Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 29-04-2017

Sylvio Romero, o imortal

Rusel Barroso, 2 de abril de 2015

Jurista, crítico, jornalista, etnólogo, professor e historiador literário, filho do comerciante português André Ramos Romero e de D. Maria Joaquina Vasconcelos da Silveira Ramos, nasceu em Lagarto (SE), em 21 de abril de 1851, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 18 de julho de 1914. Em 1863, aos 12 anos, cursa, no Rio de Janeiro, humanidades e, em 1868, segue para Recife, matriculando-se na Faculdade de Direito, onde se diplomou em 1873. Em 1870, colabora na imprensa da cidade com poesia, artigos de crítica e polêmica, iniciando uma atividade que se prolongaria por 50 anos. Depois de diplomado, torna-se funcionário público em seu estado natal, elege-se deputado, mas regressa a Recife para ser professor.

Romero foi uma das maiores personalidades intelectuais do Brasil. Sua obra é exemplo da seriedade com que a ela se entregava, pela inquietação e inconformismo ante as rotinas, pela divulgação de ideias novas e fecundação intelectual que produziu. Em decorrência de sua filosofia, sua concepção da crítica e da historiografia literária baseava-se no determinismo biológico e sociológico, no evolucionismo darwinista, no naturalismo e cientificismo aplicado à literatura. Ele entendia, assim, a história literária como a “história natural da sociedade e das letras”. Consistiria, pois, na análise e julgamento de toda a produção escrita do povo, já que todo documento escrito era, para ele, literatura.

De suas teorias, decorrem as características da sua crítica e historiografia literária, tal como as fez na História da Literatura Brasileira (1888). É a primeira grande sistematização da literatura brasileira, uma obra ainda hoje respeitável, com ampla investigação, escrita com amor e seriedade.

A sua obra – cerca de 50 volumes de poesia, crítica, história literária, filosofia, folclore, direito, polêmica – é das mais importantes da cultura nacional, ponto de partida obrigatório para quem deseja penetrar no conhecimento da realidade brasileira.

Embora a Literatura Brasileira já existisse, faltava-lhe organização e registro, o que Sílvio Romero acaba por fazer com maestria. A nossa literatura, a partir do trabalho minucioso e apaixonado desse intelectual, passa a reunir suas riquezas e ganha outra dimensão.

Sílvio Romero não foi apenas um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras; como integrante, também passou a ser um dos nomes mais respeitados naquela instituição. Apesar de suas críticas e do seu polemismo, Romero era respeitado até mesmo pelos menos simpatizantes de suas colocações.

Sua obra máxima, História da Literatura Brasileira, publicada em 1888, foi escrita 20 anos depois de outras grandes publicações de sua autoria. Serviram, na verdade, de fase preparatória para aquela que se tornaria uma das mais importantes da nossa História e do nosso pensamento.

Sabe-se que o primeiro grande movimento de crítica de valores, genuinamente nacional, surgiu com a Escola do Recife, que teve, à frente, a figura de Sílvio Romero, amigo inseparável de Tobias Barreto. Ele se utilizou de um estudo sociológico, pelo qual a obra deveria ser estudada em função das condições que tinham envolvido o seu surgimento: origem, ambiente, influência da raça e do meio, e participação.

Ao morrer, no Rio de Janeiro, em 18 de julho de 1914, encerrava-se com Sílvio Romero o século XIX, herdeiro de suas ideias e grandes obras, mas o seu legado ficará como marco determinante na história das nossas letras, banindo o convencionalismo intelectual, apresentando novas perspectivas para a nossa literatura, promovendo uma avaliação literária popular e culta, como jamais alguém o fizera, exercendo sobre os seus contemporâneos e as novas gerações, uma influência que nem o tempo será capaz de apagar.

Rusel Barroso
Fundador da Academia Lagartense de Letras
Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe
Membro da Associação Sergipana de Imprensa
Integrante do Comitê Gestor da Faculdade Ages

Colégio Frei Cristóvão: 30 anos formando gerações

Rusel Barroso, 7 de janeiro de 2014

Há três décadas, nascia em Lagarto uma das mais sólidas instituições de educação do nosso município, a Escola de 1º e 2º graus “Frei Cristóvão de Santo Hilário”. Unidade escolar implantada pelo então prefeito Arthur de Oliveira Reis, um homem de poucas letras, mas de visão ampliada, cujo sonho era o de oferecer à comunidade o acesso a melhores escolas com ensino de qualidade. O colégio surpreendeu, pois surgiram alunos do centro e dos arredores, inclusive de outros municípios, que, ao tomar conhecimento do seu projeto, logo se enamoraram pelo estabelecimento.

Em 1984, foi implantado o ensino de 1º grau, da 1ª a 8ª série. Em 1986, surge a primeira turma do 2º grau, cujo curso era o de Formação de Professores para o Magistério de 1ª a 4ª série. Naquela época, mais de 50% dos docentes da rede pública municipal eram leigos. O único curso pedagógico era oferecido pelo Ginásio da Escola Normal Nossa Senhora da Piedade, e não era gratuito. Foi aí que o secretário de educação (Paulo Andrade Prata), o prefeito e a diretora (Maria do Carmo Oliveira) entenderam que a Escola Frei Cristóvão teria mais essa missão: oportunizar tão almejada formação aos professores leigos e demais cidadãos. Desse modo, em 1988, a referida escola vivencia a grande solenidade de conclusão do curso de Formação de Professores para o Magistério de 1ª a 4ª série.

Minha passagem pelo Colégio Frei Cristóvão deu-se de duas maneiras: como professor e dirigente, contudo, o que mais me vem à lembrança é o seu nascedouro, quando na condição de colaborador, tive a satisfação de me somar a grandes amigos, a exemplo de Maria do Carmo Oliveira, Paulo Prata, Gisélia Araújo, Cláudio Monteiro, Celso Milton, Suely Prata, Hilda Alves entre outros companheiros daquela época.

Como eu poderia me esquecer de Seu Pedro, firme no portão; de Seu José de Zilda, com seu chapéu panamá, sempre disposto a contribuir em todos os setores; do fusca que nos conduzia do centro da cidade ao, ainda distante, Conjunto Laudelino Freire. Como eu poderia deixar de lembrar o período de inverno, dos inúmeros grilos e sapos que invadiam a escola, oriundos dos sítios da redondeza. Marcas que não se perderam no tempo, pois constituem um dos mais admiráveis capítulos de sua história.

As primeiras turmas, de alunos surpreendentes, que amavam a escola e davam a alma para vê-la brilhar entre as mais importantes da sede do município. As primeiras solenidades e turmas que concluíam seus cursos com missas realizadas no Rosário e na Igreja Matriz pelo então vigário, Mons. Mário Rino Sivieri e comentários do Prof. Paulo Andrade Prata, que tão bem atuava como mestre de cerimônia com suas mensagens de reflexão, seguidas pela oratória bem pontuada de sua primeira diretora, a Prof.ª Maria do Carmo Oliveira Souza, continuam vivas na memória e nos registros que conseguimos guardar, quando ensaiamos os primeiros passos de cinegrafista amador.

Tínhamos apenas um pavilhão, numa época em que os alunos ainda cumprimentavam os professores e visitantes com gestos de boas-vindas. Ah, que saudade da escola daquele tempo!

Mas o colégio cresceu, evoluiu, tornou-se adulto, independente, mas não perdeu seu dinamismo e juventude. Criaram até Ginásio de Esportes, Banda Marcial, e lá estava o Frei Cristóvão, belo, com seus alunos garbosamente a desfilar pelas ruas do Lagarto, tornando o 7 de setembro um dos mais ecléticos deste imenso país. Nessa ebulição, outros gestores deram sua importante contribuição, a exemplo do dileto Prof. Gilson Alves. Cada um a seu modo, mas com o mesmo desejo de acertar, deixando marcas que pudessem torná-lo cada vez melhor.

Parabéns aos professores, alunos, colaboradores e membros do comitê gestor! E que outros 30 anos sejam comemorados com a mesma altivez daqueles que trazem consigo o conhecimento adquirido nessa instituição, que hoje pertence não apenas a Lagarto, mas ao Brasil, modelo a ser seguido por outras gerações.

Sucesso é o que almejamos e que a Secretaria de Educação do Município possa sempre acompanhar o vigor e a efervescência dessa juventude que continua a acreditar que a escola é, sem dúvida, o maior espaço de crescimento e transformação do ser humano.

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*Professor e pesquisador, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, fundador da Academia Lagartense de Letras, membro da Associação Sergipana de Imprensa e do Comitê Gestor da Faculdade Ages.

Daltro da batina, e dos sermões muito além do altar

Rusel Barroso, 5 de abril de 2013

Falar de Daltro é uma tarefa que dá prazer e enche de ânimo os entusiastas da nossa história, mormente quando se carrega nas veias e na alma um amor inquebrantável pela terra que serviu de berço a tantos ilustres, cujas obras continuam a dignificar o orgulho de sua gente e a inspirar o surgimento de outros nomes que também se preocupam em preservar a nossa cultura.

As primeiras narrativas sobre esse eminente cidadão chegaram-me ao ouvido na primeira metade da década de 70, quando tive o privilégio de conhecer um dos homens mais eruditos e polidos da época: Abelardo Romero Dantas, outro profundo amante da vida lagartense.

Ao receber de suas mãos o livro “Heróis de Batina”, que fala da contribuição dos padres jesuítas para a formação do povo brasileiro, o saudoso escritor, num paralelo admirável, não perdeu a oportunidade de também me deixar saber da notável doação dos sacerdotes que passaram pelo nosso município e transformaram os rumos da sociedade lagartense, a exemplo do Mons. João Baptista de Carvalho Daltro. Quiçá os traços políticos do passado não permitissem uma aproximação maior de Daltro à família Romero, contudo as marcas de respeito foram impressas ao longo da história. Oriundo de uma geração mais à frente, Abelardo, ao falar de Lagarto e daqueles que contribuíram para o seu desenvolvimento, trazia na memória a lembrança de um emissário da Igreja que, através de suas obras, conquistou o povo da Vila do Lagarto, admiração que se mantém viva até os dias atuais.

Daltro, além de primeiro administrador oficial do solo lagartense, foi um verdadeiro divisor de águas em nosso município. Suas interferências, deveras significativas, estiveram além do âmbito religioso e, até hoje, servem-nos de lição para o campo social. Vale ainda lembrar, que, em nosso tempo, quando se alude à reforma agrária como novidade, abre-se apenas a porta de uma velha discussão há muito iniciada por Mons. Daltro nas terras de Nossa Senhora da Piedade da Pedra do Lagarto.

Esta singela contribuição para coletânea de histórias deste monsenhor, acende-me uma chama que, espero, possa reaquecer e incendiar o orgulho dos lagartenses ao trazer à baila, esse sergipano que, em Lagarto, plantou para posteridade seu cerne de homem do povo.

Daltro da área de terra para se plantar; da batina e dos sermões que nos levam de Vieira a Guimarães; do imprescindível cavalo para o transporte, deleite e obrigações; do domicílio para se casar; dos ensinamentos de trabalho para uma geração independente; das recomendações para as reservas e economias; das mensagens e reflexões que ensinaram a Lagarto os princípios basilares do progresso, sem perder de vista o amor para o crescimento deste mesmo lugar.

Claudefranklin: marcas que consolidam sua trajetória

Rusel Barroso, 21 de fevereiro de 2012

Viajar pela centrifugação de Nove Contos, de Claudefranklin Monteiro, foi das mais aprazíveis experiências que vivenciei há alguns anos, quando tive a satisfação de apresentar um dos seus livros. Hoje, essa alegria transcende com a oportunidade de retomar a pena para falar deste lagartense, por vezes irrequieto, mas um exímio mestre, de personalidade admirável, e que, de modo muito especial, afaga as pessoas que dele se aproximam, pois herda de seus pais, um legado de virtudes que lhes são peculiares.

Claudefranklin Monteiro Santos nasceu no dia 6 de março de 1974, em Lagarto, também denominada “Cidade Ternura”, no centro-sul de Sergipe. Terra imortalizada como berço de pensadores da cultura brasileira, a exemplo de Aníbal Freire, Sílvio Romero e Laudelino Freire, membros da Academia Brasileira de Letras.

Sua família, por muitos anos, fixou residência na Praça da Piedade, local onde viu nascer o pequeno Claudefranklin, filho de Maria Claudemira dos Santos Monteiro e José Almeida Monteiro. Pouco depois de ensaiar seus primeiros passos, o menino foi conduzido ao Colégio Cenecista Laudelino Freire, de onde foi aluno e mais tarde dileto professor. Bem-sucedido nos estudos, Claudefranklin nutria inúmeros sonhos, entre eles, o de seguir os caminhos tão bem orientados pelo seu saudoso e querido irmão José Cláudio Monteiro, sem dúvida o maior incentivador de sua carreira ao lado da professora Patrícia, esposa e amiga que lhe concedera a alegria de hoje ter ao seu lado um grande companheiro, o seu filho Pedro Franklin.

Apaixonado pela docência, Claudefranklin não demorou a se render ao encanto de alguns colégios, entre eles, Luiz Alves de Oliveira, Frei Cristóvão e Abelardo Romero, este último, afetivamente batizado de Colégio Polivalente, e que lhe brindara sólidas amizades como as de Paulo Prata, Rusel Barroso e Celso Milton Oliveira. Registre-se que esse era um grupo de abnegados às causas da educação, sobretudo, às de melhoria do referido colégio.

Em 2004, o jovem Claudefranklin foi convidado a integrar a equipe de coordenadores da Faculdade José Augusto Vieira, tendo sido o mentor fundamental na implantação do curso de História daquela instituição de ensino superior que, em sua passagem, recebera inúmeros aplausos pelo êxito da sua profícua atuação. A partir de então, seu gosto pela pesquisa e entusiasmo pela escrita o motivaram a prestar concurso para Universidade Federal de Sergipe, onde atualmente é professor do Departamento de História e vem realizando um trabalho impar com seus alunos.

Seu singular relacionamento com entusiastas da cultura, em que se inclui a Prof.ª Terezinha Oliva, somado ao exemplar desempenho de suas atividades, mormente no âmbito de suas publicações, foram os principais responsáveis pelo seu crescimento profissional que, inclusive o levaram a se tornar sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e ao ingresso no Movimento Cultural Antônio Garcia Filho da Academia Sergipana de Letras.

Entre os inumeráveis reconhecimentos recebidos, merecem destaque a Ordem do Mérito Sílvio Romero (2001) e a Comenda Daltro (2011), concedidas pela Prefeitura de Lagarto, assim como o prêmio Destaque Jovem da Educação, pela Ala Jovem do seu município.

Ao longo dos anos, Claudefranklin tem sido um dos grandes colaboradores das publicações lançadas em Lagarto, seguindo o arquétipo do seu inseparável confrade, o professor e radialista Emerson Carvalho, por quem nutre um apreço imensurável.

Licenciado em História pela Universidade Federal de Sergipe, onde também concluiu seu mestrado em Educação, não se rende ao meio do caminho, e já se organiza para a conquista de mais um sonho, o seu doutorado.

Entre as suas consideráveis produções: Centrifugação (1999), Nove Contos (2003) e Metodologia do Ensino de História (2010), com evidência para o seu trabalho de organização do livro Uma Cidade em Pé de Guerra (2008), de Alailson Modesto, Patrícia Monteiro e Raylane Santos.

 

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*Texto de Rusel Barroso, escritor e pesquisador, membro do Conselho de Ética da Faculdade Ages, da Associação Sergipana de Imprensa e do Núcleo de Saberes de Lagarto.

A fatídica história de um lagartense

Rusel Barroso, 16 de fevereiro de 2012

PHILOMENO (DE VASCONCELLOS) HORA – advogado, casado com Anna Dantas de Magalhães Hora, pai de Filomeno Vasconcelos Hora Filho e de Lauro Dantas Hora, os quais, a exemplo de seu pai, também conquistaram posições destacadas (o primeiro, renomado cirurgião dentista; o outro, médico conceituado e, mais tarde, patrono da Academia Sergipana de Medicina), torna-se Juiz de Direito, mas sua brilhante carreira é interrompida quando é assassinado em 8 de dezembro de 1902, no logradouro que, atualmente, leva o seu nome: Praça Dr. Filomeno Hora, localizado na cidade de Lagarto (SE).

Assinala esse período uma transição política, em que deixa o Paço Municipal o intendente Sebastião Garcez e ocupa o seu lugar Felino Fontes, marcado por esse lastimável episódio: o assassinato de tão insigne lagartense, ao que se sabe, por conta de animosidades políticas da época. Essa história, passada por diferentes gerações, aqui transformamos em conto.

FILOMENO HORA: a fatídica história de um lagartense

Rusel Barroso*

No exercício da magistratura, profissão que escolhera muito condignamente, Dr. Filomeno Hora era um exemplo. Cidadão de uma conduta extremamente ilibada, tributava profundo afeto à esposa e aos filhos, além da atenção que proporcionava às pessoas, o que fizera dele uma das autoridades mais respeitadas do seu tempo na região.

Não obstante seu temperamento pacato, o Juiz de Direito não imaginava o que o destino lhe reservava naquela ensolarada manhã de segunda-feira, 8 de dezembro de 1902, aparentemente, apenas mais um dia agitado em que as ruas do Lagarto eram tomadas de gente que vinha para a feira livre da Praça dos Barracões.

No referido local, feirantes e populares se aglomeravam para os bate-papos e negócios de rotina, quando dois indivíduos, outrora trabalhadores de doutor Felino Fontes, surgiram para mudar aquele cenário, já que um deles, portador de uma faca, trazia consigo a inquietude de quem desejava por em desordem aquele ambiente de encontro entre amigos. Os soldados que estavam em serviço naquele local, trataram de desarmá-lo, mas como houve resistência, resolveram, após regressarem ao quartel, convocar o furriel Adolfo Monteiro – sob cujas ordens se encontravam –, em sua residência. Adolfo, não atendendo aos apelos de sua genitora, encaminha-se à praça.

Contam que, naquela manhã, o furriel achava-se adoentado e, à paisana. Os rumores da agitação do logradouro, logo tomaram conta da cidade, chegando ao conhecimento do Juiz de Direito e demais autoridades. Doutor Filomeno Hora, cônscio de seu dever e do seu posto, coloca seu chapéu, toma o paletó de nobre linhagem e dirige-se à feira.

Adolfo, ao se aproximar dos barracões para desarmar os arruaceiros, foi surpreendido pelo Juiz, que se fizera acompanhar do Promotor Público Hipólito Emílio dos Santos e do Juiz Municipal Dr. Alcides de Aquino Braga. Doutor Filomeno, enfrentando os soldados, censura seus procedimentos, chamando-os à ordem, o que suscitou a que o furriel Monteiro apontasse a carabina para o Promotor, que conseguiu desviá-la, ao mesmo tempo em que gritou o magistrado: “Abaixe essa arma, Adolpho! O senhor quer tirar a vida do Promotor?”. Adolfo retrucou: “Se não tiro a dele, tiro a sua!”.

É sabido que o Dr. Filomeno Hora abriu o paletó e posicionou-se em frente à carabina, desafiando-o: “Se você pensa que é mais autoridade do que eu, atire!”, momento em que a arma dispara, ouve-se um estampido e o Juiz cai inconsciente.

Adolfo, aparentemente ferido, desaparece no meio da multidão, que logo se dispersa. Os soldados, em número de cinco, voltam ao quartel, desertando em seguida.

Naquele instante, Lagarto se transforma e uma comoção toma conta da cidade. A notícia da morte de Dr. Filomeno Hora corre aos quatro ventos e logo todo o Estado toma conhecimento. O soldado Adolfo, há pouco tempo promovido a fourrier (patente similar a que hoje denominamos de cabo), havia se evadido do local, mas a ordem de busca e prisão fora imediatamente dada pelo comando de polícia do Estado, representado por um Doutor Chefe de Polícia, acompanhado de um oficial do Corpo Policial, a fim de manter a ordem e não deixar impune o fato delituoso.

Na manhã do dia 9, Adolfo é brutalmente executado no povoado Santo Antônio, com projéteis de arma de fogo e de instrumentos cortantes e perfurantes, como se num ajuste de contas para aplacar a dor da família Hora e da sociedade lagartense, que acabavam de perder um dos seus representantes mais nobres e que deixara como legado o exemplo de seriedade e honradez no cumprimento do dever de sua profissão.

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P.S.: Colaboraram para construção deste conto, com valiosas informações, os conterrâneos José Vieira Prata (auditor de tributos), Joaquim Prata Sousa (defensor público), Antônio José Monteiro Rocha (cirurgião-dentista), Maria da Piedade Hora (professora) e Valdier Oliveira Cezar (bancário).

Entre os sergipanos de sucesso, Maria Dealves se destaca no cenário nacional

Rusel Barroso, 28 de junho de 2011

Extraído da Revista Cidade, Cultura, Ano I, Nº 5, Outubro de 2009

 

Nesta edição, falaremos da atriz, cantora, instrumentista, dançarina e professora de interpretação, Maria Alves, personalidade marcante nascida em Lagarto (SE), aos 7 de novembro de 1947.

Conhecida no meio artístico como Maria Dealves, passou a adotar esse nome após estudo de numerologia, seguindo a mesma linha e tendência de outros artistas.

“Lana, Rainha das Amazonas” foi o primeiro filme em que Maria estreou, com breve participação numa coprodução alemã com a Atlântida, ao lado de Cyll Farney e Géza Von Cziffra, em 1964. Contudo, seu sucesso só veio à baila no filme “Perdida”, de Carlos Alberto Prates Corrêa, em 1973, quando eleita melhor atriz coadjuvante pela Associação Paulista de Críticos de Arte, indicação que lhe rendera o olhar de cineastas importantes, como Bruno Barreto, Hector Babenco e Walter Salles. Convém lembrar, no entanto, que foram Carlos Hugo Christensen e Zelito Viana, os primeiros diretores a acreditarem em seu potencial no cinema, essa indústria dispendiosa, carente do trabalho em equipe. Estava então comprovada a relevância dos coadjuvantes no elenco de um filme, fato reconhecido por premiações internacionais, a exemplo do Oscar e Globo de Ouro, que evidenciam o trabalho dessa categoria, em cujo contexto a atriz Maria Dealves é presença marcante no Cinema Nacional. Registre-se, pois, que a sua carreira, da metade dos anos 60 até a produção atual, é laureada de aplausos por toda a sua extensão.

Sua atuação na televisão, teve início em 1970 na novela “Irmãos Coragem”, da TV Globo. Depois disso, Dealves se dedica a outros trabalhos, somente retomando sua participação em novelas em 1979, quando reaparece em “Marrom Glacê” e em outras produções, a exemplo de “Baila Comigo” (1981), de Manoel Carlos, por cuja atuação recebeu o Prêmio Coadjuvante de Ouro, de Artur da Távola; “Sol de Verão” (1983); “Voltei pra você” (1983); “Tenda dos milagres” (1985); “O Tempo e o vento” (1985); “Selva de Pedra” 2ª versão (1986) e “Mandala” (1987), além de seriados e especiais que contaram com o seu trabalho nos anos 80 e em outras décadas.

Pela primeira vez, em 1989, Maria Dealves atua fora das telas da Globo. A convite da TV Manchete, ganha o papel de Isaura na novela “Kananga do Japão”, emissora da família Bloch, que lhe rende atuação nas minisséries “Rosa dos Rumos” (1990), através da personagem Maurina, e “Rede de Intrigas” (1991), ano em que retorna à Rede Globo e, com sua credibilidade em alta, é levada às novelas “Felicidade” (1991), “Fera Ferida” (1993), “A viagem” 2ª versão (1994) e “História de Amor” (1995).

Vale ressaltar que o trabalho de Maria Dealves não se limitou a minisséries e novelas, pois ela participou de inúmeros musicais, no teatro, assim como “Hair”, em 1972, apresentado no Teatro Casa Grande (RJ), com um amplo sucesso que a levou a participar de outras peças, a exemplo de “Ai, ai, Brasil!”, “Calabar”, “Gota d’Água”, “Ópera do Malandro”, “Orfeu Negro”, somente para citar alguns trabalhos marcantes.

Walter Avancini, verdadeiro caçador de talentos, convidou-a, em 1996, para interpretar a escrava Rosa, em “Xica da Silva”, na Manchete, uma de suas personagens de maior sucesso, respeito confirmado com a sua chamada de volta à Globo para atuar em “Por Amor”. A Rede Record de televisão também teve o privilégio de sua passagem no elenco de “Louca Paixão”, em 1999. Ainda na Globo, deixou as marcas de seu último trabalho na TV, em 2001, na novela “As Filhas da Mãe”.

No cinema, vários foram os filmes que contaram com a maestria da sua representação, cujas marcas também ficaram impressas em “Se segura malandro” (1978), “Vai trabalhar vagabundo” (1991), “Só Deus sabe” (2006), entre outros.

Com sua larga experiência, roteirizou, dirigiu e atuou no curta-metragem “Elisa” (2001) e no média “Ator Profissão Amor” (2002). Esse último, selecionado para o Festival BR 2003 e a ser exibido na Biblioteca Nacional de Paris, no evento França/Brasil 2005.

De origem humilde, seus familiares ainda residem na Rua do Riachão, em Lagarto. Maria Dealves raras vezes retornou ao seu município, ao que tudo indica pela mágoa do esquecimento dos seus conterrâneos. Essa admirável atriz tomou posse, em 2007, na Diretoria para Assuntos Institucionais do Sindicato dos Artistas do Rio de Janeiro (SATED/RJ). Lutava contra um carcinoma que, infelizmente, levou-a a óbito em 8 de maio de 2008, deixando para trás seu único filho, o músico João Alves, residente na Suíça, reconhecido flautista naquele país, bem como, uma vida de sucesso e de exemplos, calcada pelo respeito e admiração dos que tiveram o privilégio do seu convívio pessoal e profissional.

Seu vasto currículo artístico consolida sua participação em, pelo menos, 20 novelas, 5 peças de teatro e 30 filmes. De seus raros contatos com a nossa gente, dividiu, por vezes, amizade e confidências com alguns amigos, entre eles, Lino Corrêa, o qual, em Lagarto, sua terra berço, esteve com D. Regina, genitora da atriz, em 1991, para lhe levar notícias da amiga. Ambos tinham um projeto para trabalhar juntos num filme que, excepcionalmente, não aconteceu por conta de seu desaparecimento involuntário.

Filmografia – Atriz
2006 – Só Deus sabe (Sólo Dios sabe); 2002 – Ator, profissão amor (curta-metragem); 2001 – Elisa (curta-metragem); 1999 – Mauá: o Imperador e o Rei; 1996 – O lado certo da vida errada; 1995 – Sombras de julho; 1994 – Era uma vez; 1991 – A grande arte; 1991 – Demoni III (U.S.A.); 1991 – Vai trabalhar vagabundo II; 1990 – Brincando nos campos do Senhor; 1987 – Romance da empregada; 1987 – La via dura; 1987 – Damas da noite (curta-metragem); 1985 – Fonte da saudade; 1984 – Histórias de vôos; 1984 – Noites do sertão; 1983 – Para viver um grande amor; 1982 – O bom burguês; 1981 – O seqüestro; 1981 – Mulher sensual; 1979 – Terror e êxtase; 1979 – Gargalhada final; 1978 – Se segura, malandro!; 1978 – O Cortiço; 1978 – Coronel Delmiro Gouveia; 1978 – Alô Alô Tetéia (curta-metragem); 1978 – O gato sem asas (curta-metragem); 1977 – Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão; 1977 – O jogo da vida; 1977 – Gente fina é outra coisa; 1976 – Ladrões de cinema; 1976 – Perdida; 1975 – A extorsão; 1974 – A rainha diaba; 1973 – Os Condenados; 1965 – Crônica da Cidade Amada; 1964 – Lana, Rainha das Amazonas

Filmografia – Diretora
2002 – Ator, profissão amor (curta-metragem)
2001 – Elisa (curta-metragem)

Televisão
2006 – Um menino muito maluquinho (TV Cultura); 2001 – As filhas da mãe; 1999 – Louca paixão (Record); 1998 – A turma do Pererê (TVE Brasil/TV Cultura); 1997 – Por amor; 1996 – Xica da Silva (Manchete); 1995 – História de amor; 1994 – A viagem; 1993 – Fera ferida; 1993 – Você decide; 1992 – Perigosas peruas; 1991 – Felicidade; 1991 – Rede de intrigas (Manchete); 1990 – Rosa dos rumos (Manchete); 1989 – Kananga do Japão (Manchete); 1987 – Mandala; 1986 – Selva de pedra; 1985 – O tempo e o vento; 1985 – Tenda dos milagres; 1984 – Vereda tropical; 1983 – Voltei pra você; 1982 – Sol de verão; 1982 – Lampião e Maria Bonita; 1981 – Baila comigo; 1979 – Marrom Glacê; 1979 – Plantão de polícia; 1970 – Irmãos coragem

Lagarto: um pedaço do Brasil, cuja força do seu povo é imensurável

Rusel Barroso, 28 de junho de 2011

Extraído da Revista Cidade, Cultura, ano I, Nº 4, setembro de 2009

 

Em 12 de junho de 2009, o município preparou-se para receber o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Frases foram elaboradas com o intuito de mostrar, em fração de minutos, um pouco de nossa gente ao representante maior do nosso país. Uma delas inspirou-me a escrever uma história que, por certo, traduz esse pensamento admirável, a partir do resgate da memória de um lagartense nascido no lugarejo que hoje denominamos bairro Horta. Refiro-me a Eronides Alves de Oliveira, nacionalmente conhecido como Eron, cujo sucesso, sobretudo na década de 60, difundiu-se até a outros países.

Eronides era um rapaz simples, que deixou sua terra para conquistar outros espaços. Em sua trajetória de comerciante e em meio às dificuldades do dia-a-dia, na grande São Paulo, resolve dar um voo mais alto com a criação de carnês da sorte, cujas vendas ele introduz no mercado em meados dos anos 50, quando concedia até veículos como prêmio, a exemplo de lambretas e automóveis Simca. A partir de sua ideia e do êxito nas vendas, como não poderia ser diferente, surgem as “Cestas de Natal Amaral” e outros carnês.  De olho nesse mundo de ascendência de Eronides, que aos poucos passava a ser chamado de Eron, estava Señor Abravanel, hoje popularmente conhecido como Sílvio Santos, que, seguidor do sucesso do lagartense, adquire essa ideia para o Baú da Felicidade, através de Manoel de Nóbrega (fundador do programa “Praça da Alegria”, atualmente sob o comando do seu filho, Carlos Alberto de Nóbrega, mas com o nome “A praça é nossa”). É sabido que o saudoso Manoel teve dificuldade em dar continuidade aos Carnês por conta do seu envolvimento com diversos assuntos como política, rádio, TV, tudo ao mesmo tempo, além de ter sido enganado por um sócio alemão, com quem fundou o Baú da Felicidade.

Após o desfalque, Manoel de Nóbrega contou com a ajuda do jovem Sílvio Santos, com quem trabalhou no rádio e passou a dividir a sociedade do Baú da Felicidade, após verificar que Sílvio demonstrava grandes habilidades comerciais. O progresso do carnê foi tão grande e rápido que o senhor Manoel entregou sua parte da sociedade a Sílvio, que, com 100% das ações, acelerou ainda mais sua ascensão rumo ao sucesso financeiro. Daí, começaram a surgir outros negócios.

Para quem não sabe, o Baú é um tipo de poupança popular, em que o cliente paga as mensalidades durante um ano e, ao final, resgata esse valor em mercadorias. Um método discípulo da Erontex, que recompensava com cortes de tecidos os portadores de carnês quitados e não premiados com utensílios e veículos. Hoje, é possível adquirir uma série de produtos através do carnê, mas, no começo, havia somente um artigo disponível: uma cesta de Natal com comidas e brinquedos, por isso o nome baú.

É raro encontrarmos um ramo em que o Grupo Silvio Santos já não tenha feito alguma experiência. Na verdade, a diversificação sempre foi um dos atributos desse grupo que nasceu por volta de 1958. Naquele tempo, o negócio dos carnês já despontara com a Erontex no mercado.

Entre as pessoas que trabalharam com Eron, registre-se o senhor Flávio José Rocha, integrante do departamento de contabilidade de sua empresa (1958/1959), quando seu escritório funcionava na Praça Antonio Prado, esquina com a Rua São Bento, 1º andar, em frente ao Prédio Martinelli, em São Paulo. O Sr. Rocha – a quem tributamos o nosso reconhecimento pela contribuição para o enriquecimento desta matéria -, mantinha contatos praticamente diários com Eron e com J. Silvestre, este, garoto propaganda da Erontex da Sorte na TV.

Vale ainda lembrar que artistas de conceito nacional, a exemplo da atriz Neusa Amaral (TV Excelsior – São Paulo), também gravaram comerciais para o nosso Eron.

Apresentações históricas, como a do cantor e pianista Ray Charles (1930-2004), que tocou em São Paulo em setembro de 1963, no auge de sua carreira, com shows gravados e exibidos pela rede de televisão Excelsior, foram patrocinadas pela extinta Erontex.

O cantor Roberto Carlos estrelou filmes na década de 60. O primeiro deles foi o longa-metragem “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, em que, na cena de embarque do artista a Nova York, sua bagagem é mostrada com selo da Erontex Exportação, imagem que passa um bom tempo em exibição e que se repete, por vezes, em ângulos diferentes. Uma relíquia, hoje gravada em DVD, para eternizar a história do conterrâneo Eron, que, segundo informações, continua no Brasil, em idas e vindas de São Paulo a Brasília, onde ergueu seu Hotel e consolidou sua fortuna, ao que dizem, através da compra de um bilhete de Natal, que estava sendo oferecido no aeroporto e que tripulantes de uma companhia aérea recusaram, por nele haver uma sequência de números iguais, o que o levou a ganhar o prêmio sozinho.

Ranulpho Prata

Personalidades Lagartenses, 4 de abril de 2011

Por Rusel Barroso
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Médico, jornalista, romancista e autor de contos literários, nasceu em Lagarto (SE), em 4 de maio de 1896, e faleceu em Santos (SP), em 24 de dezembro 1942.

Iniciou seus estudos em Sergipe e transferiu-se para Bahia, onde concluiu o curso secundário e ingressou na Faculdade de Medicina de Salvador, vindo a se formar em 1920, no Rio de Janeiro, pela Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro. Clinicou em Aracaju, onde organizou um gabinete radiológico, no governo de Graccho Cardoso.

Sua paixão pelas letras deu-se a partir de experiências vividas em consultório médico com seus pacientes, cujos impulsos causados por lágrimas e sofrimentos inspiraram seus romances e contos admiráveis.

Ranulpho Hora Prata casou-se com a Prof.ª Maria da Gloria Brandão Prata. O filho Paulo nasceu em Mirassol, SP, em 28 de janeiro de 1924, herdeiro do perfil humanístico do pai, marcante em sua formação e em sua vida. Dois meses depois, mudavam-se para Santos, no litoral paulista, onde fixaram residência. Em 1927, Dr. Ranulpho inscreveu-se no corpo clínico da Santa Casa da Misericórdia de Santos, ficando encarregado pelo Gabinete de Raios X e Eletricidade Médica. Além de pioneiro na incipiente radiologia brasileira, ficou também conhecido pelos seus romances “O triunfo” (1918), “Dentro da vida” (1922), “O lírio na torrente” (1925) e “Navios iluminados” (1937), além dos contos “A longa estrada” (1925) e um estudo sobre Lampião (1934). Retratando a vida na comunidade portuária santista em sua época, “Navios Iluminados” é uma importante contribuição à literatura social, objeto de pesquisas acadêmicas. Seu vocabulário real e expressivo foi responsável por suas grandes obras, que marcaram a impetuosidade de seus trabalhos literários e que lhe rendera boas amizades, a exemplo do laço fraterno que mantinha por Lima Barreto, seu amigo inseparável na literatura.

Em breve descrição, traçada na coletânea de cartas de Lima Barreto, lê-se que Ranulpho Prata “formou entre os melhores amigos do romancista, na última fase da sua vida”. Em setembro de 1918, Lima Barreto registraria como haviam se conhecido. Ranulpho Prata o procurara com um exemplar de seu primeiro romance, O triunfo, lançado naquele mesmo ano.

Lima Barreto se referiu ao episódio na primeira frase da crítica ao livro, publicada em 28 de setembro, no periódico ABC: “O senhor Ranulfo [sic] Prata teve a bondade e a gentileza de me oferecer um exemplar de seu livro de estreia – O Triunfo”. Em 1940, dois anos antes de morrer, na véspera do Natal de 24 de dezembro de 1942, em depoimento a Silveira Peixoto, Ranulpho Prata fala do início daquela amizade:

“Lima Barreto elogiou o livrinho e foi visitar-me no Hospital do Exército, onde eu era interno. A visita desse mulato genial deu-me grande alegria. Sentados num dos bancos do jardim, o Lima, meio tocado, como sempre, mas perfeitamente lúcido, claro, brilhante mesmo, queria saber com segurança se a Angelina do romance era realmente bonita como eu a pintara. Todos os ficcionistas, dizia-me ele, com ironia, têm a mania de fazer belas as raparigas das cidades pequenas. Nos lugarejos por onde eu andara nunca vira nenhuma… Eram todas feias, grosseiras, desalinhadas… E eu garanti que a minha Angelina era, positivamente, encantadora, capaz de virar cabeças sólidas de gente de grandes cidades.”

Ranulpho Prata publicou: O triunfo, 1918; Dentro da vida, 1922; O lírio na torrente, 1925; A longa estrada (contos), 1925. No ano seguinte, lançou Renascença das letras na França. Em 1933, voltou a escrever e publicou Sofrimento, seguido de Lampião (1934) e Navios iluminados (1937).

 

Prof. João Costa: um formador de gerações

Rusel Barroso, 30 de janeiro de 2011

Do lado do Tejo, de Camões a Pessoa, o caminho é português; para além do Tejo, de Vieira a Guimarães, há a América e aqueles que mimam a sua língua com alento poético. O professor João Costa é um desses exemplos que se manterá vivo em nossa história. Teatrólogo, pesquisador, exímio mestre e infatigável cultor da Língua Portuguesa, de cujo nome não é fácil falar, contribuiu, ao longo dos anos, para a formação de gerações.

Muitos profissionais simplesmente passam; outros, da estirpe de João Costa, deveras iluminados, acompanham-nos no pensamento, com lições de vida que certos bens não podem pagar. Estes nos deixam um cabedal tão precioso e nos cativam de tal maneira, que os manter em nossa memória é um leniente que palavras são incapazes de traduzir.

Participar de suas aulas, na Universidade Federal de Sergipe, era muito mais que uma viagem através de histórias surpreendentes, a ilustrar com clareza, dinamismo e criatividade os aspectos inesgotáveis da língua, um verdadeiro mergulho no âmago do nosso vernáculo com uma velocidade e sutileza semelhantes ao voo de uma abelha voraz. O que era ensinado, a cada aula, enriquecia-nos muito além da vida profissional. Sua capacidade de guardar informações, com tamanha naturalidade, provocava invídia, até mesmo, a alguns estudiosos.

Sobremodo organizado no exercício da profissão, vale lembrar que João Costa, um dos mais envolventes mestres da FAFI, abria seu peito à paixão dos estudantes. Com fala bem posta, articulada e clara, estimulava os alunos com aulas de sutilezas filológicas e de completo domínio dos segredos da língua portuguesa. Sua excelência intelectual, não raro, colava-se a seu jeito impulsivo e exigente, numa franqueza que lhe rendeu desencantos, mas, sobretudo, admirações.

Como o tempo passa depressa e não se importa com os benefícios ou danos que possa causar! Seria tão bom se pudéssemos voltar no tempo para começar tudo outra vez. Que pena não haver mais essa possibilidade! Conforta-nos, apenas, a certeza de que guardaremos a sua fala em nosso pensamento, tal qual ele mesmo, certa vez descrevera aquela casa da Avenida Angélica, de Maria José Dupré. Enfim, todas as vezes que sentirmos o aroma de erva-doce ou que observarmos o abacateiro que já não carrega mais, seremos transportados àquela casa, que, em sua fala, nos conduzia ao seu tempo de menino numa pequena cidade das Alagoas.

Morre João Costa, janeiro de 2011, mas ficam conosco as suas marcas nas ideias, nos exemplos, nas contribuições que se multiplicarão para a posteridade. E, como exemplo de vida, guardaremos a frase: “Procurem ser cuidadosos com a fala, pois agora fazem parte da elite cultural. Lembrem-se de que ela é a arte de fazer amigos ou inimigos, portanto, sejam cautelosos ao utilizá-la”, de sua autoria.

O registro que faz Aurélio Buarque de Holanda em seu Dicionário da Língua Portuguesa, diz que SAUDADE é “lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; pesar pela ausência de alguém que nos é querido, nostalgia”.

Uma grande parte das composições poéticas e musicais brasileiras se serve da saudade como motivo de suas criações. A saudade está nos provérbios como ensinamentos de vida; é a companheira dos que não têm companhia.

Li, certa vez, que à proporção que avançamos em anos, a experiência, mestra da vida, nos desafia aliada às decepções que nos esperam. O que era encanto e poesia aos olhos infantis, agora se transforma em monotonia, e as saudades, estranhas e místicas, rondam noite e dia. Saudade de uma época pueril, de nossos entes passados, dos sonhos primaveris, das poéticas e formosas visões que nos povoam a mente imatura, uma doce sensação de paz que nos toma.

A saudade não é apenas o recordar, mas o ir através do tempo e do espaço, o reviver instantes felizes que não voltam mais.

No mundo da educação, a saudade pairou no ar, já que não mais pôde ser difundida, mas ficam na lembrança a voz, os caderninhos, os gestos, as palavras, os sorrisos e os momentos guardados por tanta gente que teve o privilégio de receber seus ensinamentos – tesouros que nos ajudarão a preencher essa grande lacuna que o mestre e amigo João Costa nos deixa – um blackout que nos silencia, pois fica apenas a sensação de sua voz guardada no cerne das recordações.

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Rusel Barroso é escritor e pesquisador lagartense, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e da Associação Sergipana de Imprensa, integrante do Comitê Gestor e do Conselho de Ética da Faculdade AGES.

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A fala que acalanta

Rusel Barroso, 28 de agosto de 2010

Extraído do Jornal SergipeHoje – Ecos & Letras – Cultura – Pág. 7 – 16 a 23 de setembro de 2001

 

A exemplo de Graciliano Ramos, um dos maiores escritores da literatura nacional, Socorro Rocha brota para os leitores com uma grafia envolvente e bem particular.

A escritora Socorro Rocha usa a palavra como estímulo à vida. Ela desvenda os segredos íntimos do coração e conhece, como poucos, o sentido de sua poesia. Sabe que o poeta escreve porque tem que dar consolo e esperança aos corações angustiados; escreve porque precisa denunciar aquilo que as gargantas de muitos não ousam dizer; escreve pelo fato de se sentir bem e poder retribuir esta felicidade, de sentir a dor e poder dividí-la, somente. O livro O gosto da fala confidente já nos deixa claro, em seu título, seus objetivos – o prazer pelas letras e o conseqüente relaxamento d’alma.

A poeta escreve de maneira despretensiosa e simples. Suas poesias são curtas e diretas, contudo com uma profundidade que invade os sentimentos de quem as lê. Seus temas principais são relativos à própria arte de escrever e aos conflitos humanos mais comuns. Sua poesia transcende as reticências nela empregadas e nos leva a refletir a vida e suas amarguras. O texto da escritora é despreocupado com a rima, mas sem perder a beleza do ritmo. Tal presença é suave por todas as laudas desta obra acalentadora. A melodia quebra o tédio de quem faz a leitura e instiga a virar a próxima página.

Destacam-se muitos poemas, aos quais são indispensáveis comentários. Um belo exemplo pode ser visto no texto “Da janela da torre, os sinos desafinam!”, que se vale do comportamento das pessoas no período natalino ao alertar para as atitudes fúteis e os sentimentos hipócritas em uma data que representaria o despertar dos sentimentos mais nobres no seio humano. Ainda sobre o tema social, Socorro Rocha disserta sobre a fome e a desigualdade, ao comentar a respeito do alimento mais básico de todos em “Sobre o pão”.

Utilizando o recurso metalingüístico, a poeta fala sobre o seu próprio labor, ao discorrer sobre a dor de quem escreve e a maneira que o poeta tem para escondê-la e transformá-la em beleza. Fala sobre o poeta oculto que brada o que os outros não têm coragem de sussurrar. Tudo expresso, principalmente, nas poesias “Verbos devorados” e “A sorte da letra”.

Ao ler atentamente a obra, aprecia-se a fascinação da escritora pelo nosso satélite natural. Rocha descreve o astro dos apaixonados que brilha em favor dos parvos. As poesias “Luamente” e “Em favor dos tolos” ressaltam que o homem, assim como a lua, reflete o brilho e a luz.

A propósito, brilho e luz nos lembram a mais bela das poesias religiosas “Maria de Deus, roga por nós!”, que trata da esperança e da fé do nosso povo ao acreditar na misericórdia do Criador.

Para mostrar o ecletismo na inspiração de seus temas, a poeta escreve sobre o envelhecer, sobre a fugacidade da vida e desenlace do espírito. A poesia “No tempo da alma” se inicia de maneira belíssima com um verso de Guimarães Rosa: “As pessoas não morrem, ficam encantadas…”.

O projeto gráfico da capa é primoroso e, inconscientemente, nos transporta à serenidade de um ambiente, onde os sentimentos daqueles que nos cercam dão asas à imaginação.

A conclusão a que chegamos é de que a poeta Socorro Rocha é uma lápide firme da poesia nacional, que encanta com a sua arte de escrever em versos. O gosto da fala confidente vem firmar o amadurecimento da escritora que, ao publicar este seu quarto livro, nos mostra um pouco de sua personalidade doce e marcante.

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