Site pioneiro no resgate da memória lagartense

Lagarto, 29-04-2017

Chegada da Luz de Paulo Afonso a Lagarto

Francisco Souza, 21 de novembro de 2011

Lagarto sempre foi uma cidade pacata e ordeira. Dois soldados de polícia e um delegado eram suficientes para manter a ordem da cidade. Durante o dia, cochilavam no banco de madeira que ficava na sala principal da delegacia, enquanto à noite, nada tinham o que fazer. O serviço de vigilância era feito pelo guarda noturno que percorria quase toda a cidade, soprando um apito para indicar a sua presença naquela rua. A tranquilidade era tanta, que, normalmente, as pessoas deixavam a chave da casa, embaixo da porta da frente, na espera de algum familiar que estivesse para chegar altas horas da madrugada. Não havia o terror porque as ruas estavam às escuras. Não se ouvia o barulhinho do ar-condicionado, nem tão pouco do ventilador. Ouvia-se apenas a respiração das pessoas que estavam dormindo nos quartos ao lado e a musiquinha emitida pelos mosquitos que incomodavam a noite inteira. Mas a energia elétrica estava para chegar. Enquanto não chegava, aproveitávamos o clarão da lua que brilhava tanto como nunca mais brilhou, e punha-nos a brincar de contar estórias, de se esconder ou de correr pelas ruas em que morávamos. Sentávamos nós, meninos e meninas, a contar lorotas, estórias de trancoso, de preferência as que se referiam à assombração.

Chegavam os primeiros caminhões que conduziam os gigantescos postes de cimento que eram fabricados nos terrenos que pertenciam ao Hospital N. Sra. da Conceição, construído com recursos do senhor Zacarias Júnior. Aquelas torres já começavam a mudar a paisagem da cidade, substituindo os pequeninos e frágeis postes de madeira que seguravam a precária fiação que partia do gerador que ficava na usina ao lado do Tanque Grande, hoje aterrado. A usina de energia como era conhecida foi por muito tempo administrada por Seu Detinho, com auxílio de Seu Quintino. A usina funcionava dois a três meses e ficava parada por mais de ano. Quando tínhamos luz, era somente das seis da tarde até as dez horas da noite, quando cinco minutos após um sinal, a energia era desligada totalmente.

É hoje, diziam algumas pessoas pela cidade, que vai chegar energia de Paulo Afonso. Muitos donos de casa já tinham preparado a nova instalação elétrica de suas casas. Na verdade, toda a população teve que refazê-la. Seu Detinho era a pessoa encarregada de efetuar as ligações das casas à rede elétrica da cidade, juntamente ao Seu João Nogueira e Seu Quintino. A procissão acompanhava os técnicos e, em cada casa que era ligada, ouviam-se vivas e palmas, e a multidão não se continha com a euforia de chegar a vez de cada um deles.

Seu João Nogueira e Seu Quintino, carregando uma pequena escada nas costas, não mais seriam chamados para trocar os fusíveis do contador, uma vez que estes foram substituídos por disjuntores, um tipo de equipamento mais moderno que substituía a chave do tipo faca.

Era como um sonho ver brilharem as lâmpadas incandescentes. As avenidas e as praças dispunham de luminárias fluorescentes que eram invejadas pelas cidades circunvizinhas.

Muitas pessoas já havia trocado suas geladeiras a querosene por uma elétrica, que eram colocadas na sala da frente como ostentação da época. E os comentários prosseguiam dia a dia, a respeito de quem já dispunha de energia elétrica, como votos de parabéns, e dos eletrodomésticos que haveriam de comprar. Na verdade, tudo não passava de uma geladeira, um rádio de válvulas, um liquidificador e um ferro de passar roupa. O ferro a carvão, pesado e trabalhoso, teve seus dias contados com o advento do ferro elétrico.

Meu pai, conhecido por Antonio do Café, porque tinha uma torrefação de café, e nós sofríamos com a falta de energia elétrica na cidade, porque tínhamos que moer o café no moinho à mão. Além do trabalho manual de torrar o café, diante do calor e da fumaceira que se espalhava pela vizinhança, tínhamos que efetuar a moagem e o empacotamento do café para poder vender na segunda-feira, que era o dia da feira principal da cidade. Então, a chegada da energia elétrica foi um grande alívio para nós, que, ainda crianças, tínhamos que ajudar ao velho nos dias de domingo para bem de nossa sobrevivência.

Francisco Souza

Outros colaboradores, 8 de novembro de 2011

Bancário aposentado, graduado em Ciências Contábeis, entuasiasta das Letras, atuante no ramo de hospedagem em Aracaju.

A feira

Francisco Souza, 7 de novembro de 2011

por Francisco Souza

> Segunda-feira, bem cedinho, e lá iam as pessoas subindo com baldes e sacolas para a praça da feira. Pessoas, a pé ou montadas em animais, formavam uma verdadeira procissão num emaranhado de animais e gente.

Na praça da feira, havia dois grandes galpões em que se vendia de tudo. No primeiro, conhecido como o galpão da farinha, vendia-se desde a tapioca, farinha, feijão, milho, arroz, aos mais diversos tipos de miudezas. Havia diversas bancas de sapato, como a de Seu Rafael, e outras que vendiam rolós, tamancos como a de Seu Manoel Tamanquinho, tudo na parte interna do galpão. Já nas calçadas em redor, havia várias pessoas vendendo beijus, malcasados e pés-de-moleque enrolados em folhas de bananeira, e ouricuris.

À tarde, era bastante interessante ver o estado em que ficavam as pessoas que negociavam a farinha e a tapioca. A poeira que levantava da farinha, quando elas estavam enchendo as “terças”, uma espécie de medida feita de madeira, deixava os cabelos e os rostos das pessoas totalmente brancos.

Já no outro galpão, que era o do meloto, ali eram vendidos açúcar cristal, açúcar preto e o açúcar em pó, sal grosso e sol moído, a rapadura que era transportada em caixotes de madeira, o caranguejo, o aratu, e tudo mais que provocasse aquela melação.

Entre os dois galpões, bem perto de uma torre de tijolo aparente, conhecida como torre da forca, que servia de depósito, ficavam barracas, como a de Seu Antonio de Mirena, que vendiam açúcar, sal e o famoso refrigerante conhecido como amorosa, com ou sem espuma. Bem pertinho dali, ficavam as pessoas que vendiam querosene e óleo diesel, utilizados para abastecimento dos candeeiros, único recurso para iluminação daquela época. As pessoas levavam em garrafas que eram amarradas pelo gargalo, com barbante ou caroá. Ali também ficavam as louceiras que vendiam potes, moringas, panelas, bois e bonecos de barro, frigideiras que serviam para cozinhar lombo no fogão de lenha.

Mais adiante, em direção à cadeia pública, ficava o Talho de Carne Verde, como era conhecido na época, e que, hoje, se chama de açougue. Aquele galpão enorme era dividido em duas alas, e abrigava em torno de cinquenta marchantes de boi, carneiro e porco, cujas carnes eram expostas em cima das bancas feitas de alvenaria, e os ossos eram cortados a machadadas, em cima de um cepo grosso de madeira. Eram como uma sinfonia os estalos dos machados, numa sequencia quase que ritmada como o vozeirão das pessoas e que se espalhavam por todo o mercado. Do lado de fora, ficavam as fateiras que, logo cedo da manhã, passavam pela lateral de nossa casa, com bacias na cabeça cheias de vísceras e cabeças de boi, porco e carneiro, cobertas com folhas de mato, num converseiro que acordava as pessoas dentro de suas casas. Vinham do matadouro que ficava no lugar conhecido como As Pratas, em direção ao Talho de Carne. Juntos a elas iam também os burros carregados de carnes. Cada animal levava duas bandas de um boi e apanhava constantemente com uma correia de couro, conhecida como chibata, que funcionava como acelerador de burro.

Lá pelas três horas da tarde, estão de volta os feirantes, carregando as suas compras em alforjes e bocapios, em busca dos locais onde guardavam os cavalos. Uma paradinha na bodega de Zeinha Macário, e um gole de angico, seguido de uma cuspida de longo alcance.

Aos domingos, era costume assistir à passagem da boiada em busca do matadouro. O rebanho era conduzido a pé, pelos vaqueiros que, aos gritos, cuidavam para que nenhuma rês se dispersasse do rebanho e entrasse em alguma casa que estivesse com a porta da frente aberta, como acontecia de vez em quando, causando um tremendo susto aos moradores da Av. Zacarias Júnior. e da Rua Santo Antonio, que, por não serem pavimentadas, se enchiam de poeira que entravam de casa a dentro.

A feira se estendia até as cinco e meia da tarde, deixando, na praça, toda aquela sujeira de folhas de bananeira, palha de milho e tudo mais que, ao estilo cultural da época, era propício se “jogar na rua”, até que, na terça-feira, os varredores levavam o dia inteiro para varrer e apanhar todo aquele lixo que era conduzido em carroças de burro e jogado na baixada do terreno pertencente ao Seu Pedro da Mata.

Escola de Dona Filomena Machado

Francisco Souza, 7 de novembro de 2011

por Francisco Souza

> Longe, muito longe ainda das exigências pedagógicas atuais, Lagarto possuía, além de várias outras escolas, a de Dona Uda e a de Dona Filomena. Tremia de medo quando minha mãe anunciava que iria me inscrever para estudar com a tal professora, tida como severa nos ensinamentos. Quando menos percebi, acompanhando minha mãe pela calçada do galpão onde se vendiam farinha, beiju, e malcasados, eis que nos encontramos com a Dona Filomena, senhora dos seus setenta e poucos anos, andando meio curvada, com uma bengala na mão, a quem fui apresentado como seu novo aluno, a partir do dia seguinte. O contrato verbal foi firmado ali mesmo, tendo como testemunhas os feirantes amarrotados com a poeira de farinha que levantava das medidas. Meu Deus do Céu! Estou perdido! Imaginei. No dia seguinte, estávamos eu e meu irmão Geraldo lá, segurando um caderno, uma tabuada, a Cartilha do Povo e uma pedra feita de ardósia na qual se faziam as contas.

As aulas eram administradas pelas duas irmãs: D. Filomena (a severa) e D. Cecilia que, sentada à porta principal, tomava as lições da meninada. A cada erro, uma tapa no ombro. Se errássemos muito, um beliscão e a reclamação: “Mena, este menino não sabe a lição. Vamos deixar ele de castigo de joelho até ele aprender! Ele não quer estudar!”.

Enquanto isso, Dona Filomena, segurando um óculo no olho direito, tomava as lições da cartilha, soletrando, para no final, o aluno pronunciar a palavra: um Si com A, SeA, SA; um P com O, PeO PO, diga: SAPO. A cada erro, um cascudo na cabeça e a ordem: sente-se e vá estudar de novo!

O medo maior era do irmão Cazuza que ficava lá dentro da casa, que dava para a outra rua, que, mediando chamamento, aparecia apoiado numa bengala com uma palmatória prestes a deferir umas boas palmadas em quem as professoras determinassem. Era o carrasco. Batia mesmo sem saber por quê.

Aos sábados, havia a tradicional sabatina de tabuada. Quem errasse a pergunta da professora, receberia uma palmada de quem acertasse. Hoje, essa prática é ilegal, mas confesso que aprendíamos de verdade.

Essa escola funcionava numa casa que ia da Rua da Glória à rua que passa ao lado do Cinema Pérola (nomes da época).

Lembro-me de, certa vez, quando na tentativa de bater em Toinho de Zé do Arroz, com uma correia que elas sempre traziam ao colo, D. Filomena confundiu o condenado, como ela assim o chamava, e surrou Geraldo meu irmão, pois o Toinho se agachou embaixo da mesa bem ao lado de meu irmão que naquele momento escrevia os exercícios que estavam no quadro negro.

Estas são lembranças de minha infância que guardo com muito carinho.

JONOFON: o homem lógico

Outros colaboradores, 13 de abril de 2011

Por Cristian Góes

Pode acreditar. A Matemática não vai ser mais a mesma depois de Jonofon Sérates. Esse professor vem revolucionando a ciência que é considerada um verdadeiro terror nas escolas. Jonofon criou o método do Raciocínio Lógico de ensino, que prefere chamar de “Cuca Legal”. Por ele, uma pessoa comum é transformada em poucas horas num papa em Matemática ou quase isso. Jonofon diz mais: o Raciocínio Lógico é cheio de desafios e prepara o ser humano para o próximo milênio. “Até agora tivemos o século das máquinas e da tecnologia. O primeiro século do próximo milênio vai ser o do pensar. Vai vencer aquele que tiver instrumental, pensamento lógico, quem for criativo e inovador”, sentencia o professor.

Jonofon diz que a escola está gagá, com currículos de 50 anos atrás. “O professor continua em sala de aula com cuspe e giz, a despeito de toda a tecnologia”, afirma. Ele lembra que os fatores externos à escola são fontes motivadoras muito mais fortes e que os alunos não gostam da Matemática porque não a entendem. “Matemática não é decoreba.” Jonofon detectou que os estudantes sofrem quatro doenças matemáticas: tabuadite aguda, fraçãozite grave, virgulite e a quarta é uma epidemia – raciocínio lento e preguiçoso. “Nunca se precisou tanto de raciocínio lógico como nos dias de hoje”, acredita ele. Mas quem é Jonofon Sérates? Ele foi batizado José Nogueira Fontes, um sergipano (de Lagarto) que mora em Brasília há mais de 30 anos e é bacharel, mestre e doutor em Matemática. Quando fez o vestibular para a Universidade Federal de Sergipe, foi o primeiro lugar geral e acertou 99 das 100 questões de Matemática. Hoje é professor dos cursos de Pós-Graduação da Fundação Getúlio Vargas, mas vive também de escrever e de fazer palestras.

Perguntado sobre sua idade, o professor diz que tem dois elevado à sexta potência. Depois entre risadas, facilita: “Oito ao quadrado.” Para quem ainda não descobriu, dá 64 anos. Jonofon ficou conhecido em todo o Brasil depois de duas entrevistas no Jô Soares onze e meia, com intervalo de apenas 14 dias entre elas, nos dias 14 e 28 de julho passado. “Em dez anos de programa, nunca tive de convidar de novo uma pessoa em tão pouco tempo”, disse Jô, reforçando o “fenômeno Jonofon”. Autor de 12 livros – o mais famoso Raciocínio lógico matemático (Editora Olímpica), já na quinta edição –, Jonofon foi aluno e assistente de Malba Tahan, o autor de O homem que calculava e de outras 115 obras. Foi Tahan quem transformou José Nogueira Fontes em Jonofon Sérates. O sergipano escreveu um artigo, chamado “Amor geométrico”, em que um hexaedro enamorou-se de uma esfera. Malba Tahan, que o chamava de Fontes, leu, gostou e o levou para ser publicado no Correio da Manhã (em 1956, o jornal de maior circulação do Rio de Janeiro). “Eu assinei como José Nogueira Fontes. No domingo, encontrei o artigo de Malba Tahan, mas o meu não havia saído. Eu fui à casa dele e contei. Ele riu e disse: ‘Eu sabia que não ia sair, porque quando eu era Júlio César de Melo e Souza meus artigos também não saíam. Quando eu passei a ser Malba Tahan, todo artigo que eu escrevia o jornal aceitava.’ Ele mudou meu nome”, lembra.

Malba Tahan pegou o JO de José, o NO de Nogueira e o FON de Fontes, fez Jonofon. Em seguida, ele pegou as últimas sílabas de JoSÉ, NogueiRA e FonTES e fez Sérates. “Ele disse: ‘Pronto, agora você é espanhol, de origem grega, nascido em Sergipe.’ Virei Jonofon Sérates”, explica. Lembra que a Matemática não é só números. “Antigamente, estudava-se Lógica para aprender Filosofia. Depois, a Matemática, para aprender as outras ciências. De Isaac Newton para cá, a Matemática foi se aproximando da Lógica. Com a Filosofia moderna, aproximaram-se mais ainda. Ninguém ama a vida mais do que eu, porque eu amo a vida matematicamente”, afirma. Ele começou a estudar Matemática com prazer aos 12 anos, no grupo escolar, onde havia sabatina e palmatória. “Eu não queria apanhar, queria bater, então estudava a tabuada para bater nos colegas. Havia uma motivação negativa imposta pela régua, pelos castigos.” Depois, notou que fazia todos os tipos de conta, mas não tinha facilidade na resolução de problemas. “Procurei entender a lógica e aí pude compreender melhor as belezas da Matemática. É o aprender que faz gostar”, frisa Jonofon.

Para aplicar sua teoria, Jonofon esteve até na África. Foi mandado pelo Ministério da Educação e lá passou seis meses. Deram-lhe uma turma de 30 alunos e ele garantiu que em 50 minutos todos teriam aprendido a tabuada de multiplicar. “Só gastei 40 e eles aprenderam. É a metodologia “jonofoniana”, própria para ensinar tabuada”, festeja o professor, que desde 1979 vem desenvolvendo o “Cuca Legal”.

Ao compreender a lógica, pude entender melhor as belezas da Matemática
Jonofon Sérates

Fonte:
ISTOÉ, de 9 de setembro de 1988

A Silibrina de Lagarto

Outros colaboradores, 13 de abril de 2011

Por Carlos Rocha

O período junino é a época de festas mais representativa do Nordeste brasileiro. O Estado de Sergipe,  há um bom tempo, tem conseguido se destacar, procurando investir na divulgação desta cultura singular. Nessa época, milhares de turistas visitam o estado. Hotéis e pousadas, seja na capital ou no interior, por todo o período, têm ocupação máxima e, a cada ano, proprietários fazem novos investimentos em reforma e construção de novas unidades. Várias cidades sergipanas já estão em ritmo de festa, procurando não só trazer bandas de outros centros, como também valorizar grupos locais e grupos pé-de-serra, gerando emprego e renda, na roça e na cidade. O forró é o ritmo que até mesmo poderia servir de base para a partitura de um hino para representar a região. O município de Lagarto, localizado no centro-sul do estado, rico em culturas populares e na busca da valorização das tradições locais, tem procurado não só resgatar como também preservar o que existe. Várias festas de época são realizadas no decorrer do ano e, dentre outras manifestações do período junino, que acontecem na sede e povoados do município, o destaque é para a Silibrina, uma festa que existe há mais de 85 anos, unindo lagartenses e turistas.

TRADIÇÃO DE MAIS DE 85 ANOS

A Silibrina de Lagarto é uma manifestação folclórica (popular) que acontece, anualmente, no dia 31 de maio, a partir das 23h30, dando início ao período de festejos juninos, uma festa regada à tradicional cachaça, que, alíás, é típica da região; acompanhada de zabumba e queima de fogos, arrastando uma grande multidão. No Nordeste, este tipo de comemoração que é tida como uma guerra de espadas, tem como destaque os estados de Sergipe (Lagarto e Estância) e Bahia (Cruz das Almas). É na referida região de Sergipe que se concentra a maior produção de fogos de artifícios do estado. O evento preconiza longo período de preparação, pois envolve a dedicação exclusiva de vários fogueteiros, detalhistas que só eles mesmos. Envolve, também, técnicas que são repassadas de geração a geração, já que a organização está a cargo de vários fogueteiros, a exemplo de: Zé Canuto, Dedé Fogueteiro, Canuto Filho, Seu Zé Delfino, Hamilton Prata e Domingos da Colônia Treze. A animação fica a cargo de outro seleto grupo de lagartenses: a “Banda de Pífanos e Zabumbas” do saudoso Zé de Terreno. Tudo isso, contando sempre, com o apoio da Administração Municipal.

A RETIRADA DO MASTRO

Toda a comunidade lagartense fica envolvida e vive neste período um ritmo contagiante e, na semana anterior à SILIBRINA, um grande número de pessoas sai em busca de uma grande árvore que possa servir de mastro, em que todos os participantes, ao som da Banda de Pífanos e Zabumbas a retiram da mata e trazem para o ponto de encontro da SILIBRINA. Os anos vão passando e, nestes mais de 85 anos, a festa tradicional já correu o risco de ser extinta, por interveniencia de alguns políticos, moradores e até mesmo pelo Ministério Público, que, no exercício de suas atribuições, cumpre o seu papel de mantenedor da ordem. Apesar de tudo isso, a queima de espadas e busca-pés continua a eletrizar e aumentar a carga de adrenalina daqueles que participam. No dia 31 é feita uma verdadeira romaria pelas ruas da cidade, culminando com a subida de pessoas ao topo do mastro na tentativa de pegar brindes que lá estão apostos.

RECEITA EXPLOSIVA

As espadas e busca-pés têm como composição: enxofre, carvão de quarana, cera de abelha, óleo de coco, parafina, barro, salitre, bambu maduro, sisal, breu e cordão. Nesse mundo de histórias, o período junino é, para muitos, a época de festas que mais representa o Nordeste brasileiro. São cerca de noventa dias de comemoração. É uma tradição milenar, que teve origem no antigo Egito, comemorando colheitas e reverenciando os deuses do sol e da fertilidade. Depois foi para a Espanha e Portugal, quando o cristianismo tornou-se religião oficial, para homenagear o nascimento de São João Batista, que batizou o menino Jesus, existindo uma correlação com a fartura de alimentos no período. Sergipe tem conseguido o merecido destaque, pois seu povo jamais esqueceu a identidade, trazida à época do Brasil Colônia, advinda da região “D’ouro e Minho” em Portugal. Nessa época, os “caiçaras do litoral” têm mais uma oportunidade de saborear as iguarias que são fornecidas em forma de matéria-prima ou produtos pelos “matutos do interior”. A França nos presenteou com a tradição das quadrilhas, que tanto têm divulgado o nome do estado de Sergipe além-fronteiras, a exemplo dos diversos títulos de campeonatos arrebatados por elas. As campanhas institucionais de divulgação têm dado resultados, tem-se observado que a prata da casa até que tem sido valorizada há um bom tempo, porém, muito ainda falta. Vejamos se tivéssemos um calendário de eventos ao longo do ano em determinados locais dos pólos turísticos, em consonância com as operadoras de turismo, enfocando os diversos tipos de tradições natas da região. Funcionando num todo e na essência da palavra.

Imagens gentilmente cedidas pela Ascom (PML)
Texto com atualizações da Equipe LagartoNet

Vivamos a Páscoa

Euclides Santos, 4 de abril de 2011

A Páscoa é o cume da liturgia. Aí está a síntese de nossa crença. São Paulo a resume nessa expressão, tantas vezes repetida: “Se Cristo não ressuscitou, vã é vossa fé”. O fato rigorosamente histórico é contestado pelas forças do maligno, mas, evidentemente, sem resultado. A vitória de Cristo sobre a morte, alcançando a Redenção do gênero humano, começa a ser comemorada na noite de sábado. Ela é chamada, por Santo Agostinho, de “Mãe de todas as vigílias”. E culmina com o esplendor do Domingo de Páscoa.

Os elementos que integram a liturgia desse coroamento da Semana Santa têm a origem nos primeiros séculos do cristianismo, acrescidos por outros no decurso dos tempos. Assim, a partir do século XI, a celebração do batismo ocupou lugar de destaque. Os catecúmenos faziam, durante a Quaresma, a preparação imediata, que desabrocharia no nascimento para a vida cristã, como quem surge do sepulcro. Recebiam, por esse sacramento de iniciação, a vida de Deus. A reforma determinada pelo Concílio Vaticano XI insiste neste aspecto batismal. Assim, os adultos renovam as promessas feitas através dos seus padrinhos e aconselha-se vivamente seja isto efetuada dentro das cerimônias da Vigília.

O fogo, a luz do círio que avança nas trevas da nave do templo imersa na escuridão, termina por tudo iluminar. Os elementos celebrativos estão vinculados entre si pelo canto do Precônio, cujo texto e melodia são de extraordinária beleza. A culpa dos primeiros pais passa, então, a ser denominada feliz culpa, pois ocasionou ávida ao mundo do Redentor que, vencendo o mal, salvou a Humanidade decaída.

A alegria é inerente a estes dias festivos, pois é um componente do sucesso. E não há maior vitória que a celebrada nessa semana, culminando a Páscoa. Assim, algo de excepcional e profundo deve penetrar no coração de cada fiel. Sofredor ou não, enfermo ou gozando de saúde, nada podes ser obstáculo ao sentimento de júbilo. Manifestamos nosso contentamento pela Ressurreição de Cristo, porta da eternidade aberta por Ele para todos os homens e nossa integração na outra transcendente e eterna. As lágrimas poderão continuar a rolar. Entretanto, no coração de quem tem fé, haverá sempre exultação, que também gera otimismo, fator importante em nossa existência. O verdadeiro cristão jamais desespera, pois se celebra o sofrimento do Senhor Calvário e também com Ele ressurgirá, no Domingo da Páscoa. Diante da persistência dos males desse mundo, ele proclama que tudo, aqui, é passageiro. E guiado pelo Ressuscitado, sabe que chegará a uma eternidade feliz!

Na Páscoa, recordemos a Exortação Apostólica sobre a Alegria Cristã, do Papa Paulo VI. “A alegria de permanecer no amor de Deus começa já aqui, a partir deste mundo. É a alegria do Reino de Deus”. “Pensamos também no mundo dos que sofrem, e igualmente em todos aqueles que chegaram ao entardecer da vida”.

São Cosme e São Damião

Euclides Santos, 4 de abril de 2011

Os grandes responsáveis foram os jesuítas. Tendo trazido para o Brasil o culto a São Cosme e São Damião, no início da colonização, eles tinham o hábito de distribuir santinhos e doces nas obras de catequeses ao comemorar o dia dos gêmeos. Com o tempo, o costume se popularizou, ganhou as ruas, foi adotado pelos cultos afro-religiosos em homenagem a seus orixás-crianças. Embora a Igreja Católica, hoje, defenda as doações a instituições de caridade ao invés de distribuição de guloseimas. Assim, 17 de setembro continua sendo sinônimo de doce e correria.

Cosme e Damião, que viveram por volta do ano 300 da nossa era, certamente nunca imaginaram que, após tantos séculos, seriam tão festejados – e muito menos dessa forma. Árabes, filhos de pais cristãos, eles estudaram medicina na Síria e praticaram, depois, nas províncias da Cilícia e Egéia. Ficaram conhecidos por não cobrarem pelos serviços que prestavam aos doentes, ao contrário dos curandeiros, sendo chamados pelo povo de anargyri (inimigo do dinheiro). Mas o que realmente os tornou famosos foram os milagres que operaram – como eles faziam questão de dizer, por graça divina.

A questão é que falar com Deus, numa época e numa terra marcada pela perseguição impiedosa aos cristãos, era como provocar a própria morte. Sinal de loucura ou, então, de muita fé. A dos cristãos, aliás, era tanta, que as torturas que lhes eram impingidas, praticamente não adiantavam nada. E os gêmeos sofreram com todas elas, depois de recusarem a abandonar o cristianismo e adotar os deuses pagãos, como inicialmente lhes propusera Lísias, o violento governante de Cilícia.

Os irmãos foram açoitados, tiveram seus corpos dilacerados por pentes de ferro e, finalmente, acorrentados e jogados ao mar. Não adiantou. Acabaram sendo milagrosamente devolvidos pelas águas, sem nenhuma ferida. Achados por pescadores, foram presos novamente e crucificados. Mais ocorrências estranhas: tanto as pedras que eram jogadas pela multidão como as flechas atiradas pelos soldados em direção às cruzes em que haviam sido amarrados eram devolvidas à origem. Lísias, já sem saber o que fazer, ordenou a decapitação.

O primeiro grande templo em homenagem a São Cosme e São Damião foi erguido em Istambul, na Turquia. Mas, na ocasião, um dos mosteiros italianos de São Bento já era consagrado aos gêmeos. No ano 630 d.C., o Papa Félix IV ordenou suas canonizações e fez uma adaptação em dois templos romanos, transformando-os numa basílica dedicada a eles. Como a Igreja exige, uma pessoa só pode ser considerada santa se forem comprovados milagres ocorridos após sua morte. No caso dos irmãos, há notícias de fatos que parecem ter mesmo o dedo sobrenatural.

Um deles aconteceu com a mulher de um viajante chamado Vulpino, que residia em Roma. Ela e o marido tinham uma senha particular, pois como ele se ausentava frequentemente, temia que alguém importunasse a esposa mandando-lhe recados supostamente seus. Numa dessas vezes, um rapaz – diz-se que o demônio – ouviu a senha e, quando Vulpino partiu, se apresentou à sua esposa. Recitou o código com naturalidade e informou a ela que o viajante, que esquecera um objeto importante, pedia a ela que fosse pegá-lo num determinado lugar. No meio do caminho, entretanto, começou a lhe fazer propostas amorosas. A moça se viu tentada a ceder, mas, num esforço, se concentrou, orou por Cosme e Damião, e o rapaz desapareceu como por encanto.

Outro milagre bastante famoso é o da perna cancerosa do romano Taciano. Certa noite, ele sonhou que os santos discutiam sobre qual a melhor maneira de curá-la. Finalmente, concluíram que deveriam substituir a perna doente pela perna sadia de um rapaz que fora assassinado naquela manhã. Ao acordar, Taciano percebeu que a perna estava curada e contou do seu sonho a todos. Quando desenterraram o rapaz assassinado, comprovaram que o câncer havia sido transferido para o cadáver.

Não é à toa que muitas das promessas que os devotos fazem aos gêmeos, hoje em dia, são no sentido de conseguir curas para alguma doença grave. Contudo, eles são alvos dos mais variados pedidos. A maneira de pagá-los é que é igual: com a distribuição de brinquedos que eles fazem, estão cumprindo alguma promessa. Muitas vezes, trata-se de um simples ato de devoção.

Retretas

Euclides Santos, 4 de abril de 2011

Morreu a tradição das retretas. No interior, porque morreram as bandas, liras que formaram jovens músicos e reuniram o povo nas praças, onde os coretos, como as igrejas, eram construções indispensáveis construídos em frente ao poder, como na cidade de Lagarto que abriga também a Matriz de Nossa Senhora da Piedade e a Prefeitura Municipal, os coretos são peças que marcam um passado sergipano de rica tradição. Não apenas pela construção em si nem pela situação ambiental, mas pela existência de permanente diálogo entre músicos e públicos, que de lado dava a uns a responsabilidade da criação musical, da aprendizagem dos clássicos e das populares e a outra obrigavam assistir, fosse ao cair das tardes sergipanas, fosse ao luar das noites dessa parte dos trópicos.
Três vezes por semana, havia ensaio da banda de Música Lira Popular de Lagarto. O mestre Bedoia elegante no seu terno de linho de agonal bem engomado e limpo, destacava-se pela sua postura sóbria e, sobretudo, pela sua fina educação, tratando os músicos, com bondade e finura. Na banda, mantinha uma disciplina sem rigidez, sendo amigo dos seus alunos, que lhe asseguravam respeito e cooperação. A Banda de Música Lira Popular de Lagarto, nessa fase do mestre Bedoia, teve sua fase áurea. Puxava os colégios nos desfiles estudantis e tocava nas festas religiosas e cívicas. Recepcionou o então candidato a Presidente da República Juscelino Kubistchek quando da sua visita a cidade de Lagarto a convite do Cel. Acrísio Garcez.
Mestre Bedoia tomava a batuta, batia as três pancadinhas na estante e ordenava: Dobrado “Os quatro tenentes”, de autoria do lagartense Capitão José Machado, filho de João de Sizia que compôs muitas músicas, como os dobrados “Sílvio Romero”, Major Mizael Mendonça”, “Professor Olavo”, “17 de Outubro”, “Dom Bosco” e “Desembargador Hunaldo Cardoso”. Compôs também a “Valsa Geni”, linda melodia dedicada a sua esposa.
Tempos depois surgia uma nova banda de música fundada pelo empresário do ramo de Móveis do Paraná, o popular Mario Bonfim, conhecido pela alcunha de Mario Cego, vereador da União Democrática Nacional que convidou o mestre Quincas Coelho para dirigir a referida banda que teve uma vida efêmera. Não poderíamos deixar de registrar os bons serviços prestados também pelos maestros Adetude, Chico de Zé de Lourenço e Temístocles Carvalho.

Retorno

Euclides Santos, 4 de abril de 2011

A volta ao Povoado Urubutinga sempre esteve no plano de meus propósitos sentimentais, nos desejos de uma visita a Lagarto.
Para mim, o destino havia marcado, naquele domingo, viagem de volta a um pedaço distante da infância. O Povoado Urubutinga nada tinha de importante. Mas dentro de mim, porém, havia um apelo, uma doce voz que me chamava a uma rápida romaria sentimental pelo chão humilde, onde transcorreram cinco anos da minha meninice. O Povoado Urubutinga me acenava para uma saudade de cinquenta anos. Confiei a dois amigos, José Brigido e Avelar o chamamento. Decidiram acompanhar-me. Tirei do fundo da memória os pontos essenciais do itinerário.
Primeiro foi o Grupo Escolar “Sílvio Romero”. Lá estava ele. Era domingo e estava fechado. Comparando a imagem que trazia da infância, pareceu menor. A minha lembrança o tinha agigantado como acontece sempre com que se conserva no álbum amarelecido da saudade infantil. De que lado ficaria a sala da ala direita? O meu companheiro de carteira se chamava Divaldo Santos Andrade, o popular General que tinha a sensibilidade das almas escolhidas, passou pela vida deixando um toque único de emoções e beleza de sentimentos. Quem com ele conviveu, sabe que fazia parte da comunidade dos homens que são grandes, daqueles para quem o sentido da vida é servir com dignidade, competência e simplicidade.
No silêncio da Praça do Rosário deserta, àquela hora do domingo chuvoso, um pequeno mundo, que parecia totalmente sepultado pela vida, renasce aos meus sentidos. Também chove em meus olhos, não creio que possamos encontrar, na distância dos anos, o remédio específico de nossas mágoas e frustrações.

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