Foi coisa de Deus, acredite!

No dia seguinte, ao se encontrar comigo no longo corredor do ginásio, segurou meu braço com gesto amigo, demonstrando que não guardava rancor.

– Olhe, eu estive pensando… um garoto de 16 anos, bem educado e de família católica, não pode ser comunista nem subversivo, não é?

– Não, Monsenhor, não pode.

– Ademais, você não tem pretensão de ser Deus! Sei que não!

Dito isso, seguiu adiante, mas não sem antes me abençoar, fazendo com a mão o sinal da cruz em frente ao meu rosto.

 

The Jet Boys made in Lagarto

Euler Ferreira, 30 de setembro de 2011

(Dedicado à memória de Erval Moura e aos companheiros de jornadas Vaubério, Gaguinho, Osvaldo Bezerra, Cabeleira e Luciano)

Confesso que nasci com uma certa veia musical sem nunca ter construído uma lastro sequer em minha vida dedicada ao estudo e aprofundamento de minhas raízes, a partir do que, historicamente, fez o meu avô, João Ferreira do Espírito Santo, Mestre Ferreira, fundador da Banda de Música Lira Popular, o mesmo que musicou os versos de Etelvino Dantas, resultando no Hino da Padroeira do Lagarto.

Quando adolescente, queria ser baterista. Em certo momento, lá pelos dezesseis, dezessete anos de idade, surgiu um lapso instante em que eu pensei que podia ser um artista, fazer sucesso com as baquetas nas mãos. Até que tentei, resultando em dois momentos frustrantes e decisivos para o meu futuro…

Naquela época, dando asas aos meus sonhos, resolvi que com um pouco de sorte e determinada disciplina poderia ter acesso ao mundo das artes pela via da música. Apaixonado por Beatles, Renato e Seus Blue Caps, Roberto Carlos, Golden Boys e tantos outros, de repente, me vi segurando um bangô, fazendo percussão naquele estilo frenético e apaixonante que modelava em mim um pouco do baterista que eu gostaria de ser, à imagem de Milton Banana¹ ou do Gene Krupa².

Meus dedos magros e rápidos no bangô produziam um som gostoso, no ritmo desejado por Erval Moura. Líder do recém-formado Conjunto The Jet Boys ele reuniu um grupo de jovens com o propósito de atingir sucesso além fronteiras. Nas primeiras reuniões realizadas na sede da Lira Popular, situada na Rua Acrísio Garcez, ficou definido que o conjunto seria formado por Cabeleira (violão elétrico), Euler (bangô), além de Erval, Vaubério e Gaguinho (vocais).

Fechado o grupo, novas reuniões, agora para discutir qual deveria ser o traje a vestir os futuros ídolos da jovem guarda. Depois de muitas horas perdidas e de poucas e más ideias, foi aprovado por maioria de votos que a gente ficaria bem arranjado trajando calça preta, camisa branca de mangas compridas e uma – como dizer meu Deus? -, ridícula gravata borboleta também de cor preta, a-la-garçon de cabaré.

Erval achava que era roupa mais fácil de conseguir emprestada, e pronto, não mais se discutiu.

Vencidos os primeiros desafios da fase inicial de The Jet Boys, agora em ritmo de ensaio, eis que Erval Moura surge com uma ideia interessante: ‘Que tal a gente arranjar um cantor, alguém para se apresentar antes do nosso show?’ Sentindo que o clima lhe era favorável, ele seguiu adiante: “tenho até uma sugestão?” – e pôs na mesa:

– Bobby Morris! Não é um elegante nome artístico? – foi criado por mim, falou sem deixar dúvida que estava acertando na mosca.

– Mas, e quem é o tal? – Cabeleira, o experiente violonista, fez a pergunta em nome do grupo.

– Osvaldo Bezerra, respondeu Erval, antecipando-se às inevitáveis perguntas. Bobby Morris é Osvaldo Bezerra!

A aprovação foi imediata. Osvaldo prometia dar conta do recado. Era um cara elegante, de fino trato e sempre simpático. Por que não ele?

De repente, Vaubério lembrou que a família Bezerra era louca varrida por Vicente Celestino³, tanto que nos programas de calouros do Cine Glória, ele, Osvaldo, com voz de tenor só interpretava ‘O Ébrio’, canção de maior sucesso do cantor nada admirado pela turma da jovem guarda.

Na tentativa de dar um ponto final naquela etapa de pré-estreia do The Jet Boys, Erval prometeu que ia sugerir a Osvaldo que no papel de Bobby Morris interpretasse músicas de outros cantores como Agnaldo Timóteo, Altemar Dutra e Osvaldo Fahel.

Dito, feito e aceito.

Em uma bela noite de primavera, estávamos na Praça da Matriz jogando conversa fora, sentados no banco com encosto à esquerda de quem chegava vindo da Souza Freire ou Lupicínio Barros. Como sempre, Erval era o último a se apresentar e sempre com novidades. Daquela vez, sua boca miúda sorria, tinha coisa boa no ar:

– Fechado o primeiro contrato, pessoal! Dia 8 de dezembro, vamos ser uma das atrações da Festa da Padroeira, em Itabaianinha.

Daquele momento em diante, só ensaios e muitas discussões na sede da Lira Popular. Nervosos, os meninos começaram a desafinar, principalmente quando cantavam o primeiro trecho da música Coruja, sucesso da dupla Deny e Dino.

Com pose de maestro e imaginária batuta na mão, Erval chamava a atenção para o ensaio:

– Atenção, atentos, no três: um… dois… três…

Coruja ah ah ah!

Justo no ah, ah, ah, o trio formado por Erval, Vaubério e Gaguinho desafinava feio. E quando eles erravam acabavam discutindo. Geralmente, a culpa pela falha vocal era atribuída a Gaguinho, por motivos óbvios. Pura injustiça. Mas, superado o trauma inicial, eles acabavam se acertando. Nova passagem pela música indicava que o grupo estava pronto para a estreia:

… dois… três… Coruja ah, ah, ah
o nome que eu dei àquele alguém
que passa e nem sequer olha ninguém
pensando em só dar ela no lugar, no lugar
coruja ah ah ah
(…)

Chegamos a Itabaianinha conduzidos pelo Jipe de Luciano de Mané Dentista. Em uma das esquinas da cidade uma tabuleta amarrada num poste anunciava o grande show da noite de domingo, logo após a procissão em homenagem à padroeira.

Lá estava escrito:

Direto de Recife
Exclusivos da gravadora Mocambo e TV Jornal do Comércio…
The Jet Boys e Bobby Morris
Às 8 horas da noite no cinema!

Duas fotos ilustravam a propaganda. Na primeira, em pé, fardados de garçom de cabaré, Vaubério, Erval e Cabeleira seguravam Gaguinho no colo. Eu, em pé, segurando o bangô. Na segunda foto, Bobby Morris fazia pose de cantor vestindo um velho e quadriculado paletó, que nas horas vagas poderia ser utilizado em improvisado jogo de damas. Um horror.

Esperto, Erval tinha vendido o show como se nós fôssemos de Recife. Fazer o quê! Os outros integrantes do grupo só tiveram conhecimento quando viram a tal tabuleta no poste.

Como seguro morreu de velho, tão logo chegamos ao hotel decidimos ficar trancados no quarto com receio de possíveis encontros com lagartenses. O que seria um desastre! Afinal, éramos de Recife…

Do quarto para o banho e o inevitável retorno, a gente se deslocou desconfiando da própria sombra. Na hora que a empregadinha gritou que o jantar estava servido, saímos todos juntos em fila indiana. Sentamos três de cada lado da mesa, sem direito a um dedo de prosa e, muito menos, a olhares furtivos para os demais hóspedes que também jantavam naquele momento.

De repente…

‘O que esses malandros de Lagarto estão fazendo aqui?’

Quando olhamos em direção da voz vimos caras conhecidas, conterrâneos da Banda de Música da nossa cidade.

Erval, como sempre, foi o primeiro a se manifestar, pediu que ‘pelo amor de Deus’ o pessoal não revelasse a nossa procedência. Sussurrando, ele explicou o drama aos músicos que ficaram solidários.

Por incrível que pareça, o show saiu perfeito. Bobby Morris agradou cantando músicas de Agnaldo Timóteo, e The Jet Boys não sentiu qualquer dificuldade na hora de interpretar Coruja.

Na verdade, o único senão foi provocado por mim.

Achei de sortear dois discos com o público. Duas perguntas bobas:

– Primeira: ‘depois dos Beatles, qual o conjunto mais famoso do mundo?’

– The Rollings Stones, respondeu uma bonita garota na primeira fila do cinema.

Muito bem, palmas!

Segunda: Quem canta ‘Coração de Papel?’

– Sérgio Reis. – respondeu outra garota, sentada ao lado da primeira.

Discos entregues, notei que um jovem, cabelos abrilhantinados e corrente dourada sobre a camisa cor de rosa tinha ficado meio irritado com o resultado do sorteio. Saiu do cinema com cara de poucos amigos. Ficamos sabendo que o motivo de sua irritação estava no parentesco das vencedoras. Eram primas, filha e sobrinha do dono do cinema. Pura coincidência, para azar nosso.

Após o show, o contratante fez questão de demonstrar hospitalidade a nós outros ‘pernambucanos’, a quem prometia visita em sua próxima viagem a Recife. No barzinho da moda próximo a Igreja Matriz, cerveja e quitutes nas mesas. Tudo por conta do simpático anfitrião. Ao nosso redor sobravam fãs eventuais. Ia tudo muito bem até que, de repente, vejo sentado ao meu lado o dito rapaz de cabelos abrilhantinados. Fumando um Continental sem filtro e filando a nossa cerveja, ele joga a fumaça no meu rosto e murmura entre dentes sem disfarçar aquele jeitinho cínico que não restava a menor dúvida:

– Pernambucanos, né?

– É.

– Do Recife, né?

– É.

– TV Jornal do Comércio, né?

– É.

– Exclusivos dos Discos Mocambo e com motorista japonês, né?

Àquela altura, desesperado e prevendo o pior, em vez de responder eu optei por perguntar com a voz já trêmula:

– Hômi, diga logo o que você quer e tamos conversados!

Saiu na hora:

– Quatro Brahmas em mesa separada, duas doses de Drurys copo longo e maço e meio de Hollywood.

(E eu, com meus botões: ‘fidumaégua barato, maço e meio de Hollywood… era só o que me faltava.’). Fechei negócio.

– Tamos conversados, então.

Assustado e ouvinte de cabo a rabo de todo o enredo do meu diálogo com o sujeitinho, o ‘motorista japonês’ Luciano de Mané Dentista ficou com os olhinhos mais miúdos do que de costume. Após sussurrar a conversa para os outros amigos ele se instalou no jipe – do outro lado da rua, porque tinha placa de Lagarto – temendo uma saída de emergência.

Suborno atendido e antes que o safado abrilhantinado ficasse bêbado e falasse que éramos um bando de papa jacas, pedimos licença ao contratante para uma passagem pelo hotel e rápida troca de roupas.

– A gente volta já.

Não voltamos. A tal troca de roupa só aconteceu três horas depois quando de madrugada chegamos em casa após dolorosa viagem por estrada não asfaltada, com buracos, muita poeira e tremendo desconforto no velho jipe de uma única poltrona pois o resto era aço puro apoiando aos trancos e barrancos quatro bundas cansadas. Nós do The Jet Boys, envelopados a-la-garçon de cabaré e Bobby Morris agasalhado naquele tabuleiro de damas que ele chamava de paletó.

O primeiro show teve tudo para ser o último. Não o foi porque desastre maior ainda estava por acontecer, só que em Pinhão.

Mas essa merece uma outra crônica.

¹Milton Banana (Rio de Janeiro, 23 de abril de 1935 — Rio de Janeiro, 22 de maio de 1999) foi um percussionista brasileiro, um dos principais bateristas da bossa nova.

²Gene Krupa (Chicago, Illinois, 15 de Janeiro de 1909 — Yonkers, Nova Iorque, 16 de Outubro de 1973) foi um influente baterista de jazz e compositor.

³Antônio Vicente Filipe Celestino (Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1894 — São Paulo, 23 de agosto de 1968) foi um dos mais importantes cantores brasileiros.

Os verdes campos de minha terra

Euler Ferreira, 6 de julho de 2011

Confesso que nutro pela minha terra uma paixão sem limites, ou seria amor considerando que paixão tem prazo de validade? Opto pelo amor sem receio de passar para o leitor uma página de dúvida. Nós, os nativos do interior, somos apegados às nossas raízes, cientes da simplicidade que nos remete para o futuro na mesma proporção que o passado viceja na memória com recordações emotivas que fluem nos contos de quem une palavras à realidade como se tudo tivesse acontecido ontem ao cair da tarde.

Meu amor por Lagarto foi testado quando ‘Seu Nelson do Correio’ decidiu que eu precisava ir adiante nos estudos, exercitar a tendência para o jornalismo. Achei que era uma boa idéia porque já tinha ouvido de alguns velhos e bons amigos relatos sobre mudança de clima para ganhar experiência. Tinha sentido. Se eu pretendia ser jornalista era preciso ousar, testar meus conhecimentos, aprender com quem sabia, ir mais além da Praça da Piedade e da avenida Francisco Garcez que abriga o querido Ginásio (hoje Colégio) Laudelino Freire. Era isso. Aos 17 anos eu tinha a mais absoluta certeza da necessidade de me desgarrar de alguns laços sentimentais tidos como irreversíveis.

Decidi, então. Precisava ganhar o mundo sem perder a alma.

Em Aracaju, meu novo endereço era um pensionato na rua Itaporanga 49, perto da praça da Catedral. Em pouco tempo conquistei novos amigos, um grupo de rapazes e moças que viviam da poesia, do jornalismo, do teatro, da música e de boas noitadas. Era prazeroso, senti que meu futuro estava comprometido com o jornalismo e, se não tivesse cuidado, com uma linda poeta que em busca do curso de doutorado, acabou se fixando na Espanha. Embora entusiasmado com aquele novo momento, percebia que alguma coisa estava fora de ordem, só que meu tempo era ocupado demais: o estudo, as idas diárias às redações de jornais em busca de aprendizado, as reuniões noturnas com a minha nova turma – encontros que sempre acabavam quando a madrugada começava a sorrir.

Confesso que era demais para quem até dias antes só tinha compromisso com o Laudelino Freire, os namoricos nas matinês do Cine Glória e os bate-papos na praça da Matriz com os amigos de infância Eraldo, Emanuel, Joaquim, Toinho de Nozinho, Valbério e mais alguns.

Um dia, o lagartense José Ribeiro de Oliveira – boa conversa, leal companheiro, colega de ginásio também estudando na capital – surge no pensionato trazendo a tiracolo uma eletrola portátil da Phillips. Foi chegando e fazendo o convite:

– Magro, vamos ouvir música lá na praça da Catedral?

Era final de tarde de um outono preguiçoso. No chão da praça, folhas encolhidas e muitos frutos maduros de dezenas de tamarindeiros davam o tom de uma solidão que nos dominava naquele instante. Sentado em frente à estátua do Monsenhor Olímpio Campos, fiquei olhando o amigo lidar com o aparelho. Semblante preocupado, ele cuidadosamente instalou as pilhas na eletrola, estirou o fio da única caixa de som, escolheu o disco, sentou com olhar perdido na Catedral e acendeu um cigarro, não antes de dizer num tom de lamento com a nítida intenção de me prevenir:
– Aguenta, magro!

Era a gota que faltava. Da frágil Phillips portátil surgiu a voz forte de Agnaldo Timóteo cantando Os Verdes Campos de minha Terra

Se algum dia a minha terra eu voltar
Quero encontrar as mesmas coisas que deixei…

De repente, nos vimos chorando. Tudo, exatamente tudo lembrava Lagarto. As paqueras na praça da Matriz, o relacionamento saudável do ambiente escolar no Laudelino Freire, os bailes na Atlética e a Rolleiflex de Maninho de Zilá imortalizando nossas poses, fotografias que, até hoje, estão guardadas como lembranças de momentos inesquecíveis.

Viajamos no tempo. Eu e Zé Ribeiro ali na praça chorando com saudades de Lagarto, tendo Monsenhor Olímpio Campos como testemunha solitária e Timóteo com a sua música despertando o nosso imenso amor por um lugar realmente especial.

Quando o trem parar na estação
Eu sentirei no coração a alegria de chegar
De rever a terra em que nasci
E correr como em criança
Nos verdes campos do lugar.

Há mais de 30 anos moro em Aracaju. Até hoje, todos os dias, ao cair da tarde fecho os olhos e me transporto para Lagarto. No cruzamento das ruas da Glória com Lupicínio Barros revejo minha gente, me reencontro com minha cidade. Com um pouco de esforço, no exato momento em que de algum canto me chegam os acordes da Ave-Maria, ainda percebo bem nítida a imagem de Nelson Ferreira fechando a porta central da agência dos Correios…

É um momento só meu e da terra que me viu nascer.

Impossível não achar que Lagarto ‘é o melhor lugar do mundo’.

“O valor das coisas não está no tempo em que elas
duram, mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

(Fernando Pessoa)

Drops Jornalísticos 3 – Atropelado pelo doutor Ulisses

Euler Ferreira, 12 de dezembro de 2010

Na campanha política de 1986 recebi convite da agência de publicidade NM para viajar por alguns estados com a missão de colher depoimentos de importantes políticos brasileiros, solidários à candidatura de José Carlos Teixeira ao Governo de Sergipe. Falas que, segundo a NM, iniciais do publicitário Nairson Menezes, deveriam ou poderiam ser veiculadas em emissoras de TVs de Aracaju.

Apesar da atraente proposta financeira, a princípio pensei em não aceitar o convite porque sabia que trabalhar para políticos em ano eleitoral certamente queimaria a minha imagem junto a opinião pública podendo ser fatal para uma carreira jornalística que se encaminhava de forma promissora.

O problema foi contornado a partir do momento que o staff formado em torno do candidato José Carlos entendeu que eu estava certo e que eles, Nairson e Tarcisio Teixeira (pessoa formidável, irmão de José Carlos) na verdade precisavam mesmo era de minha experiência como jornalista acostumado a entrevistar grandes personalidades por conta das intervenções diárias nos telejornais da TV Sergipe. Liberado pela emissora e definido que do repórter só poderia aparecer a mão segurando o microfone, fechamos o negócio.

A missão seria cumprida em quatro estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Comigo seguiriam o cinegrafista Lula e o produtor Hugo Julião.

Voamos para o Rio com a missão de entrevistar o Presidente da Câmara dos deputados, Ulisses Guimarães. Naquela época o Presidente do Brasil era José Sarney por conta da morte de Tancredo Neves, mas o homem forte era Ulisses Guimarães. Além de ocupar as presidências da Câmara dos Deputados e a do PMDB, partido que detinha 80% dos ministérios e a maioria dos parlamentares, ele era o substituto legal de Sarney e a figura mais carismática da república. Por onde andava atraia multidões.

No Rio, instalados em um hotel em Copacabana ficamos na expectativa de que a nossa base, em Aracaju, nos passasse a agenda que o grande líder do PMDB cumpriria na Cidade Maravilhosa. Depois de algumas horas de espera Nairson Menezes liga para Julião informando, conforme previsto, que no dia seguinte o Deputado Ulisses seria homenageado com um almoço no Rio Othon Pálace Hotel, lá mesmo em Copacabana.

Três horas antes do almoço chegamos ao hotel. Logo na recepção o gerente se deixou enganar pelo microfone que eu segurava com a logomarca da Globo. Se impressionou tanto que nos encheu de gentilezas, inclusive abrindo as portas de um enorme salão onde seria servido o almoço, parando exatamente na enorme mesa redonda que abrigaria o homenageado e outras importantes autoridades da república. Lépido, desenhando o cenário que seria formado a partir do momento que ‘doutor Ulisses’ pusesse os pés naquele ambiente requintado, o produtor Hugo Julião, fez hipoteticamente o trajeto a ser percorrido pelo objeto de nosso desejo, contando repetidas vezes os passos a serem dados pelo líder peemedebista até a bendita mesa que lhe fora reservada. Segundo o meu produtor, nossa câmera montada em um tripé ficaria a um metro da vistosa e longa passarela vermelha a ser percorrida pelo deputado. Sobrava entusiasmo naquele esforçadíssimo Hugo Julião, como sempre cheio de detalhes:

-Veja bem, Euler, acompanhe o meu raciocínio e perfomance no caminhar como se eu fosse ele, Ulisses, é claro. Eu venho andando, andando e andando – pam,pam e pam – aí, de repente – quando a distância para o tripé com a câmera for de três metros, você, que lá está, sai ao meu encontro quando então faz a pergunta. Claro que eu vou parar para ouvir e responder. Não vai ser diferente com o doutor Ulisses!

Depois, o autoelogio:

– Perfeito, não?

– Perfeito – respondi sem ter a mínima certeza.

Ficamos os três – eu, Julião e Lula –trancados dentro daquele enorme e belíssimo espaço do Rio Othon Palace Hotel aguardando e aguardando. Uma hora e meia depois, o gerente abre a monumental porta e diz: ‘o doutor Ulisses está a caminho’. Avisou e saiu nos deixando novamente fechados. Um pouco mais e logo o primeiro alvo de nossa missão no Rio viria tranqüilo ao meu encontro para a entrevista, conforme o Julião tinha previsto e ensaiado nos mínimos detalhes.

– Não se esqueça, Euler: doutor Ulisses vem caminhando sobre o tapete vermelho. Quando ele estiver a três metros do Lula, que já estará filmando, você vai em frente, ao encontro dele.

– Tudo bem, Julião.

De repente, a porta se abriu. Deu, sim. Eu juro que deu para ver os cabelos brancos do doutor Ulisses que entrou protegido por uns quatro guarda-roupas e uma multidão de aliados do PMDB tentando a todo o custo evitar que mais de cem integrantes da imprensa que vinham a reboque– jornalistas, cinegrafistas, fotógrafos e auxiliares – se aproximassem do homenageado, atrasando o almoço.

Bem, aí o leitor há de me perguntar: e quanto ao planejado, a minha entrada no tapete ao encontro do doutor Ulisses, a pergunta e a resposta, enfim, a entrevista?

Desnecessário dizer que por pouco não fomos atropelados pela multidão. O pobre do cinegrafista Lula abraçou o tripé com o resto do equipamento, enquanto buscava proteção em um dos prováveis banheiros. Este repórter que vos fala, caiu para trás ao tentar se proteger do primeiro guarda-roupa que veio rápido de braços abertos à frente do homenageado na tentativa de evitar invasões indesejadas na dita passarela que o Julião tinha programado apenas para o doutor Ulisses e (imagine) eu. Quanto a ele, Julião…Bem, estava há dez metros de distância, rindo, rindo sem parar daquele tsunami que em nenhum momento chegou a ser previsto.

-Cara, isto é uma loucura…ah,ah,ah…que loucura, cara!

Todo o pessoal da imprensa foi obrigado a se retirar sem conseguir entrevistar a grande figura da república.

Também não tinha como esperar o final do almoço para uma segunda tentativa. De Aracaju, Nairson Menezes informava que às três horas nosso compromisso seria com o governador Leonel Brizola no Palácio das Laranjeiras.

Era preciso correr, estávamos atrasados.

DROPS JORNALÍSTICOS – 4

O Microfone da Globo

Chegamos ao Palácio das Laranjeiras, sede do governo fluminense, perguntando pelo Secretário de Imprensa, aquela altura enfurnado no gabinete dele ou em trânsito por conta do horário do almoço. Foi o que nos disseram. O tal gabinete ficava literalmente nos porões do palácio, construído entre os anos de 1909 e 1913. Não dava para esperá-lo ali porque era excessivamente pequeno, desconfortável, tinha aspecto um tanto medieval e cheirava a mofo.

Esperto, Julião procurou informações sobre nossa audiência marcada pela turma de Aracaju.

– Bicho, não tem nada marcado! Que loucura, cara!

Falou assim um tanto incrédulo como se duvidasse do que tinha ouvido, só que de imediato desandou a rir enquanto caminhava de um lado a outro de forma desencontrada como se aquilo o ajudasse a encontrar uma solução adequada conforme exigia o momento.

Virtudes no Julião nunca faltaram. Otimista desde criancinha, ele é alegre, brincalhão, bom companheiro de trabalho e de viagem, inteligente e espirituoso o suficiente para manter em alta o astral de quem trabalhava com ele.

– Não esquenta, não esquenta. O rato de porão chega já para resolver nosso pequeno problema.

Eu e Lula deduzimos que o rato de porão devia ser o tal secretário de imprensa que só apareceu quando começou a entardecer.

Nos atendeu lá mesmo no porão. Diante da timidez das acomodações e da falta de cadeiras o cidadão ficou em pé até mesmo para se ver logo livre da gente. Confirmou que de Sergipe não tinha chegado qualquer pedido de audiência mas, caso a gente quisesse tentar falar com o Governador Brizola podia subir e assistir a gravação do programa semanal que ele mantinha na Rádio Roquete Pinto.

– Está começando agora no salão de reuniões, quem sabe se ele não fala com vocês após a gravação? – jogou a isca e se despediu.

Subimos devidamente equipados. Lula com o tripé e a câmera, eu com meu microfone e Julião com o ‘pau de luz’.

Era provável que seríamos um dos poucos privilegiados espectadores da tal gravação.

Quando aportamos no salão nosso simpático produtor traduziu o pensamento da equipe.

– Cara, é muita gente!

A nossa frente, uma antiga e longa mesa de madeira da época do império. Sentado na extremidade diante de um microfone, o governador já tinha iniciado a gravação. Também acomodados em cadeiras do século passado, de um lado a outro da mesa, fiéis brizolistas, a maioria com lenços vermelhos amarrados ao pescoço, símbolo do brizolismo. Em pé, com indisfarçável ar de adoração, outros cinquenta acompanhavam o que dizia Brizola.

Inimigo ferrenho de Roberto Marinho a quem acusava de estar envolvido no famoso Caso Proconsult, tentativa de fraude nas eleições de 1982 para impossibilitar a sua vitória ao governo do Rio de Janeiro, Leonel Brizola odiava tudo que lembrasse ou fosse vinculado às Organizações Roberto Marinho. Sempre que podia falava mal da Globo. Foi o que aconteceu naquele momento durante a tal gravação radiofônica.

‘Outro dia fiquei sabendo que a reportagem da TV Globo tentou entrar sem autorização no Ciep* de Madureira, um comportamento deselegante, irresponsável, inconcebível… Mesmo avisado pelo diretora que eles lá não podiam entrar, os prepostos do senhor Roberto Marinho, vejam só, forçaram uma situação absurda para criar factóide, confundir a opinião pública com mais uma de suas reportagens mentirosas. Eu já disse aos diretores do Ciesp e agora digo aqui: não entram, não. E aviso mais: se eles não entendem as regras da boa educação, vale a regra do maleducado’. Escutem só: se o pessoal da Globo aparecer no Ciesp e forçar o acesso na força, pau neles pois aquilo não é casa da mãe Joana!’

Ao meu lado, Julião e Lula, tremendamente pálidos, desviaram o olhar de Brizola para mim. Eu não entendia o porquê, mas, de repente, uma sensação de medo e terror tinha ficado estampada no rosto de cada um deles. Meio engasgado, lábios trêmulos, meu produtor se aproximou, conseguindo articular um sussurro débil bem próximo ao meu ouvido:

– O microfone, Euler!

– O quê?

– O mi-cro-fone! – falou meio assoprado, sibilando.

– Que é que tem o microfone, Julião?

– Fala baixo… a porra do seu microfone é da Globo!

Cristo Redentor! Gelei. Eu estava em pé e de braços cruzados dando para perceber fartamente a mão direita que segurava o microfone que ostentava as logomarcas da TV Sergipe de um lado e a da Globo, do outro. Recuei devagar a dita mão que estava sobre o cotovelo esquerdo, direcionando-a a altura do coração e, uma vez lá, procurei a proteção da parte interna do paletó.

Saímos do local um tanto à francesa, naquele andar em câmera lenta que Moe, Larry e Curly, os Três Patetas, exibiam em seus divertidos filmes. Por obra e graça divina os assistentes mal perceberam o nosso ‘vou aqui e volto já’, estavam por demais anestesiados pela incrível – e aquela altura oportuna – adoração ao Governador Brizola.

Retornamos no dia seguinte com um microfone sem qualquer caracterização. Não adiantou, Brizola tinha viajado.

Como diria Julião: que loucura, cara!

*(OBS.: CIEPs: Centros Integrados de Educação Pública, popularmente apelidados de Brizolões, foram um projeto educacional de autoria do antropólogo Darcy Ribeiro que, pessoalmente, o considerava

Drops Jornalísticos 2 – Quem é o dono de Lagarto?

Euler Ferreira, 3 de novembro de 2010

Fiz minha estréia no vídeo da TV Sergipe em plena ditadura militar e às vésperas das eleições de 1978. Meu diretor de jornalismo, Theotônio Neto, me designou para cobrir duas cidades onde historicamente política partidária sempre motivou uma paixão exacerbada, deixando expostas as conseqüências de inimizades irreconciliáveis que acabavam afetando o eleitorado, resultando em discussões, ameaças, brigas e até tiroteios. Enfim, não era nada ameno o clima que nos aguardava em Lagarto e Itabaiana.

As eleições de 1978 foram realizadas sob o governo Ernesto Geisel e em nome de seu projeto de “abertura lenta, gradual e segura” o chefe da nação teve o cuidado de urdir um conjunto de regras capazes de assegurar a maioria situacionista no pleito legislativo de 15 de novembro, reunidas no Pacote de Abril baixado em 1977. Em linhas gerais o pacote manteve as eleições indiretas para governador de estado e para assegurar a maioria parlamentar da ARENA no Congresso Nacional criou o senador biônico e ampliou a bancada dos estados menos populosos na Câmara dos Deputados.

Chegamos a Lagarto no início da noite de uma sexta-feira. Primeiro, nosso carro de reportagem parou na Praça Filomeno Hora, tradicional reduto do eleitorado do antigo líder udenista Dionísio de Araujo Machado. Ele morava numa velha casa que despontava das demais não por ser a melhor ou maior da praça, mas justamente por ser o endereço daquele que despertava nos seus seguidores um respeito incomum, beirando a idolatria, principalmente em época em que estava em jogo o comando da Prefeitura do município.

Naquele momento, muitos de seus eleitores estavam postados na calçada da casa. Alguns, sentados no chão, outros, em pé, faziam uma parede humana a proteger a trincheira do chefe político. Quando alguém abria vaga na calçada literalmente ocupada, logo um novo aliado se oferecia para fechar o cerco. Aos nossos olhos deu para perceber que seria assim toda a noite e madrugada. Não encontramos qualquer dificuldade para colher informações ou fazer algumas entrevistas para a reportagem pautada. No entanto, eu e os dois colegas que me acompanhavam – cinegrafista e operador de VT – não tivemos acesso ao interior da residência de Dionísio Machado, embora a gente já tivesse a informação de que o ‘chefe’ estava lá dentro tomando algumas providências, despachando aliados escolhidos dedo para o exaustivo trabalho de vigilância a ser exercido em cada um dos 119 povoados do município. Uma missão que exigia olhos abertos e atentos sem direito a sono ou cochilo sob pena de ver o inimigo furando o bloqueio para cooptar o eleitor mais fraco – de posses ou de virtudes morais. Era um jogo de mão dupla: da mesma forma que protegiam o chamado reduto eleitoral do chefe, os ‘enviados especiais’ também atacavam o terreiro adversário sem dó ou piedade. A persuasão era aplicada conforme as circunstâncias. Às vezes, mesmo sem o conhecimento do chefe político desta ou daquela facção, o eleitor mais apaixonado tentava reverter o voto do eleitorado rural já comprometido com o outro chefe de partido, usando aquele velho estilo de ameaças veladas, de fazer isso e aquilo ‘caso o seu voto – tá me ouvindo?… Não seja para o candidato do nosso líder… tá me entendendo cidadão?’

Não foram poucas as vezes que os enviados dos líderes das duas facções entraram em confronto durante o cumprimento das tarefas encomendadas às vésperas das eleições. Alguns acabavam presos, outros, no dia seguinte, não se constrangiam em aparecer em público com dolorosos hematomas no rosto, oferecendo em contrapartida exagerados relatos do revide e do quanto eles tinham surrado os adversários.

Da Filomeno Hora seguimos para a Praça da Piedade. Lá, em grupos diferentes, tinha gente ocupando o espaço que compreendia a frente da Igreja Matriz até o palanque no meio da praça. Para surpresa nossa, Rosendo Ribeiro Filho – o Ribeirinho, que politicamente dividia o município ao meio com o adversário de Dionísio Machado – não estava recolhido ao interior de sua casa. A informação era que ele já tinha realizado a reunião de ‘despachos rurais’. Justamente por isso foi fácil o acesso ao chefe político que no momento de nossa abordagem comandava uma conversa animada da qual participavam alguns correligionários de primeira linha, entre eles Agenor Viana, José Vieira Filho, José Ribeiro de Souza e José Vicente Carvalho.

Enquanto eu conversava com Ribeirinho, uma sondagem sobre aquele momento político, meus outros dois colegas preparavam os equipamentos de gravação. O mais falante deles, Amaral – Gilberto Amaral Lopes Filho – figura excepcional, o melhor cinegrafista com que já trabalhei – sem saber exatamente quem era quem ali naquele grupo, resolveu fazer graça, um deboche por conta de seus já conhecidos e incontidos repentes.

– Sim, a conversa está boa, mas o que eu quero saber mesmo é quem o dono aqui da cidade!

Fiquei estático. Véspera de eleição, nervos à flor da pele, me vem Amaral com aquele quem é quem absurdo.

– Quem é o dono de que? – a pergunta veio de um Ribeirinho super vermelho de indignação. Fiquei preocupado ao notar que ele tinha dado dois passos à frente.

– É, o dono da cidade. Aqui deve ter um dono, não?– rebateu Amaral em meio a um sorriso que oscilava entre o cínico e irônico.

Aquela altura eu temia pelo insucesso da matéria e também pela integridade física do meu intrépido cinegrafista que começou a sentir na pele uma mudança de ‘clima’ na Praça.

Por outro lado, Ribeirinho ainda vermelho e com o dedo indicador balançando em direção ao nariz do colega, respondeu com extrema dureza:

– Aqui não tem donos. Aqui exercemos a democracia, é terra de um povo próspero, independente e livre, não me venha com desrespeito…

Senti a praça tremer.

Como uma desgraça estava a caminho, resolvi intervir dizendo com o melhor de meu sorriso amarelo que o colega estava brincando e que aquele era o jeito dele.

Foi o santo remédio. A minha estréia no vídeo da TV Sergipe acabou acontecendo conforme o previsto, na querida Lagarto, muito mais pelo meu repente conciliador.

No percurso da viagem para Itabaiana, próxima etapa do nosso trabalho, Amaral – que estava mudo há mais de uma hora – tinha recuperado a fala. Incorrigível, desandou a me perguntar repetidas vezes quem era, afinal, o dono de Lagarto.

Quase o odiei pelo seu exacerbado senso de humor.

Drops Jornalísticos 1 – Empatando o Nestor

Euler Ferreira, 3 de novembro de 2010

03/11/2010

Duas vezes por semana, domingo e quarta-feira, apresento na TV Justiça de Brasília um programa em rede nacional, graças a TV a Cabo e a outros sistemas de TV fechada. Faço o registro apenas para que o leitor compreenda o que segue:

O nome dele é Nestor Emanuel Andrade Amazonas, ou simplesmente Nestor Amazonas. Para os amigos e colegas ele é apenas o Nestor. Foi meu diretor de jornalismo na TV Sergipe nos idos dos anos noventa, de onde saiu para trabalhar em uma das empresas do Grupo Abril em São Paulo. Hoje, ele atua como empresário do setor de comunicação na capital paulista.

E foi de São Paulo que Nestor me ligou rindo e falando alto, como sempre, todo divertido deixando transparecer que tinha novidade. E que novidade!

-Magro, outro dia tomei um susto danado. Imagina que lá estou eu em um motel no curso de plena atividade sexual com uma baita gaúcha, quando de repente meus olhos se fixam na imagem de um televisor que me revelou o seu rosto em 42 polegadas falando de justiça!

Após gargalhada escandalosa e uns três palavrões, ele concluiu:

– Pô, você é um empata. Aquilo lá era hora de você entrar em cena, meu?!

Fragmentos lagartenses 1

Euler Ferreira, 11 de outubro de 2010

Padre Mário e o pai da criança

Tenho um cordial relacionamento com o Bispo de Propriá, o querido Dom Mário Rino Sivieri. Mas nem sempre foi assim, por conta da impetuosidade do jovem que um dia fui, à época em que comecei a escrever no jornal A Voz de Lagarto, lá no seu nascedouro. Estudante do curso de contabilidade do Colégio Laudelino Freire, administrado pelo então Pe. Mário Sivieri, certa noite, eu e ele tivemos, em plena sala de aula, um desentendimento: em defesa de alunos filhos de agricultores que dependiam da venda da safra de fumo ou mandioca para quitar mensalidades escolares em atraso, fui impelido a discordar da cobrança que o meu diretor fazia, ali em público, após ter invadido a sala, interrompendo a aula de matemática.

Após jogar para fora as minhas contrariedades, discorrendo sobre as diferenças existentes entre o diretor que ali estava e o padre que eu costumava ouvir na Igreja Matriz, peguei meus livros e cadernos e cai fora do Laudelino para nunca mais voltar.

Dias depois, nas páginas de A Voz de Lagarto, eu peguei forte contra o diretor do Laudelino Freire, por quem eu passei a nutrir aquele tipo de ranço que cola no juízo da gente até Deus dar um basta. Passei para o jornal a minha desilusão e contrariedade. O suficiente para que meu pai, com aquele jeito carinhoso de sempre, me aconselhasse a deixar o padre de lado. “Ele é um sacerdote, um homem de Deus”, reforçou olhando para mim com carinho. Apesar de ter iniciado a minha guerra santa sem pensar em trégua ou bandeira branca, resolvi obedecer.

Afinal, meu pai era o timoneiro de meu destino, uma espécie de início, meio e fim que balizavam a minha vida. Nos meus momentos de reflexão, eu sempre me deparava com aquela certeza de que ser filho de Nelson Ferreira era, como continua sendo, uma benção.

Obedeci, mas continuei emburrado, me fiz inimigo do Pe. Mário por achar que seria uma conduta politicamente correta.

Tempos depois, ainda adolescente e cheio de ímpetos, eu me tornei pai de Kaarla Patrícia, a primeira da prole de seis filhas queridas. Passados os dias, coube à minha irmã Elma iniciar as providências para o batismo. Na sacristia da Igreja Matriz, ela ouviu o Pe. Mário dizer que não podia registrar Kaarla com ‘K’ seguido de dois ‘a’, porque certo mesmo, no dizer dele, era Carla, sem K e sem os “aa” pretendidos.

– Elma insistiu: mas o meu irmão quer com K e dois “a”, tal qual passei aí para o sacristão. E soletrou: Ka… ar… la.

– Mas, afinal, quem é o pai ignorante que vem a ser o seu irmão? – perguntou o padre Mário.

– O pai de Kaarla é o meu irmão Euler.

– Olhe prá mim e responda sempre olhando nos meus olhos: você se refere a Euler do Seu Nelson, Nelson do Correio?

– Sim.

– Ai, ai, ai, não é possível, de novo esse rapaz! – lamentou, demonstrando enfado e irritação.

Após respirar profundamente, sentenciou, falando rápido e desaparecendo lá no mundo exterior, em direção à Casa Paroquial da Praça da Piedade:

– Vai, registra do jeito que ela manda! Não quero mais problema com o pai da criança, irmão da moça. Só espero que essa criaturinha com ‘K’ me venha menos arisca e mais cristã.

Tempos depois nos tornamos amigos.

Hoje, menos arisco e mais cristão, reconheço que o atual Bispo de Propriá foi o melhor e o mais importante pároco de Lagarto nos últimos quarenta anos. Com ele, a Igreja Católica cresceu, cumpriu um ciclo importante e que, por certo, jamais será esquecido.

Até hoje, Lagarto lamenta – e chora – a sua ausência.

Homem honrado e querido, ele continua cumprindo a sua missão de evangelizador vindo da Itália para, em nome de Deus, nos aproximar da verdade e da vida.

Benditas Uvas Thompson

Euler Ferreira, 10 de abril de 2010

Vou sempre a Brasília, a serviço e por afinidade com familiares que residem na jovem cinquentona, há 27 anos. Em uma de minhas visitas, no final do ano passado, devidamente instalado no apartamento da família no Cruzeiro Novo, a querida irmã Elma me ofereceu deliciosas Uvas Thompson que, para surpresa minha, não tinham sementes. E lá eu sabia que já temos uvas sem sementes!

Muito interessado naquele manjar inteiramente novo para mim, fui buscar na Internet informações detalhadas para saciar a curiosidade. Determinado texto me pareceu estranho. Lá estava: “os bagos (eu,hein!) da Thompson são grandes e ovalados”. Achei esquisitíssimo mas entendi que era aquele o jeito de falar dos irmãos que nasceram na terrinha além mares, a querida Portugal, pois do texto consultado me foi oferecida ainda a expressão lusitana: “O fruto botanicamente denominado de baga e popularmente de bago é resultado do desenvolvimento do ovário da flor”.

Pois!

Não pensei duas vezes. Após saborear as Uvas Thompson, uma por uma, calma e lentamente, como se fossem as únicas e últimas uvas sem sementes existentes no mundo, eu arrotei baixinho com aquela dignidade própria do maleducado satisfeito.

Não pestanejei. Era imperativo retornar para Aracaju levando as Uvas Thompson. Minha querida Cristina e toda a prole de seis filhas precisavam provar maravilhosas iguarias. Com certeza, ia ser um acontecimento inesquecível. Para a apresentação das uvas pensei até em fazer um discurso a lá Lula, tipo ‘Nunca antes na história desse país, digo, desse Estado…’

Intimei meu cunhado Romildo – honrado cidadão nascido no povoado Limoeiro, na aprazível Lagarto – a ir comigo a procura da preciosidade antes que acabasse. É que na minha cabeça a Thompson era uma dessas coisas raras, daí eu tinha urgência em adquirir o que ainda restava das ditas uvas nas gôndolas dos supermercados de Brasília. Do supermercado até o apartamento, o pacote com quatro quilos da fruta foi conduzido solenemente, protegido do sol e de possíveis solavancos provocados antes ou depois de um daqueles quebra-molas instalados no Cruzeiro Novo.

No dia seguinte, o do retorno a Aracaju, conseguimos uma embalagem especial, à base de isopor importado e resfriado com pedras de gelo produzido com água mineral de afamada Thermas de Goiás. O mais importante era acondicionar as inigualáveis Thompson em recipiente que não alterasse em nada o seu padrão in natura, possibilitando que a suavidade da polpa e a umidade adocicada permanecessem o máximo possível dentro dos padrões sugeridos pelas mais afamadas vinhas européias.

Já no aeroporto de Brasília, durante o checkin, o funcionário da TAM, após pesar e despachar a minha mala, olhou com aquele jeito meio enviesado para o pacote que solenemente eu abraçava. Já imaginando o que ele ia me perguntar, não esperei por tempo ruim:

– Não, o pacote vai comigo.

E ele, insistindo:

-É alguma coisa gelada, congelada, em estado líquido, doce em cauda, assemelhante ou assemelhado?

E eu:

– Não, é uma imagem de Dom Bosco que eu comprei na Feira dos Importados.

-Ah!

Já no avião, devidamente sentado na poltrona, acomodei o pacote sobre minhas pernas e, em seguida, direcionei o bico do ar condicionado – acima de minha cabeça – em direção do dito, de tal forma que mantivesse a temperatura das Thompson na faixa dos 18 graus.

Foi uma viagem tranqüila.

Após o desembarque em Aracaju, a primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi acomodar as preciosas uvas na geladeira. A novidade ainda era segredo.

No café da manhã, apresentei as Uvas Thompson à minha mulher, como se fossem coisas de outro mundo. Mais parecia que eu estava mostrando pepitas de ouro adquiridas em recente viagem a Lua, direto das mãos de um turista marciano em descanso no Mar da Tranquilidade repleto de lava basáltica solidificada. Realmente, para este cronista nascido no Lagarto, eram coisas do outro mundo.

Lá no seu canto, com uma mão no rosto e a outra nos quarto, a nossa empregada Marileuza, 18 anos de casa, só olhava.

E eu lá colocando uvinha Thompson na boca de minha mulher, com discurso de vendedor ambulante.

…Marileuza só olhando…

E eu insistindo, todo falastrão:

-Vá, mastigue, sinta a leveza e a textura da fruta! Esta sim, é uma verdadeira Thompson, importada da Califórnia e ainda desconhecida no Nordeste.

E minha mulher:

-É, é boa.

Um ‘é boa’ dito com aquele entusiasmo de quem perdeu eleição.

De repente, ainda lá no seu canto, Marileuza – naquele jeito de falar meio cantado e no melhor sotaque nordestino – disse algo que me deixou até agora com cara de bobo. Para ser sincero foi uma revelação trágica:

-Uvas Thompis, né? Eu já conhecia faz tempo. Toda semana ela é vendida nas barracas aí da feirinha do Grageru. Tem vez que até sobra e vai pro lixo.

Imagine a minha cara de tacho.

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