Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 23-07-2017

O juízo final

Joaquim Prata, 25 de junho de 2014

 

A

Paulo Sérgio Nunes,

Euler Ferreira,

Euclides Oliveira,

Antônio José,

Vaubério César e

Rose, em Frankfurt.

 

Explosão da Leste

 

Naquela semana, a introversão parecia invadir as pessoas. Talvez uma premonição de que algo estaria para acontecer. O Mons. Marinho havia chamado a atenção dos seus paroquianos para aquele momento. Foram sete semanas de renúncia e abstinência. Até a própria matriz havia se despojado. Lá, nos altares, não se via uma ínfima pétala de flor, apenas o pano roxo cobrindo as imagens. Festa? Nem por sonho.

Monsenhor Marinho, nas suas homilias, explicava todo o sentido da quaresma. Não era exagero, portanto, o gesto de Dona Jiló em não permitir que Seu Florêncio a tocasse. Dizia que somente se prestaria a tais desfrutes depois do sábado de aleluia.

Naquela Sexta-feira Santa, ardia o sol. Na sacristia da igreja, Enoque Libório abria os gavetões do armário e, de lá, tirava os paramentos do Monsenhor. A estola, para aquela ocasião, teria cor especial. Por sua conta já colocara a imagem do Senhor Morto no seu ataúde. À tarde, ele seria carregado pelos ombros fortes de Mundinho do Leite, Juca Viana, Francisquinho Almeida e Chiquito Machado.

Ainda pela manhã, de porta em porta, os pedintes recebiam como esmolas, bolachões baratos e impregnados de amoníaco. Tinham um cheiro tão forte, que nos faziam verter lágrimas. Mesmo assim, era a forma dos abastados provarem o seu espírito de caridade.

Nas ruas do Lagarto, poucas almas vivas. Bares fechados, inclusive o de Nouzinho Galo. Até as suas bicicletas para aluguel, Merckswiss, jaziam inertes num canto do salão. Na Regência, mestre Bedóia ensaiava a marcha fúnebre.

Se na cidade pontificava o silencio, na Rua da Canafístula se agitava a casa de Constância, apinhada de gente do Tanque que vinha à cidade para pagar suas promessas, quando não, fazê-las.

Na procissão, Minervina de Sinhô Velho sairia com os pés descalços e uma pedra na cabeça. Constância, com a devida antecedência, já havia preparado a mortalha roxa e a coroa de espinhos confeccionada com talos de roseira, cultivada no seu quintal.

Mal falada por todos, Norminha do Serrão apenas acompanharia a procissão sem sapatos, culpava uma unha encravada e um calo seco. Seu marido, Onésimo das Miudezas, mascate renomado, não seguiria o exemplo da esposa. No seu avalio, tudo isso era armada da mulher. Ele que não trabalhasse para sustentá-la nos seus caprichos e no seu luxo. De certa forma já se achava cansado. Vivia mais pelo mundo do que em casa. Norminha, afoita e no verdor dos anos, para espantar a solidão, no seu tálamo deitava-se com um zambo da Leste, vindo das bandas do Maranhão.

Na igreja, tomavam-se as providências para a procissão. Dona Regina de Seu Rosalvo, juntamente com Maria José de Getúlio Hora, limpavam cuidadosamente os estandartes do Apostolado do Coração de Jesus. Maria Teles engomava o vestido branco e a fita azul de filha de Maria. As irmãs Ferreira, contritas, oravam incansavelmente. Na casa de Pedro Devoto, a exemplo da igreja, todos os santos estavam cobertos de roxo.

Mal passava das 14 horas, quando uma explosão ensurdecedora espalhou-se pelo Lagarto. Uma fumaça densa e escura cobriu o céu. Portas se abriram com o impacto. Vidraças se estraçalharam, enquanto fendas riscavam as paredes de muitas casas. Os vitrais da igreja não foram poupados. O mundo parecia ruir. Graciliano, ainda com a neurose da guerra, saiu gritando: “é os alemão…  é os alemão que tão voltando”. Das Virgens, sua irmã, há muito vária do juízo, trancafiada no quarto da frente, resmungou: “alemão de água doce, deu um peido e se cagou-se”.

Das Neves, que tecia redes, desmaiou com a explosão. À medida que recobrava a consciência, teve uma visão apocalíptica: viu a lua se partindo ao meio, o sol perdendo o brilho, a terra se abrindo em enormes fendas. Quando deu por si, já estava no consultório de Dr. Humberto.

Norminha, para não morrer em pecados, aos prantos, caiu de joelhos abraçando as pernas do marido, aproveitando-se do trágico momento para confessar o adultério. Para Onésimo, naquele instante, o perdão era o crédito para a sua salvação.

No Campo da Vila, pneus voaram a metros, caçambas viraram, crateras foram cavadas. Aos poucos, as notícias foram chegando. Não era o fim do mundo, mas o acampamento da Leste Brasileira, cujos tambores de dinamite haviam explodido.

Passado alguns momentos, tudo havia voltado ao normal. A procissão acabou às dezessete horas, quando começou o ritual do beijo à imagem.

Na igreja, concentravam-se nas bancadas da frente, as filhas de Maria. Os demais fiéis se acotovelavam nas bancadas da entrada. Com a censura e os olhares atravessados das beatas, o casal Norminha e Onésimo adentrou na igreja pela nave central, em direção ao altar de Santo Antônio. Percebendo o sentimento de reprovação, afiançou: “quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”.

 

 

 

 

O retorno

Joaquim Prata, 8 de junho de 2013

Era certo que Apolônio Cerqueira não queria terminar os seus dias de vida batendo sola na tenda de Lili. O desejo de um lugar maior tirava-lhe o sono. Imaginava-se no Rio de Janeiro, desfrutando das suas belezas, ganhando dinheiro.  O Lagarto era miúdo, sem graça, irritava-lhe o desalinho das ruas, o alto e baixo das calçadas, o capim da Praça da Piedade, enfeitada somente pelas cabras de seu Libo, curador de doença do mundo, enfim, um médico formado pela faculdade da vida.

A letargia da cidade só era quebrada pelas novenas da padroeira, ou no rebuliço das segundas feiras. Cerqueira olhava os parentes com desdém, achava-os sem sonhos e sem esperança.

O dia da partida chegou. Cerqueira, entre choro e abraços, tomou o rumo do Rio de Janeiro.  No agito das ondas, o Ita singrou pelo Atlântico até atracar numa clara manhã de domingo.

A primeira parte do seu sonho estava realizada. O deslumbramento da cidade grande invadiu sua alma, ali viveria até a morte, arranjaria um bom emprego, pois, aprendera alguma coisa na escola de Joaquim Machado.

Os anos foram passando. O sofrimento do estômago vazio, dos quartos de pensão, da pneumonia quase transformada em tuberculose, aos poucos, foram dando lugar ao emprego de guarda-livros, cuja profissão exerceu definitivamente, não mais no Rio, porém na cidade de Petrópolis. A honradez e a competência fê-lo amealhar um bom cabedal, por conta disso adquiriu um belo carro: um Buick 1939. A partir da aquisição do carro, bateu-lhe a saudade do Lagarto, do cheiro de fumo das malhadas do Santo Antônio. Lembrou-se do bar de seu Pequeno, do armazém de Porfírio Martins, da tenda de João de Amélia, do reisado de Júlia de Memela e seu galante Bertinho Prata a recitar este verso:

              “EU SOU UM POBRE SAPO

              QUE PASSO A VIDA INTEIRA

              DEBAIXO DE UMA PEDRA

              NO RIO AQUI NA BEIRA.”

Dos olhos de Apolônio verteram lágrimas, não sabia explicar a estranha saudade. A cada dia assuntava um pedaço de Lagarto. Vinha-lhe com força a figura de Frei Eliseu pregando suas Santas Missões. Nestas ocasiões, a igreja era iluminada a carbureto que, por seu cheiro forte, fazia arder as narinas dos fieis, porém dava a luz que todos precisavam.

Cerqueira pretendia se mostrar uma pessoa próspera que havia enriquecido. No ofício de guarda-livros, sentia-se orgulhoso quando cortejado pelos bajuladores, principalmente os da família. Oportunistas que sonhavam em tirar um naco do seu dinheiro, sempre alegando dificuldades na vida.

Era uma tarde de quarta feira de junho quando resolveu partir para o Lagarto. Desta vez, não enfrentando o balanço das ondas que, é bom lembrar, quase o matou de tanto vomitar. Pensou, dizia aos conhecidos: chegar ao Rio sem os bofes.

Foram oito dias pelas estradas de Minas e da Bahia. O solavanco da estrada arrebentou-lhe as cadeiras, mas, mesmo assim, a saudade o incentivou a voltar. Não veio só. Para acompanhá-lo, um motorista profissional, escolhido de tantos da Praça de Petrópolis. Moço bem falante, sotaque do Sul que, por força do ofício, veio parar nesses ermos.

Atravessou a Bahia, entrou no Sergipe, achou-se em casa.  Logo estaria no Lagarto. Iria de imediato, até a igreja e diante de Nossa Senhora da Piedade, agradeceria pela viagem.

Chovia naquele mês de junho, o inverno era rigoroso. Já no Papagaio, o Buick atolou, reclamando a ajuda dos vaqueiros que desciam do Piauí. Desatolado, o carro tomou o rumo do Lagarto.  No Sobrado, surgiu o inusitado: no meio da estrada lamacenta, imponente e majestoso, estava o pé de tamarindo derramando sua galhada verdejante. Sustentado pelo tronco imenso, não permitia dez homens abraçá-lo.

O carro deslizou no selão avermelhado, o hábil motorista não pode contê-lo, somente o tronco da árvore o conseguiu.  Cerqueira foi arremessado até o painel, enquanto o sangue vertia da sua testa. O motorista petropolitano, com o choque, perdeu a dentadura, que se projetou na lama da estrada. O Buick perdeu a frente. Apolônio pensou como consertá-lo, mas no Lagarto não tinha como. Nem João Ford seria capaz.

Num ímpeto de raiva e arrependimento, Cerqueira segurando um lenço branco, que aos poucos era tingido pelo sangue, sentenciou: “MEU DEUS! QUE DIABO EU VIM FAZER NESTE FIM DE MUNDO? NUMA TERRA QUE NASCE GENTE CHAMADA DE DADÁ, DEDÉ, DIDI, DODÓ e DUDU, SÓ PODE DAR AZAR E PREJUÍZO”. Deram-lhe um banco para sentar, enquanto o motorista chafurdava na lama à caça da dentadura.

Dias depois, chegava o telegrama a Petrópolis:

“FIZEMOS EXCELENTE VIAGEM PT O BUICK SE ENCONTRA EM ARACAJU PARA MANUTENÇÃO PT AVISE A DONA GERTRUDES QUE SILVEIRA ESTA ADORANDO VG INCLUSIVE ATÉ ENCOMENDOU UMA NOVA DENTADURA COM UM DENTE DE OURO PT ABRAÇOS VG SEU QUERIDO APOLÔNIO PT”

O lobisomem das Cacimbas

Joaquim Prata, 31 de março de 2013

Não se sabe, até hoje, como a feiura de Otacílio coube na formosura de Consuelo. Casamento feito ao gosto dos pais da moça. Para tal fim, não foi avaliado o tipo retaco do noivo, mas a sua aptidão para o trabalho e a sua honradez. Montado no Zaino Alazão consumia os dias no roçado de milho e no trato da vacaria mestiça. Já em Consuelo, tudo era beleza. Foi ainda de braço que havia chegado às Cacimbas. Sua família provinha das bandas do Buraco. O pai, tísico, no lugar encontrara melhores ares para a sua cura. A mãe, branca como a neve e de corpo hirto, na doença do marido, era a mulher e o homem da casa. O tempo gasto para o casamento foi de um ano. União abençoada pelas mãos piedosas do Padre Olegário que no furdunço do dia das bodas, sob o efeito do licor de Jenipapo, terminou por beliscar a região glútea de Dona Aurora, respeitável professora de Catecismo e virgem recatada. O gesto atrevido do pároco, fez dela assídua ao confessionário, já que todas as noites sonhava com ele despojado da batina e nu como havia nascido.

 No vigor dos dengos de recém-casados, Otacílio e Consuelo se entregavam um ao outro na melhor serventia. Acovilhados na rede do Ceará experimentavam uma madorna só interrompida para o café. Para Otacílio, o mundo lá fora que acabasse, Alcides Laçador, na sua ausência, que cuidasse da Santa Bárbara. Naquele momento, bastava-lhe o prazer da carne branca e tenra de Consuelo, e os seus deboches nos momentos das intimidades. Diziam-se tão intensos que provocavam uma laxação tal maleita de rio.

Durante a lua de mel, o velho sobrado – herança dos pais de Otacílio ao único filho – cerrara às portas da frente. Somente a do alpendre, que dava para o quintal, tinha uma banda aberta. Era por ali que Zulmira, velha criada, cega de um olho, todas as manhãs vinha trocar as flores do velho nicho de Santo Antão. Sempre rosas Amélia colhidas no canteiro da sua casa, contígua ao velho casarão da rua do Meio.

O viço daqueles dias havia transformado Otacílio numa figura terciopeluda. Batia-lhe nos ombros a vasta cabeleira revolta. Suas sobrancelhas, de tão espessas, pareciam se tocar. O que denunciava desleixo, para Consuelo era excitação, gostava de vê-lo assim, diferente dos outros, avaliou Dr. Romeu, médico de bicho, pelado que nem pinto novo; sem um tico de cabelo. Não incomodavam mais os comentários que saíam da bodega de Bigode d´Água: -“só se casou com o bicho pelo dinheiro e pelas terras da Santa Bárbara”, sentenciava Zé Gomes, invejoso e beberrão, com mulher sortida de filhos.

Finda a lua de mel, Otacílio retomou as rédeas da Santa Bárbara. Socado no eito comandava a cabroeira, só descansando quando a tarde morria avermelhada, tingindo de cinza os serrotes do Araçá.

Consuelo ficara nas Cacimbas, passava as noites entre o terço e as histórias de trancoso contadas por Zulmira. Vez por outra, ouvia-se o som da vitrola de Margarida na casa ao lado. Já Otacílio, se ausentava quase toda a semana, só pernoitando nas Cacimbas aos domingos, pois era o dia da missa e dos dengos na rede do Ceará. Na segunda, dia da feira, ao fim da tarde, ele juntava os seus teréns e no trote ritmado do Zaino Alazão tornava à roça, como assim gostava de chamar a Santa Bárbara.

Os dias longe da mulher faziam com que Otacílio pensasse na reforma da sede da fazenda, era só o inverno abrandar. Enquanto isso não ocorria, contentava-se em matar a solidão da noite, escanchado numa rede, acariciando a cabeça de “Capitão”, carneiro dado por um compadre do Lagarto para o casamento. Ali o bicho seria transformado em uma suculenta buchada. Por força do destino teve a vida poupada, caindo nos mimos de Otacílio.

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Fazia calor quando Naum Lira chegou às Cacimbas. Desceu da fubica de João Ford metido no terno diagonal branco, com o chapéu de panamá quebrado de lado. A gravata borboleta era preta e aprisionada ao colarinho duro da camisa creme. O sapato tinha a estirpe do cromo alemão, cujo bico preto se acasalava a um branco intenso. Resoluto tomou o rumo da pensão de Maroquinha. Orientado por Chico Banguelo, cria da casa, instalou-se no quarto da frente com vista para a bodega de Bigode d’Água- há pouco transformada em bar – e para o casarão de Otacílio.

A figura bem postada de Naum Lira contrastava com a gente simples e rude das Cacimbas. A sua presença havia provocado muita coscuvilhice, mas tudo coisa de poucos dias, pois logo estaria familiarizado com todos, até se tornara frequentador do bar de Bigode d’Água, chegando a proferir, naquele recinto, um breve discurso quando da inauguração da mesa de sinuca. Na efeméride, aproveitou a oportunidade para exibir os seus conhecimentos de latim adquiridos, ainda adolescente, como coroinha do convento da Piedade no Recife. Se as citações latinas e a novidade trazida por Bigode d’Água provocaram elogios de muitos, a mesma receptividade não havia com relação ao padre Olegário que, na missa dos domingos, tecia severas críticas a jogatina e a devassidão instaladas na sua paroquia. Referia-se, também, à abertura do bordel “Flor do Amor” iniciativa de Dalva do Lajão, antiga dançarina do circo Pajurá de trágico fim. O incêndio ali ocorrido havia merecido as manchetes dos jornais de Maceió. Sem eira nem beira e acompanhada por Aurelina da Paz, famosa na região de Propriá por seus apetrechos físicos, fincaram os pés nos baixios da rua da Ponta, nos pertences do Major Antero do Ingá, assíduo frequentador da casa, cujo prazer era assentar Aurelina ao colo e se chafurdar no seu pescoço, quando não se punha a madornar com a força do cafuné.

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Debruçada no parapeito da janela do andar de cima, Consuelo recebia a brisa fresca da tarde. Com os cabelos úmidos, sacudia os cachos doirados de um lado para outro como a enxugá-los. Na verdade, a janela era um dos seus divertimentos, pois sem Otacílio a sua vida parecia monótona. Contava na folhinha os dias para o inverno acabar. No amornar do verão partiria para a Santa Bárbara e aí tudo voltaria ao normal. Sentiria deixar a mãe, principalmente o pai, cuja doença o prendia ao leito, e concluía: “mulher tem que acompanhar o marido, sempre foi assim e assim mandava a lei de Deus.”

Se de um lado Consuelo se deliciava com a brisa da tarde, do outro, pela fresta da janela do quarto da pensão, Naum Lira a contemplava. Raras vezes vira tamanha formosura. Era só a tarde anunciar o crepúsculo e lá estava ele acompanhando cada gesto de Consuelo. À noite, ele se reservava para cortejar Dona Faustina, viúva virgem e bem apanhada, cujo marido, no dia do casamento, de tanto beber e comer, terminou estrebuchado no chão deixando escapar um fio de sangue pelo canto da boca, vindo a falecer. Fechada no luto, jurou não conhecer outro homem. Em vão se tornaram as investidas de Naum para tê-la todas as noites.

Com o passar do tempo Naum ia esquecendo Dona Faustina e se deixava envolver pela beleza de Consuelo. A discrição do início, agora dava lugar à ousadia. Vicejava nele a paixão que se transformava, aos poucos, num turbilhão incontrolável de desejo. Era o ímpeto da carne a sojigar os limites da razão. Tivera outras paixões, a última com a promessa de morte. Reclamar guarida nos ermos das Cacimbas, foi a solução encontrada por um colega, igualmente caixeiro viajante, de nome Rômulo Tavares. Ali, na vila, Naum estaria seguro como nos recôncavos da serra do Ingá.

O que a vila já sabia, chegou a Otacílio pela boca de Zulmira. O desassossego nele se plantou de modo a se transformar num desatino. Causava-lhe pânico a sensação de perda da amada; única razão do seu viver. A sustança para o trabalho agora dava lugar a uma lassidão que o prendia à velha preguiçosa de assento encardido, posta no vão do corredor da casa velha. Com Capitão a ruminar ao seu lado, Otacílio imaginava Consuelo presa aos braços de Naum de pronta partida para terras distantes. Ela fugiria às escondidas como uma raposa astuta. A ousadia do fulano reclamava pronta resposta. O almofadinha pagaria pelo atrevimento, tintim por tintim. Desta feita não precisaria da empreitada do compadre Bidão, ele mesmo faria o serviço. A mangação, segundo soube, que lhe faziam no bar de Bigode d’Água, daria lugar ao respeito, seria um cala a boca ao bando de desocupados e peçonhentos que matavam o dia entre o carteado, a cachaça e a bisbilhotice da vida alheia.

Em casa, Consuelo se martirizava. Com o fato, vivia como numa redoma. Em sua clausura, restringiu-se apenas a arte de bordar na talagarça presa aos bastidores de madeira emprestados por Margarida. O sonho para a santa Bárbara havia sido adiado por Otacílio, embora o inverno tenha passado há meses e o verão já estivesse a pino.

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Havia dias que Naum não saía do quarto. As refeições eram servidas através da porta que, ao ser aberta, dava apenas espaço à passagem do prato e da mão magra de Chico Banguelo. Lá dentro o silêncio era sepulcral, vez por outra escapava um cheiro acre que se mesclava ao do incenso queimado. Pelas frestas da porta, Chico Banguelo lobrigava uma luz tênue que parecia balançar ao sabor do vento. Para Maroquinha : “se não fosse pelos seis meses adiantados, já tinha botado Naum no olho da rua. O homem tem parte com o demo. Goza das intimidades do bicho rabudo”

Para Naum era coisa decidida, como se fosse uma sentença, Consuelo cairia nos seus braços. Não era debalde o preparo do incenso, das ervas e da reza forte. O rabudo nunca havia falhado. De pouca valia era o proceder de Zulmira ao interceptar as cartas postas embaixo da porta do velho sobrado. Ocultar-se na escuridão da madrugada após, sigilosamente, transpor a janela da pensão, tornara-se uma rotina para Naum. Contando com a discrição da noite deitava suas mandingarias no portão do cemitério encravado no fim da vila, ladeado por canafístulas e algarobas frondosas de ramagens secas pendentes sobre o muro de pedras esverdeadas. No compasso do vento, elas pareciam desenhar vultos estranhos sobre os túmulos esparsos.

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Enegrecida pelas densas nuvens que se acotovelavam para o Norte anunciando temporal. Àquela madrugada do último dia da quaresma se mostrava propícia à investida de Naum. Favorecido pelo temor de Consuelo e Zulmira pelos raios que riscavam o horizonte, ousou, protegido pela escuridão, se dirigir ao velho sobrado onde, sorrateiramente, planejava escalar o muro que o guarnecia, até deter-se nos aposentos de Consuelo. Ali, imaginava possui-la.

Os passos de Naum tinham um ritmo de marcha, eram firmes e pareciam favorecidos pelos coturnos de cano longo, cujos saltos de cobre tilintavam sobre os seixos rodados da rua do Meio. Não fosse o abrupto encontrão com Chico Banguelo que, aquela hora, deixara à pensão para fazer suas necessidades no beco da feira, tudo estaria nos conformes. Mas por infelicidade, Chico desatou a correr e a gritar provocando um verdadeiro rebuliço na madrugada. Aos curiosos, descreveu a assombração como vestida numa capa preta, parecia não ter cabeça, no lugar um capuz igualmente negro. A Naum restou acuar-se no cemitério. Com os primeiros pingos de chuva, amparou-se numa capela abandonada onde repousavam restos de caixões e ossos. Cobriu-se com uma manta que carregava debaixo da capa. Tentou uma madorna, mas em vão.

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Otacílio não consolidava o sono, o calor era sufocante. Madrugada longa, marcada pelo ribombar dos trovões. A quaresma iria terminar com chuva. Sentou-se na cama de vento, esfregou vigorosamente o rosto cabeludo. Do pote espetado no tronco forquilhado, tirou um caneco d’água que sorveu pela metade. Da sobra, lavou o rosto como para espantar o enfado. Um raio forte alumiou a madrugada decifrando a paisagem. Os primeiros pingos da chuva fizeram a terra seca exalar um cheiro forte que se espalhou por toda a Santa Bárbara. Cobriu os espelhos em respeito aos relâmpagos que pareciam não dar trégua. Caiu a refletir sobre a própria vida que, naquele momento, julgava sem rumo. Ficara sabendo da indignação de Consuelo, do seu sofrimento, pagando pelo que não fez. Lastimava não acatar as ponderações de Zulmira, insistindo pela sua volta ao velho casarão. Para ele, a questão se encerrava com os comentários que corriam pela vila, o disse-me-disse das esquinas. Embora já admitisse a fidelidade de Consuelo, sentia que, para muitos, a sua honra estava ultrajada, e só a limparia com sangue.

Enquanto isso, no dia seguinte, outra notícia não se ouvia nas Cacimbas, senão a do ente visto por Chico Banguelo. Excitado com o que vira, a cada informação pedida, descrevia a imagem da assombração de forma confusa. Por fim, Zé Gomes um especialista em tais assuntos, proferiu o veredito final: tratava-se de um lobisomem.

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Naqueles dias, a chuva intermitente inchava o Jacaré, fazendo-o sangrar pelas ribanceiras e se espalhar pelos descampados, escondendo a vegetação rasteira. A vila passara a se recolher, somente a bodega de Bigode d’Água mantinha meia porta aberta. O aguaceiro que descia da rua do Meio se precipitava até os baixios do Major Antero, inundando o “Flor do Amor, obrigando a suspensão das suas atividades. Naquele dia, nenhum dos comboieiros de Maruim, de rota batida para o Coité, iria se deitar com Dalva do Lajão, apenas se contentaria com o abrigo da pensão de Margarida e o sabor da sua cabidela de galinha.

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Ainda na capela do cemitério, Naum aguardava o momento propício para retornar à pensão. Seu corpo encharcado reclamava do frio. Lamentou o fracasso do seu plano, do escândalo patrocinado por Chico Banguelo. Amaldiçoou aquela voz efeminada espalhando o terror pela escuridão. Deitou no esconderijo a capa preta molhada e a manta encardida. Prometeu, a si mesmo, voltar na semana seguinte.

Já nos primeiros raios da manhã, aproveitando-se do recolhimento da vila, num passo apressado, chegou à pensão. Sua presença foi sentida quando um cheiro forte de incenso invadiu o corredor.

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Na Santa Bárbara, Otacílio, que há semanas não dormia, assuntava  o meio mais discreto para findar a afoiteza de Naum. O dia previsto seria uma segunda-feira. Assim, mal deu por si, viu a hora chegar. Selou o Zaino Alazão, recomendou a ordenha da vacaria  e, pela meia-noite, seguiu de rota batida para as Cacimbas. Protegido pela grossa capa colonial e pelo Ramezoni de abas largas trazia o velho fuzil atravessado às costas. Na cintura, o parabélum.

Na dita madrugada, a vila das Cacimbas via-se envolta em uma intensa neblina. Coincidência ou não, naquele dia, Naum resolvera, também, por em prática o seu plano. Do cemitério, partiu em direção ao sobrado de Consuelo com rara discrição. Os seus coturnos já não tilintavam tanto sobre os seixos rodados da rua do Meio. Caminhava devagar detendo-se em cada esquina. Já Otacílio chegou às Cacimbas pelos baixios do Major Antero. O encontro dos dois se deu no oitão do velho casarão. Otacílio tinha a fronte escondida pela aba quebrada do chapéu, deixando apenas de fora parte da barba embranquecida. A sua capa desabotoada expunha o parabélum no quarto. Naum, naquele momento, petrificou-se, tentou gritar por socorro, faltara-lhe a voz.  Otacílio, por seu lado, quando ao se deparar com Naum metido no seu disfarce negro, gotejou frio por todos os poros. Mesmo assim, levado pelo pânico, tremulamente, sacou do rifle e disparou: um gemido lúgrube varou a madrugada. A vila se encolheu aterrorizada. O padre Olegário, do seu quarto, persignou-se por três vezes: “ rosários bentos, rosários bentos, rosários bentos”.

O vento frio da madrugada assobiava intermitentemente. Os gemidos de Naum foram, aos poucos se transformando em pequenos uivos tal um cão ferido. A Sua pacholice verteu-se em sangue que se derramava formando um fio escarlate sobre as pedras da rua do Meio.

Otacílio, ainda não refeito do acontecido, apeou deixando o Alazão amarrado ao argolão da calçada. Com a chave que sempre carregava, chegou ao quarto de Consuelo. Sacou o parabélum e mirou o corpo adormecido da esposa. Ela ressonava pesadamente, pois há dias não havia pregado o olho, certamente pelos enjoos e os desejos estranhos que  vinha sentindo.

Ali, no quarto, marejaram os olhos de Otacílio. O remorso lhe invadiu de tal forma a consciência que, aos poucos, ele baixou a arma descansando-a sobre a coxa.

Passados alguns dias veio a saber que o ferido era Naum Lira, cujas tralhas ensanguentadas foram encontradas na capela abandonada do cemitério.

EPÍLOGO

Numa lanchonete da avenida Conde da Boa Vista, no Recife, Naum sorvia um suco de pitanga e contemplava no prédio à frente o letreiro de Neon, onde se lia: “Albuquerque Coelho & Representações.” – ali trabalhara como caixeiro viajante -. Dos seus olhos verteram dois fios de lágrimas, que se espalharam por sua face precocemente envelhecida.  Pagou a conta, tomou para si as muletas e, na avenida, desapareceu no meio dos transeuntes.

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Na Santa Bárbara, Otacílio que terminara a construção da sede nova, despachou Alcides Laçador até Santo André dos Brejos, para trazer Ana Aparadeira, pois Consuelo já estava com as dores de parir.

 

 Março de 2013 – Lagarto-Aracaju-Lagarto

Lembranças

Joaquim Prata, 29 de novembro de 2011

Há alguns meses, li a crônica do meu amigo Euler Ferreira, intitulada “O DESEJO DA CARNE”. Confesso que o seu conteúdo aguçou-me a saudade, de modo que fui instado a mexer nos labirintos da memória e daí, sacudindo as traças, transportei-me ao início da década de sessenta, até os seus meados. Quero dizer que não são lembranças plangentes, mas sim, um misto de alegria e saudade. Esta mescla está longe de ser um paradoxo, porém, um agradável regresso ao glamour de uma época.

Aqui deixo de lado a carne moqueada feita por Dona Pratinha e a traquinice de “Ninho”, – era o apelido de Euler para os íntimos – para, daqueles idos, recordar os fins de tarde na Praça Filomeno Hora, principalmente após as aulas do Laudelino Freire, tendo antes passado pela esfrega da famosa aula de inglês de Luis Araújo, professor notável, davam-lhe a alcunha de “Frei Papinha”, por conta de um personagem do filme Marcelino Pão e Vinho. Graças a Deus, seu Luis ainda vive, culto e amante da música clássica, tem um programa sobre a matéria na rádio Aperipé AM, patrocinado pela SOFISE.

A propósito, ao me referir ao Laudelino, enfatizo a farda cáqui, especialmente o blusão pesado, cujos botões pretos não podiam ser desabotoados, bastava apenas um, e a suspensão viria de forma implacável. Se no colégio éramos obrigados a suportar o intenso calor que o maldito blusão nos causava, por nosso risco, na praça, ousávamos abri-los totalmente e, de peito livre, podíamos receber a doce brisa do entardecer. Outro ingrediente que tornava a praça mais atraente era o som da Radiofon. Com seus boleros famosos, suas baladas românticas apimentavam paixões.

Neste meu vagar, não posso, de forma nenhuma, me esquecer do glamour do Cine e Teatro Glória, destruído pela avidez do progresso para dar lugar a um estacionamento. Certa feita, assistindo ao filme “Cinema Paradiso”, transportei-me ao Cine Glória, ao barulho infernal das segundas-feiras, capitaneado pelos assobios dos filhos de Terreno. Com seus chapéus de abas largas, só permitiam vermos a fita pela metade. Baforando os seus cigarros de fumo de corda, na emoção do filme, despencavam seus impropérios: “Mata esse fio do cabrunco, beije essa gostosa”.

O melhor mesmo do Cine Glória eram os seriados, cujos heróis findavam, a cada capítulo, em uma situação de perigo. Quantos filmes épicos não arrancaram aplausos, lágrimas, pânico, paixão, pena não poder nominá-los devidamente.

O Cine Glória não era somente filmes, grandes astros pisaram no seu palco. Até um filme paraguaio foi exibido, Cobiça era o seu nome, inclusive com a presença da atriz principal, Sarita Montez, só que, no filme, era ela belíssima; ao vivo, uma criatura extremamente disforme, completamente diferente, coisas do Paraguai.

Na minha visão de menino, o Cine Glória era revestido de suntuosidade. Suas cortinas de veludo cor de vinho se abriam paulatinamente ao som de Moonlight Serenade, enquanto isso, as luminárias de alvenarias, em formas de conchas triangulares, deixavam escapar, do seu interior, luzes de cores diversas que se sucediam ao compasso de um efeito sonoro. As luminárias eram presas sobre as paredes laterais.

Ainda na década de sessenta, pudemos testemunhar o Cine Pérola, belíssimo, requintado, trazia em seu interior afrescos com figuras egípcias. Eram frutos da genialidade de Edson Ferreira, lagartense ilustre. Eu o reputo como um dos maiores pintores da nossa terra.

A grande marca do Pérola foram os programas de calouros, tão em moda, inspirados nas músicas da Jovem Guarda. Como o Cine Glória, o Pérola não resistiu à crise dos cinemas, foi tragado, igualmente, pela voracidade do progresso.

Óbvio que as recordações aqui anunciadas não estão restritas à praça, ou mesmo aos cinemas, mas, é claro, avançam também até figuras humanas, que, por suas características, poderiam enriquecer qualquer obra literária.

Olímpio Vieira, por exemplo: um misto de escultor, químico, bodegueiro e dentista. Quem não se recorda da sua famosa gengibirra? Composição química cujo legado levou ao túmulo.

Ao me deparar com a fotografia do anarquista italiano Nicola Sacco, vi-me diante de Olímpio Vieira, diferenciado apenas pelo abastado bigode de Sacco e pelos finos aros dos seus óculos.

Como era gratificante contemplar a habilidade de seu Olímpio ao esculpir seus pequenos bonecos de madeira. Feições diferentes, poses variadas que ganhariam vida no seu presépio. Ali, suas obras se misturavam às imagens dos reis magos, aos pôsteres das artistas do rádio, contando-se ainda com a pequena roda gigante, cheia de bonequinhas de plástico. O curioso era o pequeno trem rodando incansavelmente pelos trilhos que davam a lugar nenhum.

Ludugero, impecável no seu trajar, guarda-chuva preso ao braço, pelas ruas, saía a anunciar as horas. Filomena e Cecília Machado, irmãs, professoras, donzelas juramentadas, partiam os óculos ao meio, e cada uma com a sua lente, cuidava em movimentá-la para perto e para longe, de modo a enxergar melhor as letras miúdas da “Cartilha do Povo”.

No campo da música, o fato maior da década de sessenta foi o surgimento de “Los Guaranys”: Foguinho, Bosco, Queimadinho, Osman, Cabeleira, Alexandre, seu irmão Tonho e Wilson foram, em princípio, seus principais componentes. Claro que não se pode esquecer da presença do inigualável Caubí, no ofício de empresário.

Sigo esta viagem passando pela nossa querida Associação Atlética de Lagarto, quantos bailes extraordinários, quantas orquestras famosas, só para citar algumas: Românticos de Cuba, Marimba Alma Latina, Copacabana Boys – pasmem, Agnaldo Timóteo era o seu crooner –.

A Associação Atlética de Lagarto, hoje agoniza como um moribundo abandonado. Nesse seu definhar, carrega um pedaço da vida social de Lagarto.

Bem, para não me alongar, completo esta viagem dizendo que tudo o que falamos são retalhos de um passado que não volta mais, porém, consola-me saber que nos porões da minha memória, eles estão guardados, e quando vêm à tona transformam-se em SAUDADES.

Os sócios

Joaquim Prata, 29 de novembro de 2011

Para a empreitada se tornaram sócios. Se de um lado prevalecia a experiência, do outro a astúcia nas manicacas da Roleta. Somadas tais qualidades, uniram-se: Seu Menino da pipoca e Zé de Abílio.

Era natal, a banca de jogo tinha apenas uma roleta. Em vez de números, distintivos dos clubes de futebol: Flamengo, Vasco, Fluminense e daí por diante. Nas prateleiras, as prendas não passavam de latas de goiabada, de sardinha e minguadas carteiras de cigarro. Só para lembrar, cigarros sem filtro, já que tal requinte ainda não tinha chegado ao Lagarto. A banca de seu Menino ou de Zé de Abílio – aí fica a livre escolha – estava postada ao lado dos cavalinhos de Presídio, vizinho a barraca de João da Roda cuja especialidade era o pio agitado numa cumbuca de couro. A guisa de esclarecimento, João da Roda era investigador de polícia e, nas horas vagas, fazia suas incursões pelo mundo da contravenção.

O Natal esquentava na Praça Filomeno Hora. O clima de festa animava os bazares e as barracas de doces de Beata, Nininha e Maria de Teté. A ocasião por ser de fraternidade, não reclamava discriminação, por isso se misturavam negros, brancos, pobres, ricos, udenistas e pessedistas. Todos poderiam sugar, num grosso canudo, a gasosa de Tonho de Mirena ou degustar os amendoins com açúcar embalados em barquinhos multicoloridos. Logo ali, no palanque, a banda “Lira Popular” executava velhas valsas de Zequinha de Abreu. Sob a batuta de Chico de Zé Lourenço, tocava até a meia noite.

Os sócios não paravam. Um artifício foi criado para que a banca ganhasse três vezes mais do que o freguês. No vai-e-vem, bateu a fome. Seu Menino se comprometeu em ir primeiro. O jantar era ali mesmo na barraca de Ficiana fateira. Seu Menino, antes de sair, passou o rabicho do olho pela gaveta, ela estava cheia.

Saciado, voltou rápido à barraca. Ao abrir a gaveta, constatou que ela estava vazia, ali sobreviviam apenas algumas moedas e uma cédula de dois cruzeiros. O espanto deixou seu Menino empalidecido e os lábios trêmulos:

– Zé, cadê o dinheiro?

– Sumiu Seu Menino, chegou um homem do chapéu grande e quebrou a banca. Levou tudo!

– Por que não deu os brindes?

– Seu Menino, o homem só quis dinheiro.

Acabrunhou-se o velho sócio. Tomou o comando da banca. Sem ânimo, avaliou o prejuízo. Logo velhos fregueses foram chegando: Nêgo Uruba, Burrego, João Goela e o guarda Favorita, este último fardado e trazendo sobre os ombros um infindável número de divisas, deferência do prefeito sob a condição de não lhe aumentar os vencimentos. Sem muito tardar, a banca voltou a se fartar de dinheiro.

Conforme o combinado, Zé de Abílio logo saiu para o café, atravessou a praça e sumiu na porta da frente do casarão de Rubém. Mal sorveu o arroz com galinha, com o pé na frente e outro atrás, voltou à banca. Correu os olhos pela gaveta e no misto de agonia e desespero, falou:

– Seu Menino, pelo amor de Deus, cadê o dinheiro?

– Abílio, meu fio, uma desgraça! O homem do chapéu grande voltou, papou o dinheiro e levou as prendas.

O Natal ia minguando, apenas restavam alguns bêbados nas bodegas do Beco do Urubu e os sons dos boleros vindos dos puteiros do Feixe-de-Mola.

Sem dinheiro, sem prendas, a empresa faliu. Dissolveu-se a sociedade. Seu Menino, sem remorso, tomou o rumo de casa, lembrou-se da velha máxima: “Para o sabido, sabido e meio”.

No Natal seguinte, seu Menino tornou a vender suas incomparáveis pipocas e os deliciosos tabletes de doce de leite em caroço.

Zé de Abílio voltou ao seu bar, na rua D. Pedro II onde se lia na fachada “Bar Flamengo”. Ao fundo ouvia-se o ruído da velha roleta.

O incêndio

Joaquim Prata, 6 de julho de 2011

Era mês de maio. O ano, 1957. Fazia frio naquela tarde noite. O Lagarto começava a escurecer. Na fábrica de bebidas Oriente, Zé Preá mudava a genebra de uma dorna para outra. O Salão escuro reclamava a claridade. Zé Preá acendeu um fifó que logo veio a despencar de um velho engradado, precipitando-se sobre o chão umedecido pelo álcool. Foi o bastante para que o fogo se proliferasse fábrica adentro. Em vão foram os esforços para contê-lo. Àquela hora ninguém havia percebido que algo extraordinário iria acontecer.

Na Rua da Glória, como de sempre, amontoavam-se algumas pessoas, principalmente na barbearia de João de Amélia. Na bodega de seu Almeidinha, Seu Euclides, marido de Dona Uda, reclamava do inverno. Os viajantes de Garanhuns jogavam dama na porta do Hotel São Jorge. Na bodega de seu Sérgio, Gracito pigarreava e tossia seco, tomando assento no velho caixão de velas, ali posto propositadamente para ele, pois seu resguardo não lhe permitia subir batentes. Cisma da idade.

Um grito quebrou o silêncio e se espalhou pela Rua da Glória: – “A fábrica do Seu Nozinho tá pegando fogo e vai pegar na bomba de gasolina de Dona Sinhazinha!”.

A notícia correu de casa em casa. O Lagarto estava prestes a ser destruído. Lá estava a velha bomba de gasolina, movida à manivela, à espera do momento fatal. Àquela hora, o sol já despencava atrás da Serra do Crioulo, ruborizando-se e pintando a tarde de um tom avermelhado. O rebuliço tomava conta da cidade espalhando-se pelas ruas da Glória, Simão Dias, Praça da Piedade, onde na casa dos Monteiros, o pão com leite foi suspenso e o café deixado pela metade.

O Lagarto era pequeno, um tico de Cidade. Começava pelo Alto da Gata findando nas bordas da Catita. No avalio de muitos, com o incêndio e a explosão da bomba de gasolina, tudo iria pelos ares.

A letargia do dia foi substituída pelo alvoroço das pessoas que, apressadas, se dirigiam para as bandas do Pacheco, Campo da Vila, outras para a Bica. Quanto mais longe fossem, melhor seria. Magotes de crianças, mulheres, idosos e jovens deixavam a cidade, fazendo lembrar a retirada funesta das populações européias, quando subjugadas a ocupação nazista.

Na confusão, orações e súplicas. Pelo lado da Bica, algumas pessoas rezavam a ladainha: – “Santa Maria” – a resposta imediata: “Rogai por nós”. “Vaso Honorífico, rogai por nós”.

Túlio Hora e sua esposa, perdidos, terminaram atolados na areia movediça da Bica; sua esposa, extremamente obesa, tinha lama até os joelhos, e por isso exclamou:
– Marido, tô atolada! – Túlio, concentrado na ladainha, respondeu:
– Rogai por nós.

Aturdido, como todos de casa, só dei por mim quando já estava na Itaperinha nos pertences de Santo da Jibóia, meu padrinho.

Do alto, podia-se contemplar o Lagarto ardendo em fogo. Era a Roma incendiada pelo gesto tresloucado de Nero.

Encostei-me no parapeito da janela e lastimei: – O que teria acontecido ao Cine Glória, à bodega de Seu Sérgio, sua cocada-puxa inigualável. Neste lamento, veio-me a imagem de Seu Lourenço do Mingau, do vatapá de Taviana, dos presépios de Olímpio Vieira e Zertina Araújo, a suculenta maniçoba de Ismênia, do puteiro de Mirena, as piabas de Zé Fubila e os dobrados de Tonho do Jegue.

O pior de tudo era o fim do reisado de Zé Pereira, ironizado pela voz da molecada: – “Seu Zé Pereira, seu reisado é de corno”. A resposta na língua: – “mais corno é quem vem apreciar”.

O incêndio varou a noite e foi perdendo sustança. Quando os bombeiros chegaram de Aracaju, a população já estava voltando à cidade. Para surpresa, o Lagarto estava intacto; tudo no seu lugar. Fatídico, somente o destino do velho telhado da fábrica, que ruiu carbonizado.

A cidade voltou à calma. Pelo meio da manhã já se ouvia o som da Radiofon tocando os melosos boleros de Anísio Silva e as canções de Nelson Gonçalves.

Ufa! Todos escaparam. O triste registro foi a despedida da saborosíssima laranjada “kalu”. Ainda a vejo na sua cor amarelada, sua tampinha verde que tanto valia nas trocas de fichas de refrigerantes. Entre a meninada, na sua inocência, servia de moeda.

Passado o tempo soube que Maninho de Zilá, fotógrafo de ofício, no afoito, tentou registrar o acontecido. Pena que as fotografias, ou não foram tiradas ou se perderam no tempo, tal a fábrica de bebidas Oriente. O Lagarto nunca teve outra igual.

Ressurreição e Morte

Joaquim Prata, 31 de dezembro de 2008

Chovia fino no Oiteiro. Naquela noite, Nani tossia até verter sangue pela boca. Uma lassidão tomou-lhe o corpo. Nani se prostrou inerte sobre o chão do alpendre, e sucumbiu. Vevé, única filha mulher, viu o corpo inerte da mãe, chamou os irmãos e desfaleceu. Socaram-lhe dois dentes de alho nas narinas, e ornaram suas orelhas com galhos de arruda. Tudo para despertá-la. Mundinho e Nicanor, inconformados, colocaram a mãe sobre uma esteira e, com um lençol de madrasto, cobriram seu corpo.

A notícia chegou até os parentes. A casa se encheu. Emetéria, afilhada da defunta, meteu-se na cozinha para as providências do café. No vão do corredor, uma candeia alumiava a varanda, cumprindo, pela falta, o ofício da vela. Naquela noite de inverno, ouvia-se apenas o estridular das cigarras e o silvar dos insetos. Vez por outra, o chirriar das corujas.

Uma densa neblina esfumaçava a noite e cobria o lanço de casas que descia pela encosta do serrote do Ingá até as beiradas do Jacaré. Vadinho, recolhido no oitão da casa, assuntava o destino da mãe, seu desejo de ser enterrada num caixão de madeira, forrado de pano verde, com franjas douradas, tal qual Bebeto fizera para o Coronel Antero das Cacimbas. Na varanda, Vevé, recomposta, recebeu um toco de vela e o acendeu ao lado da mãe. Num grito histérico, desmaiou novamente. Rosentina, amiga inseparável, dosou o rapé até despertá-la.

Ao redor do corpo, as beatas começaram a encomendação. Por fim, o terço. Netinho, filho de Nicanor, puxou a saia da mãe e afiançou que a avó mexia o braço. Tal inconveniência, custou-lhe um beliscão e uma determinação para que acompanhasse a reza. No quarto mistério do terço, o inusitado: Nani, abruptamente, se agachou na esteira, seus cabelos crespos estavam desalinhados, dois tufos de algodão saltaram-lhe do nariz. Aturdida, soltou um grito lúgubre que invadiu a madrugada úmida. Pânico, choro, pessoas caindo, outras de joelhos louvando a Deus. Sá Marita anunciava os fins dos tempos.

No furdunço, Eleutério e Messias Sanfoneiro, no descampado da Santa Maria, latanharam-se nos espinhos e nas pedras pontiagudas que emergiam do solo encharcado. Nani, ainda no torpor do corpo, resolveu correr. Imaginou algo grave. Na tentativa inútil de acompanhar as pessoas, notou que elas, ao vê-la, mais corriam e gritavam.

Vevé se prostrou. Um calafrio tomou seu corpo. Uma dor extrema trespassou seu peito. Suas mãos suaram, aos poucos, foram arroxeando. Vevé tombou sem vida no canto da varanda.

Quando o dia foi clareando, todos já estavam refeitos, somente Vevé jazia sobre a velha esteira. Os irmãos cobriram-na com o lençol de madrasto e acenderam um toco de vela.

Ao cair da tarde, Vevé foi sepultada num caixão de madeira forrado com pano verde e enfeitado de franjas douradas.

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